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Rita Carmo

Capitão Fausto é juventude em marcha: a entrevista BLITZ

Enfrentam a idade adulta com um álbum de pop barroca, fitando ao longe o rock torrencial de Pesar o Sol. Ao terceiro disco, Tomás Wallenstein e companheiros “rapam as gorduras”, pesam melhor as palavras e não têm medo do requinte. Atuam hoje no Rock in Rio-Lisboa

Rita Carmo

Rita Carmo

Fotojornalista

Encontramonos no Cais do Sodré, em Lisboa, pouco depois das 11 da manhã de um dia de sol do início de abril. Francisco Ferreira, o teclista da banda de Lisboa, é o primeiro a chegar. Falamos de queijos, de cervejas ou não estivéssemos numa das mesas da entrada de um bar irlandês ainda a servir os primeiros copos e de filmes de ficção científica (lembra-se Moon - O Outro Lado da Lua, de Duncan Jones, filho de David Bowie). Tomás Wallenstein, vocalista e guitarrista, aparece pouco depois. Na mesa há café, água, cerveja, tabaco e, claro, o gravador do jornalista. Ao fundo, uma turba de turistas irlandeses de irmanadas t-shirts verdes emborca as primeiras lagers do dia e já arrisca alguma cantoria que não chega a ser invasiva. A uma semana da edição do terceiro álbum, os Capitão Fausto preparam os concertos de apresentação. As fotos que vemos nestas páginas foram registadas três dias antes; pelo meio, ficou pronto o teledisco de «Morrer na Praia». São dias de mudança.

Capitão Fausto Têm Os Dias Contados é um álbum mais conciso, menos pesado, mas ao mesmo tempo mais adornado que Pesar o Sol. Fez parte do programa esta inflexão?
Tomás Wallenstein:
Há uma parte que é opção, o que é natural por termos convivido tão proximamente e durante tanto tempo com o álbum anterior. É inevitável que existam coisas que consensualmente vamos continuar a achar bem e outras que vamos querer corrigir. O próprio universo que recriámos no Pesar o Sol... chegámos a este ponto e já não estávamos aí. É natural já estarmos noutra fase.
Francisco Ferreira: O Pesar o Sol saiu em 2014 mas nós temos as músicas desde 2012. O disco foi gravado nesse verão e andamos com estas músicas em cima já há quatro anos. É muito tempo. Não que achemos que as músicas sejam más, mas as coisas têm o seu tempo. Agora é como arranjar outra namorada.

À semelhança do que fizeram em Pesar o Sol, foram procurar inspiração em Vascões, perto de Paredes de Coura, em setembro do ano passado. Como é o vosso dia-a-dia em regime de retiro criativo?
FF:
Um dia só para montar tudo. Um dia inteiro. Levamos literalmente tudo atrás: os instrumentos, microfones, colunas, computador... Normalmente chegamos, fazemos uma grande noitada e na manhã a seguir montamos tudo. É uma espécie de férias. Estamos afastados de tudo, sabe bem, não estamos com Lisboa em cima, namoradas, pessoas a ligarem-nos para sairmos à noite...
TW: Desta vez foram dez dias. Tomar o pequeno-almoço, pormo-nos a tocar, há quem tenha de ir ao supermercado, faz-se o almoço, bebem-se umas cervejinhas... Esta rotina aparece num documentário que se fez para este disco. Por acaso já não estava muito tempo de piscina...
FF: Este ano não fomos a tempo de apanhar aquele calor do norte, mergulhos foram poucos, houve muitas noitadas, copos relaxados, jogos de tabuleiro... Normalmente fazemos sempre grandes sessões de cinema, mas a televisão estragou-se ao segundo dia. Levamos sempre a Playstation para no fim do dia relaxar... foi tudo à vida. Ficámos rendidos aos jogos de tabuleiro e aos copos. Este ano fomos para lá com algum material e na esperança de compor muito e de dar voltas ao material que já levávamos. Mas saíram só duas músicas e uns arranjos novos. Comparado com o outro disco, parece que não foi tão frutuoso, mas acaba por ser bom porque faz-nos imensa falta uma altura para estarmos os cinco desligados de tudo. Em Lisboa, queremos ir para o estúdio e há sempre alguém que tem de ir de boleia ou de metro e depois acaba por sair mais cedo para ir jantar com os pais... Um retiro, seja em Vascões ou noutro sítio qualquer, é importante.

Em «Morro na Praia» há um verso que diz «Agora que eu não estudo, não me vou mais calar». Que mensagem é esta?
TW:
Agora [que já não estudo], não tenho desculpa para não fazer mais canções. Vou pôr-me a escrever mais. É o assumir que a minha vida agora é esta.

«Aos 26 não posso mais empatar» é outra ideia que ressalta. É uma canção de viragem?
TW:
Marca esta fase de eu me estar a dedicar a fazer música a tempo inteiro, a confrontar-me com as condições adversas que sabemos que existem na criação de música. Apesar de estarmos numa boa fase, não é fácil fazer um progresso estável. Há toda uma parte de insegurança que me parece natural e é disso que fala a canção.

O que é que pode falhar?
TW:
Para ser honesto, pode falhar o dinheiro. O medo maior é esse. Por muito que apareçamos em todas as revistas, as nossas músicas passem em muitos sítios e muita gente conheça as minhas letras, às vezes não faço um rendimento suficiente para pagar uma renda. Muito honestamente e tentando não ser politicamente incorreto, se eu não fosse burguês isto não era possível.

Há a referência ao estado «papão» em «Semana em Semana» («Se eu tenho o fisco à porta devo ser ladrão»)...
TW:
Não conheço nenhum trabalhador liberal que não tenha tido problemas, sobretudo por falta de informação. Uma pessoa é feita arguida logo no primeiro momento: tens só 19 anos e já és culpado porque ninguém te soube explicar. Eu aprendi essa lição: tem de ser [uma gestão] de mês a mês, de semana a semana. É preciso estar sempre a ver o que se anda a passar. A canção tem depois uma parte mais irónica, já que temos uma repartição de finanças à porta da sala de ensaios.

Em «Amanhã Tou Melhor» canta-se «Vou mas é decidir o que vou parecer / Não quer dizer que é o que eu vá ser». Há sempre uma máscara?
TW:
Sou eu a lidar com a imagem que as pessoas têm de nós. A imagem que muitas pessoas que não nos conhecem têm de nós.

Que imagem é essa? O que é que vos chega aos ouvidos?
TW:
Montes de coisas! Faz parte da nossa profissão jogarmos com esse fator. Não quer dizer que tenhamos ficado traumatizados com algum comentário específico. Eu posso escolher parecer o que quiser que a maior parte das pessoas vai acreditar.

Nas duas primeiras canções do álbum há referências ao próprio processo de criação: «Atrasado, faço mais um refrão» (em «Morro na Praia»), «Já não sei se esta letra alguma vez vai estar certa» (em «Amanhã Tou Melhor»). A música é central ao ponto de se tornar assunto na própria lírica?
TW:
A criação de música é um assunto que me consegue assombrar em alguns momentos, portanto faz sentido que se escreva sobre isso.

O disco chama-se Capitão Fausto Têm os Dias Contados. Esses dias contados significam também a gestão do tempo de vida?
TW:
Com certeza. [O título] vem um bocado agarrado a uma ideia que é comum a todos nós, do fim da juventude, da responsabilização, de tentar fazer algo sério de uma coisa que a quase toda a gente parece uma brincadeira. Com isso também vem uma ideia de longevidade e de aproximação do fim.

É difícil explicar que ter uma banda pode ser um assunto sério?FF: Eu no outro dia tive de explicá-lo seriamente a uma tia-avó... Ela já não vinha cá há algum tempo e perguntava-me: «então, continuas lá com a banda?». Como se isto fosse...
TW: Um hobby...
FF: Uma brincadeira que eu tinha quando era puto... «Sim, é a minha profissão», respondi. E ela: «mas tu não estiveste na faculdade?». Eu tive de explicar tim tim por tim tim que [a música] era mesmo o meu ganha-pão. Os meus pais, por preocupação, levaram um bocado de tempo a encarar o assunto, mas eu ainda tenho de explicar isto a amigos que já não vejo há algum tempo...
TW: Lembro-me de uma conversa que tive... Um amigo nosso que estudava Gestão e que comentava com outro amigo nosso: «eu não percebo em que é que isso, a música, é produtivo».

É a velha questão da utilidade da arte...
TW:
As pessoas associam a música a uma parte agradável da vida delas e à qual acedem com facilidade... É fácil relacionarem-se com a música, por isso torna-se um lugar de diversão, não conseguindo perceber como é que há pessoas que a encaram como um trabalho.
FF: Há pessoas que olham para o ser-se músico como quem olha para a vida de alguém que passa o tempo a não fazer nada, à espera de inspiração. Alguém que vive uma vida boémia, a beber copos e a tomar drogas, e que de repente é atingido por um raio de inspiração e desata a fazer música.

Capitão Fausto em abril de 2016

Capitão Fausto em abril de 2016

Rita Carmo

CANTAR É PRECISO

«Tem de Ser» tem um lado nonchalant, como se se passasse num cruzeiro nos anos 80...
FF: «Cruzeiro» é a expressão que usamos sempre para descrevê-la.
TW: Gostámos de assumir que ia ser a canção mais pirosa que alguma vez tínhamos feito.

«Semana em Semana», por sua vez, tem qualquer coisa do Paul McCartney de Ram, o segundo álbum a solo, depois dos Beatles e antes dos Wings...
FF:
Gostamos muito [desse álbum]. A parte mais difícil da inspiração é ir buscar o sentimento e não o que está à superfície. Os sons, os acordes, as expressões harmónicas é facílimo [captar]... O mais interessante de ir buscar e esse disco é grande inspiração - é o sentimento, a nostalgia que transporta.

A canção que encerra o disco, «Alvalade Chama Por Mim» tem uma indisfarçável portugalidade na forma como os versos são cantados. É onde ouvimos Tomás dizer, solenemente, «Nunca esquecer que a mocidade para nós chegou ao fim». É aqui que os Capitão Fausto de ...Dias Contados se distanciam mais dos de Pesar o Sol?
TW:
Essa foi das que saíram rápido. E sim, tem qualquer coisa de culturalmente demarcado.
FF: Pusemo-la no fim não por ser a nossa favorita, mas porque tem um final instrumental que deixa uma nostalgia engraçada na cabeça. E penso que isso é bonito para acabar um disco.
TW: É um artifício bom, um bom truque.
FF: Dosear não é fácil. Fomos fazendo as canções todas sem os adornos dos sopros, dos metais e das cordas. Fizemos as músicas para nós os cinco. Depois, quando gravámos, gravámos a mais. A parte mais complicada é rapar a gordura para ficar só mesmo o essencial. É muito fácil um gajo pôr-se à maluco e compor uma orquestra ali para cima fica cheio, glamoroso, lush, brilhante e bonitinho. Isso é fácil. A primeira versão que gravámos em Vascões era interminável: sabíamos que tínhamos aquela melodia para o final, mas não sabíamos onde parar. É importante fazer o suficiente para deixar desfrutar, mas também para deixar querer mais.
TW: O exercício passou por termos a noção de que estas músicas têm que existir da mesma forma quando somos só nós a tocá-las. À partida, a ideia também foi essa.
FF: Foi uma grande diferença em relação ao Pesar o Sol. É um álbum de mãos largas, as partes estendiam-se o tempo que fosse preciso, o «Maneiras Más» nunca mais acaba... Desta vez tivemos mais mão em nós próprios. Sonicamente, o Pesar o Sol é muito mais intenso, barulhento. A primeira música é logo uma barulheira de bateria...

A voz de Tomás Wallenstein aparece mais grave, não num registo de crooner, mas como se tivesse algo a puxar para baixo...
TW:
Não foi algo que decidi à partida, mas teve a ver com o sítio para onde as músicas nos estavam a levar. O próprio ambiente pediu coisas mais contidas. Estou a dar mais importância à palavra, estou mais próximo da maneira de falar. Tenho mais experiência. Hoje em dia não me importo de cantar.
FF: O gosto por cantar do Tomás não é o mesmo gosto de cantar das pessoas que vão ao [concurso de talentos] Ídolos. Essas gostam mesmo de cantar!
TW: Uma banda que não toca nada de especial, mas tem um bom vocalista, fica uma boa banda. Uma grande banda com um gajo que gosta de cantar, muitas vezes estraga-se. Gostar de cantar é ter mais prazer no exercício de cantar do que em integrar-se e completar a música. Nesses programas falta qualidade porque as pessoas não gostam de música. Gostam de cantar como se estivessem a fazer ginástica acrobática ou a jogar ténis.
FF: Eu gostava de ver um público a bater palmas por um gajo chegar a um tom super grave. As pessoas esquecem-se que chegar lá abaixo é muito difícil.

Interessa-vos ter um estatuto que tanto dá para ir a Paredes de Coura como ao Alive ou ao Rock in Rio? Ou até, eventualmente, a um festival de música psicadélica a tocar The Piper At The Gates of Dawn, dos Pink Floyd, como já fizeram no Lux?
FF: Nós não fazemos de propósito. Não é: «ya, 'bora fazer coisas diferentes para chegarmos a vários lados». Não somos pessoas dedicadas a apenas um canto da arte. Gostamos de muitos cantos diferentes, por isso é que os três discos que temos estão em polos bastante distintos.
TW: No entanto, se a coisa é mais ambivalente ou mais multifunções, para nós é melhor. Portugal já é tão pequeno...
FF: Nós temos medo de nos tornarmos uma banda de nicho. Há pessoas que me vêm descrever o estilo da sua banda e querem que a sua banda seja isto, como se pusessem uma bandeira por cima. Nós somos uma banda, só, e gostamos de fazer música. Se eu estivesse a tocar sempre nos mesmos bares fartava-me. Fazer música que tanto dá para tocar em teatros, em festivais ou ir fazer experiências malucas com Pink Floyd é fantástico. Eu penso muito em Jeff Buckley, que acabou a carreira cedo: as pessoas se calhar pensavam que ele ia ser aquele baladeiro, mas gosto de imaginar que não. Há uma música [depois de Grace] de que gosto muito, a «Everybody Here Wants You», super sexual, com um beat R&B. Gosto de artistas que andam a saltar de um lado para o outro.

FAMÍLIA CAPITÃO

O caderno de letras está mais ordenado? Ou fazê-las ainda é um trabalho de corta e cola?
TW: Este caderno é bastante diferente do outro. Eu tenho 30 ou 40 vezes a mesma letra em vários sítios do caderno. Cada vez que ia trabalhar numa, recomeçava do princípio e escrevia-a toda, começava a riscar bocados e depois reescrevia outra vez. Em vez de se encontrar o corte e costura, em que metade do caderno são frases soltas, aqui as ideias foram ganhando forma na vertical.

Há um assumido «eu» nas canções. A abordagem nunca é diferente? Não é previsível que venha a descrever algo do ponto de vista do observador?
TW:
Eu gostava de saber melhor contar histórias. Gosto da ideia do escritor trovadoresco à Bob Dylan que consegue inventar histórias à vontade e depois só pequenos elementos é que são referências às coisas dele. Não me atirei a isso porque não sei fazer.

Os Modernos (Manuel Palha, Salvador Seabra e Tomás Wallenstein) também influenciaram esta fase menos prog-rock, mais direta, de Capitão Fausto?
TW:
Capitão Fausto tem outro trabalho, outra dedicação por trás. É inevitável que, pelo facto de passarmos por um tempo em que estamos a fazer um certo exercício, isso se transforme em bagagem. E a mesma coisa com Bispo [Francisco, Manuel, Domingos Coimbra]. Modernos contaminou um bocado as coisas, da mesma forma que já tinha sido Capitão Fausto a contaminar Modernos no início.

Todos os vossos projetos paralelos são reunidos sob o selo Cuca Monga, no qual assumem também a faceta de entrepeneurs...
TW:
Estamos agora a ver se fechamos a quinta banda da Cuca Monga. Aqui juntam-se as sub-bandas de Capitão Fausto: El Salvador, Bispo e Modernos.
FF: Depois temos umas banda de uns amigos nossos, os Ganso. Vimo-los a aprender a tocar os instrumentos. Demos-lhes as primeiras peças de bateria. Agora é fixe ver que estão a ser chamados para festivais.
TW: Apanhamos com gente a dizer que Ganso é uma cópia de Capitão Fausto, mas a nós pouco interessa...
FF: Gravaram no nosso estúdio e sala de ensaios, com o nosso técnico, lá em Alvalade. Gostámos do resultado das músicas, eles têm potencial aliás, estão já a preparar um disco inteiro e a certa altura pensámos «Ganso também é Cuca Monga e vamos lá lançar uma editora». A sedimentação da coisa foi o facto de existir uma banda que não fosse de algum de nós, para dar uma forma de editora e não sermos só nós os cinco a fazer porcarias. Isto não é para fazer dinheiro. Não há um para. É por gostarmos de música. Também arranjámos um pretexto para fazermos concertos e festas - estamos a preparar a segunda no Musicbox [em Lisboa]. E lançamos uns discos com a Sony, a editora dos Capitão Fausto - pelo menos conseguimos que Cuca Monga não seja só uma ideia de internet, mas tenha algo concreto. Dá-nos um grande gozo.

Originalmente publicado na BLITZ de maio de 2016