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Em mais de 40 anos, nada e ninguém conseguiu parar os AC/DC

Andam há mais de 40 anos a pregar os ensinamentos do rock and roll. Hoje vêm a Portugal para um dos concertos mais aguardados de 2016. Olhamos em detalhe para os segredos da longevidade destes dinossauros australianos

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Em novembro de 2014, a BLITZ rumou a Düsseldorf, uma discreta cidade alemã, ao encontro dos AC/DC. Na altura, Rock or Bust, o17º álbum dos australianos, ainda não tinha sido lançado sê-lo-ia poucas semanas depois, chegando ao primeiro lugar do top de 12 países e o propósito da viagem era, precisamente, ficar a conhecer o primeiro disco da banda desde Black Ice, de 2009.

Num hotel faustoso, instalado na principal avenida de Düsseldorf, encontrámos assim Cliff Williams, baixista dos AC/DC desde 1977, e Angus Young, um dos fundadores do grupo e ainda hoje o seu símbolo maior.

Foi quando o guitarrista escocês, nascido em Glasgow em março de 1955, entrou na sala de entrevistas que a nossa incredulidade disparou em flecha. Curvado sobre si mesmo, e sem o tradicional uniforme escolar ou chapéu a condizer, Angus Young chegou com uma chávena fumegante a aquecer as mãos e o passo ponderado de um autêntico ancião.

Como poderia este homem lançar-se, com os demais sobreviventes dos AC/DC, numa nova digressão mundial? E no entanto, mais de um ano depois, cá estamos para falar sobre a Rock or Bust World Tour, a digressão que arrancou em abril do ano passado, no festival de Coachella, e chega a Portugal em maio, para um concerto no Passeio Marítimo de Algés, em Oeiras.

Numa era em que o chamado indie domina muito dos cartazes de festivais, e em que estes, por seu turno, são reis e senhores do panorama da música ao vivo, é provável que o fã de rock, na sua aceção mais pura e dura, sinta saudades de um concerto «à antiga».

Um concerto em que a sua banda predileta não tenha de partilhar tempo de palco com outros grupos, e em que a massa humana tenha as atenções concentradas no que (lhes) interessa: as canções de uma vida, debitadas no volume máximo que um recinto como um estádio exige e permite. Em Portugal, os AC/DC darão o primeiro concerto de uma digressão europeia de 12 datas, que passará sobretudo por estádios de futebol. Por cá, a escolha recaiu sobre o Passeio Marítimo de Algés, que nos habituámos a ver como casa do festival NOS Alive. A capacidade não ficará, contudo, aquém da da maioria dos estádios: segundo revelou à BLITZ a Everything is New, promotora do espetáculo, foram vendidos para o concerto dos AC/DC 60 mil bilhetes.

20 por cento destas entradas seguiram para compradores fora de Portugal, o que poderá dever-se ao facto de a digressão de Rock or Bust contemplar apenas um concerto em Espanha (em Sevilha, a 10 de maio) e um em França (em Marselha, no dia 13), antes de seguir para paragens mais a norte.

Muitos dos fãs latinos dos AC/DC irão, assim, convergir em Algés, no início de maio, para um espetáculo que marca o retomar da digressão, depois de terminada a fase norte-americana da mesma, em abril.

Angus Young, o "motor" dos AC/DC

Angus Young, o "motor" dos AC/DC

O SHOW DE ANGUS YOUNG
​O que esperar, então, de um concerto de AC/DC em 2016? Se tudo se mantiver como até agora, um alinhamento carregado de clássicos, com apenas três temas retirados do mais recente Rock or Bust: o tema-título, «Play Blall», primeiro e bem-sucedido single do álbum, e «Baptism By Fire». A pirotecnia deverá estar omnipresente, bem como as personagens típicas do imaginário da banda. Conta o britânico The Guardian, depois de assistir a um concerto em Sydney: «Os alinhamentos não mudam muito de digressão para digressão por uma razão simples: se a máquina funciona, só um idiota tentaria consertá-la. E isso fica claro com as três últimas canções, quase todas gravadas há 40 anos: "TNT" (acompanhada, naturalmente, por explosões), "Whole Lotta Rosie" (com a gigantesca Rosie insuflável no fundo do palco) e a frenética "Let There Be Rock" (pontuada por vídeos de vários pedaços da iconografia dos AC/DC)». Ainda sobre o espetáculo de palco dos dinossauros, notava o repórter: «Coisas que pareceriam exageradas ou simplesmente patetas nas mãos de outra banda tornam-se perfeitamente razoáveis», referindo-se a «mulheres insufláveis, sinos gigantes e canhões» em palco e aos corninhos de diabo do merchandising.

Musicalmente, a missão dos AC/DC bombardear o público com clássicos do rock, de «Back in Black» a «Highway To Hell», passando por «Thunderstruck» ou «You Shook Me All Night Long» não é dificultada pela turbulência que atingiu a banda nos últimos anos. Na bateria, Chris Slade, que já tocara com os australianos entre 1989 e 1994, foi novamente recrutado para se sentar atrás da bateria, substituindo Phil Rudd. Foi no dia em que a BLITZ viajou para Düsseldorf, de resto, que a detenção do neozelandês foi noticiada, sendo a imprensa avisada que Angus Young e Cliff Williams não responderiam a perguntas sobre o seu companheiro. Atualmente a cumprir oito meses de prisão domiciliária por ameaças de morte e posse de droga, o baterista que começou por acompanhar os AC/DC em 1975 tem repetido querer voltar ao seu grupo de sempre, mas os seus antigos comparsas parecem ter-lhe fechado a porta de vez.

Também Malcolm Young, irmão mais novo de Angus, não voltará à banda que, em 1973, ajudou a fundar; em 2014, e depois de vencer um cancro no pulmão, o guitarra-ritmo foi obrigado a afastar-se da música, por ter sido internado com demência. Stevie Young, o seu sobrinho, substituiu-o, e o tio Angus disse à BLITZ que praticamente nem dá pela diferença. «Comecei a tocar com o Malcolm e sei que ele tem um estilo muito singular. Eu punha-me a imitá-lo, e ele dizia-me: sim, está parecido, mas não é a mesma coisa! E quando o Stevie se juntava a mim e ao Malcolm, eles pareciam gémeos, porque tocavam da mesma maneira».

Voltando à reportagem do Guardian, os AC/DC conseguem, ainda assim, levar ao rubro uma plateia de dezenas de milhares de melómanos porque o seu concerto é, em rigor, «o show de Angus Young. Até o afável frontman Brian Johnson sabe qual é o seu lugar. Vestido de preto como o resto dos outros músicos, tem a mesma rotina em todas as canções: canta um pouco, depois afasta-se para dar espaço ao homem pequenino de uniforme escolar vermelho e à sua Gibson SG. Os AC/DC são o espetáculo do Angus Young, e que espetáculo», argumenta o jornalista. «Aos 60 anos, ainda faz o seu andar de pato à Chuck Berry, ainda se atira para o chão como uma criança a fazer birra e, claro, ainda faz um belo solo de guitarra de dez minutos».

Outro dos trunfos dos veteranos reside, diz a Rolling Stone, na sua capacidade de jogar com as escalas. Sobre um concerto de 2015, escreveu a revista norte-americana: «Graças à forma económica como os AC/DC os empregam, os blocos de que são feitas "Have a Drink in Me" ou "You Shook Me All Night Long" podem ser ampliados de tal forma que tanto funcionam num estádio com 68 mil pessoas como num bar apinhado de gente». E deverá ser assim, graças a este profissionalismo à prova de bala e a uma carteira de êxitos como poucas bandas podem ostentar, que a 7 de maio o Passeio Marítimo de Algés celebrará o rock sulfuroso dos AC/DC. Com corninhos de diabo e tudo.

Originalmente publicado na BLITZ de dezembro de 2014, quando Brian Johnson era ainda o vocalista da banda