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O que realmente interessa no concerto dos AC/DC

A estreia mundial de Axl Rose como vocalista dos AC/DC acontece amanhã em Algés. É um concerto de “alto risco” que tem tudo para ficar na história. Pelas melhores ou piores razões. Até porque podem cair raios e coriscos

1. Axl Rose. Para uma “minoria barulhenta” ele pode ser um impostor. O homem que permitiu o despedimento de Brian Johnson. O rapaz dos calções de licra. O cantor que fez fitas com os Guns N’Roses em Alvalade, ainda que há mais de vinte anos. Ora bem, o contexto agora é outro. E vale a pena começar pelas coisas pequenas. Axl Rose vai cantar sentado, como fez nos últimos concertos dos Guns N’Roses devido a uma fratura no pé? Tudo indica que sim. Mesmo que já não ande de cadeira de rodas, no vídeo que ontem foi disponibilizado e que, pela primeira vez, mostrava o vocalista dos Guns N’Roses ao lado de Angus Young e Cliff Williams dos AC/DC, era bem visível a tala que ainda está a usar. Isso quer dizer que não se deve esperar um animal no palco montado no Passeio Marítimo de Algés.

2. O reportório. As comparações entre Axl Rose e Brian Johnson, o anterior vocalista dos AC/DC alegadamente substituído por surdez, serão inevitáveis. A prestação vocal de Axl estará, por isso, debaixo de um minucioso exame por parte de uma plateia que nasceu, cresceu e viveu a ouvir álbuns como “Back in Black”, um dos vinte discos mais vendidos de sempre. O próprio Axl disse, em entrevista à BBC feita em Lisboa e hoje tornada pública” que são essas as canções que vão dar mais luta. A prova oral será, certamente e por essas razões, inevitável e rigorosa.

A BLITZ anunciou em primeira mão que também serão interpretados temas clássicos como “Thunderstruck”, “Highway to Hell”, “Back in Black”, “Rock or Bust” (que dá título a esta digressão de doze datas na Europa), “(For Those About To Rock) We Salute You” e “Riff Raff”, uma novidade dado que a canção do álbum “Powerage” não é interpretada ao vivo pelos AC/DC desde 1979. Mas as gravações que fãs efetuaram à porta do estúdio Smiling, onde os AC/DC estão a ensaiar permitiam ouvir outros temas ainda como "Hell Ain't a Bad Place To Be" e "Shoot To Thrill". Antevê-se um alinhamento cheio de clássicos, portanto, até porque nove já estão garantidos.

A responsabilidade é notória e por isso os AC/DC e Axl Rose estão desde há quinze dias em Lisboa, nos estúdios Smiling ao Parque das Nações, a ensaiar para o primeiro dia do resto das suas vidas.

3. A produção. Os espectáculos dos AC/DC são conhecidos pelas suas proporções épicas. Em Portugal, no Estádio do Restelo e, sobretudo, em Alvalade em junho de 2009, foi possível a assistir a uma grandiosas “mise en scène” que em muito ultrapassam a dimensão meramente musical mas que transformam cada concerto numa experiência inolvidável para os fãs. O comboio que invadia o palco, da última vez que estiveram em Portugal, ficou na memória dos mais de quarenta mil espectadores. Amanhã, de acordo com informação prestada pela promotora do evento, a Everything Is New, ainda antes de anunciada a possibilidade de devolução do valor dos bilhetes, estarão em Algés cerca de sessenta mil espectadores. Será certamente um dos maiores espectáculos alguma vez realizados em Portugal, a par de Madonna no Parque da Bela Vista, e já se sabe que o palco terá a forma do boné do guitarrista Angus Young com os respetivos corninhos que são a sua imagem de marca.

Há porém um convidado-surpresa. Os boletins meteorológicos antecipam um vendaval em Algés quando os AC/DC estiverem em palco. Chuva e rajadas de vento que podem chegar aos 50 km/h são anunciadas em sites como o Accuweather, o que tornará esta estreia mundial numa cerimónia benzida por São Pedro. Perante a eminência de tais condições meteorológicas, a organização está a considerar a oferta de capas que suavizem o contacto com os elementos. Até porque é proibido entrar no recinto com guarda-chuva.

4. Os media. O facto de este ser o primeiro concerto da digressão dos AC/DC com Axl Rose está a causar algum frisson nos media internacionais. Bernard Doherty, responsável pela comunicação de alguns dos maiores artistas do mundo, tendo acompanhado David Bowie na época de "Let’s Dance", Paul McCartney ou os Rolling Stones está em Lisboa a gerir os acontecimentos. Ontem, os sites dos principais títulos de música como a “Billboard”, “Rolling Stone” ou “NME” publicaram declarações a garantir que tudo estava a postos para o arranque da digressão. Roger Sargent, um dos fotógrafos britânicos mais conceituados nos meandros da música também esteve em Lisboa para fazer a primeira fotografia oficial dos AC/DC com Axl Rose. A BBC entrevistou Angus Young e o novo vocalista dos AC/DC que está empenhado em mostrar que mudou de atitude desde o fatídico concerto de Alvalade: Axl Rose tem oferecido autógrafos em Lisboa, demonstrando uma simpatia em que muitos não acreditavam. A organização diz que estão acreditados 32 jornalistas estrangeiros para o primeiro concerto desta manga europeia da digressão "Rock or Bust", aos quais se devem acrescentar mais 60 de nacionalidade portuguesa.

5. O negócio. A faturação do concerto de Lisboa aproxima-se perigosamente dos quatro milhões de euros. Claro que nem todo o dinheiro vai para a banda. Logo à partida é necessário descontar o IVA e a remuneração de muitos outros intervenientes. Mas esse valor é importante para dar a noção do que representa, financeiramente falando, uma digressão como esta. Se aceitarmos o pressuposto de que são semelhantes os valores envolvidos nos outros onze espectáculos que compõem a tounée "Rock or Bust" estaremos a falar de um total de 46,8 milhões de euros. Fica claro que, perante a impossibilidade de Brian Johnson atuar, seria um sarilho dos diabos cancelar toda a digressão.

Angus Young em Coachella com os Guns N' Roses

Angus Young em Coachella com os Guns N' Roses

Getty Images

6. Os AC/DC. Esta é, muito provavelmente, a última digressão dos AC/DC. A banda tem sido fustigada nos últimos tempos por acontecimentos vários que indiciam o fim. O baterista Phil Rudd foi preso por possível envolvimento num homicídio. O segundo guitarrista, Malcolm Young, irmão de Angus Young, foi também obrigado a abandonar devido a doença do foro psíquico. O mesmo sucedeu com o vocalista Brian Johnson, agora por surdez, que nas vésperas da edição de “Back in Black” conseguiu a proeza de ser um dos poucos vocalista a ser bem sucedido na substituição do seu antecessor Bon Scott, que morreu depois de uma noite de bebedeira. O próprio Angus Young, hoje considerado o dono indisputável dos AC/DC, já leva 61 primaveras, pouco se comparado com outras estrelas vetustas do grande circo do rock’n’roll mas considerável se contarmos a energia despendida em cada atuação. Cancelar a digressão seria por isso um enorme falhanço para uma banda com a história dos AC/DC. A substituição do vocalista seria sempre um risco. E optar por um cantor de alto perfil como Axl Rose tanto pode ser considerado uma manobra fraudulenta (caso não fosse permitida a devolução do preço dos bilhetes) como uma jogada de enorme astúcia. Pior seria se fosse escolhido um ilustre desconhecido. Não é crível, contudo, que Axl volte a atuar com os AC/DC.

7. Os Guns N’Roses. Se Angus Young é o CEO dos AC/DC, Axl Rose é o chairman dos Guns N’Roses. O anúncio do regresso da sua formação clássica, com Slash e Duff McKagan, gerou tanta ou mais controvérsia que a sua entrada na formação da banda de “Highway to Hell”. Tanto que a parada subiu para valores astronómicos: foram vários os títulos que referiram que o seu cachet para duas atuações no festival de Coachella rondava os oito milhões de dólares. Existia e ainda existe, porém, um senão. Axl Rose tem que convencer os promotores de concertos de todo o mundo de que o seu comportamento errante que o levava a fazer birras e a chegar atrasado aos concertos, por exemplo, foi alterado. Hoje está confirmada uma digressão de 25 datas dos Guns N’Roses na América, mas o projeto de Axl Rose é, certamente, conquistar os promotores de concertos de todo o mundo de maneira a capitalizar ao máximo esta reunião da formação clássica dos Guns N’Roses. A oportunidade de mostrar, agora, o seu comportamento é o de “bom aluno” surgiu quando os AC/DC perderam o seu vocalista. Axl está claramente em campanha para poder protagonizar com os Guns N’Roses uma das maiores digressões mundiais de sempre. Por isso ele não pode falhar. De contrário – e no admirável mundo velho do rock’n’roll tudo pode acontecer – ele destruirá definitivamente a sua reputação e levará para esse abismo a lendária história dos AC/DC. Por isso o concerto de amanhã tem tudo para ser histórico.