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Os melhores concertos de Prince

A performance era, para Prince, fundamental: em palco, a sua visão artística alcançava a plenitude. Escolhemos meia dúzia de momentos altos numa carreira estratosférica: de concertos-relâmpago de 12 minutos a maratonas de 4 horas, de primeiras partes vaiadas a noites de consagração

10 e 11.10.1981
Memorial Coliseum, Los Angeles (EUA)

Em 1981, Prince ainda era um perfeito desconhecido, apesar de a sua discografia já contar com três álbuns, editados desde 1978. Os êxitos, que começaram a surgir com temas como «Little Red Corvette», ainda estavam a um par de anos de distância e por isso não poderiam ter amortizado o choque que o público dos Rolling Stones sentiu quando viu uma figura minúscula entrar em palco, andrógina, com umas cuecas mínimas, uma guitarra, e temas como «Jack You Off». O sexo pode ter sido um motor claro no percurso dos Stones, mas em 1981 os fãs já só conheciam o eco radiofónico dos seus clássicos, identificando Jagger e companhia como a realeza do «establishment». Prince foi, por isso mesmo, vaiado, atingido por objetos arremessados da plateia, obrigado a sair de palco apenas à quarta música. Mas no dia seguinte, como se dissesse «vão ter que aprender a aceitarme »,Prince voltou ao palco, ladeado por músicos acabados de sair do liceu, e voltou a mostrar que merecia estar ali, ao lado dos maiores. Pouco tempo depois editou o clássico Controversy.

26.06.1987
Ahoy, Roterdão (Holanda)

Com a América a mostrar-se resistente à explosão de liberdade que Prince representava tanto ao nível musical como ao da própria identidade, na segunda metade da década de 80 o génio de Mineápolis apostou na Europa. Nessa época, o músico encontrava-se a promover Sign O' The Times e decidiu insistir no cinema como veículo para se afirmar, depois da experiência falhada de Under The Cherry Moon. Para isso filmou alguns concertos avassaladores em terras europeias, incluindo o que resultou da sua passagem por Roterdão. O material recolhido acabou por não ser aproveitado para o filme Sign O' The Times, onde surgia ladeado por extraordinários músicos como Sheila E. ou Miko Weaver, mas a sua performance foi incendiária em temas como «Little Red Corvette» ou «I Could Never Take The Place of Your Man».

25.07.1988
Wembley Arena, Londres (EUA)

O homem que o NME em 1987 afirmou tratar-se «não de uma estrela, mas de um evento» tomou conta da grande Wembley Arena durante sete dias, mais ou menos o mesmo tempo que o Todo Poderoso precisou para fazer o mundo. O concerto, rezam as crónicas, era épico: um Ford Thunderbird em palco, uma fonte, um court de basquetebol. A produção era tão complexa e dispendiosa que a digressão deu prejuízo na maior parte dos concertos, só chegando ao break even quando aterrou no Japão. Musicalmente, claro, era a loucura: dois atos, divididos entre a luz e a sombra, uma viagem pelo passado na primeira parte, um olhar concentrado sobre o material de Lovesexy, na segunda metade do show, com um final apoteótico apoiado em temas como «Kiss», «Let's Go Crazy», «When Doves Cry», «Purple Rain» ou «1999». A banda, já rodada desde a digressão de Sign O' The Times, estava em plena forma. E Prince, claro, mostrava ter o diabo no corpo.

04.02.2007
Dolphin Stadium, Miami (EUA)

Qual é o problema de uma chuvinha torrencial quando um artista tem no seu reportório um tema como «Purple Rain»? Foi assim no espetáculo de 12 minutos que Prince assinou em 2007 no intervalo dessa enorme instituição americana que é o Super Bowl, uma honra só concedida às maiores estrelas. A Rolling Stone já classificou esta apresentação de Prince como um dos melhores concertos de sempre na história do Super Bowl. E percebe-se porquê. O maior tesouro de Minneapolis levou para o palco clássicos como «We Will Rock You», dos Queen, «Proud Mary», dos Creedence Clearwater Revival, «All Along the Watchtower», de Bob Dylan, «Best of You», dos Foo Fighters e ainda, da sua própria lavra, «Let's Go Crazy», «Baby I'm a Star» e o mítico «Purple Rain», além das bailarinas Twinz e da marching band da Florida A&M University. 75 mil pessoas aplaudiram no estádio e mais 140 milhões ficaram extasiadas em casa, coladas à TV.

17.08.2013
Coliseu dos Recreios, Lisboa (Portugal)

«Esta noite rocka-se forte e feio no Coliseu», escreveu-se na reportagem BLITZ que testemunhou a inesperada, mas extremamente bem-sucedida passagem de Prince por Lisboa no verão passado à frente das 3RDEYEGIRL. Um Prince demoníaco, em topo de forma, a canalizar o mais aventureiro espírito de Hendrix numa noite recheada de clássicos ouviu-se «When Doves Cry», «Sign O' the Times», «Hot Thing», «Alphabet Street» e tantas outras num corrupio de medleys que ofereceu à multidão absolutamente rendida apenas o tutano da obra do homem que gravou o profético 1999. O concerto foi extraordinário, quebrou uma série de regras da indústria, esgotou mesmo sem ser promovido e mostrou este autêntico super-homem a liderar uma revolução elétrica a meros centímetros dos fãs mais afoitos que conseguiram lugar nas filas da frente. «Noite para a história!», concluiu-se na reportagem BLITZ. Não há qualquer margem para dúvidas.

08.03.2014
Hollywood Palladium, Los Angeles (EUA)

Duas noites sem se fazer anunciar no coração da indústria do entretenimento no passado mês de março e Prince prova que continua a ser capaz de arrastar multidões, mesmo sem disco novo, sem vídeo viral, sem single fresco a rodar nas rádios, nada que instigue um assalto do campo mediático. Na segunda noite, tocou mais de impressionantes quatro horas, num espetáculo arrasador e frenético que incluiu vénias a Michael Jackson e Chaka Khan que muitos asseguram ter sido o mais longo de sempre na ilustre carreira do homem de «Kiss». E ao contrário do que é comum em estrelas envolvidas em digressões convencionais, nunca se sabe qual das versões de Princevai pisar o palco o rocker, o crooner de jazz, o demónio funk ou o «best-of» de tudo isto. Em Los Angeles, as 3RDEYEGIRL dividiram o palco com a secção de metais da New Power Generation e o resultado foi eletrizante. E houve ainda espaço para cameos de protegidas como Janelle Monáe ou Lianne La Havas. A Spin descreveu o concerto como «um retrato completo de uma das mais individuais e distintas figuras da música popular». Outra noite para a história, portanto.

Originalmente publicado na BLITZ de maio de 2014