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PJ Harvey: entre o lar e o mundo

O silêncio chegou ao fim esta primavera. Antes da edição do novo álbum da artista inglesa, fizemos um ponto de situação: quem é a PJ Harvey que nos visitará em junho, no Porto?

Depois de quatro longos anos, a britânica PJ Harvey prepara-se para editar o nono álbum da sua discografia (sem contar com as duas aventuras paralelas que editou em parceria com John Parish) e sucessor do aclamado Let England Shake. O novo longa-duração, gravado em sessões abertas ao público no início do ano passado, está prometido para a primavera e, apesar de ainda nem sequer ter título confirmado, parece marcar um regresso à «eletricidade» depois de dois discos com sonoridades menos expansivas. O vídeo divulgado como forma de abrir o apetite para a nova música abre com um riff bem ao estilo de Harvey, com a artista a surgir depois, entregue à sua guitarra elétrica.

Num outro vídeo, gravado à socapa por um fã num dos dois espetáculos que Harvey deu em outubro passado no Royal Festival Hall, em Londres, parece ficar confirmada a tese de que as guitarras voltaram a ter peso na sua música. «The Ministry of Social Affairs», o tema que se ouve, é um dos muitos que saíram das sessões de «Recordings in Progress», decorridas no palácio Somerset House, centro cultural e artístico situado bem no centro de Londres, entre 16 de janeiro e 14 de fevereiro de 2015. «Chain of Keys», «The Wheel», «The Orange Monkey», «Dollar, Dollar», «The Community of Hope», «Medicinals», «Near the Memorials to Vietnam and Lincoln», «Homo Sappy Blues» e «River Anacostia» são as canções que parecem certas no alinhamento de um disco gravado num estúdio montado dentro de uma estrutura/instalação arquitetónica à prova de som (e com janela unidirecional) que permitiu aos admiradores da artista acompanhar os trabalhos sem os perturbar.

No programa distribuído a todos os que assistiram às gravações, ela explica: «a Somerset House pareceu-me uma escolha acertada devido à sua ressonância. É essa palavra novamente. Em termos acústicos, aquela sala é perfeita, a viagem até à sala também tem uma atmosfera particular tens de atravessar o antigo campo de tiro para chegar até ao antigo ginásio do Inland Revenue [departamento governamental britânico de cobrança de impostos]. Toda essa história vai ajudar-me a atingir um nível diferente de consciência». Flood e Parish, produtores que a acompanham praticamente desde sempre, estiveram com ela em estúdio. «Quando estás a fazer música com outras pessoas num determinado espaço, ligas-te a elas num nível muito primitivo de conversação musical, comunicando emocionalmente e musicalmente», acrescenta Harvey, «há muito poucas barreiras e não só estás a deixar entrar os outros músicos e a música mas também tudo aquilo que tens à tua volta. E estás aberto a tudo o que se passou, desde sempre, naquele espaço e no que o rodeia».

A ideia da artista foi, obviamente, bem recebida pelos fãs, que, ávidos por viver uma experiência única, esgotaram os bilhetes em pouco tempo, mas nem todos os que acorreram ao local para assistir a sessões de 45 minutos terão presenciado momentos interessantes do processo. O jornal britânico The Guardian publicou uma reportagem de uma visita ao estúdio, dizendo «pode ter sorte e assistir a um pedaço entusiasmante, mas, no geral, as gravações em estúdio são fatigantes. Há muito pouca atmosfera aqui, quando nos aproximamos da janela que dá para o estúdio onde Harvey, os seus produtores e os seus músicos vagueiam, bocejam, gravam e regravam dubs e overlays, vozes e riffs (.) É como observar animais no jardim zoológico. Queres atiçá-los com um pau, obrigá-los a fazer coisas». Como Harvey defende no programa distribuído às visitas, «tens de passar por momentos aborrecidos para chegar às partes boas».

O QUE ELA ANDOU PARA AQUI CHEGAR

Apesar de os detalhes ainda serem parcos, sabe-se que o sucessor de Let England Shake reflete uma viagem artística que levou PJ Harvey até ao Kosovo, Afeganistão e Washington D.C., entre 2011 e 2014. Essa mesma jornada serviu de base para The Hollow of the Hand, um livro de poesia e fotografia assinado a meias com o realizador e fotógrafo Seamus Murphy (responsável, também, por um documentário a ser divulgado quando o álbum sair). A obra, que chegou às lojas em outubro passado, constitui o primeiro livro de poesia da artista e é defendido pela própria da seguinte forma: «recolher informação através de fontes secundárias pareceu-me demasiado insuficiente para aquilo que estava a tentar escrever. Quis cheirar o ar, sentir o chão e conhecer as pessoas dos países que me fascinavam. Depois do nosso trabalho em Let England Shake, o meu amigo Seamus Murphy e eu concordámos em fazer crescer um projeto juntos, deixando-nos guiar pelos nossos instintos até aos locais onde deveríamos ir». O fotógrafo completa estas declarações, «a Polly é uma escritora que adora imagens e eu sou um fotógrafo que adora palavras. A nossa relação começou há alguns anos quando ela me perguntou se eu gostaria de tirar algumas fotografias e fazer alguns filmes para o seu último álbum. Fiquei intrigado e a aventura começou, tomando agora outra forma neste livro. É a nossa visão de casa e do mundo».

A apresentação da obra decorreu, tal como referimos acima, no palco do Royal Festival Hall, em dois espetáculos que contaram, obviamente, com a presença de Seamus e do seu trabalho. «A grande revelação aqui são as canções», lê-se na reportagem do Guardian, «quando Harvey se desloca até ao seu Mellotron, confirmamos imediatamente a impressão com que ficámos, na Somerset House, de que o novo álbum seria mais solto e cru que a magnificência rebuscada e fria de Let England Shake». As dez canções que compõem o alinhamento de ambos os concertos são as mesmas, pelo que será de supor que quem acorreu ao local nessas duas noites terá tido direito a uma antecipação daquilo que se ouvirá em disco. Ainda assim, o NME nota que um fã encontrou nomes de outras canções escritos na parede do estúdio (entre elas, «Imagine This», «The Boy», «A Dog Called Money» e «A Line in the Sand»).

Apesar de todas as viagens, poemas e trabalhos de composição, PJ Harvey conseguiu ainda arranjar tempo para se dedicar a outros projetos, no intervalo que separa o fim da promoção a Let England Shake (no início de 2012) e o arregaçar de mangas para o novo disco. Em 2014, a artista assinou a música original da peça de teatro Electra, levada a cena no Old Vic Theatre pelo encenador Ian Rickson e protagonizada pela atriz Kristin Scott Thomas (O Paciente Inglês, Gosford Park). No mesmo ano, gravou uma versão de «Red Right Hand», de Nick Cave, em exclusivo para a série de televisão da BBC Peaky Blinders, com Cillian Murphy e Sam Neill. Flood, o produtor musical, explicou ao NME que ligou a Harvey depois de a série ser criticada por parecer «demasiado americana»: «estamos a tentar fazer com que fique muito mais europeia e britânica e a PJ encaixa-se perfeitamente».

Originalmente publicado na BLITZ de fevereiro de 2016