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Carlos Tê com Rui Veloso

Debaixo da Língua no Sol da Caparica: “Os freaks da Cantareira tinham uma certa dignidade”, recorda Carlos Tê

A propósito de mais uma edição do festival Sol da Caparica, Rui Miguel Abreu volta a puxar pela lingua de uma série de artistas que fazem música com as as palavras que todos entendemos

Carlos Tê assinou boa parte das histórias que Rui Veloso cantou ao país, histórias de freaks da Cantareira com merda na algibeira, de Mingos e outros samurais, de descobertas e ilhas com pessegueiros. Hoje, num café mesmo ao lado do Coliseu do Porto, conta-nos como tudo começou:

“No início, escrevia poesia de combate, coisas mais típicas de quem tinha 25 anos e apanhara uma revolução na rua. É uma coisa que convém nunca esquecer. Nunca deixei de ouvir e seguir o resto, nunca reneguei o que vinha de fora, mas depois deu-se uma transição. Escrevi, então, o primeiro texto em português com uma música que eu fiz que era o “Chico Fininho”, isto ainda antes de conhecer o Rui. Era uma coisa que tocava quase numa lógica zappiana”.

O Chico da canção, admite Carlos Tê, era uma síntese, mais do que um retrato: “Havia os freaks, era uma mistura de vários, só que na altura tinham uma dignidade que os arrumadores não tinham, havia ali um resquício de romantismo hippie, uma rejeição social”.

À época, usar palavras como “merda” na letra de uma canção ainda causava calafrios a muita gente: “Na altura, não havia sequer a noção de que isso pudesse causar problemas. Portanto, estava absolutamente livre. E a canção circulou e tocava nas festas com os amigos, até que conheci o Rui. Depois apareceu a Valentim de Carvalho: os tipos quando ouviram aquilo pensaram que aquele era o caminho. 'As outras canções também eram muito fixes, mas nós queríamos era mais dez destas', disseram eles. Eu andava bastante animado com as coisas do Rui. Ele tinha uma Gibson preta, uma guitarra elétrica a sério, mítica, que ele tocava muito bem”. O resto, sabemo-lo hoje, é história. Uma história que todos conhecemos muito bem e que todos carregamos debaixo da língua...