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Beyoncé nunca foi menina de coro

Em 2006, a BLITZ foi até Londres entrevistar Beyoncé, na altura a apresentar o novo B'Day. Recorde aqui essa conversa exclusiva com a cantora que esta semana lançou de surpresa Lemonade

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Cantora, actriz e empresária, Beyoncé Knowles é uma das artistas mais completas e bem sucedidas do século XXI. Na única entrevista para Portugal [em 2006], a americana conta à BLITZ como B'Day, o novo disco, é uma reação explosiva e intempestiva à participação no filme Dreamgirls. Abram balas para Beyoncé Knowles.

Ela nunca foi menina de coro. Começou por cantar na igreja e limpar todos os concursos de jovens talentos, revelando desde logo voz, determinação e potencial acima da média. Tinha 16 anos quando, com três amigas, pôs em marcha um plano para dominar o mundo: a bordo das Destiny's Child, tornou o r&b uma arma de arremesso global e jogou para a equipa, não deixando de dar nas vistas enquanto estrela em ascensão. O primeiro disco a solo, em 2003, confirmou o seu poderio: enquanto as companheiras de banda se diluíam em mansas baladas, Beyoncé incandescia nas rádios e ecrãs de toda a galáxia com «Crazy In Love», o eloquente primeiro aviso de Dangerously in Love. Cinco Grammys mais tarde, e com as Destiny's Child já devidamente arrumadas na prateleira das bandas defuntas até necessidade em contrário, o mundo é todo dela. A propósito do novo B'Day, a veterana nascida em 1981 conversa com a BLITZ sobre música soul, emancipação feminina e filmes. Vai ser difícil não dar por ela nos próximos meses.

Meados de Agosto em Londres. Um grupo de jornalistas europeus ouve em primeira-mão o segundo álbum a solo de Beyoncé, B'Day. Publicado no dia de aniversário da norte-americana, o sucessor de Dangerously in Love é um conjunto de projécteis soul e funk, com suficiente charme pop para voltar a conquistar os topes que interessam. Há uma balada a fechar «Resentment», algures entre a sofisticação de Mariah Carey e o rústico vinil, mas o grosso de B'Day joga-se noutra liga.

Beyoncé garante que «espontaneidade» é a palavra que melhor define um disco feito à revelia de família e editora, um prolongamento artístico da adrenalina que lhe deu filmar Dreamgirls.

Na adaptação para cinema do musical da Broadway, Beyoncé é Deena, figura principal das Dreamettes, uma banda fictícia que recria os passos e dilemas das Supremes. Em B'Day, a cantora grita aquilo que não pôde dizer enquanto Deena. Beyoncé quis falar para todas as mulheres que se sentem «controladas» nas suas relações e, porque pode, chamou novos e velhos aliados The Neptunes, Rich Harrison, Sean Garrett, Rodney Jerkins e Swizz Beatz para dar som à mensagem. Trabalhou com cada um na sua sala e, passadas três semanas, tinha 25 canções. Tantas quantas as Primaveras que completou no passado dia 4 de setembro.

Num estúdio improvisado no sexto andar de um opulento hotel, no centro de Londres, Beyoncé, o ícone, alternou com Beyoncé, a jovem bem-disposta com sotaque do Texas, na única entrevista para Portugal. Por baixo da maquilhagem em permanente retoque e do brilho das jóias, há uma menina sorridente e disponível. Conseguimos acreditar que tem mesmo 25 anos. Mas não é menos letal por causa disso.

Começou a gravar este disco logo após as filmagens de Dreamgirls. A espontaneidade dessa decisão influenciou o som de B'Day?
Sem dúvida! Durante as filmagens, tive de guardar tanta coisa para mim, porque a personagem era tão controlada e contida. É por isso que, no disco, passo o tempo a gritar e berrar, a cantar notas tão altas, usando a paixão da música soul. É que tinha acabado de passar seis meses a sussurrar! É incrível, porque não planeava fazer um álbum até 2007 e fui para o estúdio só para poder cantar sozinha. No entanto, acabei por não conseguir sair de lá! Estava a gravar três canções por dia. Mas atenção: estou muito feliz com a minha vida. O disco não é autobiográfico. O que acontece é que, por ter encarnado aquela personagem, tive de me libertar de toda a energia contida. A solução que encontrei foi escrever um disco realmente agressivo, com coisas que gostava de poder ter dito. Em B'Day, estou a falar por todas as mulheres que já estiveram em relações onde se sentem controladas. É como a relação que a Deena e o Curtis tinham no Dreamgirls. E é fantástico, porque embora seja um disco agressivo e que te dá força, é também uma celebração porque as canções são muito animadas e fazem-te dançar. Neste momento, sei em que ponto estou e aquilo que sou: é excitante!

Acaba por ser um manifesto, este disco?
Sim, é isso mesmo.

Quando lançou o seu primeiro disco a solo, disse que queria ser vista como uma artista, mais do que como uma estrela pop. Acha que está a conseguir?
Sinto que, enquanto Destiny's Child, fomos sempre respeitadas. Apelávamos às massas, mas fomos sempre ganhando Grammys e recebendo boas críticas. Mas eu sou uma cantora e uma escritora de canções, e adoro música soul, pelo que ser rotulada de «pop» às vezes não me parece assim tão bom (risos). No entanto, hoje em dia, música pop é música popular, é daí que vem a designação. Por isso, na verdade é muito bom poder andar por todo o mundo e ter, ou ser. a linguagem universal que é a música.

Nos últimos anos o R&B teve um crescimento impressionante, em termos de popularidade. Sente-se responsável por esse fenómeno?
Não me sinto responsável, mas penso que as Destiny's Child tiveram muito a ver com isso, sim. Lembro-me de ter 16 anos e ir a estações de rádio, e as pessoas dizerem: «Vocês são as primeiras cantoras R&B a vir cá!». Sobretudo na Alemanha e noutros sítios que não costumavam tocar R&B. Mas se não tivessem sido as Supremes e a Aretha Franklin e todas essas grandes cantoras, ninguém sequer nos daria uma oportunidade, e a nossa música iria tocar apenas em estações de R&B. Como tal, julgo que ajudámos [ao crescimento do R&B], tal como muitos outros fizeram. E naturalmente é excelente fazer parte disso.

A Beyoncé, enquanto figura pública, é também uma influência para muitas jovens em todo o mundo. Como é que lida com isso?
É muito, muito bom saber que podemos inspirar as pessoas, e que algumas mulheres te veem como referência. Saber que podes levá-las a pensar positivo, a procurar o que querem no amor. Por outro lado, eu tenho uma mãe muito forte, que me criou. Embora eu adore o Michael [Jackson] e o Curtis [Mayfield] e muitos outros artistas, não foram eles que me criaram, foi a minha mãe. Acredito que cabe aos pais a responsabilidade de filtrar aquilo que veem [e transmitem aos filhos]. Eu digo sempre: sou uma adulta e sou responsável por aquilo que faço, e agrada-me a ideia de poder inspirar os miúdos mas quem tem de educá-los são os seus pais.

É muito ligada à família, inclusive a nível profissional [o pai, Mathew, gere a carreira da filha, tal como o fez com as Destiny's Child, e a mãe, Tina, acaba de criar uma linha de roupa com Beyoncé]. Consegue imaginar-se a trabalhar sem eles? [o que viria a acontecer]
Oxalá isso nunca seja necessário! (risos) Adoro a minha família, e se algum dia tivesse de escolher entre poder contar com um estilo de management junto da minha família ou outro tipo de assistência, sem dúvida que escolhia a minha família. Mas espero nunca ter de vir a decidir tal coisa. (risos)

Sei que, para promover B'Day ao vivo, formou uma banda só de senhoras.
É verdade. Estou muito entusiasmada, porque há muito tempo que não cantava numa banda só de raparigas, especialmente de música R&B. Era uma coisa que tinha mesmo de tentar fazer. Marquei as audições e estava um pouco receosa, tinha medo de não conseguir escolher todas as raparigas a tempo, porque o meu primeiro concerto era logo dali a uma semana! Mas afinal vim a encontrar uma série de mulheres espetaculares. É muito bom sinal ver estas mulheres todas a tocar os instrumentos, é tão sexy... e elas ajudam-se muito entre si, é ótimo. Sabes aquele estereótipo de que as mulheres não sabem trabalhar juntas? Eu acho que devem! (risos)

Então não há a típica «cat fight» entre elas?
Bem, pelo menos por enquanto. Mas também só estão juntas há um ou dois meses (risos). Eu espero que não venha a haver nada disso!

Estamos a falar de raparigas de que idade?
A idade delas varia. Há uma que tem 20 anos, mas não são todas dessa idade. Vêm de sítios como o Japão ou Houston [a cidade-natal de Beyoncé], de todo o mundo mesmo! É muito excitante de ver!

Com a banda e todo esse aparato, o que podemos esperar da Beyoncé ao vivo?
Os meus concertos são cheios de energia. Sinto que tenho pelo menos que tentar ser uma entertainer. Actuo sempre com uma banda, e os espetáculos têm um grande equilíbrio entre produção e cantar a sério, improvisar a sério. Tenho umas quantas canções com muita dança à mistura, depois paro tudo para fazer uma balada: fico só eu e um foco de luz, eu e os fãs. É uma situação mais íntima e cria ali um certo equilíbrio. O meu espetáculo desperta emoções díspares. É o que gosto mais de fazer: atuar ao vivo!

Acha que as suas performances a tornam diferente de muitas das cantoras R&B, cujos concertos são geralmente muito breves e pouco caprichados?
(Pausa) Não sei, eu sempre me senti muito confortável em palco. Sinto que é verdadeiramente importante cantar ao vivo e ser uma performer e uma artista. É tão bom ver uma nova geração de novos artistas que sabem entreter-te e atuar, como a Christina Aguilera e o Justin Timberlake. É muito excitante.

Quem é a sua maior referência no que toca a atuar ao vivo?
A Tina Turner é o meu maior ídolo. Ela é espetacular: não tem medo de fazer uma careta, não tem medo de ser forte, sabe dançar, tem imensa energia e canta daquela maneira, toda poderosa e linda! É quase como um leão, eu adoro-a!

Voltando ao filme Dreamgirls, desempenhar o papel de Deena Jones despertou a sua curiosidade sobre como seria ser uma estrela da canção há 40 anos?
Sim, foi deveras fascinante para mim, porque quando elas [Supremes] entravam numa sala, tinham uma presença e uma graça que. não quero dizer que era ensaiado, mas era, um pouco! Naquela altura, nos anos 60, uma mulher tinha de ser uma senhora. É incrível ver isso, assim como o racismo e todas as coisas que elas tiveram de suportar. E, durante um segundo, quase que me senti como elas. Quer dizer, estamos em 2006 e já não tenho de lidar com essas coisas pelo menos, não tanto como elas mas foi uma verdadeira loucura, porque parecia que estava mesmo ali. Foi cá uma experiência.

Qual foi a parte mais difícil para si?
Todo o treino que tive de ter. É uma coisa divertida e que me sai com naturalidade, mas ao mesmo tempo é trabalho duro tinha de me certificar que as coisas estavam a sair do «sítio» certo. Todos os dias estudava, trabalhei com o assistente de representação durante meses. e mesmo a preparação emocional foi dura.

O seu segundo disco a solo, B'Day, chegou às lojas no dia do seu 25º aniversário. Qual é o presente ideal para Beyoncé Knowles?
É o disco ter sucesso! Mais nada! (ri e bate com as mãos nos joelhos)

Sente muita pressão em relação a isso?
Sinto pressão sempre que lanço um disco, e já lancei muitos -desta vez não é diferente. Acho que é importante um artista nunca se sentir demasiado confortável ou confiante, porque nunca se sabe o que pode acontecer. Por isso. sinto-me ansiosa e nervosa e excitada mas, ao mesmo tempo, contente e esperançosa e orgulhosa daquilo que fiz.

No começo da carreira da banda, as Destiny's Child foram apoiadas pela Whitney Houston...
Isso é mais um rumor, não foi ela que nos descobriu. Mas disse coisas positivas sobre as Destiny's Child, o que obviamente é muito bom, porque ela é uma lenda.

Ia perguntar-lhe se, tendo a sua família sempre por perto, a Beyoncé estará livre de sucumbir aos mesmos perigos que levaram a Whitney Houston à decadência.
(Pausa) Nós nunca sabemos o dia de amanhã. A única coisa que sei é que sou demasiado nova para dizer o que é que me vai acontecer. A única coisa que posso fazer é continuar a ser uma pessoa positiva, e rodear-me de pessoas honestas.

Com que frequência é que as pessoas se surpreendem com a sua idade?
A toda a hora! Até eu me esqueço da idade que tenho, a sério! (risos)

Se já lhe é possível fazer um balanço da sua carreira: qual o momento mais alto e o mais baixo até agora?
(Pausa) Isso é difícil. Um dos momentos mais altos foi o tempo que passei com as Destiny's Child. Tivemos sete discos consecutivos em número um isso é uma loucura completa! (Pausa) O mais baixo... é difícil apontar o que quer que seja, porque mesmo que na altura sintas que é um ponto baixo, mais tarde percebes que até foi uma lição importante. Não foi nenhuma grande maluqueira, nem nada com que não tenha aprendido ou de que me arrependa.

A Beyoncé é daquelas pessoas para quem olhamos e pensamos: só pode ser uma estrela pop. Consegue imaginar-se a fazer outra coisa?
Bem, eu já faço muito mais do quer ser uma estrela pop. Sou cantora, escritora de canções, bailarina, tenho uma colecão de roupa com a minha mãe, sou atriz... não consigo imaginar é ter tempo para fazer mais alguma coisa (risos). A certa altura, gostaria de ser mãe e esposa. Mas para isso tenho tempo.

Publicado originalmente na BLITZ nº4, de outubro de 2006