Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Notícias

LCD Soundsystem: não há reforma que os aguente

Há cinco anos, James Murphy anunciou o fim do projeto que lhe trouxe fama. E fê-lo com pompa e circunstância. Em 2016, um dos grupos mais estimados da década passada decidiu voltar aos palcos - Paredes de Coura espera por eles - e aos discos. Aqui conta-se a história de um regresso

«Vamos reformar-nos disto. Vamos embora. Andar para a frente». Assim terminava a mensagem que James Murphy publicou no site dos LCD Soundsystem a 5 de fevereiro de 2011, para desgosto de muitos fãs. A notícia chegava depois de o músico nova-iorquino ter ameaçado várias vezes que iria abandonar a banda responsável por alguns dos discos mais marcantes da década passada (Sound of Silver, de 2007, confirmou-os como heróis com hinos como «All My Friends» ou «New York, I Love You but You're Bringing Me Down») e caiu como uma bomba. Os fãs, desejosos de tornar a despedida memorável, apressaram-se a esgotar o derradeiro concerto, que aconteceu a 2 de abril no Madison Square Garden, em Nova Iorque, fazendo com que o grupo decidisse marcar quatro atuações extra antes do grand finale, que tiveram lugar no Terminal 5, também em NY. O espetáculo, posteriormente imortalizado no registo The Long Goodbye: LCD Soundsystem Live at Madison Square Garden (2014), durou mais de três horas e contou com as participações especiais dos amigos Arcade Fire, Shit Robot e Reggie Watts, entre outros.

Cinco anos volvidos, de forma algo inesperada, James Murphy anunciou, bem no início deste ano, o regresso da banda ao ativo numa missiva, divulgada no site oficial, com oito mil carateres a detalhar os planos que têm para 2016. As declarações chegaram de forma bastante inesperada, tendo em conta que representantes da DFA Records, editora independente criada em 2001 por Murphy, Tim Goldsworthy e Jonathan Galkin, tinham garantido no final de 2015 que uma reunião dos LCD Soundsystem estaria fora de questão. «No início de 2015, percebi que tinha mais canções do que alguma vez tive na minha vida», assume Murphy na longa carta. «Dei por mim um bocado perplexo. Se as gravar, o que faço com elas? Talvez não deva gravá-las de todo? Considerei essa, que era, de certa forma, a escolha mais fácil, mas também me pareceu que seria uma forma estranha e arbitrária (e até cobarde) de fugir às responsabilidades. Mas se as gravar, isso quer dizer que, subitamente, tenho um álbum?». Todas essas dúvidas foram, claro, partilhadas com o baterista Pat Mahoney e a teclista Nancy Whang, dois dos elementos mais constantes do projeto. «Disse-lhes: "vou gravar música nova. Devo inventar um nome de banda, fazer um disco de James Murphy ou deve isto ser LCD?". Pensámos todos longamente sobre o assunto. Se eles não quisessem, coisa que eu tinha meio assumido, não existiria LCD». A decisão, claro, foi no sentido de fazer um álbum assinado pela banda.

Ainda antes de chegar a notícia de que a banda assinara um novo contrato discográfico, em meados de fevereiro, começaram a ser anunciados concertos em festivais: antes de regressarem a Portugal para atuar no Vodafone Paredes de Coura, em agosto, vão passar pelos palcos de Coachella e Bonnaroo (Estados Unidos), Primavera Sound (Espanha), Roskilde (Dinamarca) e Lovebox (Inglaterra), entre outros. O sucessor de This is Happening (editado em 2010) e quarto álbum da discografia do grupo ainda não tem data de edição confirmada, mas chegará às lojas este ano com a chancela da Columbia. Voltando à longa carta de Murphy: antes de prometer «o melhor álbum de sempre» dos LCD, o músico sentiu necessidade de pedir desculpa aos fãs que se sentiram defraudados com este regresso. «Há pessoas que sentem uma ligação muito forte à banda e nos deram muito de si próprias e se sentem traídas por nós voltarmos a tocar, que viajaram para ir assistir ou tentaram ir ao espetáculo do Madison Square Garden e para quem aquele momento importante agora parece barato (...), tenho de fazer um pedido de desculpas sério a essas pessoas. A única coisa que podemos fazer agora é voltar para o estúdio, acabar este disco e fazer dele o melhor disco que conseguirmos. Precisa de ser melhor do que tudo o que fizemos antes, na minha cabeça, porque não vai ter aquele benefício da dúvida, por ser a primeira vez. E temos de, honestamente, tocar melhor do que alguma vez tocámos (...) Isso é saudável para nós, porque significa que voltamos à guerra, como no início. Para nós, foi sempre uma guerra, mas agora é connosco próprios. Talvez tenhamos uma hipótese de fazer as coisas da forma mais acertada».

Ao vivo no Super Bock Super Rock, 2007

Ao vivo no Super Bock Super Rock, 2007

Rita Carmo

De Nova Iorque para o mundo

Quando, em 2005, o álbum homónimo de estreia chegou às lojas, os LCD Soundsystem já traziam consigo três anos de treino. Aos ouvidos dos primeiros fãs, tinham chegado, vindos diretos de Nova Iorque, temas como «Losing My Edge» (que, em 2002, se tornou um fenómeno na cena de dança mais underground), «Yeah» ou «Movement», mas foi com o clássico «Daft Punk is Playing at My House» que o grupo liderado por James Murphy se afirmou verdadeiramente. O tema ascendeu ao top 40 norte-americano e garantiu aos LCD duas nomeações para os prémios Grammy. Mas o grupo não era apenas mais um projeto de música e ganhou grande destaque com a ajuda do impacto que a DFA teve a editora de Murphy apresentaria ao mundo os Hot Chip, Black Dice, Holy Ghost!, The Juan MacLean, The Rapture ou Hercules & Love Affair. O sucesso do primeiro álbum dos LCD Soundsystem beneficiou também de toda aquela «cena», que voltava a juntar a música de dança ao punk e levava esse «casamento» a um público alargado, não circunscrita ao catálogo da DFA e na qual podiam ser incluídos os canadianos Death From Above 1979, os escoceses Franz Ferdinand, os californianos !!! ou mesmo os nova-iorquinos Radio 4 e Yeah Yeah Yeahs. A banda de Murphy tornou-se um dos pontas de lança desse movimento, continuando a construir reputação em palco, com atuações memoráveis (os fãs portugueses lembrar-se-ão, certamente, dos concertos no festivais Paredes de Coura, em 2004, Sudoeste, em 2005 - ano em que passaram também pelo Lux, em Lisboa -, Super Bock Super Rock, em 2007, e Alive em 2010), e fora dele, com um segundo álbum que rapidamente se tornou um clássico. Sound of Silver, editado em 2007 e considerado pela redação da BLITZ o melhor álbum internacional do ano. Esse disco recolheu elogios por toda a parte e juntava algumas das canções mais marcantes da banda: de «North American Scum», o primeiro single, a «New York, I Love You But You're Bringing Me Down», passando por «Time to Get Away» e, claro, «All My Friends». This is Happening, o terceiro longa-duração, chegaria às lojas menos de um ano antes de a banda anunciar a separação. Apesar de ter figurado em várias listas de melhores do ano, «Drunk Girls» ou «I Can Change» não deixaram a marca de canções anteriores. Um ano após o espetáculo no Madison Square Garden, era exibido no festival de cinema de Sundance o derradeiro encerrar de capítulo: Shut Up and Play the Hits, documentário realizado por Dylan Southern e Will Lovelace, retratava aquelas que se acreditava serem, então, as últimas horas de vida dos LCD Soundsystem. O filme, posteriormente editado em DVD, tem Murphy como grande protagonista e segue-o antes, durante e no imediato «depois» do último concerto.

No pós-dissolução da banda, James Murphy nunca foi propriamente embora: colaborou com os Gorillaz e Andre 3000 no tema «DoYaThing», em 2012; produziu «After You», o tema que trouxe os Pulp de volta aos originais em 2013; e viu o seu nome inscrito entre os produtores de Mosquito, quarto álbum dos Yeah Yeah Yeahs, e Reflektor, dos Arcade Fire, editados também ambos em 2013. No final desse mesmo ano, foi ainda revelada a sua primeira remistura em cinco anos: a canção chamava-se «Love is Lost» e pertencia a David Bowie. Intitulada «Love is Lost (Hello Steve Reich Remix)», a nova versão do tema incluído originalmente no álbum The Next Day era a peça central da versão expandida do disco. A colaboração com Bowie, que Murphy assume ser uma grande referência sua, poderia ter ido mais além, caso o regresso à vida dos LCD Soundsystem não se tivesse atravessado no caminho. O músico chegou a ser considerado para a produção de Blackstar, o derradeiro álbum de Bowie, mas acabou por só tocar percussão em dois temas («Sue (Or in a Season of Crime)» e «Girl Loves Me»). «A dada altura, falámos em ter três produtores no disco: o David, o James e eu», explicou o produtor Tony Visconti à Rolling Stone, «[Murphy] esteve lá por um curto espaço de tempo mas depois teve de ir para os seus projetos». A mensagem que deu conta do regresso dos LCD Soundsystem foi divulgada a 5 de janeiro, três dias antes de Blackstar chegar às lojas e cinco antes de Bowie morrer.

Originalmente publicado na BLITZ de março de 2016