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As sete vidas de Sia

O grande público passou a conhecê-la como a voz de êxitos de David Guetta, a mulher que escreveu “Diamonds” para Rihanna ou a artista sem rosto de “Chandelier”, mas a carreira de Sia Furler já conta mais de duas décadas. Passamos em revista o percurso da reservada australiana que este verão é estrela no MEO Sudoeste

Pode ter nascido em Adelaide, na Austrália, mas Sia Furler é hoje, aos 40 anos, um fenómeno global. Esconde-se por trás de cabeleiras porque se assume uma pessoa reservada, mas só será considerada uma estrela inesperada por quem desconhece a sua história. Duas décadas depois de ter dado os primeiros passos como vocalista da banda de acid jazz australiana Crisp, a artista conquistou finalmente o seu lugar ao sol, deixando para trás muitas vidas diferentes. Foi a voz mais destacada dos britânicos Zero 7, ajudou a colocar um ponto final memorável na série de culto Sete Palmos de Terra, tornou-se colaboradora habitual de David Guetta e Eminem e já escreveu canções para praticamente todas as grandes estrelas pop da atualidade. «Penso que a razão pela qual sou tão bem sucedida se prende com o facto de ser muito produtiva», defendeu recentemente numa entrevista à Rolling Stone.

UMA VOZ PARA OS ZERO 7

Os londrinos Zero 7 apresentaram-se ao mundo em 2001, com o álbum Simple Things, e mantêm-se em atividade até hoje, mas a verdade é que desde que Sia se distanciou do projeto pouco se tem ouvido falar deles. A australiana mudou-se para a capital inglesa no final dos anos 90, depois de se estrear a solo com o álbum OnlySee, de 1997, e antes ainda de a sua voz dar vida a temas como «Destiny» ou «Distractions», incluídos no primeiro disco dos Zero 7, assegurou coros para Jamiroquai. «Destiny» e «Somersault» (de When it Falls, editado em 2004) tornaram-se dois dos temas mais conhecidos da dupla de produtores, composta por Henry Binns e Sam Hardaker, fazendo com que Sia rapidamente se destacasse entre os vários cantores que davam voz às suas composições. A cantora participaria ainda no álbum de 2006, The Garden, e andaria na estrada com a banda (chegou a atuar em Portugal, em 2004, no Coliseu de Lisboa e no festival Sudoeste) mas acabaria por se distanciar para apostar na carreira a solo.

«BREATHE ME» E O EMPURRÃO DE SETE PALMOS DE TERRA

Apesar de o segundo álbum a solo de Sia, Healing is Difficult, ter saído em 2001, só anos mais tarde a artista começaria a dar que falar em nome próprio fora das fronteiras australianas. Esse segundo disco foi escrito num momento em que tentava lidar com a morte do namorado, acontecimento que terá estado na origem dos confessos problemas com álcool e drogas. «Fiquei muito perdida depois de o Dan morrer», confessou ao Sunday Times em 2007, «não sentia nada.

Conseguia intelectualizar muitas coisas, que tinha objetivos, que era amada, mas não sentia nada. Ficámos todos devastados, portanto enterrámo-nos em drogas e cerveja. Infelizmente, essa loucura durou seis anos para mim». Colour the Small One, editado em 2004, incluía aquele que se tornaria o tema mais conhecido da primeira fase da sua carreira: «Breathe Me». No ano seguinte, a canção serviria de acompanhamento musical à sequência final do último episódio da série de culto Sete Palmos de Terra e acabaria por entrar no top 100 inglês e francês. Em entrevista à BLITZ, em 2009, a artista confessava que chorou com o final da história: «era grande fã da série. Sentia uma relação com aquelas personagens. Fiquei comovida, mas senti que era um bocado nojento comover-me a ouvir a minha própria canção».

SOME PEOPLE HAVE REAL PROBLEMS

As drogas e o álcool ganharam um poder cada vez maior na vida de Sia e foi durante tempos conturbados que editou os álbuns Some People Have Real Problems (2008) e We Are Born (2010). Apesar de terem tido relativo sucesso na Austrália, o facto de não se sentir segura financeiramente acabou por levá-la a desanimar. No verão de 2010, acabaria por cancelar a promoção ao quinto álbum devido a «ataques de pânico» e «apatia extrema» que a levaram a ponderar colocar um ponto final na sua carreira como performer. Ao New York Times, confessou que chegou a contactar um dealer de droga a quem pediu tudo, exceto metanfetamina e heroína, com o intuito de acabar com a própria vida. Diz que no momento em que escrevia a carta de suicídio, um amigo lhe ligou e fez com que mudasse de ideias. Embarcou num programa de 12 passos para se livrar da dependência. «Tinha estabelecido uma identidade que não conseguia manter», confessou recentemente ao jornal Guardian, «passava uma imagem estranha, querida, efervescente, e isso faz definitivamente parte da minha personalidade, mas não conseguia manter-me assim estando deprimida e com tendências suicidas pelo menos um em cada três anos».

Sia em 2016

Sia em 2016

O MERGULHO NA POP

A primeira estrela de primeira linha a convidá-la para escrever canções foi Christina Aguilera. Em 2010, depois de quatro anos sem disco novo o que no universo pop é, claro, demasiado tempo, a norte-americana regressava com Bionic e nele incluía três temas escritos por Sia (entre eles, o single «You Lost Me»). Dois anos depois, «Diamonds», um dos maiores sucessos de Rihanna, confirmava que a nova reviravolta na sua vida profissional, o trabalho como escritora de canções para outras vozes, era muito bem-vinda. Desde então, assinou canções para Britney Spears («Perfume»), Rita Ora («Radioactive»), Celine Dion («Loved Me Back to Life»), Katy Perry («Double Rainbow»), Beyoncé («Pretty Hurts»), Kylie Minogue («Sexercize»), Shakira («Chasing Shadows») e Maroon 5 com Gwen Stefani («My Heart is Open»), só para nomear algumas. Paralelamente, em 2011, emprestou a sua voz a um tema de David Guetta e a outro de Flo Rida («Titanium» e «Wild Ones», respetivamente) e começou a perceber que o mergulho na pop tinha trazido ao cimo outra faceta sua. «Aquilo que escrevo para música pop é terrivelmente piroso», defende à Rolling Stone, «o "Titanium" é piroso. E o "Wild Ones" é definitivamente 100% piroso. Foi uma afronta a mim própria começar a escrever dessa maneira. Nunca quis que essas canções tivessem visibilidade porque achei que diminuiriam a minha credibilidade. Queria que outras pessoas as cantassem para poder receber o cheque. Acontece que ambas me ajudaram a firmar-me como escritora de canções pop e o sucesso que tiveram ajudou-me a apagar a insegurança que sentia pelo facto de serem tão pirosas».

SUCESSO EM NOME PRÓPRIO

Claro que grande parte do trabalho de alguém que se assume como «escritora de canções compulsiva» «sou bastante produtiva, mas só uma em cada dez canções se torna um sucesso» tem tendência a ser rejeitado ou a terminar no lixo. «Chandelier» (cujo vídeo se mantém no top 20 dos mais vistos de sempre no YouTube) e «Elastic Heart», os temas mais bem-sucedidos de 1000 Forms of Fear, álbum que editou em 2014 e que a faria finalmente brilhar em nome próprio, foram rejeitados por Katy Perry; «Alive», do novo álbum This is Acting, deveria ter entrado em 25, de Adele; «Cheap Thrills», também incluído em This is Acting, foi escrito com Rihanna em mente mas não resultou. A artista diz que a rejeição a torna mais forte e que hoje há sempre uma forma de dar a volta: «à medida que me torno mais conhecida, o meu valor enquanto estrela pop aumenta. É fascinante ver isso. Agora, às vezes, é mais inteligente ser eu a gravar as canções do que dá-las a artistas com quem, há três anos, quereria desesperadamente trabalhar».

MULHER FANTASMA

A sua imagem enigmática é hoje tão ou mais reconhecível quanto a sua música. Quando relançou a sua carreira na pop, Sia resolveu esconder a cara, quer dentro de um saco de papel (como fez nas primeiras fotografias promocionais) quer atrás de uma cabeleira loira com franja gigante. Mantém-se assim até hoje. Por trás dessa decisão está o facto de ter muito mais gente a olhar para o seu trabalho agora. «Não quero lidar com as injustiças de ser uma estrela pop», confessa ao Guardian, «não quero ter de me preocupar com os ângulos das câmaras que apanham o meu duplo queixo. Toda a gente na indústria do entretenimento é insegura. Passamos a vida a querer a aprovação do público e não se encontra ninguém que não tenha a cabeça lixada. Foi assim que chegámos aqui, portanto imaginem o que é uma sala cheia de nós. É hilariante».

Originalmente publicado na BLITZ de abril