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A incrível vida de Brian Wilson

A droga e as doenças mentais travaram o percurso criativo do último dos sobreviventes dos irmãos Wilson. Filipe Garcia desvenda o homem que criou o álbum Pet Sounds - e que hoje vai levá-lo ao NOS Primavera Sound, no Porto

Podia ter sido só mais uma viagem entre concertos, mas o voo entre Los Angeles e Houston na noite de 23 de Dezembro de 1964 haveria de ficar na história. A bordo viajavam os Beach Boys e na bagagem já traziam os sete discos lançados em dois anos e dúzias de singles nos tops das músicas mais ouvidas nos Estados Unidos. O avião parecia destinado ao sucesso ou, pelo menos, a uma batalha transatlântica com os Beatles pelo estatuto de maior banda do Mundo.

No entanto, na cabeça de Brian Wilson tanto viajava o génio criativo que sustentava a banda como os demónios que a haveriam de travar. A meio do voo, Wilson teve o seu primeiro ataque de pânico, descontrolou-se, gritou a anunciar a sua própria morte e nunca mais voltou. Haveria de abandonar os palcos, passar a recusar a maioria das viagens aéreas e de reduzir a sua colaboração com a banda ao ponto de a deixar à beira da falência. Antes disso, gravou uma obra prima, deixou outra no cofre durante quase quarenta anos e travou uma batalha pessoal de que, muitos dizem, nunca recuperou.

O mais velho de três irmãos, não foi por falta de meios que Brian Wilson não teve uma infância feliz. Em casa não faltava dinheiro ou estabilidade familiar, mas o pai, Murry Wilson, haveria de tornar a experiência traumática. «O meu pai era mau para mim e eu andava sempre com medo de ser espancado. Batia-me muitas vezes com um chicote, mas quando eu tocava não me podia atingir», contou o compositor ao programa Studio Q, da canadiana CBC. Primeiro nas aulas de acordeão, depois no coro da igreja e em casa, sentado ao piano, foi descobrindo os segredos das notas enquanto tentava escapar às fúrias do pai.

E se aos 16 anos o gravador que recebeu de prenda lhe tinha permitido começar a brincar às canções foi durante as férias da família de 1961 que a revelação aconteceria. Com pais e tios na cidade do México, Brian, os seus irmãos mais novos, Dennis e Carl, e o primo Mike Lowe decidiram arriscar o fundo de emergência deixado pelos pais para arranjar equipamento para a banda, os Pendletones. E Al Jardine, que conhecia Brian Wilson da equipa de futebol do liceu, juntou-se com mais alguns dólares emprestados pela mãe. E não correu mal. Ao fim de apenas alguns dias de ensaios, a qualidade da música já se revelava suficiente para não só controlar a temida fúria de Murry como ainda o tinha convencido a procurar uma editora. Se há quem garanta que Brian Wilson perdeu a audição no ouvido direito por ter sido agredido pelo pai com uma tábua, certo é que foi ele quem encontrou a primeira editora para a banda, a Candix Records.

Foi logo no liceu, onde dividia o tempo entre os treinos de futebol e a música, que Brian Wilson se começou a fazer conhecido por cantar e tocar piano. Nas horas de almoço, invariavelmente, juntava um grupo de colegas para cantar num coro que aceitava todos os que conseguissem acompanhar os agudos que haveriam de tornar Brian famoso. Bruce Griffin foi um dos que arriscou o casting de recreio. Mais novo, e pouco popular na escola, aproximou-se, sorriu e ao aceno de aprovação de Wilson respondeu a cantar. «Era o lado democrático da música. Se te aproximasses e cantasses podias tentar e eles aceitavam-te se acertasses nas harmonias. De certa forma, o Brian adotou-me», contou a Peter Ames Carlin, autor da biografia, Catch a Wave, the Rise, Fall & Redemption of the Beach Boys' Brian Wilson.

Mas nem só para o social a música de Wilson servia. No seu último ano no liceu de Hawthorne, na Califórnia, uma amiga decidira candidatar-se a presidente da Associação de Estudantes. E alguma campanha abdica de um bom hino? Wilson, com Griffin e o primo Mike a ajudar, haveria de adaptar «Hully Gully», música que na época até merecia uma dança especial, para apelar ao voto na amiga Carol Hess. Os aplausos que o hino recebeu no final só fortaleceram a sua fixação na música. Mas os concertos improvisados nas festas, as excursões com amigos aos concertos de Dick Dale, então o guitarrista mais famoso da Califórnia, e as horas passadas ao piano a tentar descobrir os segredos das músicas dos Four Freshmen não tardariam em dar frutos.

Com o pai como manager, os irmãos e o primo a acompanhar, a Candix Records não se fez rogada a lançar «Surfin'», o single que chegou ao lugar 75 na Billboard. No entanto, se os Beach Boys se preparavam para se tornar regulares nas tabelas de vendas norte-americanas, a editora pouco tempo sobreviria e em 1962 já era a Capitol quem editava Surfin' Safari, o primeiro LP de pleno direito dos Beach Boys. Brian Wilson entrava no seu período mais profícuo. Nos dois anos seguintes, sob a sua liderança e com a imagem colada a um desporto que explodia nas ondas californianas, seriam sete os discos editados e até à célebre viagem de avião tudo parecia alinhado. Depois chegaram as drogas e nem a música nem Wilson ficariam indiferentes.

PARAÍSOS ARTIFICIAIS

«A erva permitia que as pessoas descontraíssem e ouvissem as coisas de forma diferente. O Brian experimentou LSD em 65 quando começámos a mergulhar mais profundamente no processo de gravação. Ele queria fazer um álbum que fosse mais que um simples disco», contava, em 1976, Carl Wilson, o mais novo dos irmãos. Mas se a descoberta das ajudas químicas facilitaria o nascimento de Summer Days (and Summer Nights), lançado em 65, também acabaria por marcar o começo do afastamento de Brian da banda, que já nem acompanhava na estrada. Antes, no entanto, haveria de deixar Pet Sounds, editado em 1966. Um disco que gravou praticamente sozinho, com ajuda de músicos de estúdio e com os restantes Beach Boys em digressão pelo Japão.

Já com um som bem distante do surf rock dos primeiros anos e com melodias e arranjos com ambições a grandiosidade, a música começou por gerar mais polémica que aplausos. Na Capitol chegou a ser ponderado a sua suspensão e o lançamento de um best of no seu lugar, e mesmo dentro da banda houve quem discordasse do rumo que Brian estava a tomar. Mike Love, que começou por ver o disco como um exercício egocêntrico do primo mais velho e que pela primeira vez não participara na escrita das letras, tomou a liderança dos críticos por mais que uma vez, protestou com a «destruição da fórmula» que até então assegurara o sucesso da banda. E se hoje Pet Sounds é tido como o melhor momento da banda também as vendas tardaram em sustentá-lo: não passou do 11º lugar do top americano e mesmo os singles («Sloop John B», «God Only Knows» e «Wouldn't It Be Nice») não venderam mais de 500 mil cópias.

Dois meses depois, a Capitol lançaria um best of que se manteria no top de vendas norte-americanas por ano e meio e que chegaria a Disco de Ouro. Wilson não aguentou o desgosto mesmo que do outro lado do Atlântico a receção ao disco fosse completamente oposta. «Sem o Pet Sounds, Sgt. Pepper's não teria acontecido. Pepper's foi uma tentativa de imitar o Pet Sounds», reconheceu Sir George Martin, o mago produtor dos Beatles. Por sua vez, Paul McCartney também nunca escondeu que via o disco como «imbatível em vários aspetos» e terá mesmo chegado a referir-se a «God Only Knows» como a melhor canção alguma vez gravada. A lenda, lembrada em Catch a Wave, the Rise, Fall & Redemption of the Beach Boys' Brian Wilson, diz mesmo que foi depois de ouvirem o disco que Paul e John Lennon se apressaram a chegar, de limusine, aos estúdios em Abbey Road, onde trabalhavam em Revolver, para gravar «Here, There and Everywhere».

Todavia, mesmo que já fossem vistos como os «Beatles Americanos», a competição pouco duraria. Em 1967 os Fab Four lançariam Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band enquanto os Beach Boys perdiam definitivamente o ritmo. Para janeiro, chegaram a ter programado o lançamento de Smile, o sucessor de Pet Sounds, mas três meses depois chegava o cancelamento do projeto. «Nas gravações, pedrávamo-nos e gravávamos pedaços de música de 30 segundos, raramente com mais de um minuto. Depois achávamos que não prestavam, deixávamos de saber onde as encontrar ou, simplesmente, deitávamos tudo fora. Acabou a ficar na prateleira», contou Wilson, em 76, a Mike Douglas, autor de um popular talk show, sobre o disco que só em 2004 foi lançado. No entanto, Wilson ainda tinha uma jogada de génio. «Estava sentado ao piano quando a minha mãe me disse que os cães ladravam a algumas pessoas e a outras não. Disse-me que era uma questão de vibrações. Quando lhe perguntei o que isso era, respondeu que eram invisíveis e eu decidi fazer a Good Vibrations», recordou Brian Wilson, no final dos anos 80, à CNN sobre o single de Smiley Smile, lançado em substituição de Smile.

Nessa altura, já nem a sua liderança da banda era a mais sólida, nem as suas decisões se revelavam as mais acertadas. Durante esse ano, foi Brian Wilson quem, a escassas semanas do festival, decidiu cancelar a presença da banda em Monterey deixando o palco, em frente a 200 mil hippies, livre para que a concorrência marcasse pontos. E essa não lhes era favorável Jimi Hendrix incendiou a guitarra, elevou-se a estrela e nunca lhes dedicou grande carinho. Mesmo que não a tenha cantado em palco, em Are You Experienced, o disco de estreia, o recado em «Third Stone From the Sun» é claro: «Your people I don't understand/ So to you I wish to put an end/ and you will never hear surf music again».

Os Beach Boys nos anos 60

Os Beach Boys nos anos 60

A QUEDA

A perca de notoriedade, a falta de material novo - Friends, lançado em 68, não chegou ao top 100 norte-americano - ameaçou a sobrevivência da banda, mas se à medida que os restantes membros assumiam cada vez mais os créditos das canções, Wilson mergulhava cada vez mais no seu buraco. Assumiu que tinha escrito «California Girls» (1965) sob o efeito de LSD e que Pet Sounds tinha sido composto com a preciosa ajuda de marijuana, mas à entrada dos anos 70 a espiral, movida a um cocktail de erva, cocaína e LSD, estava fora de controlo. «Queimei o cérebro todo e não sobrou nada. Transformei-me num vegetal à conta das drogas e todos os dias pago um pouco por isso», assumia, já em 1991, ao programa Primetime.

Em 1973, depois do lançamento de Holland, a morte do pai acaba por abalá-lo fortemente. Tranca-se por dois anos em casa, mal saindo da cama, recusando tomar banho e com relatos assustadores por quem ainda o visitava. Durante esse período terá mesmo tentado o suicídio, primeiro ao tentar lançar-se de carro de um penhasco, depois pedindo para ser enterrando na cova que ele próprio cavara no quintal. «Tinha medo que o diabo aparecesse na forma das pessoas que competiam comigo e via-o em todo o lado, até no chuveiro», afirmaria.

Com duas filhas, Carnie e Wendy, em 1979 haveria de chegar o primeiro divórcio e em 1982 surgiria outro grande choque. Mesmo que já pouco participasse na vida da banda, ainda se via como Beach Boy e não esperava que, em novembro desse ano, a reunião para a qual o tinham convocado fosse de adeus. «Mostraram-me uma carta a despedir-me. Passei-me e comecei a partir coisas. Acusavam-me de consumir drogas há demasiado tempo e de me estar a matar», contou. No ano seguinte chegaria um novo choque - o irmão Dennis morria afogado ao largo da Califórnia, supostamente por ter bebido em demasia - e uma solução que se revelaria igualmente trágica: a consumir mais de cem dólares diários em cocaína e a pesar mais de 130 quilos, a família entregou-o ao terapeuta, Eugene Landy, que já em 75 o havia ajudado a sair de casa e, ainda que momentaneamente, a largar a droga. Desta vez, no entanto, o desfecho seria bem diferente.

Landy, começou por acompanhar Brian Wilson durante 24 horas por dia, marcou-lhe a dieta, os exercícios e tirou-lhe a droga. Pouco depois, já se mudara para a mansão em frente à praia e à medida que o tratamento se arrastava, as faturas dispararam. «Para o Landy, o Brian é a galinha dos ovos de ouro. Primeiro disse que ficaria ano e meio e ao fim de cinco percebemos que nunca se iria embora», acusava Mike Lowe, ciente que anualmente a conta do médico ultrapassava o milhão de dólares. Nos tribunais, a batalha durou anos.

Brian Wilson estava em casa, isolado do mundo, sob o efeito de medicação e, dizia a família, a ser persuadido a assinar contratos ruinosos. No final da década, Landy já reservara direito a metade dos contratos publicitários, a royalties de música - é produtor executivo do primeiro disco a solo de Wilson, em 88 - e até da autobiografia de Wilson que muitos suspeitam ter sido o médico a escrever. Até 1992, ano em que o psiquiatra foi proibido judicialmente de se aproximar de Brian, advogados, antigos companheiros de banda e mesmo as filhas não tinham qualquer contacto com o músico.

Hoje diagnosticado como esquizofrénico e com tendências maníaco-depressivas, Wilson nunca regressou a tempo inteiro aos Beach Boys. Durante os anos 90 gravou I Just Wasn't Made For These Times, em 2004 Smile haveria de valer o primeiro Grammy, seguindo-se um disco de canções de Natal e That Lucky Old Sun (2008). Em 2010 gravou o primeiro de dois discos para a Disney a Brian Wilson Reimagines Gershwin seguiu-se In The Key of Disney e já este ano lançou No Pier Pressure, mas sem chegar, sequer, perto do sucesso dos tempos em que compunha com os pés descalços na caixa de areia em que tinha instalado o piano na sua casa em Bel Air.

Membro do Rock Roll Hall of Fame desde 88 e considerado por Paul McCartney como um dos grandes génios norte-americanos, Brian Wilson ainda não parou, mas a magia há muito que desapareceu. No caso do mentor da banda que pôs o mundo a cantar sobre surfar nos Estados Unidos e sobre a beleza das californianas, mais do que como teria sido a sua vida sem droga, a pergunta é como teria acabado a rivalidade com os grandes nomes das décadas de 60 e 70 se os Beach Boys não têm perdido o seu maior génio criativo por mais de uma década. God only knows...

Texto: Filipe Garcia

Publicado originalmente na revista BLITZ de julho de 2015.