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Hollywood Vampires hoje no Rock in Rio: É só rock'n'roll, mas eles gostam (entrevista exclusiva com Johnny Depp, Alice Cooper e Joe Perry)

Joe Perry, dos Aerosmith, Alice Cooper e o ator Johnny Depp decidiram homenagear os ícones que o álcool e outros prazeres/demónios já ceifaram. Versões de «hinos» rock and roll de sempre por um elenco de luxo é o que o Parque da Bela Vista pode esperar ao terceiro dia de Rock In Rio-Lisboa. Com bom humor, o trio falou em Los Angeles com Alexandra Carita

A história dos novos Hollywood Vampires remonta a 2012. O ano em que Alice Cooper se encontrou com Johnny Depp na rodagem do filme de Tim Burton Sombras da Escuridão. Numa noite, não de copos, dizem, mas de histórias, Cooper revelou a Depp como num bar de Los Angeles, nos anos 70, ele e muitos outros formaram um clube de amigos dos copos. No Rainbow Bar and Grill, em plena Sunset Strip, todas, mas todas as noites, sentados numa mesa do primeiro andar, juntavam-se os camaradas do álcool e das drogas. Saíam à noite e bebiam. A energia andava no ar. O divertimento também. O amanhã não existia. Enquanto dura esta entrevista esse amanhã para e das poucas vezes que subiram ao palco depois de formarem a nova banda, os Hollywood Vampires nunca pensaram no dia seguinte.

Já não se lembram ao certo de quem foi a ideia de prestar homenagem a esses «homens que passaram por experiência de quase morte». Mas Depp tomou a dianteira de chamar toda a gente para o seu estúdio e gravar o álbum de versões que põe em destaque nomes como John Lennon, Steve Marriott (Small Faces), Ronnie Lane (Small Faces), John Bonham (Led Zeppelin), Randy California (Spirit), Jim Morrison (Doors), Jimi Hendrix, Marc Bolan (T. Rex), Keith Moon (The Who), Harry Nilsson, George Harrison e outros tantos.

Que história é a dos Hollywood Vampires? Os dos anos 70, que acabaram por dar o nome à vossa banda...
Alice Cooper:
O que se passava com os verdadeiros Hollywood Vampires era que todos nós bebíamos de todas as formas e feitios. Estávamos todos no início das nossas carreiras e havia um sítio aqui em Los Angeles que aproximava toda a gente, era uma espécie de íman. Chamava-se Rainbow Bar and Grill.

Quem aparecia por lá?
AC:
Eu ia todas as noites, Keith Moon [The Who] também aparecia todos os dias, Harry Nilsson era outro dos habitués. Enfim, todos os tipos que estavam por cá e bebiam. Hollywood Vampires era um clube de amigos dos copos. Encontrávamo-nos ali, sempre na mesma mesa, e começaram a chamar-nos vampiros de Hollywood porque só nos viam de noite e bebíamos, bebíamos constantemente, que é o que os vampiros fazem. Foi assim que ganhámos essa alcunha.

Quem mais fazia parte do clube?
AC:
Dependia sempre de quem estava por cá. Ainda antes dos Vampires, Jimi Hendrix e Jim Morrison eram companheiros de bebedeira e passaram a estar incluídos no nosso clube. O curioso é que realmente toda a gente nos chamava Hollywood Vampires, chegaram mesmo a colocar uma placa na parede ao lado da mesa no Rainbow, que ainda lá está.

Tinham consciência de que vos iria acontecer alguma coisa de bom?
AC:
Não. Nessa altura nem pensávamos se iríamos ter uma carreira ou não, que aquele clube poderia vir a dar frutos ou a transformar-se noutra coisa qualquer.

E chegou agora a hora de fazer uma homenagem a esse tempo e a esse modo de vida?
AC:
Sim. Mas tudo começou quando o Johnny [Depp] estava a filmar Sombras da Escuridão, de Tim Burton, onde eu também participei. Contei-lhe a história dos Hollywood Vampires e começámos a pensar se não seria interessante fazer algumas canções que pudessem ser uma homenagem aos nossos amigos que já morreram por causa do álcool. Eles deveriam ficar contentes de serem nomeados por nós como os nossos amigos mortos bêbados.

***

Alice Cooper é o primeiro a falar. Já ansioso por contar como tudo aconteceu. Os olhos pretos de tanta maquilhagem negra sorriem enquanto se lembra de cada pormenor. Esqueceu depressa a chatice da longa espera. Duas horas empatadas nos Swing House Studios de Los Angeles. enquanto Johnny Depp no dentista perdia a conta ao tempo e nem sonhava que naquele dia, em que tinha marcado falar connosco às seis da tarde, o Presidente Obama também estava na cidade. Não. Chegou com todo o à-vontade e simpatia no seu Escalade Premium todo preto, incluindo vidros fumados. Pediu para ser maquilhado. Trocou o chapéu por um lenço quase à pirata e também pediu licença para falar, ainda antes de o guitarrista dos Aerosmith acordar de uma longa letargia provocada por um qualquer barbitúrico...

Acham que poderíamos trocar aquela célebre associação mítica do sexo, drogas e rock and roll por álcool, drogas e rock and roll?
Johnny Depp:
E o que aconteceria ao sexo?

Não sei, mas com tanto álcool...
Joe Perry:
Não, não podia ser. Tem que estar lá tudo. E está lá tudo, não queremos nem estamos a tentar mudar nada. As pessoas metem-se no que têm que se meter. Também há adictos de sexo. Faz parte do jogo. Há advogados que fazem o mesmo e ninguém diz nada. É só porque nós estamos neste tipo de «negócio» que tudo se torna tão visível e tão falado. Tudo faz parte do grande estereótipo. Mas conseguimos viver no meio dele e sobreviver.
AC: A uma determinada altura olhámos à nossa volta na sala de ensaios e percebemos que todos éramos ex-alcoólicos. E estávamos a cantar para todos os nossos amigos que também foram alcoólicos ou consumiam drogas. Portanto... (risos)

Como é que foi voltar a ir buscar todos esses fantasmas do passado. Foi melancólico?
AC:
Não. Todos esses tipos eram pessoas alegres, gostavam de festas, eram divertidos. Não consigo pensar neles de uma forma triste. O Jimi Hendrix e o Jim Morrison não eram tristes. Viveram as vidas deles com tudo a que tiveram direito. O Jim Morrison morreu aos 27 anos. Era muito novo. Mas a verdade é que o facto de ter chegado aos 27 foi um milagre. Já era uma idade avançada para ele.

Porque é que se trata de um álbum de versões?
JD:
Temos dois temas originais. Começamos com o tema «Raise the Dead» e vamos por aí a admirar muito sinceramente o que estes tipos fizeram. É óbvio que as drogas, o álcool e o rock and roll ou fosse o que fosse, que raio de tipo de excessos cometeram, não afetou o seu trabalho, talvez o tenha tornado melhor ainda. Quisemos saudá-los.
AC: Sabíamos quem os vampiros eram.
JD: E o último tema, também original, «My Dead Drunk Friends» foi mais uma homenagem, um tributo a todos eles. De resto, todas as versões que tocámos foram escolhidas com muito cuidado. O Alice [Cooper] sempre a dizer-nos que não nos podemos esquecer deste, nem daquele...
AC: E não podemos esquecer outra coisa. Todos começámos a tocar em bares. Éramos miúdos e 90 por cento do que tocávamos eram covers, desde os Rolling Stones aos Kinks passando pelos Yardbirds. E foi assim que aprendemos a tocar. Portanto, voltar a ser uma banda de covers foi muito divertido para nós. Divertido também por sabermos que mais tarde iremos compor material novo.
JD: E tocar uma canção como «Seven and Seven Is», dos Love, foi muito interessante. Uma banda mal-amada e pouco conhecida. Saber que agora ela vai ser ouvida por uma data de miúdos que nem sabem quem eles foram é qualquer coisa de extraordinário. Tocar uma música do Arthur Lee é também a oportunidade para dizer a qualquer pessoa que a possa ouvir: «fiquem a saber que isto era de uma banda chamada Love. Um grupo muito importante». E por aí fora...

Johnny, quão importante é para si subir para cima de um palco como músico?
JD:
Sempre foi e sempre será o meu primeiro amor. Foi o que fiz desde uma idade muito jovem e o que queria fazer com a minha vida. Acabei por seguir por outro caminho. Mas para mim estar em palco é incrível. O que é novo é aquela sensação de ter uma gratificação imediata, ou não exatamente isso, mas é o sentir uma relação imediata com o público. Essa relação é criada realmente naquele momento.

É uma relação diferente da que tem com o seu público habitual.
JD:
É basicamente o contrário de estar a fazer um filme, estar a trabalhar num filme, onde fazemos seis, sete, oito takes. E passamos para outra e depois para a seguinte...

E ninguém está a ver?
JD:
Nem eu próprio. Por isso, para mim, a música é um trabalho a sério. Não tem nada a ver com o meu outro trabalho. Aqui em cada segundo tudo acontece.
AC: Ele era guitarrista antes de ser ator.

E vê-se como um guitarrista?
JD:
Sim. Não direi que sou o melhor a fazê-lo, nem que seja um dos grandes mas... (risos)

Foi fácil conseguirem convencer o ator Christopher Lee a participar no disco e a fazer aquela introdução à sua medida, «The Last Vampire»?
JP:
Foi brilhante! Mais uma vez o Johnny, como ator, tem grande facilidade em falar com pessoas a quem normalmente nós não chegaríamos.

***

O timing foi perfeito, Sir Christopher Lee, o maior Drácula da História do cinema, viria a falecer a 7 de junho de 2015, três meses antes de o disco ser lançado e muito pouco tempo depois do take estar gravado e pronto para o lançamento do álbum. O disco homónimo, Hollywood Vampires, mostra ainda grandes temas que marcaram gerações. Desde esse lendário «My Generation», dos The Who, a uma quase perfeita imitação de «Whole Lotta Love», dos Led Zeppelin, ou uma «Jeespter», dos T. Rex, como deve ser, ao «Cold Turkey» da Plastic Ono Band ou ao «Itchycoo Park» dos Small Faces. Canções onde toda a gente «quis meter o bedelho».

Mas também tiveram a participação de nomes como Paul McCartney, Joe Walsh, Dave Grohl...
AC:
Eles também conheciam os músicos que estamos a homenagear. Todos gostavam do John Lennon, por exemplo. Não sei se foi essa a motivação que fez com que o Paul McCartney viesse. Sei que ele gosta é de tocar. Ele chegou, sentou-se ao piano e desatou a tocar também. Era uma canção dos Badfinger («Come and Get It»), que ele compôs especialmente para a banda. Cada vez que ele voltava a sentar-se ao piano, nós dizíamos uns para os outros: «é o Paul McCartney» (sussurra). Estávamos incrédulos.
JP: Espantados!
AC: Ele é um Beatle. O tipo mais simpático do mundo. Acho que o melhor de tudo é que ele adora verdadeiramente tocar rock and roll. Ele entrou e tocou como se fizesse parte do nosso grupo. Cada vez que nos víamos depois disso chamávamo-nos vampiros...

É por isso que vos chamam um supergrupo?
AC:
Se contabilizássemos todos os quilómetros, todas as horas, todos os anos juntos de cada um de nós, incluindo o Duff [McKagan] e o Matt [Sorum, respetivamente o baixista e o baterista da banda], talvez conseguíssemos chegar tão atrás no tempo quanto o Drácula.
JP: É muito tempo junto, meu!

Em setembro, foram estrelas de cartaz no Rock in Rio. Ainda só se tinham apresentado ao vivo uma vez, no Roxy Theatre, em Los Angeles. Quando chegaram ao Rio de Janeiro, a adrenalina era ainda maior do que na estreia. Iam tocar ao lado de bandas como Queens of the Stone Age ou Faith No More e para uma multidão de espectadores. Depp era o mais entusiasmado. Ia ter ali mais feedback imediato. Gostaram e querem mais. As expectativas voltam-se agora para a Bela Vista, onde sobem a mais um palco do Rock in Rio, o de Lisboa, dia 27 de maio.

Como foi tocarem no Rock in Rio, no ano passado, no Rio de Janeiro?
JD:
Para mim, para quem este não foi o seu dia-a-dia por muito, muito tempo, foi espantoso. Chegámos à cidade e saímos para dois soundchecks. Estava tão excitado por ir tocar para tanta gente, adorei ver e estar com as outras bandas, mas quando entrei em palco e ouvi o Joe ou o Alice dizer «uau, este é um dos maiores palcos onde já toquei»... Quando se ouve isso e se é o tipo novo que não toca há anos e anos, é muito assustador!

JP: Era absolutamente enorme, gigantesco.

Vão ter o mesmo tamanho de palco ou parecido em Lisboa, no Rock in Rio deste ano. Que expectativas têm para o espetáculo em Portugal?
AC:
Tínhamos feito o mesmo espetáculo no Roxy Theatre, não mudámos nada para o Brasil. Independentemente do número de pessoas que nos ouvem e nos veem, vamos tocar com a mesma energia. Só muda o tamanho do palco.

E não é mais assustador para si, Johnny?
JD:
Sim, mas sinto-me cheio com a imediatez da situação, e senti uma data de coisas, tais como: «que raio estás aqui a fazer, porque é que estás no palco com estes tipos?».

Mas sente-se à vontade no palco?
JD:
Para mim é fácil, aquela reação toda da multidão, das pessoas, preenche-me imenso.

Ainda toca a sua velha Telecaster de 1956?
JD:
Ainda a uso, sim. Mas também toco numa Duesenberg, aliás é a guitarra em que toco mais atualmente. É uma marca alemã feita por uns tipos que me contactaram com a ideia de fazer uma guitarra só para mim e cujo design se adaptasse a mim. Fizeram-na e fizeram um trabalho extraordinário.

Que implicações têm tido os Hollywood Vampires nas vossas carreiras? O que dizem os Aerosmith, Joe?
JP:
Até agora não tive queixas. Aqui vimos todos de diferentes grupos e até profissões. Cinco dias antes da nossa grande estreia, toquei em Moscovo para uma plateia de quatro mil pessoas e estava preocupado como é que toda a gente ia reagir e, digo-vos, a seguir à primeira canção, estávamos todos à vontade, agarrámos o palco. Como o Alice disse, não mudámos nada no espetáculo e aqui também tudo é simplesmente natural. Não ensaiámos muito mas funcionou.

Estão a pensar gravar mais álbuns, um álbum ao vivo, por exemplo?
AC:
Isso seria muito interessante. Todos nós já gravámos discos ao vivo e aqui somos uma banda forte para o fazer. Mas diria que só lançaremos um álbum ao vivo depois de termos editado mais dois ou três de estúdio.

Já estão a trabalhar nisso?
AC:
Já. Já estamos a escrevê-lo.

A música que tocaram na cerimónia dos Grammys faz parte desse disco?
JD:
Sim. Chama-se «Bad As I Am».

AC: É um brinde: «As good as you are. As bad as I am!». E vamos dedicar este brinde ao Lemmy [dos Motörhead, falecido a 28 de dezembro passado]...

***

Brindes que também partilham com o Expresso mal se desligam os microfones. Joe Perry confessa, de imediato, que o sonho da sua vida ao vir tocar a Portugal é poder sair de cá a falar «pelo menos algumas palavrinhas» em português. Descendente de madeirense, só sabe dizer «obrigado». Aprendeu no Rio de Janeiro. Alice Cooper diz que quanto mais experiência tiverem em palco, mais qualidade terão os discos que se seguem. A ansiedade nota-se a crescer quando pensa em voz alta que é à Europa que dia 27 de maio os Hollywood Vampires vêm tocar. Já Johnny Depp, que antes da entrevista faz saber por uma agente que não lhe podem fazer perguntas sobre royalties, vida pessoal ou cinema, revela que o seu próximo filme como produtor será um documentário de homenagem a Ralph Steadman, o ilustrador de Hunter S. Thompson, o mítico jornalista que Depp representou em Delírio em Las Vegas, filme de 1998 de Terry Gilliam.

ROCK IN RIO, LISBOA
27 DE MAIO

ALINHAMENTO PROVÁVEL

1 Raise the Dead

2 My Generation

3 I Got a Line On You

4 Cold Turkey

5 Walk Away

6 Five To One/Break On Through...

7 Manic Depression

8 One/Jump Into The Fire

9 7 and 7 Is

10 Whole Lotta Love

11 Jeepster

12 I'm a Boy

13 School's Out/Another Brick in...

14 Billion Dollar Babies

15 Train Kept A-Rollin'

16 Brown Sugar