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Rita Carmo/Arquivo BLITZ

Radiohead: uma casa portuguesa, com certeza

Em 2012 reavivámos as pegadas dos Radiohead em terras lusas, desde as primeiras partes dos James, em 1993, até aos cinco concertos de 2002. Estávamos em vésperas daquela que é, até agora, a última passagem da banda por cá. O encontro fica marcado novamente para Algés, no mês de julho

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

São uma das bandas mais respeitadas e influentes das duas últimas décadas e há poucos fãs de música que lhes fiquem indiferentes para o bem e para o mal. Os britânicos Radiohead começaram por se juntar para ensaiar numas noites animadas de sexta-feira, em tempos de escola nos anos 80, assinavam como On A Friday e apresentaram-se ao mundo com o EP Drill, no início de 1992. «Creep», o single que os empurrou definitivamente para o sucesso, chegaria às rádios meses depois sendo posteriormente incluído no álbum de estreia, Pablo Honey, e foi a reboque desse clássico instantâneo que a banda deu início à história de amor que ainda os liga a Portugal e que verá mais um capítulo escrito no próximo dia 15 de julho, quando a banda subir ao palco do Passeio Marítimo de Algés.

As visitas ao nosso país não foram muitas, mas são recordadas por quem a elas assistiu como inesquecíveis. Começaram por atuar em Lisboa e Porto nas primeiras partes de concertos dos James, pouco depois da edição de Pablo Honey, e voltariam dois álbuns depois para estrear mundialmente, em Lisboa, as canções daquela que é considerada a sua obra-prima, OK Computer. Depois de, em 2001, o guitarrista Ed O'Brien e o baixista Colin Greenwood, terem subido ao palco do Coliseu dos Recreios, em Lisboa, para receber dois galardões BLITZ Prémio de Música, a banda voltaria para cinco concertos esgotados, três naquele mesmo espaço e dois no Coliseu do Porto. Passou-se uma década e, acredita-se, está tudo a postos para os receber de braços abertos.

Rita Carmo/Arquivo BLITZ

1993: Pavilhão do Belenenses, Lisboa, e Coliseu do Porto

Depois de meses numa extensa digressão pelos Estados Unidos, da qual saíram, dizem, exaustos, os Radiohead vieram pela primeira vez a Portugal para assegurar as primeiras partes dos concertos dos compatriotas James no Pavilhão do Belenenses, em Lisboa, e no Coliseu do Porto. «Quando chegaram a Portugal vinham desanimados porque estavam a fazer um esforço gigantesco», recorda Álvaro Covões, produtor de espetáculos à época na Música no Coração, que assegurou os concertos dos James no Belenenses, e hoje na Everything Is New, responsável pela organização do Optimus Alive'12, que receberá os Radiohead este verão. «Tinham de pagar despesas e os cachês que recebiam não estavam à altura dos custos, portanto estavam a perder dinheiro. E tinham decidido, palavras deles, que quando terminassem a digressão se separariam. Cada um seguiria a sua vida, dividiam as dívidas e paciência, porque ninguém ligava ao trabalho deles. Quando chegaram a Portugal, surpresa das surpresas, a malta cantou as músicas. E eles perceberam que havia ali algo».

Antes de rumar a território português no final de novembro, o baixista Colin Greenwood falava ao jornal BLITZ na ressaca de um cancelamento forçado de um concerto (o regresso à Europa não foi feliz para Thom Yorke, que sofria com problemas nas cordas vocais provocados pelo cansaço). Depois de assumir que Pablo Honey, o álbum de estreia que justificava a primeira vinda a território nacional, tinha sido gravado em apenas três semanas, Greenwood prometia um «espetáculo simples, com cerca de 45 minutos, onde exploraremos principalmente o LP» e ironizava: «talvez toquemos o "Creep", que é uma cançãozita nova, assim desconhecidita.». E tocaram, pois claro.

Quando a banda chegou a Lisboa, a 27 de novembro de 1993, «o "Creep" tinha rebentado nas rádios e as pessoas estavam já a descobrir o Pablo Honey», recorda Paulo Fernandes, label manager da EMI, editora que distribuiu os álbuns dos Radiohead até Hail to the Thief (2003).

Em Lisboa, a banda assinou um concerto que desencadeou «emoções e cantorias, principalmente quando interpretaram "Creep", desempenhando de forma mais que competente a missão de aquecer as massas». As palavras são de Miguel Francisco Cadete, nas páginas do jornal BLITZ. Apesar disso, recorda hoje o diretor da revista BLITZ, o tema que os levou ao sucesso ainda não estava na ponta da língua: «lembro-me de um episódio engraçado. Eles ainda eram pouco conhecidos e mesmo o "Creep" as pessoas conheciam mal, cantavam "I'm a hero" em vez de "I'm a weirdo"».

O espetáculo acabaria por se ver envolvido em polémica, não por Thom Yorke ter «pontapeado material de palco» ou por a banda ter mostrado «uma pose agressiva», mas porque a sala estava a rebentar pelas costuras o apelo dos James, de «Sit Down», era grande. O título da reportagem BLITZ deixava bem explícita a questão: «Artistas à vontade, público enlatado», e no texto lia-se que «Tim Booth e camaradas tiveram à sua disposição uma assistência composta de alguns milhares, entalados uns contra os outros e desafiando qualquer lotação mínima, que mesmo assim se rendeu desde o início», ou seja, com o concerto suado dos Radiohead.

Paulo Fernandes, que conviveu com os elementos da banda nos dias dos concertos e os descreve como «pessoas impecáveis» relembra que a receção do público português aos Radiohead foi tão calorosa que a banda ficou num «misto de surpresa e grande emoção». «Lembro-me de me dizerem que tinha sido tão arrebatador que se emocionaram ao ponto de deixarem cair algumas lágrimas», diz o responsável da EMI.

«Especialmente quando ouviram aqueles milhares de pessoas a cantar em uníssono o "Creep"». Do ponto de vista da editora, os Radiohead eram considerados à época um dos pontas-de-lança da nova pop britânica. «Era uma banda em que acreditávamos bastante. Tínhamos esperança que funcionasse e depois do espetáculo em Belém ficámos com a certeza de que tínhamos ali uma banda que estava a entrar de um modo determinante no coração dos fãs de música portugueses», explica. «A reação do público foi inacreditável. As pessoas estavam em autêntica euforia e sentiu-se ali uma coisa especial».

Arquivo BLITZ

1997: Paradise Garage, Lisboa

Um instante muito bonito, mergulhado numa luz azul: é assim que Sandra Marques, que em 1997 se sentia «a fã número um dos Radiohead», recorda o concerto a que assistiu no Paradise Garage, em Lisboa. Há 15 anos, os ingleses vieram a Portugal para apresentar, em primeira mão, as canções de um álbum que se tornaria um clássico: OK Computer, lançado exatamente um mês depois, a 16 de junho. Os três espetáculos aconteceram na sala alfacinha, entre 15 e 17 de maio, e não esgotaram. «O mais incrível é que é que nenhum dos concertos esgotou», revela Paulo Fernandes. «Ainda hoje me pergunto como é que, apesar de todos os nossos esforços e do promotor [a Tournée, de Ricardo Casimiro], não houve uma corrida aos bilhetes, já que era evidente que se tratava de um acontecimento especial e [tratava-se] do retorno dos Radiohead após uma ausência de cerca de três anos de palcos nacionais. Ainda por cima com temas novos».

Sandra Marques, que viajou do Porto até Lisboa só para ver um dos concertos, corrobora este espanto: «Eu nem sequer sabia onde ficava o Garage; cheguei lá e estariam só umas vinte ou trinta pessoas à porta, à espera que abrisse». A apresentação exclusiva de OK Computer era o chamariz: «Na altura não havia acesso fácil à música pela net nem "leaks", de modo que foi o meu primeiro contacto com o que haveria de ser o meu disco favorito não apenas dos Radiohead, mas o preferido da minha humilde coleção de discos inteira, ainda durante muito tempo».

Tal como Sandra Marques, Rita Redshoes já era fã dos Radiohead e em especial do álbum The Bends quando a banda de Oxford aterrou junto ao Tejo. «A sala não era muito grande e o Garage não estava a abarrotar», observa também a cantora, que em 1997 tinha apenas 15 anos e dava os primeiros passos nos Atomic Bees. «Eu era uma miúda, ouvi aquilo [as canções do OK Computer] pela primeira vez e fiquei super impressionada com a sonoridade do concerto. Lembro-me de vários pormenores que ouvi ali e depois viria a reencontrar no disco e gostar imenso. Já era fã mas achei que aquilo tinha dado ali um salto», salienta. «Era muito surpreendente, em muitas coisas, e foi surpreendente vê-los ali tão perto. Foi um dos concertos que me marcaram mais».

A viragem na carreira dos Radiohead pressentiu-a também António Pires, que assinou, então, a reportagem do concerto do Garage para o jornal BLITZ. «Estava de pé atrás (.). Os Radiohead não são um dos grupos que eu tenha no meu top 50 pessoal», começava por escrever. Em 2012, uma pequena adenda: «Não estavam entre os meus 50 favoritos, mas curiosamente passaram para o meu top 100, precisamente nessa altura, para não mais sair», esclarece o jornalista, autor da coluna Mondo 21, sobre world music, na BLITZ (ver páginas do Guia). A maior abertura estilística dos Radiohead foi, na altura, precisamente o que conquistou António Pires: «Comecei a gostar deles com o OK Computer. Antes não lhes ligava absolutamente nada. Mas nesse concerto, que foi anterior ao lançamento do álbum, houve canções suficientes para me fazerem interessar por eles e perceber que aquela banda, que era uma bandinha pop e tinha o "Creep" e o "You", e outras coisas apenas giras, afinal tinha muito mais, como letras super inteligentes, que ao contrário da esmagadora maioria da chamada brit pop tinham uma mensagem e até alguma intervenção basta ver pela "Paranoid Android" e pela "Karma Police"», exemplifica.

Se Rita Redshoes se lembra de reparar que «as guitarras estavam a ser tocadas de maneira diferente, com uma abordagem nova», António Pires aprofunda a análise: «Musicalmente, houve uma data de coisas que me agradaram. Falou-se muito de rock progressivo, mas eu na altura não senti tanto isso. Senti mais as margens: o psicadelismo e os blues. Aquele tema que cita o Bob Dylan ["Subterranean Homesick Alien"], a "Climbing Up The Walls", a "No Surprises". E até mais perto dos meus gostos de há muito tempo eles tinham o "Paranoid Android", que tem um ritmo de rumba catalã, de cajón. Um ritmo de rumba aflamencada!».

A subida no ranking ou a consumação de um amor mais antigo foram as consequências diretas dos concertos de maio de 1997: «Fiquei encantada», resume Sandra Marques. «As canções novas pareceram-me ótimas, fiquei cheia de ansiedade para confirmá-las em disco e o facto de não termos podido cantar e acompanhar a banda numa grande parte do concerto, por não conhecermos as canções, não chegou para quebrar a cumplicidade entre público e banda». Apesar de o tempo tornar as memórias algo difusas, Sandra lembra-se bem do momento que mais a tocou: «A melhor recordação que tenho desse concerto é um instante muito bonito, uma coisa muito etérea, que foi a interpretação da "No Surprises", com a sala toda mergulhada numa cor azul, à mistura com o espanto e a delícia de ver o Thom cantar num registo inesperadamente dócil. Quando comprei o disco», diz, «a primeira vez que voltei a ouvir a canção foi um daqueles instantes de reconhecimento imediato: era como se aquela vez no concerto tivesse bastado para ficar a conhecê-la de cor».

Os concertos no Garage foram, também, uma das derradeiras oportunidades para os fãs de primeira hora sentirem a banda como «sua». Sandra Marques ilustra: a t-shirt azul que comprou naquela noite («em modelo de senhora e tudo, uma das t-shirts de banda mais bonitas que alguma vez vi») não fez virar cabeças no Sudoeste desse mesmo ano. «Ninguém olhava segunda vez para o nome escrito na minha camisola. Houve um único rapaz que me interpelou para dizer que me dava o dinheiro que eu quisesse por ela e eu, cheia de arrogância adolescente e orgulhozinho pateta, disse que não e virei costas», conta. «O que mudou [desde então]: os Radiohead tornaram-se, tão-só, numa das maiores bandas do mundo e tudo começou, justamente, a partir desse disco. Eu nunca gostei muito de unanimidades e o facto de as coisas só minhas começarem, de repente, a ser de toda a gente, têm o efeito adverso de me repelir».

Sobre a explosão de popularidade dos Radiohead nos anos que seguiram aos concertos do Garage, António Pires tem uma visão mais otimista: «O público português, e eu tenho muito orgulho nisso, não como português mas por pertencer ao mesmo público, adere mais às bandas pop quando elas deixam de ser tão pop, quando se tornam mais inteligentes», considera, entre risos. «No caso dos Radiohead isso aconteceu, sem dúvida».

Rita Carmo/Arquivo BLITZ

2001: BLITZ Prémio de Música, Lisboa

Três meses depois de editarem Amnesiac, o quinto álbum de estúdio, os Radiohead sagravam-se vencedores de dois dos mais importantes prémios atribuídos pelo jornal BLITZ: Banda Internacional do Ano e Álbum Internacional do Ano, com Kid A, registo editado em 2000. A cerimónia realizou-se no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, no dia 23 de setembro de 2001, e contou com a presença surpresa de Colin Greenwood e Ed O'Brien.

Precisamente porque queriam apanhar a audiência desprevenida, «passaram toda a primeira parte do espetáculo encostados ao balcão dos copos, sempre prontos para mais uma cervejinha, e a acompanhar pela televisão o que acontecia no palco», escrevia-se na reportagem de bastidores da edição do jornal que se seguiu aos prémios.

As votações eram habitualmente encerradas duas semanas antes da cerimónia para tentar garantir a presença dos vencedores nacionais mas «sobretudo para que as editoras em Portugal pudessem entrar em contacto com os artistas estrangeiros para termos uma gravação que pudéssemos passar com os agradecimentos deles», explica Ana Ventura, então colaboradora do jornal BLITZ e responsável pela produção executiva dos prémios. A vinda dos Radiohead acabaria por ser um bónus que ninguém queria acreditar que viesse a acontecer.

Para que se mantivesse a surpresa sobre os vencedores de dois dos galardões mais importantes da noite, os dois músicos passaram grande parte da cerimónia nos bastidores, onde o jornalista Gonçalo Frota os entrevistaria e onde assumiriam complexos de culpa por não virem atuar tanto a Portugal quanto achavam que deviam. «É muito bom virmos até Portugal e este tipo de eventos lembra-nos que já há algum tempo que não vínhamos até cá o que é culpa nossa e que a nossa música é muito estimada e valorizada aqui, um país com uma grande tradição musical», confessaria Ed O'Brien.

Colin Greenwood acrescentaria ainda que a vinda a Lisboa para receber dois prémios era como uma «chantagem emocional, porque queremos muito voltar a fazer concertos aqui». Os dois elementos dos Radiohead não se coibiram de elogiar o país, recordando as boas experiências que tinham vivido em visitas anteriores. «Portugal é um país fabuloso e só tocámos aqui por duas vezes: uma vez em 93, com os James, e outra vez em 97, antes de o OK Computer ser lançado. Foi a primeira vez que tocámos esses temas ao vivo, em três noites. Temos recordações maravilhosas dessa altura».

O jornalista recorda hoje que a entrevista foi praticamente improvisada, «sabia que ia falar com eles, mas não se sabia quando chegavam, com quem é que apareciam, onde iam estar. Para mim, foi ter de estar sempre atento a quando eles iam aparecer e aproveitar uma nesga de tempo que houvesse».

Antes de subirem ao palco para serem recebidos com a maior ovação da noite, o guitarrista e o baixista chegaram a ser conduzidos até à plateia, onde tinham dois lugares reservados. «O combinado era que, quando se estivessem a aproximar as entregas dos prémios que eles iriam receber, eu iria buscá-los aos camarins e levava-os a sentarem-se nos lugares que tínhamos reservados para eles, para que quando fosse anunciado eles pudessem subir ao palco», recorda Ana Ventura. «Foram os dois extremamente simpáticos». Também António Pires, na altura um dos editores do jornal BLITZ, recorda os dois músicos da mesma forma: «Achei-os uma simpatia. O Thom Yorke nunca conheci, parece ser uma pessoa um bocado mais estranha, mas achei aqueles dois uma delícia absoluta e umas pessoas super-humildes, sem laivos de vedetismo».

«Vir receber estes prémios é muito bom. É um grande elogio», diria ainda Colin Greenwood, que acabaria por passar quatro dias em Lisboa, «para explorar a cidade e conhecer a cultura, a música». O músico já mostrara curiosidade quanto à história portuguesa quando, meses antes, Gonçalo Frota o entrevistara em Bilbau. «O início da entrevista foi todo passado a falar sobre o Álvaro Cunhal, porque ele tinha visto um documentário na BBC ou coisa do género», recorda o jornalista. «Como quebra-gelo foi ótimo, porque entrámos rapidamente na conversa e de um modo mais descontraído. Não sei se era por ter visto o documentário há pouco tempo e ter aquilo bastante fresco, mas fez-me um grande discurso sobre o Cunhal e estava muito interessado em tentar saber mais pormenores sobre o que se teria passado no PREC. Lembro-me de ter sido complicado tirá-lo do assunto para começar a falar dos Radiohead, porque o entusiasmo estava todo ali».

Paulo Fernandes garante que a banda sempre nutriu um carinho especial por Portugal: «Virem a Portugal para receber os prémios BLITZ foi a melhor maneira de eles mostrarem isso». Também Álvaro Covões se cruzou com Ed O'Brien no Coliseu: «Aproveitei para lhe perguntar porque é que eles com a relação que tinham com Portugal não vinham cá e falhavam todas as digressões. Disse-lhe isto com uma emotividade tal que ele começou a chorar e respondeu-me "tens toda a razão, Portugal é um país muito especial para nós". Não sei se isso ajudou a que eles depois marcassem aquelas cinco datas por cá».

Rita Carmo/Arquivo BLITZ

2002: Coliseu dos Recreios, Lisboa, e Coliseu do Porto

«No campeonato celestial da arte traduzida em comunhão de intensidades indizíveis, "Creep" e todas as outras canções dos Radiohead no Coliseu do Porto, 27 de julho de 2002, só encontram paralelo nos Nirvana, Pavilhão Dramático de Cascais, 6 de fevereiro de 1994. Ou se estava lá, ou não se estava lá». A sentença é de Jorge Manuel Lopes, o jornalista destacado para escrever sobre o último dos cinco concertos dos Radiohead em Portugal, há precisamente dez anos. Às primeiras três datas, no Coliseu de Lisboa, seguiram-se duas noites na Invicta, com o brinde de «Creep», «canção proscrita dos concertos dos Radiohead desde o tempo em que os animais falavam», escrevia o BLITZ guardado para os últimos minutos da «residência» lusitana dos ingleses.

«Aos primeiros acordes de "Creep", o esgotadíssimo Coliseu vem, metaforicamente, abaixo. Alguns desatam a abrir caminho pela plateia, para se aproximarem ainda mais do palco. Depois da trovoada wagneriana da guitarra de Jonny Greenwood a anunciar o refrão, nada mais se ouve ou escuta do que os milhares de pagantes». Mesmo sem «Creep», a emoção foi comum a todos os cinco concertos. Paulo Bento, fã de Radiohead que perdeu os concertos no Paradise Garage mas já tinha viajado até Espanha para vê-los a Barcelona e Bilbau, planeava ir a três coliseus mas acabou por marcar presença em quatro.

«A ideia inicial era ver dois dos de Lisboa, e aproveitar para dar um salto ao Porto no primeiro de lá. Mas gostei tanto que acabei por comprar bilhete à porta do coliseu, para o último do Porto». E não deu o dinheiro por mal gasto: «Gostei muito de todos. O favorito foi o primeiro, a "How To Disappear Completely and Never Be Found" foi de ir às lágrimas», partilha.

Apesar da paixão que o movia então, Paulo Bento não foi aos coliseus completamente «à civil»: é dele a gravação do primeiro concerto no Coliseu de Lisboa, que acabaria por correr mundo, ainda que, à época, a internet não fosse, nem de perto nem de longe, o que é hoje. «Gravei com minidisc», conta-nos. «Nunca foi um formato popular e agora desapareceu, praticamente, mas a qualidade era incrível. Tinha um microfone preso à t-shirt e lá fiquei muito quieto durante o primeiro concerto. Tive sorte de apanhar um sítio central e sem cantores de bancada», brinca. «Depois foi chegar a casa, converter tudo para MP3, juntar um ficheiro com informação sobre a gravação, e enviar para um servidor de um grupo de franceses, que se encarregava da distribuição», explica, sublinhando que, com esta gravação pirata, «ninguém fez dinheiro».

À semelhança do que acontecera com os concertos do Garage, os Radiohead vieram a Portugal apresentar canções novas, neste caso do álbum Hail To The Thief, que só sairia em junho do ano seguinte. «Lisboa foi o início da digressão e tocaram pelo menos umas seis desse disco. [A gravação] era preciosa não por ser única, mas porque nenhuma outra que tenha ouvido ficou com aquela nitidez. A "There There" dava arrepios».

Apesar de vagamente «amuado» com a banda («Dei uns €50,00 pela tão falada edição "xpto" do In Rainbows e aquilo nunca chegou»), Paulo Bento já tem bilhete para o concerto do Optimus Alive'12 «desde o Natal». Rita Redshoes ainda não, mas vai tentar arranjar. «Não sou tão fã como era dantes: o OK Computer deve ser dos discos que ouvi mais vezes», confessa. «É uma banda que me causa sempre curiosidade de ouvir os discos que vão fazendo». Rita, que este ano deu andamento ao espetáculo The Other Woman, onde interpreta canções de PJ Harvey, Nina Simone, Patti Smith ou Lhasa de Sela, também esteve num dos concertos do Coliseu, em 2002, mas sem o mesmo deslumbramento do Garage. «Já não me recordo se estive no primeiro ou no segundo dia, mas tenho bastante mais memórias de 1997, curiosamente. No Garage foi muito mais intimista. No Coliseu lembro-me de ter gostado muito na mesma, mas foi estranho, porque perdi metade da proximidade do Garage. Voltei a sentir que, na sonoridade, eles estavam a ir por outro caminho. Mas, para mim foi mais surpreendente o OK Computer do que os discos que se lhe seguiram, mais experimentais, mais eletrónicos. E confesso que, em termos de surpresa, o concerto de 1997 marcou-me muito mais».

Em todo o caso, a artista não se espanta com o facto de a noite de 15 de julho, no Optimus Alive'12, estar esgotada. «Acima de tudo acho que são uma banda que ganhou respeito com cada disco. Eles marcaram uma época nos anos 90: muita gente que era fã dos Pearl Jam e bandas semelhantes encontra ali uma sonoridade que vem do rock, com alguns laivos do grunge, mas que abre uma nova visão, uma leitura nova da guitarra, aliada a melodias muito fortes, canções muito boas e letras simples, ao mesmo tempo. E músicos muito bons, como executantes. Acho que isso acaba por transparecer para o público», reforça. «É daquelas bandas que, de concerto para concerto, ganhavam mais fãs. Essa coesão e esse perfeccionismo nos sons e na execução das canções acaba por ser contagiante. Uma pessoa fica ali ligada àquilo!».

Álvaro Covões, que na Música no Coração organizou os cinco concertos de 2002, prefere falar em «magnetismo» e tem uma teoria para explicar a inclusão inesperada de «Creep» naquele que será, até ao concerto de Algés, a última atuação dos Radiohead em Portugal (27 de julho de 2002 no Coliseu do Porto): «Quando vieram fazer os cinco concertos em Portugal, no primeiro dia perguntei se iam tocar o "Creep" e alguém respondeu: "não, os Radiohead há algum tempo decidiram não ser a banda do "Creep".

Antes do quinto concerto, ligou-me o Saul [Davies, guitarrista e violinista] dos James, a dizer-me que sabia que os concertos estavam esgotados há meses mas que estava com dois músicos dos James, que não o Tim Booth, e gostava de ir ver o concerto. E não é que eles decidem fazer do "Creep" a última música? Não sou nada destas coisas, mas que há algum magnetismo na vida, há». Covões não acredita em coincidências: «Eles tiveram aquele episódio com os James em Portugal, foi aqui que sentiram que valia a pena e que o trabalho deles era reconhecido, e depois com os James na plateia voltam a tocar uma música que já não tocavam há muito tempo e que vinha dessa época. É uma história que não esquecerei». E uma forma de fechar um círculo que se voltará a abrir agora, 10 anos depois.

2012: Optimus Alive, Passeio Marítimo de Algés

Já depois de ser publicado este artigo, os Radiohead passaram pelo então Optimus Alive, em 2012, com o mais que merecido estatuto de cabeças de cartaz. Uma reportagem que pode recordar aqui.

Publicado originalmente na revista BLITZ de julho de 2012.