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Luís Barra/Impresa Publishing

Morreu o fadista Vicente da Câmara

Era sobrinho da fadista Maria Teresa de Noronha e tornou-se conhecido, entre outros êxitos, pelo fado “A moda das tranças pretas”. “O seu fado, castiço, bem timbrado, ficará na nossa memória pela sua nobreza e fidelidade”, destacou o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa

O fadista Vicente da Câmara morreu no sábado de manhã, em Lisboa. Contava 88 anos.

Sobrinho da fadista Maria Teresa de Noronha, tornou-se conhecido, entre outros êxitos, pelo fado "A moda das tranças pretas".

Entre outros prémios, Vicente da Câmara foi distinguido em 2013 com o Prémio Amália Rodrigues Carreira e tinha um percurso artístico com mais de 60 anos, que iniciou na extinta Emissora Nacional.

Em 1948, incentivado pela tia, concorreu a um concurso da então Emissora Nacional. A vitória no concurso radiofónico, que no ano anterior tinha sido conquistada por Júlia Barroso, deu-lhe o passaporte para atuar aos microfones da rádio oficial em programas de grande popularidade, como "Serão para trabalhadores".

O fado "A moda das tranças pretas" que o celebrizou foi composto na década de 1950, quando assinou o primeiro contrato discográfico para a Valentim de Carvalho. Gravou, em 78 rpm, temas como "Fado das Caldas", "Uma oração", "Varina" (de sua autoria) ou "Os teus olhos", com uma letra sua.
Do seu repertório constam ainda temas como "Sino", de sua autoria, "As cordas de uma guitarra" ou "Outono", com letra de seu pai, "Triste mar", "Maldição" e "Menina de uma só trança".

O seu percurso inclui outros fados como "Fado Lopes", "Era mais que simpatia", "Milagre de St.º António", "Fado do Pão-de-Ló", ou "Fado do João", "Guitarra soluçante", "O fado antigo é meu amigo" e "Há saudades toda a vida".

Em 1964 estreou-se no cinema, em "A última pega", de Constantino Esteves, protagonizado por Fernando Farinha, no apogeu da carreira, e contracenando com Leónia Mendes, Júlia Buisel e José Ganhão.

Voltou ao cinema em 2007, sob a direção de Carlos Saura, em "Fados", e ao lado de Carminho, Ricardo Ribeiro, Mariza, Camané e Carlos do Carmo, entre outros.

O fadista, um dos fundadores da Associação Portuguesa dos Amigos do Fado (APAF), integrou o elenco do espetáculo de inauguração do Museu do Fado, em 1998. Atuou na Alemanha, Luxemburgo, França, Espanha, Países Baixos, Canadá, África do Sul, Macau, Hong Kong, Coreia do Sul, Malásia, Brasil, Moçambique e Angola.

Em 1993, gravou com José da Câmara e Nuno da Câmara Pereira o CD "Tradição" (EMI/VC), em homenagem à tia Maria Teresa de Noronha.

"O rio que nos viu nascer" (2006) é o mais recente álbum de Vicente da Câmara (Ovação).

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, destacou que o fado de Vicente da Câmara, falecido aos 88 anos, "ficará na nossa memória pela sua nobreza e fidelidade".

Na página da Presidência da República na Internet foi colocada uma mensagem de condolências à família do fadista.

"Poucos intérpretes souberam conjugar tão bem as raízes populares e o cunho aristocrático do fado", salienta Marcelo Rebelo de Sousa, recordando que Vicente da Câmara era sobrinho da fadista Maria Teresa de Noronha, primo e pai de fadistas.

"O seu fado, castiço, bem timbrado, ficará na nossa memória pela sua nobreza e fidelidade", destaca o Presidente da República, na mensagem.

Numa mensagem divulgada pelo Ministério da Cultura, o ministro da Cultura, Luís Filipe Castro Mendes, apresentou as condolências, em seu nome e do Governo, à família do fadista.

Para o ministro da Cultura, Vicente da Câmara foi "um exemplo para gerações de fadistas ao deixar uma obra única que, honrando a tradição nobre do fado, soube sempre ser popular".
"Como Vicente da Câmara cantava no 'Fado Antigo', enquanto as guitarras tocarem, as saudades serão evocadas", acrescenta o ministro na nota de pesar.

O musicólogo Rui Vieira Nery considerou que "o fado e a cultura portuguesa ficaram mais pobres" com a morte do fadista.

"A morte do Vicente da Câmara é uma grande perda para o fado. Ele era uma das grandes referências vivas do género, tinha um estilo e uma técnica de canto e uma escolha de repertório muito próprios, inconfundíveis", comentou, em declarações à agência Lusa.

Lusa