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Alison Mosshart, dos The Kills: “Adoro tudo o que não percebo”

Em 2012, Alison Mosshart falou com a BLITZ enquanto os Radiohead tocavam para 50 mil pessoas, no festival Alive. Agora que os Kills anunciaram um novo concerto em Portugal, recorde aqui essa entrevista

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

No mesmo dia em que os Radiohead levaram 50 mil pessoas a Algés, a dupla The Kills virou o palco secundário do Optimus Alive'12 do avesso. À conversa nos bastidores com Lia Pereira, Alison Mosshart, vocalista e agitadora-mor, partilha fragilidades e obsessões (os protetores solares são uma delas).

Sei que não gosta de tocar em festivais de verão. Como é que consegue dar a volta ao texto?
Não aprecio muito, não. Estou a ver se aprendo a adorar festivais, mas o problema é que não gosto de lama, nem de calor, nem de tocar durante o dia. Isso são coisas frequentes nos festivais. Mas neste verão acho que nunca tocámos durante o dia, e o tempo tem estado perfeito em todo o lado a que vamos, todos os dias, por isso estou a adorar. Já me aconteceu algumas vezes desmaiar por causa do calor. É uma treta: tens de abandonar o palco a meio do concerto e os teus fãs ficam todos chateados e nem sequer podes explicar-lhes o que aconteceu, porque desmaiaste. Tento sempre evitar que isso aconteça, para que as pessoas não fiquem desiludidas as pessoas e eu própria. Fico muito desapontada se não conseguir dar o concerto.

Onde é que nasceu?
Na Florida [estado norte-americano].

E isso não é muito quente?
Incrivelmente quente. E foi muito mau. Desde cedo percebi que não ia aguentar. Por isso, mal tive oportunidade, mudei-me para Londres, onde nunca faz sol! (risos) É perfeito. Mas a América é espetacular no que toca a protetores solares, vais a uma loja e tens 50 mil protetores solares à escolha! Estou naquele corredor da loja como quem está de férias! E descobri uma cena espetacular para miúdos: um spray fator 110 com o qual podes besuntar o teu corpo todo! Mal acordo de manhã ponho o spray por mim abaixo! Para a cara uso outros produtos, mas aquele é fabuloso. Os cientistas americanos devem ter andado muito ocupados no departamento dos protetores solares! (risos) Criaram ali uns belos produtos. Oxalá eu não morra de cancro, por andar espalhar este spray pelos meus poros, todos os dias - mas no verão ajuda-me muito.

Atualmente vive em Londres, certo?
Vivo entre Londres e Nashville [nos Estados Unidos]; divido casa com um amigo em Nashville, por isso tento passar lá o máximo de tempo que consigo, mas nos últimos quatro meses só consegui estar lá oito dias.

Viver em Londres ajuda-a a estar em contacto com o seu parceiro de banda, Jamie Hince? Não era estranho que, no começo dos Kills, ele vivesse em Inglaterra e a Alison nos Estados Unidos?
Era pouco comum, mas nós éramos ambos estudantes de artes: adorávamos ler, fazer coisas artísticas e enviá-las um ao outro, por isso, para nós, viver em continentes diferentes não era assim tão invulgar. Na noite de passagem de ano, no ano 2000, tornámo-nos uma banda a sério, e demos o nosso primeiro concerto em 2002. Até lá, dedicámo-nos sobretudo às artes, quer fosse música, desenhar, pintar, tirar fotos, escrever... e estávamos bastante satisfeitos. Ao longo do tempo é que a coisa foi evoluindo. Tínhamos gravações que achámos que as pessoas deviam ouvir, mas nem sequer as mostrámos a ninguém. Estávamos a tocar no andar de cima do apartamento do Jamie e um amigo, lá em baixo, ouviu as canções e pediu uma cópia. E depois foi pô-las a tocar na loja da Rough Trade, onde trabalhava, e as pessoas iam entrando e ouvindo. Uma das pessoas que entraram foi o Laurence [Bell, fundador] da Domino, que perguntou que música era aquela. Nós não fizemos de propósito (risos), mas pouco a pouco começou a haver uma necessidade de tocar. Esta é uma daquelas histórias falsas que se ouve sempre sobre as bandas, só que esta aconteceu mesmo (risos).

E conhecer o Jamie Hince também acabou por mudar completamente o rumo da sua vida?
Ai, isso foi mesmo coisa do destino. É daquelas coisas que não podes fazer de propósito. Mal o conheci, soube [que íamos ficar juntos]. Ele assustou-me de morte, era uma pessoa tão interessante e tão fixe. Soube que havíamos de fazer qualquer coisa juntos... mesmo que nem conseguisse falar. Acho que durante os primeiros dois anos, não consegui dizer-lhe nada! (risos) Era uma loucura: sentia uma admiração de tal ordem por ele... Era uma adolescente e respeitava-o muito. Queria muito impressioná-lo e fazia de tudo para consegui-lo: nem sabia como... Eu queria muito escrever as minhas próprias canções, mas também não sabia por onde começar, e ele ajudou-me muito, emprestando-me um gravador de quatro pistas. Foi a primeira pessoa a quem eu mostrei alguma coisa que tivesse gravado sozinha. E eis-nos aqui, agora.

Mas sentia-se intimidade por ele, como se ele fosse uma grande estrela?
Não, não era nada disso. Sabes que, na nossa vida, conhecemos pessoas que, no fundo, sabemos que são como nós, mas desenvolveram-se mais. Ou que estão num certo caminho que tu percebes perfeitamente, e no qual também querias muito estar. Sabes que tens muito a aprender com aquela pessoa. E o passo seguinte é tentar que isso aconteça. Sabes que aquela é a pessoa que pode responder às tuas perguntas e ele era assim. Nessa altura já tinha tocado com várias bandas e andado em digressão com muita gente, mas o Jamie foi aquela pessoa que, quando o conheci, me fez pensar: é ele.

E quando chegou a Londres tão novinha, vinda dos Estados Unidos, apaixonou-se logo pela cidade?
Eu adoro tudo o que não perceba completamente. Não posso dizer que tenha adorado Londres, porque não tinha grande ligação com Londres. Adorava o facto de não perceber o que se passava, e adorava o facto de [a cidade] ser completamente diferente do sítio de onde vinha: essas duas coisas excitavam-me. Eu ter mil perguntas e não saber onde hei de ir, nem o que fazer: isso entusiasma-me e inspira-me. Porque quando estás a tentar orientar-te, o teu cérebro funciona a mil à hora. Estava sempre a ter ideias, e é nestas situações, quando não tens dinheiro ou sítio para ir, que te safas melhor, porque interiorizas isso e começas a criar o teu próprio ambiente, o teu próprio mundo. Começas a criar algo que é seguro, como uma casa, mas ao mesmo tempo criativo. Tentas reagir a uma situação que não conheces. Portanto, se conheces uns estranhos, tentas logo impressioná-los e envolver-te com eles, criando algo e contribuindo de alguma forma. É bom, porque não tens uma «zona de conforto». E isso é muito positivo, porque os artistas geralmente são atraídos por essa situação, para manterem os cérebros ativos. Logo, vivo em Londres há muito tempo, mas não adoro Londres, é só uma cidade grande como outra qualquer, com todos os problemas e coisas irritantes de uma cidade grande. É muito cara. É um pesadelo! Tem o seu encanto, que é cada vez mais difícil de encontrar, à medida que vives lá há mais tempo. Mas eu tenho sorte de poder andar sempre por todo o mundo, não estou presa em lado nenhum. Não gosto de estar presa em lado nenhum por mais de 24 horas (risos).

É conhecida pela sua ferocidade em palco. Sempre foi assim?
Quando comecei a fazer música, não sei se já era feroz [em palco] ou não, mas lembro-me dos cinco primeiros concertos que dei. No primeiro fiquei sempre atrás de um poste enorme, nem olhava para além dele. No segundo estive sempre de costas para o público, no terceiro provavelmente a mesma coisa. Cheiinha de medo! Lembro-me de ensaiar, com 14 anos, e de ter medo de estar na mesma garagem que o resto da banda: arrastava o cabo do microfone por baixo da porta da garagem, até à casa, para poder cantar lá dentro, sem ninguém olhar para mim! Isso mudou, claro, já me passou (risos). A cada concerto vais ganhando confiança, se bem que alguns deitam-te abaixo e perdes confiança. Quando as coisas não correm bem, pensas que não sabes o que estás a fazer. Mas é por isso que tocar ao vivo é tão excitante: todas as noites é diferente! Há noites em que sinto que estou a caminhar sobre a água, noutras estou super-consciente das minhas pernas e de tudo, e fico muito assoberbada com isso. O que é estranho é que já ninguém nota. Porque saio de palco e sinto que se calhar dei um mau concerto e as pessoas dizem que não repararam; se calhar é porque não são músicos, ou nunca fizeram isto, porque eu sinto que consigo notar quando um músico está a ter um dia desses. Mesmo que o público esteja todo maluco, eu percebo, é uma coisa um bocado esquisita. Mas é o meu trabalho, é isto que faço todos os dias. Às vezes percebo que o artista nem sabe onde está: quando dás centenas de concertos, por vezes estás num planeta completamente diferente.

Publicado originalmente na BLITZ 76, de outubro de 2012