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Adele irrepreensível em Lisboa. Uma voz de ouro, uma gargalhada contagiante e muitas selfies

Cantora britânica convenceu e deixou-se conquistar pelo público que esgotou o primeiro de dois concertos na MEO Arena. A reportagem da BLITZ não será acompanhada por fotografias porque a artista não permitiu a presença de fotógrafos de meios de comunicação no concerto.

“Se vieram à espera de um concerto animado desenganem-se porque eu não tenho canções alegres” foi uma das primeiras coisas que Adele disse ao público lisboeta (mas multinacional) que a recebeu de braços abertos na primeira de duas noites de espetáculos completamente esgotados na MEO Arena. As canções podem ser tristes, mas a cantora é seguramente uma das mais bem-humoradas que alguma vez passou por palcos nacionais. Foi a sua estreia em Portugal - como a própria fez questão de sublinhar, “nunca tinha vindo a Lisboa, é a minha primeira vez em Portugal” - e entrou com chave de ouro: uma voz irrepreensível, uma gargalhada contagiante, muitas histórias para contar e inúmeras selfies com os admiradores deixaram a plateia rendida.

Fosse nos sucessos mais estrondosos - “Hello” foi servido logo a abrir;, “Someone Like You” e “Rolling in the Deep” ficaram guardados para o fim -, fosse em temas menos conhecidos, Adele nunca cantou sozinha, tendo sempre um coro de milhares de pessoas a acompanhá-la. O som ajudou (poucas vezes ouvimos um artista com tanta clareza na sala do Parque das Nações), a decoração sóbria e minimalista centrou nela todas as atenções e o alinhamento certeiro, obviamente assente no mais recente 25, fizeram com que tudo corresse praticamente na perfeição.

Nem nos momentos mais exigentes, como “Don’t You Remember” ou a dificílima “All I Ask”, a voz lhe falhou… E aguentou-se como uma verdadeira campeã quando, a meio da intimista “Million Years Ago” se enganou na letra - gargalhada, pausa, assunção de culpa, do princípio. Serviu a abertura do espetáculo - com pontualidade britânica (passavam oito minutos da hora marcada) - num pequeno palco localizado no meio da arena, sozinha, com a banda ainda escondida por um gigantesco pano no palco principal e o som a sair das colunas surround montadas por cima do mesmo espaço onde, mais tarde, na belíssima “Set Fire to the Rain”, se veria enclausurada no centro de uma cortina de “chuva”.

A genuinidade com que se dirige aos fãs, mesmo quando repete inúmeras vezes que o público de Lisboa é o melhor de sempre (quantas vezes já ouvimos isto e quantas vezes acreditámos realmente?), contagia o seu riso irresistível e as histórias que conta sem pudores (com muitas asneiras à mistura): de como já tinha bebido quatro copos de vinho quando, há duas noites, assistiu ao concerto de Bruce Springsteen no Rock in Rio; de como muitas vezes arrota ao cantar os versos mais exigentes de “Don’t You Remember”; de como nem num concerto dos One Direction viu uma audiência tão barulhenta; ou de como, depois de se recusar a fazê-lo, a convenceram a gravar “Skyfall” para o 23º filme de James Bond porque, na altura, tinha 23 anos.

“Rumour Has It” e “Water Under the Bridge” agitaram os ânimos ainda no início (“aproveitem que estas são para dançar”); “Million Years Ago”, “Don’t You Remember”, “Send My Love (to Your New Lover)” e, claro, a inescapável versão de “Make You Feel My Love”, de Bob Dylan (dedicada às vítimas da queda do avião da EgyptAir) foram servidas em formato acústico, colocando ainda mais em evidência os dotes admiráveis da artista, que estende a voz como quem se passeia sem tropeçar numa passadeira vermelha. “When We Were Young”, a sua canção favorita da sua discografia, foi servida praticamente no fim e fez-nos perceber que a experiência de ouvi-la ao vivo é mais recompensadora do que ouvi-la em disco: a voz é igualmente cristalina, poderosa e infalível, mas há toda uma espontaneidade que contagia a interpretação, tornando-a ainda mais especial.

“Alguém aqui recebeu o bilhete para o concerto no Natal? Então… Bom Natal!”. É com este tipo de tiradas, simples mas inesperadas, que mete o público no bolso. E claro, conquista tudo e todos quando se enrola na bandeira portuguesa (e brasileira), elogia a comida nacional ou exibe projeções de Lisboa ao cantar “Hometown Glory”. O charme não termina aí: baixa-se para tirar incontáveis selfies, convida uma admiradora adolescente e o irmão pequeno, a Catarina e o Pedro, para se juntarem a ela em palco e canta os parabéns quando percebe que a jovem tinha feito anos ontem, recebe cartas e flores e devolve o gesto encerrando o concerto com uma chuva de confetti diferente da habitual: cada um dos pequenos retângulos de papel tem, escritos à mão, com a sua letra, nomes de canções e excertos das mesmas (do simples “Hello” a “we could have had it all”). Chega a confessar que está a acordada desde as 5 da manhã (“se desmaiar, já sabem por que é”) porque o filho, que dorme com ela, acordou a essa hora. Adele não é uma estrela pop: é uma pessoa comum. E usa isso em seu favor. Impossível não simpatizar.

Alinhamento

Hello
Hometown Glory
One and Only
Rumour Has It
Water Under the Bridge
I Miss You
Skyfall
Million Years Ago
Don’t You Remember
Send My Love (to Your New Lover)
Make You Feel My Love
Sweetest Devotion
Chasing Pavements
Someone Like You
Set Fire to the Rain
All I Ask
When We Were Young
Rolling in the Deep