Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Notícias

Prince: à maneira dele

38 anos na companhia de Prince, um revolucionário que não era homem nem mulher; era uma coisa que nunca ninguém compreenderá, escreve Jorge Lopes

"Produced, Arranged, Composed and Performed by Prince.” Pega-se em praticamente qualquer álbum de Prince publicado entre 1978 e 2016 e é isto que se lê na contracapa. As coisas foram sempre, ou quase sempre, feitas à maneira dele. Aos 19 anos persuadiu a Warner a deixar o controlo criativo, mais os direitos de publishing, nas suas mãos. Não era generosidade típica de uma corporação do entretenimento daquela época nem o é agora.

Em poucos discos, Prince derrubou as paredes que delimitavam a imaginação do funk da da soul, do R&B, do rock, da pop, da new wave, do jazz. Derrubar paredes nunca foi coisa nova. O que não é costume é arrasar tantas e com tanta naturalidade. Ouça-se a primeira parte de Parade, o álbum de 1986 com os Revolution: sete canções que passam em menos de 20 minutos, fluindo entre o raiar do silêncio e a revoada caótica de sons psicadélicos. (Divagar assim exige uma disciplina paramilitar de Prince e sobretudo dos músicos que o rodeiam – veja-se qualquer concerto seu ou fique-se, por exemplo, pela interpretação de «Baby I’m a Star» durante uma invasão de palco nos Grammys de 1985.)

As dissoluções estendiam-se à identidade de género. O seu símbolo fundia as marcas masculina e feminina. O guarda-roupa idem. Tudo gerado e aperfeiçoado em Mineápolis, estado do Minnesota, no extremo norte e gélido do Midwest americano. O frio dá para isto: em Detroit, ali perto e também na fronteira das décadas de 1970 e 80, cozinhava-se o tecno. Em simultâneo, um pouco a sul em Chicago, a windy city, preparava-se o house. Todos prestavam atenção ao Prince de Dirty Mind (1980) e Controversy (81). E tiravam notas.

Tipper Gore também tirava notas. Ela e a Parents Music Resource Center, a entidade que fundou em 1985 para tratar da pouca vergonha que grassava na cultura popular, e os versos de «Darling Nikki» («I met her in a hotel lobby/ Masturbating with a magazine»), incluída em Purple Rain (84), traçam uma linha direta até ao aparecimento das etiquetas “Parental Advisory – Explicit Content”, que ainda hoje se colam às capas dos discos. Nada que apoquentasse Prince: os jogos com a indefinição sexual prosseguiram («If I Was Your Girlfriend», sonhava-se em Sign o’ the Times, de 87), e as suas bandas foram até ao final um caso raro de homens e mulheres em pé de igualdade.

A partir dos anos 1990 revelou-se mais um Prince, o da resistência, a raiar o kamikaze, à indústria musical. Congelou o nome, despejou discos à porta da Warner até se livrar do contrato em 1996, celebrou-o no mesmo ano com o triplo Emancipation. Mas todos os seus discos continuam por reeditar. Um reencontro recente com a Warner, à qual retirou, finalmente, todos os direitos sobre a sua obra entre 78 e 96, prometia o regresso deluxe de Purple Rain aos escaparates, mas nada aconteceu. Pelo caminho foi inventando e o seu álbum de 2010, 20Ten, foi distribuído como brinde em jornais de vários pontos do globo.

Experiências sucessivas de um caminho sustentável online e por conta própria começaram cedo e acabaram ainda mais depressa. O NPG Music Club disponibilizou, para assinantes, discos originais de Prince e de protegidos seus entre 2001 e 2006. Afundou-se. Entrou e saiu do Spotify num piscar de olhos, chegando depois a acordo com o concorrente Tidal, que disponibilizou o derradeiro álbum de originais em vida, HITnRUN Phase Two, em janeiro deste ano. A rapidez com que o YouTube e outros canais vídeo online são obrigados a suprimir todo e qualquer documento com música tocada por Prince é francamente mitológica. Mergulhar pela primeira vez na galáxia sonora de Prince em 2016 pede empenho extra.

Prince Rogers Nelson partiu, quinta-feira, dois meses depois da ex-namorada Denise Katrina Matthews, aliás Vanity, cantora. Prince dedicou-lhe canções na digressão agora interrompida de vez, Piano & a Microphone. Uma capa da Rolling Stone em 1983 mostra o casal.
Agora, alguém há de aceder ao arquivo sonoro alegadamente babélico guardado em Paisley Park, a sua casa/estúdio/sala de ensaios e concertos/mundo de fantasia púrpura em Chanhassen, à beira de Mineápolis, nos últimos 28 anos. E, com sorte, partilhá-lo com o mundo.

Prince em Alvalade, em 1993

Prince em Alvalade, em 1993

Estádio de Alvalade (Lisboa), 15 de agosto de 1993

A estreia de Prince em palcos lusos aconteceu já depois de trocar a equipa dos Revolution, o grupo de músicos que o seguiu durante boa parte dos 80s, pelos New Power Generation (NPO). O menu dessa tarde e noite calorentas era extenso (houve General D e Vaya Con Dios a abrir), e mais extenso ficou quando os NPO tiveram o palco só para eles durante algumas canções antes da chegada do patrão. Diamonds and Pearls e Love Symbol eram os álbuns mais recentes, mas Purple Rain ocupou parte significativa do programa.

Prince no Pavilhão Atlântico, em 1998

Prince no Pavilhão Atlântico, em 1998

Rita Carmo

Pavilhão AtlÂntico (Lisboa), 15 de dezembro de 1998

No ano em que lançou o caixote com cinco CD Crystal Ball, Prince fez-se à estrada e passou pela capital em fim de Expo. Ao concerto oficial, extenso, que incluiu uma secção só para génio e piano, seguiu-se uma actuação mais ou menos informal em after hours no Lux.

Prince com Ana Moura no Meco,

Prince com Ana Moura no Meco,

Rita Carmo


Praia do Meco (Sesimbra), 18 de Julho de 2010

Foi no último dia do Super Rock que Prince fez levantar a poeira. Um concerto com início em «Let’s Go Crazy», passagens por «Le Freak» dos Chic e «Dance (Disco Heat)» de Sylvester e um momento especial, no primeiro dos dois encores, quando Ana Moura subiu ao palco e escutou-se fado à moda de Minneapolis através de «A Sós Com a Noite» e «Vou Dar de Beber à Dor».

A plateia do concerto de 2013 no Coliseu de Lisboa

A plateia do concerto de 2013 no Coliseu de Lisboa

17 de Agosto 2013

Uma atuação anunciada somente de antevéspera e com razoável discrição mas que rendeu à mesma uma casa lotada. O serão pendeu para o rock com muito razoável crueza, para o qual o power trio que o acompanhava, as ruidosas e exímias 3rdEyeGirl, contribuiu bastante.

Texto de Jorge Lopes

Publicado originalmente no Expresso Diário de 22 de abril