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O que fez Prince em Portugal em 2013: da Gafanha da Nazaré ao Coliseu dos Recreios

Em agosto de 2013, Portugal foi apanhado de surpresa pelo anúncio de um concerto: dentro de três dias soube-se a meio do mês Prince estaria entre nós. Lia Pereira reconstituiu os passos do norte-americano entre Ílhavo, Porto e Lisboa

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Quando se começou a espalhar a notícia de que Prince, um dos artistas mais icónicos e inimitáveis da história da música popular, viria a Portugal para um concerto dentro de poucos dias, a BLITZ estava longe: longe de Lisboa, onde o espetáculo viria a ter lugar, e também longe de imaginar que o que parecia um boato fantasioso se concretizaria. Em reportagem no festival Paredes de Coura - se não nos falha a memória, durante o concerto dos norte-americanos Alabama Shakes - recebemos indicação, via telemóvel, de que Sua Purpureza estava a caminho. No verde pacífico do Alto Minho, pareceu-nos duvidoso que um concerto de tal envergadura fosse anunciado com menos de três dias de antecedência. A menos que o site do Coliseu de Lisboa tivesse sido pirateado, a notícia - uma das notícias do ano, certamente - confirmava-se com uma simples visita àquela página. A corrida aos bilhetes, como é natural, não tardaria, e os primeiros três mil bilhetes, disponibilizados por 50 euros cada, esgotaram num ápice. Entre quarta-feira, noite do anúncio, sem pompa mas com eficácia, e sábado, o dia do inesperado reencontro de Prince com o público português, o falatório e a expectativa avolumaram-se e, na hora marcada para o espetáculo, nem a playlist de Gypsy Kings desanimou os pouco mais de quatro mil sortudos que conseguiram bilhete (esgotados os primeiros três mil ingressos, foram colocados à venda mais mil, sorvidos sem hesitação).

Do concerto de Prince no Coliseu de Lisboa - longe do best of do Meco, mais rock do que funk, escreveu-se nas reportagens - reza a história com paixão. Mas a passagem do «miúdo» de Mineápolis por Portugal não se resume a ter tocado, durante duas horas e meia, nas Portas de Santo Antão. A poucos dias do espetáculo, Ana Moura recebeu do boas novas do amigo norte-americano: Prince estava de visita a Portugal, devendo aterrar no aeroporto Sá Carneiro, na Invicta, ainda naquela semana, bem a tempo de assistir ao concerto da fadista no Festival do Bacalhau, em Ílhavo. «Ele tem feito estes concertos de surpresa e, de repente, decidiu vir a Portugal», conta à BLITZ a voz de «Desfado». Depois de ter dado dois concertos, também de surpresa, no Paradiso, em Amesterdão - atuou por duas vezes no mesmo dia, às 19h30 e às 23h59, e houve quem pagasse 300 euros para entrar na sala com capacidade para duas mil pessoas -Prince Rogers Nelson viajou, então, para o Porto, de onde seguiu, segundo o Jornal de Notícias, num carro de vidros fumados para Ílhavo.

«Foi um daqueles concertos de rua, na Gafanha na Nazaré não era o concerto a que eu imaginaria o Prince a assistir», confessa Ana Moura, admitindo que a presença da super-estrela no Festival do Bacalhau lhe causou «alguma ansiedade. Mas correu bem! Ele já tinha estado em concertos meus em teatros, e ali foi giro porque viu o Portugal profundo, com milhares de pessoas na rua. Acabou por ver o meu espetáculo noutro contexto, mais animado». Além de Ana Moura e da entourage de Prince, na qual seguiam todos os elementos da sua banda, poucos terão dado conta da presença do homem de «Diamonds and Pearls» em Ílhavo. «Ele entrou diretamente para o backstage e ninguém teve acesso a ele», recorda a cantora. «Ficou no palco, mas na lateral, que estava coberta: havia uma espécie de tenda, onde estavam ele e a sua banda. Ninguém o viu, só souberam depois nas notícias!», ri. Para sua grande tristeza, Ana não pôde assistir ao concerto de Prince dali a dois dias, no Coliseu de Lisboa: «Tinha um concerto no Rio de Janeiro e, no dia em que ele atuou em Portugal, estava eu a viajar para o Brasil», lamenta.

«Estava a viajar triste, tristíssima. Ainda por cima, ele dedicou-me umas palavras em palco, e estava a receber imensas mensagens das minhas amigas, a dizerem: ele acaba de dizer isto ou aquilo sobre ti! Estavam a relatar-me o concerto e eu cheia de pena», admite. «Mas entretanto ele já deu outros concertos de surpresa e eu fui a um deles, em Londres, no Camden Electric Ballroom», revela, referindo-se ao espetáculo que teve lugar em fevereiro deste ano. «[Esse serão] também entrou nesse conceito: tocou num clube pequenino, com esta banda nova, só de raparigas, onde ele toca piano e guitarra elétrica. Agora tem esta vontade de fazer clubes pequenos e tocar quando lhe apetece, à última da hora. Eu, enquanto espectadora, adorei!».

Antes de Ana Moura seguir para o Rio de Janeiro e Prince abençoar o Coliseu dos Recreios com os seus riffs, porém, ainda houve tempo para uma pequena, mas compensadora, visita turística à Invicta. «Depois do concerto [em Ílhavo], fomos os dois para o Porto, que ele não conhecia. Ele adora Lisboa, mas não conhecia o Porto, então fui mostrar-lhe a cidade à noite». O facto de ser quinta-feira ajudou à tranquilidade do passeio: «A cidade estava deserta e tivemos oportunidade de sair do carro: ele andou a pé, ali na Foz, e adorou o Porto. Amou, mesmo.

Disse que queria voltar», afiança Ana, que não levou Prince a experimentar qualquer iguaria local. «Já eram altas horas da madrugada, não comemos nada. Andámos a passear com o motorista, que por acaso era português e uma pessoa fantástica. Conhecia o Porto como ninguém e levou-nos a sítios espetaculares. Deu para andarmos a passear à beira do Douro», lembra a fadista, reconhecendo que Prince lhe tem proporcionado «oportunidades especiais». «Volta e meia convida-me para um concerto ou para aquelas festas que faz com outros músicos e onde cantamos todos. São momentos únicos».

Também para os responsáveis do Coliseu dos Recreios a notícia da vinda de Prince a Portugal foi uma surpresa absoluta. «O Coliseu foi contactado com um dia de antecedência face à data do anúncio do espetáculo», diznos Ricardo Covões, do Coliseu de Lisboa. «Toda a preparação do evento foi feita em tempo recorde apenas quatro dias!». O prazo estabelecido seria, segundo Covões, «o grande desafio: afinal, estávamos em pleno mês de agosto, altura de férias de todas as equipas necessárias. Foi necessário mobilizar todas estas pessoas e todas se mostraram disponíveis para interromperem as suas férias, deixando os seus locais de lazer e regressando a Lisboa para participar na realização do evento». O facto de, nesses quatro dias, ter existido um feriado, o de 15 de agosto, dificultou também o processo, mas o profissionalismo de «todas as equipas internas ou externas» e a experiência do pessoal do Coliseu tornaram possível o sucesso do concerto-surpresa.

Ainda que, ao longo do ano, a sala realize «algumas produções próprias, como o Circo de Natal», a visita-relâmpago de Prince, sem recurso a qualquer promotor ou intermediário, foi, «no tempo-recorde para a sua organização, uma situação inédita». Ao Coliseu, Prince chegou com uma equipa «não muito numerosa», diz Ricardo Covões. «Eram cerca de 10 pessoas. Além da sua banda, [trazia] alguns técnicos e responsáveis da digressão». Quanto à segurança, essencial para uma estrela da sua grandeza, «foi assegurada por uma empresa nacional, responsável por todos os espetáculos no Coliseu».

Antes do concerto, chegavam do estrangeiro relatos da intransigência de Prince quanto à captação de imagens, tanto por fotógrafos profissionais (não foram acreditados quaisquer repórteres de imagem), quer pelos fãs que enchiam a sala. O controlo dos telemóveis com câmara não foi, contudo, um problema para a equipa do Coliseu, garante Covões. «No início do espetáculo, o público foi informado que não seria permitida a captação de imagens ou vídeos durante o concerto. Todos foram extremamente compreensivos: afinal, estavam entusiasmados com a possibilidade de assistirem a um concerto intimista, para apenas quatro mil pessoas, de um dos seus grandes ídolos. A situação foi gerida por nós da forma habitual, sempre com grande respeito para com o público. Esta é uma situação típica: afinal, a grande maioria dos artistas que realizam espetáculos no Coliseu também têm as suas exigências na forma como permitem a captação de imagens».

Filmado pela equipa de Prince («A gravação foi solicitada ao Coliseu, mas não temos conhecimento de que será realizado algum filme ou documentário»), o concerto de 17 de agosto foi uma oportunidade única para um total de 4212 espectadores: «inicialmente, Prince pretendia fazer um concerto muito intimista apenas para três mil pessoas», revela Covões. «No entanto, e com a procura e o entusiasmo dos fãs portugueses, foram disponibilizados mais mil ingressos. Todos estes bilhetes esgotaram no segundo dia de venda. No dia do concerto, foram disponibilizados bilhetes de última hora». Quanto às receitas de bilheteira, o responsável da sala responde: «quando a equipa de Prince contactou o Coliseu, foi feito um acordo sobre a distribuição da receita e os custos associados ao concerto. No entanto, não é possível divulgar essa informação». No final, tudo terá valido a pena.

Afinal, como escreveu Rui Miguel Abreu na reportagem da BLITZ: «Faltam 20 minutos para a meianoite e Prince Rogers Nelson apresenta as suas despedidas em modo hardcore (...) com a sua entourage em palco. Se isto fosse uma guerra, a rendição seria incondicional e teríamos acabado de ser anexados. E Prince seria coroado aqui mesmo no Coliseu. Viva o Rei!».

Originalmente publicado na BLITZ de maio de 2014