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Radiohead - "A Moon Shaped Pool"

“A Moon Shaped Pool”, Radiohead. As primeiras impressões

Nono registo de estúdio da banda britânica foi ontem editado e traz com ele algumas reviravoltas… Radiohead a serem Radiohead, portanto

Após cinco anos de intervalo, os Radiohead regressaram com um novo álbum de estúdio, A Moon Shaped Pool, e vêm muito bem acompanhados pela London Contemporary Orchestra. O sucessor de The King of Limbs foi ontem editado digitalmente e é composto por 11 “novas” canções. “Novas” porque várias delas acompanham a banda há vários anos sem nunca terem sido editadas oficialmente (destaque para a velhinha “True Love Waits”, incluída no registo ao vivo I Might Be Wrong, de 2001, mas nunca apresentada em versão de estúdio). Aqui ficam as primeiras impressões.

“Burn the Witch”
Não é de estranhar que “Burn the Witch”, primeiro tema a ser tornado público de A Moon Shaped Pool, nos atire para os tempos de Hail to the Thief. Além do conteúdo politizado – e nunca os Radiohead foram tão assumidamente políticos quanto em Hail to the Thief – a canção chegou a ser trabalhada para esse álbum (bem como para Kid A e In Rainbows) mas acabou por não ser incluída nele. É uma das aberturas mais grandiosas de um álbum dos Radiohead, privilegiando a faceta orquestral sem colocar de lado os ambientes sintetizados. Inquietante.

“Daydreaming”
Belíssimo momento de proximidade com a voz de Thom Yorke, “Daydreaming” segue, com as suas teclas em espiral e registo quase sussurrado, num caminho que a banda já percorrera – sem que isso lhe retire qualquer valor – em temas como “Exit Music (for a Film)”, “How to Disappear Completely”, “Fog” ou “Videotape”.

“Decks Dark”
Sombrio, minimalista, “Decks Dark” vai seguindo em crescendo, apoiada sempre numa interpretação hipnotizante de Yorke.

“Desert Island Disk”
E os Radiohead voltam a encontrar-se com a guitarra acústica. “Desert Island Disk”, apesar de algo inesperado, é mais um momento íntimo e provavelmente um daqueles que serão revistos na passagem para palco.

“Ful Stop”
“Ful Stop” é, junto com “Daydreaming”, uma das faixas mais longas de A Moon Shaped Pool e também uma das mais densas. A longa introdução, com a sua batida e ambiente fantasmagóricos, parece transportar-nos para um filme de terror (ou para a banda sonora de Irreversível, filme de 2002 do realizador Gaspar Noé). Menos orgânicos aqui.

“Glass Eyes”
Mantêm o registo cinematográfico, com as teclas e as cordas de “Glass Eyes” a ganharem uma dimensão onírica, quase como uma continuação de “Daydreaming”.

“Identikit”
Apresentada ao vivo durante a digressão de The King of Limbs, “Identikit” é um dos pontos altos de A Moon Shaped Pool. Irrequieta, desconcertante, vive de uma das prestações vocais mais inspiradas de Thom Yorke. A mudança de ambientes é constante, quase como uma versão “amansada” de “Paranoid Android”.

“The Numbers”
Não são precisas grandes matemáticas para perceber que “The Numbers” são os Radiohead a reciclarem-se. Anteriormente conhecida como “Silent Spring”, é uma das faixas com mais “recheio” instrumental e também uma das que mais pontes faz com os vários passados da banda.

“Present Tense”
O gingar exótico, e algo inesperado, de “Present Tense” transforma a canção que Yorke apresentou aos fãs em 2013, com uma performance à guitarra acústica, num dos momentos mais intrigantes do álbum.

“Tinker Tailor Soldier Sailor Rich Man Poor Man Beggar Man Thief”
A associação de termos do título terá certamente uma explicação, mas o ambiente sufocante que se respira aqui não deixa grande margem para o pensamento.

“True Love Waits”
Talvez nunca venham a explicar a verdadeira razão pela qual resolveram só agora incluir num álbum uma canção que trazem consigo desde os anos 90 (embora o facto de Yorke se ter separado, no ano passado, da companheira de 23 anos possa ter algo a ver com o assunto), mas a espera valeu a pena? Valeu. “Just don’t leave/don’t leave”, o verso que tornou “True Love Waits” na canção de todas as canções de separação só poderia vir embrulhado numa simplicidade instrumental que ajuda a ampliar a emoção.

É óbvio que se torna impossível dizer, com tão pouco distanciamento, aquilo em que se transformará A Moon Shaped Pool na discografia dos Radiohead, mas com apenas poucas horas de audições o que podemos afirmar é que a banda continua fiel a si própria e a fazer o que sempre fez bem. E o que faz bem, seja em registo mais eletrónico ou mais orgânico, é muito perto de tudo.