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Rita Carmo

Linda Martini hoje no palco principal do NOS Primavera Sound: “A música nunca vai morrer em cada um de nós”

No dia em que a banda de Lisboa tem honras de abertura do maior espaço do festival portuense, republicamos na íntegra a longa entrevista BLITZ realizada aquando da edição de Sirumba.

Têm um novo quartel-general, onde compuseram e gravaram o novo álbum, e têm também um novo presente. Os Linda Martini encontraram em Sirumba o som que sempre quiseram fazer, tirando ensinamentos da música de Tim Maia e pondo ordem no caos instrumental em que sempre fizeram assentar a sua música, criando espaço suficiente para ela acolher apontamentos de sopros. À entrada para o quarto capítulo da sua história, André Henriques, Cláudia Guerreiro, Hélio Morais e Pedro Geraldes são, indiscutivelmente, o valor mais seguro do rock português e prometem gritar «sirumba» bem alto no palco da mítica sala do Coliseu dos Recreios, em Lisboa, onde vão mostrar pela primeira vez as novas canções. O jogo começa agora.

De que forma terem-se mudado de armas e bagagens para aqui, para o HAUS, influenciou o vosso trabalho neste álbum? Foi um processo diferente?

Cláudia Guerreiro: Mudou tudo. Temos uma sala só para nós, não temos de andar a montar e a desmontar as coisas e isso faz uma grande diferença porque estamos sempre prontos para chegar e tocar. O tempo é usado de uma maneira muito mais útil.

Pedro Geraldes: No processo de composição houve uma mudança bastante drástica. O André ficou mais disponível em termos de horários. Era o único que tinha um trabalho a tempo inteiro e quando deixou de o ter a nossa disponibilidade para compor e trabalhar as músicas tornou-se maior. O André e o Hélio, principalmente no início, vieram muito para cá e avançaram muitas ideias. E o facto de combinarmos às 11h00 e trabalharmos até nos cansarmos foi totalmente oposto ao que acontecia no passado. Acabávamos por fazer ensaios sempre ao final do dia, depois do trabalho, e a energia e disponibilidade eram outras. Agora, conseguimos amadurecer melhor as ideias, experimentar novas coisas…

André Henriques: Nós queremos sempre, e este disco não foi exceção, fazer coisas diferentes, mas quando tens um ensaio por semana às dez da noite e estás cansado, com o peso do dia todo em cima dos ombros, inevitavelmente acabas por chegar primeiro à tua zona de conforto e só depois, com o tempo, consegues sair dela. A grande diferença aqui foi mesmo essa. A disponibilidade, a acessibilidade do estúdio, o teres um dia inteiro para preencher. Às vezes tocas, depois paras um bocado, vais tomar um café e voltas pouco depois a ver se aquilo te está a soar melhor. A partir do momento em que tens tempo e disponibilidade mental, até podes cair primeiro no caldeirão, na tua zona de conforto, mas depois pensas «OK, isto já sabemos fazer e fazemos bem, o que conseguimos explorar a partir daqui?». Só o tempo te dá isso é desta vez tivemo-lo.

Hélio Morais: Houve montes de dias em que estávamos aqui a tocar um bocado e depois íamos para ali falar e, às vezes, ouvir música que não era nossa, coisa que também faz parte do processo criativo.

PG: Também é importante falar na gravação, porque foi diferente. O facto de estarmos a gravar aqui, com malta que nos acompanhou em todo o processo fez com que sentíssemos algo mais familiar. Tivemos a experiência de gravação mais agradável de todas. Em termos estéticos, os resultados dos nossos discos anteriores estavam longe das nossas expectativas e neste caso aproximaram muito. Isso deixou-nos satisfeitos.

AH: Acho que é o primeiro disco com o qual estamos claramente satisfeitos, em termos de som. O som dos outros discos, por culpa nossa, falta de visão ou de tempo para percebermos aquilo que queríamos como resultado final, não correu assim tão bem.

«Unicórnio de Santa Engrácia» é a vossa «Canção de Engate»?

HM: (risos) O nome apareceu antes da letra porque os primeiros dois riffs, julgo, foram dos primeiros que compusemos para este disco. E a música esteve que tempos sem solução. Já estávamos a atrofiar para caraças com essa música. Foi das que demorou mais tempo, desde que começou até que terminámos.

AH: Chama-se «Unicórnio de Santa Engrácia» por causa disso, da obra inacabada e da ideia de o unicórnio não existir e estares sempre a persegui-lo. Quando fazes um riff tão fixe parece que nada que venha a seguir é tão bom e torna-se difícil encontrar solução. Andámos nisso nem me lembro quantos dias. A música teve uns 50 refrões diferentes e não ficávamos satisfeitos com nenhum. O nome ficou mas não havia letra. Há muitos nomes de músicas, aliás quase todos, que usamos para nos organizarmos e depois quando a letra é feita são enterrados e encontramos outros que justifiquem a letra. Neste caso, achámos tanta piada que era engraçado mantê-lo. Fui ler a história do unicórnio e a mitologia diz que era muito difícil caçá-lo e agarrá-lo. Era um animal super selvagem e só ficava sossegado quando se deitava no colo de uma mulher virgem. Lembrei-me dessa ideia, de inalcançável, do engate, e a letra escreveu-se a partir daí. Mas veio tudo do título e de não conseguirmos acabar a música. Daí o «é quase, é quase, é quase», porque aquilo parecia não ter fim.

Partilharam a letra no Facebook e alguém deixou um comentário no qual pergunta simplesmente «PAUS??». Sentem que por estarem a trabalhar aqui, em proximidade, houve um maior intercâmbio de ideias entre as duas bandas?

CG: Eu não sinto… Nós antes partilhávamos uma sala. Não ensaiávamos ao mesmo tempo, obviamente, mas sempre partilhámos espaços… Se calhar estamos mais próximos das pessoas porque passamos mais tempo juntos e há mais convívio, mas musicalmente acho que estamos tão próximos como antes. Há mais tempo para explorar outro tipo de coisas. É normal que a certa altura se troquem ideias.

AH: Se calhar é por a música ser mais rítmica… Ontem vi esse comentário e falei disso com o Fábio [Jevelim]. Ele riu-se, porque conhece a música, claro, e esteve a gravá-la connosco, e depois comentou que havia uma música no disco dos PAUS que a ele lhe fazia lembrar Linda Martini. Não sei se isso foi consciente ou inconsciente, ou se de alguma forma houve influência, mas quando fizemos a música não a sentimos como uma música de PAUS nem quisemos fazer uma música à PAUS. Há três ou quatro músicas no disco que meto um bocado no mesmo sítio pela dinâmica, o ritmo, o groove que têm. Isso tem sobretudo a ver com uma questão técnica, de composição, que também foi uma diferença fundamental neste disco: eu e o Pedro começámos a tocar quase tudo com os dedos. Sempre fomos mais guitarristas de palheta e há determinadas coisas que fazes com palheta que não fazes quando estás a tocar com os dedos. Há muita coisa neste disco que ficou, diria eu, mais rítmica ou com um andamento diferente sobretudo por causa disso. E depois, obviamente, o Hélio e a Cláudia também levam aquilo para um sítio diferente porque a guitarra está com uma ginga diferente.

PG: Ao tocarmos com os dedos e encontrarmos uma solução mais rítmica, acabamos por nos aproximar do registo de PAUS, que é uma coisa quase tribal, muito mais rítmica. Essas influências acabam por ser quase inconscientes e uma reação, porque queres fazer algo diferente.

HM: E a partir do momento em que tens um baterista em comum, a probabilidade também é maior (risos).

Há alguma coisa nestas músicas que vos leve para o passado? Pergunto isto pela escolha do título do álbum…

HM: Sempre. Temos um passado comum tão grande, os quatro... Jogávamos à sirumba na escola preparatória, embora não fossemos amigos na altura.

PG: O facto de irmos buscar essas coisas que remetem ao passado, acaba por nos fazer sentir mais juntos. Pode parecer um bocado lamechas, mas é verdade.

Sirumba surgiu antes ou depois da canção com o mesmo nome?

AH: O nome surgiu primeiro com a música. Quando eu estava a fazer a letra, lembrámo-nos dessa ideia da sirumba. Quando parti para escrever a letra, a minha ideia era fazer uma cena com referências do Sam The Kid, daquela música que ele tem e que eu adoro que fala das cenas de quando ele era puto e que a nós também nos dizem muito porque somos da geração de 80. Ele fala das carteiras da Dunas, de ir ao supermercado AC Santos e ao clube de vídeo, fala das mochilas Monte Campo, do cabelo à «foda-se»... E antes sequer de haver letra, lembrámo-nos do nome sirumba. É um nome giro e sonante. Depois, com a letra veio a ideia de brincar com esse passado mas também tomou outro rumo. Fala um bocado disso mas também de outras coisas. Nós somos muito picuinhas com os nomes dos discos, é difícil parir um que nos agrade a todos. O Turbo Lento foi a exceção: foi para a mesa e toda a gente gramou logo no início e ficou. Mas na altura, Sirumba pareceu-nos natural por ser uma coisa que nos aproximou todos. Num ano das nossas vidas andámos todos na mesma escola... Se calhar até nos cruzámos a jogar àquilo e nem nos lembramos que jogámos juntos. Era comum chegares lá, estarem uns gajos a jogar e tu entrares... Se calhar em 1992, não nos conhecendo como nos conhecemos agora, até jogámos juntos naqueles quadrados...

PG: Quando jogavas à sirumba, era uma coisa descomprometida, querias divertir-te, passar um bom tempo. Acho piada dares o nome de um jogo a um disco para o qual tentaste ir com o mesmo mindset: fazer a coisa pela diversão que te dá. Encaixa bem e acaba por resumir, felizmente, o processo do álbum.

HM: Não tinha pensado nessa analogia... É fixe.

Rita Carmo

«O Dia Em Que a Música Morreu» é uma referência à canção «American Pie» e ao dia em que Buddy Holly e Richie Valens morreram?

PG: Andámos aí um bocadinho malucos com o Tim Maia. Eu e o André vimos um documentário e há lá uma altura em que se fala disso... Aquilo foi mesmo uma notícia de jornal. O dia em que a música morreu foi esse dia em que morreram o Buddy Holly e o Richie Valens. E o nome já tinha existido no seio dos Linda Martini. O Sérgio, o outro guitarrista que tocava connosco, avançou com o nome.

HM: Sérgio Lemos. Roubámos o nome ao ex-membro dos Linda Martini. Foi a proposta dele para o Olhos de Mongol e o nome voltou à baila para o Casa Ocupada.

PG: Ficou sempre ali... Temos outros, também, aí a pairar. Este recuperámos ao vermos esse filme e depois o André acabou por fazer a letra, que também gira um bocadinho à volta do nome.

AH: Sim, estávamos a falar do «Unicórnio» e esta foi igual. É a ideia de «se não houvesse música, o que é que acontecia?».

E têm medo que a música morra em vocês?

HM: Punha as mãos no fogo para dizer que a música nunca vai morrer individualmente em cada um de nós. Quanto mais não seja do ponto de vista do ouvinte. Mas os anos vão passando e nós cá estamos juntos, portanto é dar graças.

CG: Eu percebo essa pergunta. Já pensei nisso algumas vezes, claro. E se um dia deixamos de sentir...

PG: E se um dia deixa de ser uma sirumba?

CG: Isso. E se deixas de conseguir fazer a coisa? É claro que não é um medo, porque não está lá sempre presente, mas, sim, já pensei nisso. Era bom que não acontecesse, gostava de continuar sempre a fazer música e a divertir-me com isso.

PG: Para aí há uns 10 anos, também tinha um bocado essa angústia... Ouvir as bandas que curtes a seguir certos rumos... Vês que continuam a fazer música, mas aquilo já não te diz nada e parece que já não tem aquela chama. E ficava naquela «será que daqui a uns anos também nos vai acontecer?». Será que isso é o caminho normal e acontece a todos os músicos? Só que há muitos outros a quem não acontece, portanto...

CG: Mas as perspetivas são muito diferentes, enquanto ouvinte e enquanto músico. Enquanto ouvinte, podes perder o interesse naquilo, mas desde que o artista continue a fazer o que quer, isso é que interessa. O público adapta-se. Uns gostam, outros não gostam. Aparecem uns, desaparecem outros.

A ideia de tocarem no Coliseu dos Recreios torna-se mais assustadora à medida que o tempo vai passando?

HM: Tem dias.

CG: Para mim, vai ser no dia.
PG: A cena é que já vimos lá grandes concertos, bandas que adoramos... E é uma sala mítica. Há sempre um preço, mas temos de ver pelo lado positivo. É uma oportunidade.

AH: Há uma coisa engraçada, se pensar nisso... Falo por mim, mas acho que com vocês acontece o mesmo: não fui assim tantas vezes enquanto espectador ao Coliseu e acho que isso reflete um bocado as nossas referências. Quando éramos putos, tínhamos a cena do hardcore e isso tudo, depois fomos ouvindo outras coisas e alargando o leque, mas as bandas de que gostávamos absolutamente sempre foram, na sua grande maioria, um bocado à margem. Não tocavam no Coliseu, tocavam noutros sítios. Uns mais chungas, outros menos. Conto pelos dedos de uma mão as vezes que fui ao Coliseu enquanto espectador. Lembro-me de ver lá os Sonic Youth, os Mars Volta, que foram lá há relativamente pouco tempo, com o Pedro, e não sei se fui ver mais coisas.

CG: Eu fui ver tanta coisa. Vi Buena Vista Social Club, vi ópera, o Nabucco do Verdi, vi Sonic Youth, coisas muito diferentes... System of a Down e Dillinger [Escape Plan]. Grande concerto de Dillinger. Portanto, já vi montes de coisas.

PG: Eu perdi os sentidos há 20 anos a ver Offspring no Coliseu.

CG: Estiveste lá e não te lembras (risos).

PG: Começa aquela malha do Smash e salta um gajo lá de cima, que eu não vi, cai-me em cima e perco os sentidos. Deixei de ouvir... Desmaiei, caí e fiquei sem ouvir. Estava com amigos, levantaram-me e levaram-me para o lado. Lá comecei a recuperar e fiquei fixe. Foi assustador. Mas sim, é verdade, as bandas que nos diziam mais se calhar não iam tocar ao Coliseu.

CG: Dillinger era uma banda que nos dizia muito, nunca pensei foi vê-los no Coliseu.

AH: É uma sala que, para nós, tem piada por isso. Portugal é um país pequeno e já tocámos virtualmente em quase todos os sítios onde é possível tocar. Faltava-nos o Coliseu... Obviamente, não fomos a todo o lado, mas o Coliseu tem essa aura mítica de grande sala de espetáculos. Neste disco, propusemo-nos a isso. No outro, fizemos a Sala Tejo e correu muito bem. Estava praticamente lotada.

HM: A questão fundamental, diria eu, nem é aquela cena de irmos tocar ao Coliseu... É uma questão de números. Fizemos as contas de quantas pessoas metemos no concerto de apresentação do Turbo Lento e fomos tentar perceber se havia alguma sala com um pouco mais de capacidade... Havia: o Coliseu. E pronto. Estás limitado, não é?

CG: E há salas a que as pessoas gostam de ir mais. A Sala Tejo, antes de ir lá tocar nem sabia onde era. O Coliseu... Apanhas o comboio em Sintra, sais no Rossio e estás lá.

O tema «Farda Limpa» tem uma secção de metais. Já tinham feito isto antes?

AH: E o «Unicórnio» também tem, só que não se sente.

HM: Não foi a primeira vez. O Pedro já tinha tocado trompete no Marsupial.

PG: Há uma malha do Marsupial, que até era um beat, que tem uma linha melódica de trompete. Nesse disco quisemos fazer ali uma coisa um bocado diferente, acabámos por meter cordas e juntámos umas cenas mais eletrónicas, umas baterias ao contrário e também uns noises, uns free jazzes de trompete, à nossa escala, muito pequenina. Uma coisa pensada e com linhas melódicas como neste disco, nunca.

CG: Essas linhas acabaram por ser definidas por nós, só não as podíamos executar. Os gajos foram uns fixes e souberam responder muito bem àquilo que nós queríamos.

AH: E isso foi mesmo no finalzinho do disco, das últimas coisas que gravámos. Já tínhamos falado da ideia na altura do Turbo Lento, chegámos até a contactar alguns dos músicos que tocaram aqui connosco, mas depois, por uma questão de tempo, não deu mesmo para fazer. O Tim Maia, para além daquela referência que o Pedro falou, musicalmente também foi uma influência. Não é uma coisa que se note muito, mas começámos por ouvi-lo quando íamos de carrinha para uns concertos e depois também fui ouvir muito em casa. Ficámos muito vidrados na abordagem melódica que ele tinha às canções. Sobretudo nos refrões, nas vozes, nas harmonias que fazia. E isso teve influência neste disco, apesar de se calhar as pessoas não se aperceberem se nós não dissermos. O que também é bom. É uma referência, mas não é uma homenagem nem uma colagem direta. Mas os sopros nem vêm dele, era uma ideia que tínhamos de trás e achámos que assentava bem nessas músicas.

CG: É uma ideia um bocado difícil de levar para a frente, porque há sempre aquela dúvida: quando juntas sopros com rock, pode não funcionar. Claro que estávamos com esse medo... Ainda experimentámos com outra música, mas não funcionou...

HM: Poderia funcionar noutra banda, mas nesta não passou no filtro.

Lembram-se da última vez que assistiram a um concerto os quatro juntos?

PG: Sim, foi num destes festivais que tocámos.

HM: No festival F. Estivemos os quatro a ver Filho da Mãe. Eu diria que foi esse.

PG: E combinamos também!

CG: A ZDB é talvez o sítio onde vemos mais concertos os quatro.

PG: Mas sim, talvez tenha sido esse do Filho da Mãe, o último que vimos os quatro.

HM: E o último que vocês viram os três talvez tenha sido o de PAUS, no Festival F.

CG: Eu não vi... E tu também não. Vocês tocaram muito tarde.

AH: Isso foi a noite em que fomos a rappar para o hotel.

HM: Foi «a» noite? Consegues distinguir? É que têm sido várias...

Originalmente publicado na BLITZ de abril de 2016