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Quanto vale Adele?

A conta bancária da estrela britânica pode até nem ser das mais dilatadas do mundo da pop, mas poucas figuras têm conseguido tantos dividendos com uma carreira de palco tão frugal como a da voz de “Hello”. Pegamos na calculadora e fazemos as contas ao dinheiro gerado por uma das mais fulgurantes cantoras dos últimos anos.

Quando nos passados dias 21 e 22 de maio a multidão que esgotou por completo a lotação disponível na lisboeta MEO Arena para ambas as apresentações aplaudir Adele, a cantora britânica pôde sorrir ao sentir o carinho do público português, mas também ao perceber que a sua conta terá engordado com umas quantas centenas de milhares de euros. Os bilhetes foram vendidos entre 45 e 85 euros, o que deverá garantir uma faturação global do evento em torno dos dois milhões de euros. Descontando os consideráveis custos de produção não será necessário um grande poder especulativo para estimar que os ganhos pessoais de Adele possam andar nos 25 por cento desse valor. Uma pipa de massa, certamente.

A voz de 25 não é a mais eficaz máquina de fazer dinheiro no universo feminino da pop e vale consideravelmente menos (9 vezes menos, para ser mais exato e de acordo com o site moneynation.com) do que Beyoncé, Rihanna (7 vezes menos) ou Taylor Swift (6 vezes menos). Mas esse facto precisa de ser enquadrado com outros números: Adele editou apenas três álbuns e está agora no início daquela que é só a sua terceira digressão. Beyoncé, pelo contrário, já editou 5 álbuns em nome próprio (fora registos ao vivo) e protagonizou sete digressões internacionais, a mais longa das quais, a The Mrs. Carter Show World Tour, somou mais de 130 apresentações, incluindo duas em Portugal, onde vendeu cerca de 36 mil bilhetes que se traduziram num encaixe total superior a 2,63 milhões de euros. A receita global dessa digressão de Beyoncé cifrou-se em aproximadamente 200 milhões de euros. Os números de Adele são mais modestos, verdade, mas o esforço também tem sido consideravelmente menor.

Para se ter uma ideia, as duas primeiras digressões de Adele de 2008 (cerca de 80 datas, algumas em pequenas salas de 300 ou 500 lugares) e 2011 (cerca de 50 datas, em salas um pouco maiores, mas ainda assim com apresentações em locais com capacidade para apenas 1200 lugares) renderam, no total, menos de três milhões de 2,63 milhões de euros. Já os dados disponíveis para a sua apresentação de quatro datas em março último na Manchester Arena apontam para um encaixe global superior a 6 milhões de euros. E estamos a falar apenas de uma cidade. No que a apresentações ao vivo diz respeito, Adele tem ainda muito espaço de progressão e o seu potencial de rendimentos é compreensivelmente astronómico. Até porque, como se verificou em Portugal, para já a procura é tão intensa que quase invalida a necessidade de investimentos de marketing. O que só potencia ainda mais a margem de lucro.

Adele, ao contrário das outras rainhas pop citadas, também se tem resguardado de gestos comerciais mais declarados e tem recusado propostas milionárias de endorsement com marcas como a L'Oreal ou a Dior, manifestando até a sua pouca vontade de entrar nesse mundo dos artistas que «se vendem». Chegou a ser noticiada uma potencial ligação à marca de cosméticos L'Oreal, com um valor de cerca de 26 milhões de euros, mas Adele terá deixado os seus escrúpulos ditarem a sentença final e recusou firmar a sua assinatura no contrato proposto. Uma vez mais, compreende-se que os valores totais de Adele sejam menos chorudos do que os das suas congéneres americanas.

Seja como for, o gestor de conta de Adele tem razões para sorrir, sobretudo se receber prémios por lidar com carteiras cada vez mais consideráveis. O valor estimado de Adele no final de 2008, ano da edição do seu trabalho de estreia, 19, era de pouco mais do que 6 milhões de euros, uma vez mais de acordo com a Money Nation. Mas as vendas de 7 milhões de cópias de 19 foram largamente superadas pelos 30 milhões de cópias de 21 e, uma vez mais, Adele ou quem a rodeia provou ser uma estratega brilhante ao resistir ao apelo do streaming, levando 25 a quebrar recordes de vendas e fazendo o seu valor global ascender aos 40 milhões de euros número que certamente terá que ser revisto no final do ano quando se contabilizarem os dividendos da presente digressão.

NÚMEROS QUE FALAM

Olhemos, então, para os resultados do álbum que foi anunciado ao mundo com «Hello». Numa era em que o streaming parece ser o novo paradigma, 25 provou que, pelo menos pontualmente, este mundo ainda consegue acomodar vendas reais, sejam de álbuns em suporte físico (CD, vinil) ou de downloads em lojas digitais. No Reino Unido, nas duas primeiras semanas, somando vendas digitais e físicas, 25 despachou praticamente 1 milhão e 250 mil cópias, número astronómico que ultrapassou Be Here Now dos Oasis, trabalho que durante anos segurou o recorde de vendas na primeira semana e que detinha também o título de disco mais rápido a quebrar a barreira do primeiro milhão de cópias, feito conseguido em 17 dias de 1997, em plena era de «vacas gordas» da indústria. Completamente em contraciclo, Adele vendeu um milhão de cópias em apenas 10 dias, retirando assim a proeza dos irmãos Gallagher dos livros de história. O feito repetiu-se por toda a Europa, com Adele a somar vendas recorde em vários outros importantes mercados, como a Alemanha ou França. Mesmo em Portugal, mercado diminuto, somou 3200 cópias na sua primeira semana nos expositores.

O caso aumenta exponencialmente quando se olha à lupa para o desempenho de 25 nos Estados Unidos, o maior mercado discográfico mundial: 2 milhões e 300 mil cópias vendidas ao fim de apenas três dias! Estes números tornaram o terceiro álbum de Adele o que mais rápidas vendas registou no século XXI e colocou-o imediatamente no topo dos discos mais vendidos de 2015. Quando, ao quarto dia, a Nielsen Soundscan registou vendas de 2 milhões e 430 mil cópias, o álbum de Adele tornou--se no detentor do recorde de vendas na primeira semana, destronando o disco No Strings Attached, dos NSYNC, que detinha o recorde desde 2000. O álbum de Adele tornou-se o mais vendido na primeira semana desde 1991, ano que a Nielsen começou a contabilizar as vendas no mercado americano. Ao fim dos primeiros sete dias de vendas, o álbum somava quase 3 milhões e meio de cópias vendidas. Ao cabo da segunda semana, 25 já contabilizava perto de 5 milhões de cópias entregues a um público ávido da arte da cantora inglesa. O disco continua a acrescentar vendas e os números mais recentes colocam-no numa confortável vizinhança de 9 milhões de cópias vendidas só no mercado norte-americano. Em todo o mundo, 25 atingiu uma marca que não tem paralelo nesta era de views no Youtube e streams no Spotify: cerca de 20 milhões de cópias vendidas. E ainda nem fez um ano que o disco está nas ruas, prevendo-se que no final da presente digressão a incrível marca de 21 30 milhões de cópias vendidas possa ser superada (feito que seria histórico).

A Money Nation traduz o acumulado de vendas de Adele para cerca de 70 milhões de euros, a que soma mais cerca de 17 milhões provenientes de concertos e cerca de 22 milhões pagos em direitos pela plataforma YouTube. Ao todo, o site financeiro estima em mais de 114 milhões de euros os ganhos de Adele entre 2008 e 2016, dos quais cerca de 61 milhões se terão esfumado em impostos e mais cerca de 17 milhões em despesas diversas, o que lhe dá o tal valor global de cerca de 36 milhões. Ao contrário de artistas como as já citadas Beyoncé, Taylor Swift ou Rihanna, que ganham muito dinheiro em concertos e em lucrativos contratos publicitários, a principal fonte de receitas de Adele, até este momento, é mesmo derivada das vendas diretas de música, facto que contraria a tendência dominante para a maior parte dos artistas de topo que se viram obrigados a mais ambiciosas digressões precisamente como forma de combater os números descendentes de vendas dos seus catálogos. As vendas combinadas dos três álbuns de Adele e o seu registo ao vivo no Royal Albert Hall somam perto de 60 milhões de cópias, o que a um preço médio de retalho de cerca de 10 euros e com a percentagem de Adele a ser calculada nos 11.10 por cento lhe deixou no bolso quase 67 milhões de euros, antes de impostos pois claro.

Vários têm sido as publicações do universo financeiro a olharem para a gestão da carreira de Adele como um claro exemplo de gestão criativa e muitas vezes contracorrente, tendo em conta as práticas mais comuns do presente. As vendas de downloads e de cópias físicas, por exemplo, parecem estar diretamente ligadas ao «pormenor» de Adele não ter assinado com o Spotify ou Apple Music. O facto de teimar em escrever o seu próprio material, numa era de compositores e produtores com reconhecido toque de Midas, também garante que muito do valor da sua obra permanece diretamente nas suas mãos. Por outro lado, Adele não parece propriamente interessada em viver a típica vida de luxo que estrelas do mesmo universo como Beyoncé ou Rihanna gostam de partilhar no Instagram: o The Sun garante que Adele gosta de fazer compras em lojas de roupa de segunda mão e só muito recentemente, de acordo com declarações ao Daily Mail, é que decidiu comprar um moderno plasma para meter na sala da sua mansão de 7 milhões e meio de euros «costumava ter uma daquelas [televisões] muito largas até há pouco», confessou a cantora. A verdade é que uma grande voz precisa de um grande ecrã. E, ao que parece, de uma grande conta bancária.

Originalmente publicado na BLITZ de maio de 2016, adaptado depois da realização dos concertos