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Bruce Springsteen: o barco vai de saída

Há 35 anos, encontrou finalmente a sua voz, inspirou-se na América real das crises económicas e dos operários em dificuldades e criou um clássico absoluto, The River, que regressou aos escaparates em versão substancialmente aumentada. Vamos reencontrá-lo quinta-feira, no Rock In Rio Lisboa

Em 1980, Ronald Reagan estava embrenhado na campanha que haveria de o conduzir à Casa Branca no arranque do ano seguinte. O antigo ator percorreu toda a América e assumiu um papel claro de propagação de valores republicanos: menos impostos, menos governo, mais exército, mais capital.

Em dezembro de 1984, já Ronald Reagan se encontrava envolvido na campanha que o reconduziria no cargo quando Bruce Springsteen comentou à Rolling Stone como lhe parecia absurda a tentativa da América de direita o adotar como um símbolo: «Vemos os anúncios para a reeleição de Reagan na TV "É manhã na América". E só se pode dizer "bem, não é de manhã em Pittsburgh, não é de manhã na Rua 125 em Nova Iorque. É meia noite e parece que vem lá uma tempestade"».

Não é de espantar que Reagan, em campanha em Nova Jérsia, evocasse o nome do filho pródigo da terra. Em «Out In The Street», tema de The River, o álbum que Bruce Springsteen editou em outubro de 1980, fazse um autêntico retrato da América da classe trabalhadora que os republicanos tentaram recrutar: «I work five days a week girl / Loading crates down on the dock / I take my hard earned money / And meet my girl down on the block / And Monday when the foreman calls time / I've already got Friday on my mind». A América de The River era afinal muito diferente: «tive que me dissociar das simpáticas palavras do presidente», explicou Bruce Springsteen a Kurt Loder. A sua luta era outra.

DANÇAR EM VEZ DE MORRER

Bruce Springsteen ofereceu à América uma versão alternativa do herói rock and roll. Com sangue holandês, irlandês e italiano nas veias, foi educado na religião católica e desde cedo aprendeu a lidar com as forças contrárias da culpa e da fé. Nascido em 1949, tinha acabado de ingressar na escola quando apanhou pela primeira vez Elvis Presley na televisão, no mesmo Ed Sullivan Show que uns anos mais tarde, já em plena adolescência, em 1964, lhe revelaria os Beatles, factos que lhe apontaram o caminho da música. Mas a América de Bruce, filho de Nova Jérsia, uma espécie de grande parque de diversões para a classe operária «praias infinitas, docas cheias de lojas de recordações, clubes, pubs, bares», como escrevia Tony Parsons no NME em 1978, não era a América das autoestradas consagradas pela visão californiana do rock, dos intelectuais foragidos das universidades para se oporem nas ruas ao Vietname, dos eternos rebeldes em rota de colisão com o «sistema». Era uma América de cidade pequena, de operários e de diversão escapista à sexta-feira à noite, de ordenados demasiado curtos para a extensão do calendário, de sonhos esmagados pela realidade. Não era, de facto, «bom dia na América» e Bruce pressentia escuridão nas margens da cidade.

Springsteen acertou em cheio no alvo do sucesso em 1975, com o terceiro álbum da sua carreira, o mítico Born To Run que, escreveu Greil Marcus na Rolling Stone, pinta «as ruas da cidade como a última e permanente fronteira americana». O seu sucesso, como aliás referenciado por Marcus no mesmo texto em que aborda o terceiro álbum do músico de Nova Jérsia, assentou muito nos seus míticos concertos de mais de três horas tocados com total empenho, com Bruce a dar tudo, a entregar-se aos fãs no final em longas conversas e sessões de autógrafos, com avisos permanentes aos seguranças para que não interferissem. Bruce Springsteen sabia que era então o escape de sexta-feira à noite que o tinha inspirado a escrever tantas canções e abordava o concerto de rock com o mesmo espírito de sacrifício com que um estivador encarava a sua missão de descarregar a mercadoria de um novo navio acabado de atracar no cais. A CBS, que tinha começado por apresentar em 1973 Bruce Springsteen como o «novo Dylan» em Greetings From Asbury Park, N.J. (afinal de contas, o homem que lhe garantiu o contrato, John Hammond, tinha sido o mesmo responsável por assinar o freewheelin' Bob Dylan uma década antes), e que promoveu The Wild, The Innocent & The E Street Shuffle, também de 1973, como o novo trabalho de um «poeta das ruas», descobriu, enfim, com Born to Run a melhor imagem para vender Bruce Springsteen: mais do que um novo Dylan ou um poeta das ruas dois epítetos, ainda assim, plenamente justos, ele era um verdadeiro operário rock, o genuíno «working class hero» abraçado pelas pessoas não por ser maior do que a vida, mas por ser precisamente igual a todas elas.

Em conversa com Elvis Costello no talk show Spectacle, Bruce Springsteen condensou a sua arte numas quantas questões: «Quem sou eu? Onde é a minha casa? Onde e como vou educar os meus filhos? Escrever canções é apenas tentar encontrar sentido na nossa vida e no que nos rodeia. Estou a tentar entender as coisas. E se conseguir perceber um pouco, talvez isso ajude outros a perceberem também». Por alturas de Darkness on the Edge of Town, o álbum que Bruce Springsteen editou em 1978, responder a todas essas questões era também procurar entender o que fazer com a popularidade entretanto adquirida. O processo de construção de Darkness... foi complicado: em litígio com o manager Mike Appel, a quem tinha passado inadvertidamente os direitos de publishing das suas canções, e já aliado a Jon Landau, Bruce esculpiu cuidadosamente ao longo de um ano em estúdio as canções que comporiam esse enorme opus que foi o seu álbum de 1978. E se nos seus três primeiros discos, a matéria com que Bruce lidava era a do mito o mito do sonho americano, o mito da própria América, em Darkness o foco mudou para a própria realidade. O que justifica as palavras que conduziram Jon Landau à sua nova missão, das páginas da publicação The Real Paper até à condução da carreira de Springsteen a partir de Darkness em diante: «Na última quinta feira», escreveu Landau em 22 de maio de 1974, «no teatro de Harvard Square, eu vi o meu passado rock'n'roll a passar-me diante dos olhos. E vi algo mais: eu vi o futuro do rock and roll e o seu nome é Bruce Springsteen. E numa noite em que precisava de me sentir jovem, ele fezme sentir que eu estava a ouvir música pela primeira vez».

Darkness on the Edge of Town, explicou Bruce Springsteen a Tony Parsons em 1978, «é um disco sobre as pessoas recusarem-se a abandonar a sua humanidade. Não importa aquilo com que tenham que lidar, não importa o que a vida lhes faça, elas nunca abandonam a sua humanidade». O resultado dessas canções em palco, ainda de acordo com Parsons, era extraordinário: «eu já vi grandes concertos», escrevia ele nas páginas do NME, em 1978. «Os Clash em Harlsden em 77, os The Who no Rainbow em 71, Bowie em Newcastle no princípio deste ano, os Pistols na viagem de barco do Jubileu ou nas duas datas do Screen on the Green, mas o que Bruce Springsteen faz transcende todos esses concertos com uma folga confortável. Isto não é apenas o melhor concerto que vi em toda a minha vida, é muito mais do que isso. É como ver a nossa vida inteira a passar-nos diante dos olhos, mas em vez de morrer, estamos é a dançar».

Em estúdio em 1978

Em estúdio em 1978

A VIDA DIANTE DOS OLHOS

Foi com este embalo, com esta bagagem, com esta história que Bruce Springsteen chegou a uma nova década e a The River, álbum que acaba de merecer alargada e luxuosa reedição, carregada de extras documentos musicais e também vídeo que ilustram bem a abordagem meticulosa que este artista sempre teve à criação de novos trabalhos. O sucessor de Darkness... deveria ter aparecido nas lojas em 1979 com o título The Ties That Bind, mas Bruce sentiu que o seu novo trabalho teria quer refletir os novos e difíceis tempos em que a América estava imersa. Citado por Dave Marsh na «biografia definitiva» Two Hearts, Springsteen justifica a opção tomada então de atrasar a edição do disco e de lhe acrescentar mais material: «o rock foi sempre esta alegria, um certo tipo de felicidade que à sua maneira é a coisa mais bela que a vida nos oferece. Mas o rock também é sobre a dureza e a frieza da vida, a solidão... finalmente tinha chegado ao ponto em que percebi que a vida tem muitos paradoxos e que é preciso viver com eles». De facto, o alinhamento final de The River, que acabou por ser lançado em formato de álbum duplo, equilibra temas declaradamente rock que parecem ter sido concebidos para soarem bem na jukebox numa barulhenta sexta feira à noite (como «Ramrod» ou «I'm a Rocker» ou até o single «Hungry Heart», escrito originalmente a pensar nos Ramones) e baladas mais torturadas que parecem evocar igualmente as sextas à noite, mas as dos que ficaram em casa atormentados pela vida («Fade Away» ou «The Price You Pay» são bons exemplos).

Com Roy Bittan (teclados), Clarence Clemons (saxofone), Danny Federici (mais teclados), Garry Talent (baixo), Max Weinberg (bateria) e, claro, Steve Van Zandt (guitarras e vozes de apoio), Bruce Springsteen contava com uma E Street Band em topo de forma, oleada por incontáveis horas de concertos que eram autênticas maratonas pela história da música popular.

Não é de estranhar que tanto Jon Landau como Tony Parsons tivessem recorrido à mesma imagem «a vida a passar diante dos olhos» para descreverem a experiência de um concerto do homem de Born to Run. No novo álbum, Bruce percorria o caminho entre a pop «byrdsiana» da faixa de abertura «The Ties That Bind» (que parecia dever quase tudo ao «guitarrismo» de Roger McGuinn), o sincretismo rhythm n' blues dos Funk Brothers de serviço à Motown em temas como «Two Hearts» e as visões folk tingidas pela Irlanda de Van Morrison em «Independence Day». E ainda nem saímos do lado A do vinil duplo original. Como os Beatles no Cavern de Hamburgo, Bruce Springsteen fez do palco a sua sala de estudo da história do rock, absorvendo Bob Dylan, Van Morrison, os Beatles, claro, e ainda Neil Young e Robbie Robbertson, mas também o rock'n'roll de Roy Orbison e Elvis Presley, a Stax de Otis Redding e Wilson Pickett, a Motown de Smokey Robinson e das Marvelettes e até a tradição de Jersey Boys como Sinatra ou Franki Valli.

Do extraordinário alinhamento de The River, espraiado por quatro lados de um álbum de vinil, saíram muitas das ideias que suportaram o futuro de Bruce Springsteen (e não só). Em palco, em 2009, Bruce abordou essa questão antes de se atirar a algumas das canções desse álbum clássico: «The River foi um disco que funcionou como uma espécie de rampa para muitas das coisas que escreveria depois. Foi um disco que fizemos depois de Darkness on the Edge of Town. Foi um disco feito durante uma recessão tempos difíceis na América. O tema título é de uma canção que escrevi para o meu cunhado e para a minha irmã. O meu cunhado trabalhava na construção civil, perdeu o emprego e teve muitas dificuldades no fim dos anos 70, tal como tantas pessoas têm hoje. Foi o disco em que comecei a falar realmente de homens e mulheres e de casamento. E continha certas canções que deram origem a álbuns inteiros mais tarde: "The River" de certa maneira desembocou em Nebraska, "Stolen Car" levou à escrita de Tunnel of Love. E originalmente era um álbum simples. Entreguei-o à editora como um álbum simples, mas retirei-o depois por não achar que fosse suficientemente grande.

Queria também abordar temas sobre os quais tinha escrito em Darkness... Queria manter aquelas personagens comigo e ao mesmo tempo acrescentei canções que fizeram do nosso concerto uma experiência divertida e feliz para a nossa audiência».

Na verdade, além de inspirarem alguns dos seus álbuns posteriores, algumas das canções de Bruce influenciaram de forma decisiva carreiras inteiras: o que seria de John Cougar Mellencamp sem «Cadillac Ranch», por exemplo? Bruce tornou-se um modelo, e não apenas para alguns dos seus pares, mas para uma classe americana trabalhadora que se habituou não apenas à gloriosa manhã americana profetizada por Ronald Reagan, mas às negras e frias noites impostas por adversas condições económicas, por acontecimentos como o 11 de setembro, por grandes crises económicas como a que se seguiu ao colapso da Lehman Brothers em 2009, precisamente o momento em que Bruce decidiu em palco voltar a evocar as canções de The River.

E este álbum de 1980 é, antes de mais, marcado pelo seu extraordinário tema título, misto de retrato geracional e programa de pensamento político que Ronald Reagan pode não ter compreendido inteiramente: «I come from down in the valley / Where mister when you're young /They bring you up to do like your daddy done». A condição social como uma prisão de que parece não haver escape possível. «And for my nineteenth birthday I got a union card and / a wedding coat». Sem direito a sorrisos, flores ou vestido de noiva, sublinha Springsteen antes de «pintar mais uma cena»: «I got a job working construction for the Johnstown Company / But lately there ain't been much work on account of the economy». Não é Yeats, como sublinhou Andrew Mueller na Uncut verdade, mas é de uma cativante e crua honestidade. Em 1981, em conversa com Paolo Hewitt no Melody Maker, Bruce Springsteen explicou toda a sua ética: «Não te corrompes quando fazes a tua primeira viagem numa limusine.

Acontece antes aqui». Hewitt refere que Bruce Springsteen aponta para o coração e volta a entregar-lhe a palavra: «muito boa gente com algo a dizer caiu nessa armadilha. É quando se engorda e se perde a fome. É nesse momento que se percebe que a corrupção se instalou».

Bruce Springsteen permanece uma voz vital da América, uma voz que nunca se esqueceu dos retratos-lições que desenhou numa era especial sobre a qual se assinala agora a passagem de três décadas e meia com uma monumental reedição que faz justiça a uma obra não apenas com todo o material então gravado que se possa imaginar, mas também com imagens de arquivo de Bruce Springsteen em palco e um novo filme, The Ties That Bind, onde o artista conta a sua história, na primeira pessoa: «não tínhamos nenhumas regras», explica Bruce no filme. «Tive que mergulhar na selva de novo sem saber se conseguiria chegar onde queria». Chegou. O rio do tempo é grande, mas não tão grande que chegue para impedir Bruce Springsteen de chegar onde mais importa. Aos ouvidos e sobretudo aos corações das várias gerações que tocou com a sua música.

Originalmente publicado na BLITZ de janeiro de 2016