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PJ Harvey no festival Sudoeste, em 1998

Expresso/Arquivo Gesco

PJ Harvey sexta-feira no Porto: a arte não tem preço

O maior palco do portuense NOS Primavera Sound irá recebê-la de braços abertos, dezoito anos depois do primeiro concerto num festival português (Sudoeste 1998, que esta imagem documenta). Enquanto esperamos por ela, falámos com ele: chama-se John Parish e é o verdadeiro homem-sombra da artista britânica.

Para Polly Jean Harvey, John Parish é um homem de confiança. Um colaborador íntimo e frequente, um cúmplice que até já dividiu créditos de capa com a senhora que agora se prepara para editar The Hope Six Demolition Project, um trabalho diferente, realizado com uma abordagem diferente, com uma receita para enfrentar uma realidade diferente. Parish, produtor e guitarrista que tem dado um importante contributo para a discografia de PJ Harvey desde To Bring You My Love, acompanhou de perto a conceção do novo álbum que a Island se prepara para editar e que servirá de pretexto para uma visita ao nosso país no próximo mês de junho, integrada que estará a artista na «embaixada» que se vai instalar no Parque da Cidade do Porto durante o NOS Primavera Sound.

«Gravámos o álbum anterior [Let England Shake] numa igreja e a Polly gostou muito de fazê-lo fora de ambiente de estúdio normal e quis repetir a experiência», começa por explicar Parish. «[O produtor] Flood, Polly e eu estivemos reunidos para discutir o álbum seguinte e ela sugeriu que gravássemos numa galeria de arte. Imediatamente a seguir sugeriu que, se fôssemos gravar numa galeria de arte, seria interessante ter pessoas a assistir. Gostámos todos muito da ideia a Somerset House e ArtAngel decidiram juntar-se a esta ideia e deram um grande apoio na realização deste projeto. De seguida, construímos um espaço dentro de uma sala e o Flood tratou de trazer um estúdio móvel para ser instalado aí. Embora não conseguíssemos ver nem ouvir o público sabendo que, contudo, estavam lá pessoas, este contexto deu ao processo de gravações um aspeto performativo que de outra forma não teria existido. Ao mesmo tempo, obrigou-nos a ter um espaço de trabalho muito definido sem email, sem telefones».

Para muita gente, refere John Parish, esta tornou-se uma aventura conceptual travestida de «experiência antropológica», mais do que um qualquer comentário sobre como a arte vive hoje exposta, nomeadamente nas redes sociais, até porque, esclarece, «as sessões de gravação não foram emitidas na internet, não houve fotografias nem sequer fotografias para a imprensa foram lançadas na altura».

Em relação ao novo material, John Parish explica que todas as canções são da autoria de PJ Harvey e que o seu papel foi de coprodutor, juntamente com Flood, também dono de uma extensa carreira e parceiro frequente de bandas como os U2, Depeche Mode ou Nine Inch Nails, por exemplo. «A divisão de tarefas entre o Flood e eu resume-se bem: ele funcionou mais como produtor/engenheiro de som enquanto que eu me envolvi mais como produtor/músico embora não tenha sido sempre tão linear», conta Parish. «O Flood tem sempre um conjunto enorme de ideias e esta sessão não foi exceção. Como houve muitos músicos diferentes durante as sessões de gravação e estávamos a gravar ao vivo num só espaço aberto, o Flood teve que ser quase como um diretor de circo. A coordenar no momento, a atirar ideias para a arena». Parish, no entanto, não se ficou pela produção: «eu também toquei vários instrumentos e cantei bastante. Aliás todos os músicos cantaram neste álbum há uma verdadeira amálgama de vozes neste disco».

John Parish já tinha tido um papel importante em Let England Shake, disco que produziu juntamente com Flood, Mick Harvey e a própria Polly Jean. «A diferença óbvia entre estes dois álbuns é que neste ultimo há muitos mais músicos envolvidos portanto, o som é muito mais recheado com um maior número de instrumentos. Uma das maiores valências da Polly como artista, a meu ver, tem a ver com a sua capacidade de fazer sempre um disco diferente do outro e, como tal, não consigo imaginar ter cancões do Let England Shake neste novo álbum e vice-versa. Há que ter em conta, contudo, que vejo o The Hope Six Demolition Project como uma progressão natural do Let England Shake, ao contrário da total transição ente o Uh Huh Her e o White Chalk», acrescenta.

O TEMPO DE BEBER UM CHÁ

Das palavras de John Parish solta-se uma ideia nítida de cumplicidade, desenvolvida ao longo do tempo com a mulher de Rid of Me: «Há mais de 25 anos.. Este tipo de longevidade não tem preço porque resulta da construção de um fortíssimo elo de confiança com o outro. E uma vez que isso esteja instituído, permites a ambos abrir portas para assumir riscos criativos». O que não significa que John Parish avance ideias sobre o que significam, politicamente, por exemplo, as novas canções de PJ Harvey.

A artista viajou pelo Kosovo e Afeganistão antes da feitura do álbum e certamente que a experiência lhe ilumina algumas das palavras do novo trabalho, mas sobre isso o seu coprodutor não se pronuncia. Tem, no entanto, uma opinião sobre a Inglaterra que hoje discute a possibilidade de se demarcar da União Europeia: «é óbvio que no meu métier acabo por viajar muito e trabalhar com muitas pessoas provenientes de todos os cantos do mundo. Agrada-me muito o estilo de vida cosmopolita e embora saiba que eu próprio tenho muitas características tipicamente britânicas, que abraço sou muito cético em relação a qualquer tipo de nacionalismo», alerta. «Sou instintivamente um internacionalista e sinto que a maior parte dos problemas se não mesmo todos só poderá ser resolvido através de cooperação internacional. Como tal, o Reino Unido e neste caso específico, a Inglaterra parece estar a dar passos atrás na caminhada do progresso».

«Mais uma vez, não poderei falar em nome da Polly», contrapõe Parish quando questionado sobre o papel interventivo do novo disco The Hope Six Demolition Project. «Contudo, sou da opinião que os artistas sérios que têm feito trabalho desafiante durante muitos anos estão intrinsecamente ligados aos temas importantes dos dias de hoje. Essa é, aliás, uma das funções primárias da arte e o que, verdadeiramente, separa os artistas dos entertainers».

Por momentos, voltamos o foco das atenções para o próprio John Parish, que não tem limitado a sua esfera de ação à discografia de PJ Harvey: «tive duas produções lançadas nos últimos meses Ne So pela fantástica cantora do Mali, a Rokia Traoré, e o Human Incognito pela lenda belga Arno. Tenho também andado a trabalhar num novo álbum a solo está quase todo gravado e esperaria que estivesse misturado antes do início da digressão com PJ Harvey. Tenho também uma banda sonora para completar antes disso, portanto o tempo está bastante apertado», confessa. Uma boa maneira de fazer render o pouco tempo que resta, argumentamos, é gravar onde calha.

Essa possibilidade é boa ou má? «Tanto há ganhos como perdas, claro. É muito bom ver que agora é muito mais fácil para bandas/ músicos gravaram em qualquer lugar, mas a tecnologia também permitiu que seja muito mais fácil fazer com que ideias de pouca qualidade soem inicialmente aceitáveis e como tal há um mar de música medíocre por aí», argumenta. «Eu ainda gosto de ouvir álbuns, de preferência em vinil. Acredito que 20 minutos ou um lado num LP representam a medida perfeita temporal de concentração e, também, o tempo que me leva a beber um chá».

John Parish, entretanto, já está praticamente de malas feitas e aguarda em Bristol a chamada de PJ Harvey para se fazer à estrada: «vai haver uma grande digressão. E estaremos a tocar no festival Primavera Sound, no Porto. Depois acho que haverá espetáculos planeados na Europa no outono ainda não vi quais são os planos, portanto ainda não sei se voltaremos a Portugal, mas espero mesmo que sim porque sempre gostei imenso de tocar aí». De facto, John Parish já tem uma relação com Portugal, tendo até produzido um disco de Mazgani.

«O Mazgani veio a Bristol em 2012 e eu e o Mick Harvey coproduzimos um álbum para ele [Common Ground, em 2013] no estúdio Toybox. Foi ótimo trabalhar com ele, como artista mas também como ser humano. Gosto muito do álbum que fizemos em conjunto. Tem havido outros pedidos de bandas portuguesas, mas ainda não consegui planear nada até agora. O tempo não é meu amigo». E agora é a vez de PJ.

Originalmente publicado na BLITZ de abri de 2016, antes da edição do último álbum de PJ Harvey