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Parece que foi ontem! “Odelay”, o clássico de Beck, faz 20 anos

O álbum de “Devil's Haircut” saiu a 18 de junho de 1996, cumprindo hoje 20 primaveras. Foi ele que fez de Beck Hansen mais do que a voz de “Loser”, transformando-o numa figura maior dos anos 90

Em 1996, dois anos se tinham passado sobre a morte de Kurt Cobain. Enquanto o Reino Unido vivia o auge do sonho revivalista brit-pop e celebrava os Oasis como símbolo desse triunfo (sem notar que as Spice Girls estavam mesmo ali à espreita), a América ainda procurava os novos Nirvana com todo o afinco de quem não se apercebia da metódica ascensão do hip-hop como novo paradigma da cultura popular.

Nessa altura, porém, Beck Hansen tinha mais em que pensar. Mas recuemos primeiro a 1994. Quase ao mesmo tempo que uma Geração X chorava a perda do seu involuntário porta-voz, «Loser» irrompia como um furacão pela rádio e MTV, com a sua peculiar receita de folk bastardo, hip-hop branco à Beastie Boys e poesia absurdista. Suprema das ironias: a editora que decidia apostar nisto era a Geffen, a mesma dos Nirvana. Mais: ao mesmo tempo que promovia o álbum de onde tal preciosidade tinha saído (Mellow Gold), Beck conseguira negociar um contrato que lhe dava total liberdade para, em paralelo, editar o que quisesse em editoras independentes, de cada vez que achasse que o material não fosse suficientemente acessível para que a Geffen o promovesse. Foi assim que a esquizofrenia sonora de Stereopathetic Soul Manure e o classicismo acústico de One Foot In The Grave vieram ao mundo.

De volta a 1996. Beck dá os últimos retoques naquilo que virá a ser o seu segundo álbum pela Geffen. Os trabalhos, esses, tinham já começado em 1994, com os mesmos produtores de Mellow Gold, Tom Rothrock e Rob Schnapf. E caso tivesse continuado assim, o mundo teria ouvido de Beck algo mais próximo dos tons folky e melancólicos de «Ramshackle», a 13ª canção de Odelay. Acontece que, a meio do caminho, Beck mudou de ideias.

"Odelay", 1996

"Odelay", 1996

O não-trovador

Beck estava decidido a provar que «Loser» não tinha sido mero acidente feliz e decidiu fazer um disco em tons mais festivos e acessíveis. Coincidência ou não, é nessa altura que conhece a dupla de produtores Dust Brothers, cujo currículo incluía a produção, em 1989, do marcante Paul's Boutique, dos Beastie Boys, desde cedo referido por Beck como um dos seus álbuns favoritos de sempre. As sessões, segundo relatos posteriores, rolavam de forma vertiginosa, com ideias a serem constantemente trocadas.

18 de Junho de 1996. Odelay é editado. Pouco antes do lançamento, Beck revelava a origem do título em entrevista à revista norte-americana Spin: a palavra que alguns amigos mexicanos entoavam de cada vez que faziam um brinde. Alguém ter-se-á esquecido de lhe dizer que a palavra que ele procurava era «olé»...

Meses seguintes, o consenso crítico é geral. Odelay é desde logo aclamado como possível melhor álbum do ano, título que viria efectivamente a conquistar nas classificações anuais de publicações como a Rolling Stone, NME, Mojo, Spin e Village Voice. Especialmente recorrente nos textos críticos é a referência à forma como Beck e os Dust Brothers conseguiram, a partir dos mais díspares elementos hip-hop, rock, pop, country, easy-listening, funk, psicadelismo, erguer uma espécie de bricolage sonora inovadora, tornando o que ainda eram peças à solta em Mellow Gold num todo coeso que, em alguns casos sem dúvida por contar com os Dust Brothers como produtores, se chegou a defender como o lógico passo seguinte que os Beastie Boys não chegaram realmente a tomar, quando Check Your Head sucedeu a Paul's Boutique. Toda uma aclamação que atinge o seu auge a 26 de Fevereiro de 1997, quando Odelay arrebata o gramofone de Álbum Alternativo do Ano na 40ª cerimónia dos Grammys.

Mais importante ainda para o ego de Beck foi a dissipação do seu estatuto de «onehit wonder». Sem ter conhecido êxitos ao nível de «Loser», o airplay constante dos imaginativos vídeos de «Where It's At», «Devil's Haircut» e «The New Pollution» na MTV não só lhe asseguraram novos hinos na hora de tocar ao vivo, como ajudariam a tornar Odelay num êxito de vendas superior ao de Mellow Gold.

Impacto súbito (e duradouro)

Não é de todo espantoso que um álbum que doseia com mestria experimentação e acessibilidade pop como Odelay se tenha tornado influente e importante. Menos usual é verificar como esse impacto foi tão imediato e ocorrido simultaneamente a um nível mainstream e underground.

Menos usual ainda é perceber como esse impacto afectou especialmente o estado da música californiana. Pense-se, de cabeça, no que aconteceria a três normalíssimas bandas ska-punk como os Sublime, Smash Mouth ou Sugar Ray se Odelay não tivesse aparecido. Provavelmente, nenhum deles saberia como incorporar influências hiphop para apimentar as melodias solarengas que deram a, respectivamente, «What I Got», «All Star» ou «Fly» a sua ubiquidade numa rádio Top 40 perto de si no final da década passada. Tente imaginar-se prévios heróis underground, como as Luscious Jackson («Naked Eye») ou os Cornershop («Brimful Of Asha»), a entrarem, eles sim, na galeria dos «one-hit wonders» sem as portas abertas por Beck. Puxe-se pela cabeça e concluímos que, sem Beck, os Eels, muito provavelmente, nem contrato discográfico teriam.

Entretanto, viaje-se para o lado de cá do Atlântico e façamos um esforço para recordar a razão pela qual, no fechar dos anos 90, a imprensa britânica vislumbrou nas saladas sonoras de Super Furry Animals, Beta Band, Day One ou Badly Drawn Boy dos primórdios os seus novos manás. Já agora, termine-se a viagem no Japão e recordemos como um tal de Cornelius chegou a ser encarado como uma espécie de Beck nipónico movido a (ainda mais fortes) ácidos.

E não é como se Beck ainda não paire como um fantasma na música actual. Até porque os Hot Chip, Jamie Lidell ou Hey Willpower mostram que o público indie preza muito os seus «soulboys» brancos. E será mesmo que os Outkast ou os Gnarls Barkley só usaram Stevie Wonder e Prince como referências para melhor incorporarem ideias rock na sua dieta de pop negra?

Texto: Ricardo Rainho

Originalmente publicado na BLITZ de maio de 2008