Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Notícias

Talking Heads: a guarda avançada do funk

Na sequência de rumores na semana passada, a banda de David Byrne negou estar a pensar numa reunião. Mas não se livra que a recordemos. Em 2014, falámos com Chris Frantz, o baterista da banda nova-iorquina, sobre um filme e disco mítico: Stop Making Sense

Há exatamente 30 anos o universo da pop era diferente: Michael Jackson sofreu pela arte às mãos da Pepsi e Marvin Gaye pagou o derradeiro preço por discordar do pai sendo morto a tiro; enquanto isso, os Fleetwood Mac admitiam ter cheirado todo o dinheiro de Rumours e a MTV apresentava os seus primeiros Video Awards; noutra dimensão, os excessos do metal alimentavam digressões mundiais dos Iron Maiden e Van Halen, cada vez mais espetaculares visualmente, e a BBC One ainda se incomodava com a liberdade proibindo «Relax», dos Frankie Goes to Hollywood. É nesse contexto que é preciso entender Stop Making Sense, o filme concerto dos Talking Heads que agora completa três décadas de existência, idade respeitável assinalada nos Estados Unidos com uma digressão do filme por salas de cinema e no resto do mundo com a sua primeira edição digital de sempre.

A criação de Jonathan Demme, realizador de O Silêncio dos Inocentes ou Filadélfia, mantém, trinta anos após a estreia, toda a frescura e originalidade que fez deste filme um objeto absolutamente singular no universo dos filmes concerto: nada de montagens rápidas a emular a escola nascente da MTV, tentando fazer dos filmes concerto uma espécie de telediscos dilatados; nada de iluminações ultra elaboradas, tirando partido das possibilidades cromáticas que a tecnologia então oferecia; nada de cenários espetaculares para distraírem as cada vez maiores audiências do facto de mal poderem ver o artista em cima do longínquo palco...

Stop Making Sense centrava-se inteiramente na banda, nas suas incríveis capacidades performativas e na música que, à época, era das propostas mais avançadas no universo pop. Em 1984, como em qualquer outro ano até aí ou desde então, Stop Making Sense era um verdadeiro ovni um objeto visual não identificado que não mudou a paisagem à sua volta, mas que se afirmou como uma das marcas de profunda originalidade de uma banda que nunca parou de desbravar terreno.

Chris Frantz, baterista dos Talking Heads e marido da sua baixista, Tina Wymouth (com quem formou os Tom Tom Club, que também marcam presença em Stop Making Sense), recorda-nos os agitados dias que rodearam as filmagens no Pantages Theater, em Hollywood, em dezembro de 1983: «na altura, eu e a Tina tínhamos os Tom Tom Club a correr em paralelo e lembro-me que no primeiro dia de rodagem com o Jonathan Demme fomos também marcados, como Tom Tom Club, para aparecermos no popular programa de televisão Soul Train, de Don Cornelius. Tivemos que chegar muito cedo para gravar a nossa parte e depois correr para o Pantages onde iam arrancar as filmagens do filme dos Talking Heads. Mas foi incrível participar com a Tina naquele que era um verdadeiro bastião da música negra. Esse tipo de reconhecimento foi muito importante para nós».

A voz de Chris Frantz não esconde o entusiasmo quando recorda as gravações. «Houve momentos fantásticos», garante o baterista. «Só o facto de dividir o palco com o Bernie Worrell, à minha direita, e o Steve Scales, à minha esquerda, foi uma loucura em termos musicais», explica o cabeça falante referindo-se ao histórico teclista dos Parliament-Funkadelic e ao percussionista dos Winners que também integrou os Tom Tom Club. «Eles são ambos músicos magníficos e com um fantástico sentido de humor. Estávamos sempre na gargalhada a menos que o tom da canção a ser gravado exigisse que fingíssemos seriedade». Sinal claro do estatuto de que os Talking Heads gozavam na altura pode ser encontrado na guest list elaborada para receber convidados para festejarem a conclusão das gravações, ao fim de três dias.

«Uma das minhas memórias mais queridas», revela Chris Frantz, «aconteceu na última noite, quando várias estrelas da música e do cinema foram levadas até aos bastidores para nos conhecerem. O Robbie Robertson apareceu lá com o Peter Gabriel. O T-Bone Burnett esteve lá. Os Brothers Johnson apareceram também para festejarem com o primo deles, o nosso guitarrista Alex Weir».

Um verdadeiro cast de estrelas cuja variedade da realeza pop americana à britânica, do country ao funk já dizia muito do alcance da própria música dos Talking Heads. «E de repente», prossegue o baterista, «apareceu por lá o Brian Wilson que disse que queria falar com a Tina. Ele passou por todos os outros membros da banda sem dizer nada e só parou quando encontrou a Tina com quem teve uma pequena conversa, dizendo-lhe que tinha adorado ouvi-la tocar e que achava o cabelo louro dela o máximo».

Manual dos anos 80

O filme é uma espécie de manual dos clichés que a década de 80 popularizou, quando as regras mandavam dizer que tudo deveria ser maior do que a vida. O concerto começa com David Byrne, sozinho, sem banda, acompanhado apenas por um pequeno «cantante» que debita uma base instrumental de caixa de ritmos. Um momento bastante hip-hop, diga-se de passagem, sobre o qual o vocalista dos Talking Heads executa uma tremenda versão de «Psycho Killer». Por trás, um palco vazio, iluminado de forma simples, a deixar claro que não há truques atrás da cortina. Tina Weymouth entra depois para o fantástico «Heaven», vestindo um muito discreto macacão, antítese perfeita da farda comum das pop stars. Segue-se o seu marido, Chris Frantz e só depois o guitarrista, Jerry Harrison. Depois, ao longo do concerto alguns papéis vão-se alterando: Tina passa do baixo elétrico para um baixo eletrónico de teclados, Jerry Harrison toca sintetizador, Tina dobra também em guitarra. E tudo isso enquanto uma série de músicos negros aumenta a capacidade rítmica dos Talking Heads, elevando-os à condição de guarda avançada do funk. O reportório é luxo puro: «Slippery People» (que as enormes Staple Singers haveriam de abordar), «Burning Down The House», «Life During Wartime» e «Once In a Lifetime» antes de David Byrne aproveitar o interlúdio proporcionado pelos Tom Tom Club no delicioso «Genius Of Love» para se transformar, com o icónico fato XXXXL que vestiu na parte final do concerto. Pelo meio, arranjos perfeitos, a demonstrarem um entendimento profundo das dinâmicas da música negra e, ao mesmo tempo, dos contornos já cristalizados da clássica canção pop.

«Há um aspeto intemporal em Stop Making Sense», defende Frantz. «Nem a música, nem a aparência dos músicos estão contaminados pelos clichés que haveriam de definir os anos 80. Sempre procuramos evitar o que víamos como clichés de rock star e quando fizemos o Stop Making Sense essa era uma arte que dominávamos na perfeição. Os Talking Heads já éram alternativos antes de o rótulo ter pegado».

Para o resultado final concorreu, obviamente, o olhar de Jonathan Demme, já com um currículo significativo atrás de si, mas ainda a um par de anos de embarcar na fase mais visível da sua carreira graças a filmes como Selvagem e Perigosa, Viúva. Mas Não Muito ou, claro, O Silêncio dos Inocentes.

Nunca se revelando intrusivo, esse olhar consegue no entanto a proeza de ser quase íntimo em alguns planos mais aproximados, colocando o espectador não na perspetiva de um membro do público, que ao contrário do que era norma no género nunca aparece, mas de um outro músico que está ali mesmo ao lado da estrela, em palco. «Claro que ficamos bastante satisfeitos por trabalhar com o Jonathan Demme», concede Chris Frantz. «Nesse momento, quisemos trabalhar com um realizador que compreendesse a estética dos Talking Heads e o Jonathan compreendia-nos muito bem, percebeu que oferecíamos algo de diferente do que as pessoas esperavam dos concertos das bandas de rock. Ele e a sua equipa conseguiram apanhar exatamente o que era isso que os Talking Heads tinham para oferecer». Grande música, claro, capacidade de desafio das convenções, sem dúvida, um apurado sentido estético, obviamente, e um refinado sentido de humor capaz de nos fazer pensar que o rock'n'roll podia por vezes não passar de um grande circo.

Originalmente publicado na BLITZ de outubro de 2014.