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Um mistério chamado Prince (1958-2016)

Prince morreu hoje aos 57 anos. Há dois anos, quando o génio de Mineápolis se preparava para regressar aos discos, Rui Miguel Abreu tentou ver para lá do nevoeiro e traçou o perfil de um dos artistas mais completos e imprevisíveis de sempre

Tomando apenas os seus mais profundos traços de caráter a capacidade de entrega total ao trabalho, a excentricidade, a conduta quase espartana no que ao corpo diz respeito, a libido acentuada, o permanente inconformismo, a necessidade de controlo absoluto de tudo o que se passa à sua volta, as nítidas reservas em relação aos media, a atitude de resistência face à indústria em que se insere, o desafio de convenções de género e raça nada diria que o que define Prince não pudesse igualmente estruturar a personalidade de um génio da alta finança, de um atleta de elite, de um avançado cientista ou até de um prodígio das esferas mais eruditas da música. Prince é, simplesmente, um dos mais fascinantes enigmas alguma vez nascidos no universo da música pop.

O New York Times descreveu Prince como «um reinventor do seu mundo e de si mesmo», referindo-se ao facto de o artista ter sabiamente evitado a mais comum armadilha da pop a cristalização de uma imagem que pode funcionar como um espartilho condicionador de carreira: Madonna, que tem exatamente a mesma idade de Prince, dificilmente conseguirá alguma vez escapar à sua condição de eterna bomba sexual, imagem cada vez mais complicada de manter à medida que se aproxima vertiginosamente do seu 60º aniversário; Michael Jackson acabou mesmo por ser vítima da sua própria imagem de criança para sempre perdida num mundo de adultos; os Rolling Stones estão a levar até ao limite a imagem de eterna «touring band», de bichos cujo habitat natural é a selva do palco. Que imagem singular poderíamos nós pregar no mural de Prince? Pegando no chavão «é um pássaro, é um avião?» criado no mundo dos comics para Super-Homem, poderia perguntar-se: «É um músico de R&B? É um músico de rock? É homossexual? Heterossexual? Pansexual? É um homem de negócios? É a primeira estrela musical do futuro? A última estrela musical de um passado que não volta? É negro? É branco?». A lista poderia continuar e serviria apenas para reforçar a ideia de que Prince se tem dado a algum trabalho para não se deixar enclausurar em nenhuma cápsula produzida pela voraz máquina pop. Prince é, simplesmente, Prince. Um género de um homem só. Um universo com um único habitante. Um fenómeno.

George Clinton, histórico líder do monstro de duas cabeças Parliament/Funkadelic, que chegou a gravar para a Paisley Park Records, descreveu Prince ao New York Times como «um dos grandes: é um músico tremendo, estudou tudo e todos. E passa a vida a trabalhar. Mesmo quando está a improvisar com outros músicos no estúdio, ele está a gravar. Ele também vai a festas; e ouve de tudo na rádio; vai a clubes e depois vai para o estúdio e fica toda a noite acordado a trabalhar. Ele tem muito mais coisas gravadas do que o que edita».

«Não me façam preto»

Um pouco de contabilidade, em primeiro lugar. E volte-se a tomar Madonna comummente designada por Rainha da Pop, ela mesmo uma astuta mulher de negócios como barómetro para a medição dos standards de funcionamento de uma estrela de primeira linha no mais competitivo dos mercados musicais. A mulher de «Like a Virgin» nasceu em 1958, começou a editar em 1983 e até ao presente lançou 12 álbuns de estúdio. Já Prince, nascido uns meses antes de Madonna, em junho de 1958, inaugurou a sua discografia em 1978 e até ao presente lançou exatamente o dobro dos discos assinados por «Madge» 24! Claro que os números de mercado de Madonna esmagam Prince: mais de 300 milhões de discos vendidos em todo o mundo contra os «apenas» 100 milhões do filho pródigo de Mineápolis. Mas ao passo que Madonna se tornou uma empresa, sobretudo depois do notório e ultramilionário negócio assinado em 2007 com a Live Nation, tocando para milhões de pessoas em todo o mundo em digressões de crescente complexidade logística, Prince soube manter-se ferozmente independente, chegando mesmo a revoltar-se contra a mesma Warner que elevou a rapariga de True Blue até ao topo da montanha pop e provando hoje ser capaz de funcionar com sucesso como produtor de espetáculos sem aliança com algum gigante dessa indústria. Madonna segue escrupulosamente as regras do jogo. Prince criou a sua própria liga.

Chaos and Disorder, álbum de 1996, foi o derradeiro que Prince lançou através da Warner, editora com que assinou contrato em 1977, logo aí deixando claro que pretendia afirmar-se segundo os seus próprios termos. Princenão apenas exigiu total controlo criativo como conseguiu, no contrato inicialmente estabelecido para três álbuns, reter os direitos de publishing de todas as suas composições. Mas, num gesto ainda mais revelador das suas convicções e ideias, Prince terá implorado a Lenny Waronker, o executivo com quem assinou contrato, «please don't make me black».

Do alto dos seus 19 anos, Prince Rogers Nelson já tinha a noção perfeita de que não pretendia ser mais um soldado no infinito exército de artistas R&B, para sempre confinados a um segmento de mercado, qual carne para canhão nos massacres constantes impostos pelo mercado.

Ao contrário de Michael Jackson, Prince nunca renegou a sua negritude. Muito pelo contrário, como o generoso afro com que se tem apresentado em palco no último ano deixa muito claro: Prince sabe que é negro, tem perfeita noção da sua herança cultural e do seu lugar no mundo, mas nunca aceitou que isso limitasse a sua criatividade. É por isso que, sem problemas de qualquer espécie, pode arrebatar milhões no intervalo do Super Bowl com arrasadoras versões de clássicos dos Queen ou Creedence Clearwater Revival ou declarar, como aconteceu recentemente, que «Tictactoe», um dos temas que deverá surgir em PlectrumElectrum, o seu novo álbum com as mesmas 3RDEYEGIRL que o acompanharam o ano passado no palco do Coliseu dos Recreios em Lisboa, foi inspirado nos Cocteau Twins. Isto vindo do artista que sem qualquer tipo de hesitação menciona na mesma frase Joni Mitchell e Sly and the Family Stone já nem deveria representar surpresa, mas a verdade é que existe um condicionamento que nos faz pensar que menções a determinado tipo de nomes soam naturais e outras podem parecer muito estranhas dependendo do tom de pele ou do campo estético em que cada músico se move. Ninguém está à espera de ouvir loas a Mahler vindas da boca de um rapper ou elogios a Alicia Keys proferidos por um músico de heavy metal. Prince e as incontáveis vénias que ao longo dos anos tem prestado a músicos de todas as «confissões» possíveis faz-nos, no mínimo, perguntar «porquê?».

Génio a trabalhar

Prince rompeu com as amarras que o ligavam à Warner com o álbum Emancipation, lançado através da sua New Power Generation (e nesse caso específico com distribuição da EMI) em finais de 1996.

Para trás ficavam 18 álbuns, output prolífico para 18 anos de duração do contrato. Mesmo nessa época, já ninguém editava um álbum por ano. Entre 1983 e 1996 Madonna editou apenas 6 álbuns; os U2, que inauguraram a sua discografia em 1980, até 1996 editaram 8 trabalhos de originais; os Rolling Stones, entre 1978 e 1996, lançaram apenas 7 álbuns; e David Bowie, no período que começa com Lodger de 1979 e termina com Outside de 1995 assinou apenas 8 registos de longa duração. Prince era já, de facto, um caso à parte que a indústria tinha dificuldade em compreender.

A estreia de Prince aconteceu em 1978 com For You e o período clássico que corresponde à antecâmara do seu sucesso comercial prolongou-se por Prince (1979), Dirty Mind (1980) e Controversy (1981).

Nenhum destes discos conseguiu furar o top 20, apesar de Controversy ter ficado muito perto. Desse período emergiu, sem sombras para dúvidas, o seu génio musical capaz, por um lado, de traduzir o zeitgeist e de soar contemporâneo numa época de sintetizadores e balanço new wave, mas também remetendo para os clássicos que o inspiraram, de James Brown a George Clinton, de Sly Stone a Larry Graham (o homem do leme da Graham Central Station). «I Wanna Be Your Lover», «Sexy Dancer», «Dirty Mind» ou «Do It All Night» são nítidos pontos altos de uma carreira que, no entanto, ainda não tinha descolado da rampa de lançamento. Tudo começou a mudar com 1999, o álbum de 1982 que gerou singles como «Little Red Corvette» ou «Delirious» que conseguiram dar a Prince a sua primeira visão do topo, passeando-se confortavelmente pelo Top 10.

Quando chegou a Purple Rain¸ em 1984, Prince provou final e definitivamente que sabia escrever e interpretar material capaz de conquistar o topo das tabelas: «When Doves Cry» e «Let's Go Crazy» chegaram a número 1 e «Purple Rain» ao segundo lugar, fazendo de Prince a mais escaldante estrela pop de 1984 com um álbum que liderou a tabela de vendas da Billboard durante quase seis meses, vendendo mais de 13 milhões de cópias. Um feito extraordinário para qualquer artista, mas absolutamente estratosférico para um artista que tinha pedido para não o limitarem à negritude.

Nos últimos anos, Prince tem sido visto como uma voz algo reacionária quando declara a morte da internet ou processa fãs que partilham músicas suas online só recentemente é que veio rever a sua posição nesta controversa questão e retirar as queixas declarando, a propósito da sua protegida britânica Lianne La Havas, «eu tenho alguns bootlegs da Lianne, mas não seria capaz de os vender. Fãs que partilham coisas uns com os outros, isso já aceito» mas em pleno olho do furacão tecnológico que assolou os anos 80, Prince soube compreender o poder que novas realidades como a que era sustentada pela MTV tinham para a gestão de carreiras e assinou vídeos memoráveis que o apresentavam como uma figura maior do que a vida, um super-herói vestido de púrpura capaz de salvar o mundo com o poder destilado pela sua guitarra, uma espécie de evangelizador rock, sexual até à medula e a exercer um estranho fascínio sobre os dois sexos numa época em que nem os durões do rock escapavam à tentação de usar rendas, pôr um pouco de laca no cabelo, um toque de eyeliner para realçar o olhar e até uma explosãozinha de cor nos lábios.

A carga sexual que Prince espraiava pelos seus trabalhos teve efeitos, como não poderia deixar de ser. A famosa «instituição» defensora da moralidade e bons costumes, o Parents Music Resource Center que passou boa parte dos anos 80 e 90 a colar autocolantes em discos de metal e hip hop, sobretudo, nasceu depois de Tipper Gore ter encontrado a filha de 12 anos a ouvir «Darling Nikki», um dos temas incluídos em Purple Rain onde Prince canta «I knew a girl named Nikki / I guess u could say she was a sex fiend / I met her in a hotel lobby / Masturbating with a magazine»... Purple Rain completa agora 30 anos, mas Prince já se declarou indisponível para celebrações de qualquer natureza, renegando assim aquele que tem sido um gesto comum na estratégia desta indústria para se manter à tona de água. Numa recente (e rara...) conferência de imprensa dada em Londres em jeito de antecipação de PlectumElectrum, e a propósito do redondo aniversário do seu primeiro êxito maciço, Prince declarou laconicamente: «tudo me parece diferente agora, porque eu estive lá. Eu escrevi aquelas canções, não preciso de saber o que aconteceu». O futuro é onde Prince está claramente concentrado. E sempre foi assim.

E depois fez-se símbolo

À frente da poderosa Revolution, banda que o acompanhou durante boa parte dos anos 80, Prince assinou álbuns incríveis como Parade (1986), Sign O' The Times (1987) ou Lovesexy (1988), discos que o afirmaram como compositor, intérprete e produtor e que efetivamente funcionaram como a régua por onde toda a pop deveria ser medida. Nenhum outro artista se revelou tão ousado ou avançado nessa época. Prince liderava o pelotão.

Este foi o período em que Prince construiu o seu quartel-general, o complexo de estúdios Paisley Park, uma clara ferramenta para poder reforçar a sua independência.

Situado em Chanhassen, nos arredores de Mineápolis, é um ambicioso projeto que tem servido a Prince, e voltando a recorrer ao universo dos comics, como uma espécie de fortaleza da solidão onde, rezam as lendas, Princegrava ininterruptamente, tendo ao longo dos anos acumulado incontáveis horas de material inédito, facto que confirmou recentemente na já referenciada conferência de imprensa londrina. Na época da imposição de Paisley Park, no entanto, Prince foi tudo menos frugal com as suas despesas. Apesar dos sucessos continuarem a rolar com discos como a sua banda sonora para Batman (1989) ou o enorme Diamonds and Pearls (1991), Princeparecia gastar dinheiro mais rápido do que conseguia ganhá-lo, contratando gente a mais, investindo demasiado dinheiro nas suas digressões que apesar de extremamente bem-sucedidas na bilheteira não rendiam o suficiente para pagar os luxos que a estrela púrpura exigia.

Talvez essa pressão o tenha levado a aceitar os 100 milhões de dólares com que a Warner lhe acenou em 1992 para o convencer a renovar contrato, mas os termos não agradaram ao músico que admitiu pouco tempo depois que um negócio assim o fez perceber que «não se tem tanto poder como se supunha e não se é dono das nossas próprias gravações». «If you don't own your masters, your masters own you», declarou na altura, arrancando para uma campanha de resistência contra a Warner que o levou a abdicar do nome em favor de um impronunciável símbolo e a escrever a palavra «slave» na cara para fotos promocionais. Numa era pré-Obama, Prince comparava o negócio da música e a relação das editoras com os artistas aos tempos da servidão involuntária, causando um aceso debate nos media.

Neste complexo período, Prince questionou tudo: o poder das corporações, mas também a sua própria identidade. «Eu não sou o filho de Nell», declarou, referindo-se ao seu apelido «Nelson»: «Quem sou eu afinal. O que sou eu?». Prince sentia que todas estas questões estavam a alimentar a sua criatividade, queria editar discos a um ritmo nada compatível com as intenções da Warner de espremer os singles até à sua última cópia, e por isso, depois de aceitar os 100 milhões, o artista que queria ser identificado por um símbolo disse ao patrão da Warner, Mo Ostin, certamente sem alterar a sua expressão facial, «deixem-me sair e devolvam-me os meus masters». Algo como «depois de te termos dado 100 milhões, estás louco?» terá sido o que se ouviu do outro lado da mesa.

Nada que tenha demovido o músico. Nelson George, uma das vozes da intelectualidade musical negra nos media americanos, escreveu mesmo que «Prince era menos escravo e tinha mais liberdade do que qualquer outro artista negro». Mas o que parecia ser suficiente para outros não chegava para Prince que não descansou até se libertar do contrato de gravação e edição, em abril de 1996. Até 1999, o homem de Chaos and Disorder continuou a usar o Love Symbol como nome, esperando pelo fim do contrato paralelo de publishing que também o unia à Warner para recuperar o seu nome.

Ele é que manda

O período de finais dos anos 90 foi algo confuso, com Prince a testar novas formas de fazer chegar a sua música aos fãs: Crystal Ball, uma caixa de 5 CDs lançada em 1998, foi vendida através do seu website, mas de forma atabalhoada, com fãs que efetuaram a pré-compra a terem que esperar longos meses até receberem o álbum. Ainda assim, foi a primeira vez que um artista daquela dimensão olhou para a internet como meio alternativo para vender o produto do seu trabalho. Nesta altura, muito antes de ter declarado o óbito da internet, Prince chegou mesmo a afirmar que a rede das redes representava o futuro: «logo que a internet se torne uma realidade deixará de haver necessidade de existirem companhias discográficas. Se te posso enviar a minha música diretamente, qual é a utilidade de uma indústria musical?».

Nos anos seguintes, Prince haveria de continuar a trocar as voltas à indústria experimentando modelos alternativos ao velho paradigma de negócio da indústria musical: em 2004, faturou quase 90 milhões de dólares com uma digressão em que cada bilhete vendido a 60 dólares incluía uma cópia de Musicology. A «brincadeira», não excluída ainda assim pelas restritivas normas da Billboard desenhadas para protegerem os interesses das grandes corporações discográficas, valeu-lhe um Top 3 na América sem vender um único disco nas redes convencionais de retalho.

O álbum seguinte foi 3121 (2006), disco para o qual Prince preparou várias formas de receita, apropriadas para diferentes tipos de bolsa: um dos 130 lugares disponíveis para um jantar concerto no Roosevelt Hotel em Los Angeles custava 3121 dólares, 31 libras e 21 pence pagavam um bilhete para uma das 21 noites na arena 02 de Londres (com direito a uma cópia do álbum). Talvez um título mais apropriado para o álbum, e tendo em conta o seu antecessor, devesse ter sido Numerology...

Mais discutida, no entanto, foi a sua decisão de distribuir o seu álbum seguinte, Planet Earth (2007), de forma gratuita através do jornal Mail On Sunday que, alegadamente, pagou a Prince 1 milhão de dólares pelo privilégio, assumindo o próprio jornal todas as despesas com o fabrico e direitos do disco. O gesto fomentou a ira de retalhistas e executivos de editoras, mas parece não ter beliscado o futuro da carreira de Prince, que prossegue a bom ritmo e em topo de forma em 2014 com a apresentação de PlectrumElectrum a gerar uma antecipação que custaria muitos milhões ao departamento de marketing de qualquer grande editora.

É verdade que o trabalho de Prince nesta sua fase independente tem sido irregular. Mas tendo em conta as suas duas últimas passagens por Portugal é inegável o poder e o talento que este pequeno músico consegue conjurar em palco.

O facto de não haver uma correspondência direta entre o seu brilhantismo de palco e a por vezes sofrível qualidade dos seus discos na última década e meia (pelo menos.) pode querer dizer várias coisas uma delas, certamente, a de que o músico compreendeu que com a implosão da indústria discográfica, é nos palcos que os artistas modernos têm que aprender a sobreviver. Mas o génio de Prince tem sabido estrategicamente espreitar em uma ou duas das canções de cada um destes discos, uma espécie de lembrete das suas capacidades artísticas, um apelo para que não o descartem já, mesmo quando usa cada um desses álbuns para testar o limite de resistência da corda que ainda o une ao respeito dos fãs que aprenderam a admirá-lo na década de 80. E Prince sabe disso, porque mesmo na sua recente encarnação mais rock, à frente das 3RDEYEGIRL, nunca se esquece de levar para palco os seus momentos mais orgásticos dos anos 80. «FunknRoll», um dos temas do seu novo álbum, é talvez um compromisso entre o passado e o presente, talvez uma antecipação do que será, musicalmente falando, o seu futuro.

Outra característica inequívoca é a capacidade de trabalho de Prince que se fez à vida depois de se desligar da Warner durante os anos 90, compreendendo que sem uma estrutura poderosa por trás lhe competia a si manter viva a sua carreira e as suas empresas. Por isso mesmo, na sua era de independência, além de 14 álbuns de originais, dois álbuns ao vivo, duas compilações de sucessos, múltiplas edições exclusivas através da internet, 3 Grammys e mais 11 nomeações, Prince ainda contabiliza 13 digressões o que lhe deve valer, sem a menor sombra de dúvidas, o título de «hardest working man on showbusiness» em tempos criado para James Brown, um dos óbvios modelos da carreira do líder das 3RDEYEGIRL. É agora também dono do seu «publishing», ou seja, dos destinos de todo o seu catálogo (até aí a cargo da Universal), através de uma nova empresa: a NPG Music Publishing.

Eterno mistério

Apesar de toda esta exposição pública, Prince parece continuar a ser, no entanto, um segredo. Pouco se sabe da sua vida privada, as entrevistas são muito raras e quando, de facto, acontecem o músico costuma impor como regra aos jornalistas que têm a missão de o enfrentar de que nenhum dispositivo seja usado para gravar as conversas, nem sequer caneta e bloco de notas, como se ele contasse com os efeitos difusos da memória como mais uma ajuda na manutenção do seu próprio mito. Jon Pareles, por alturas da edição do primeiro álbum de Prince como artista independente, citava nas páginas do New York Times as palavras do génio de Mineápolis a propósito do nascimento de um filho resultante do seu casamento com uma das suas cantoras de apoio, Mayte Garcia: «nunca avançarei detalhes sobre crianças. Provavelmente serão elas mesmo a escolher os seus nomes».

Prince é, de facto, um enigma. E como todos os enigmas parece não envelhecer, talvez por não escolher correr contra o tempo como Madonna ou Mick Jagger, aprisionados, como já se explicou, pela armadilha da juventude eterna mas a seu favor. Testemunha de Jeová convertido por Larry Graham, Prince não celebra o seu próprio aniversário «não há aniversários na Bíblia», explicava ele ao Guardian em 2011 e acredita que o tempo é apenas uma construção da mente: «não é real». E talvez essa ideia seja a mais revolucionária das que Prince usa para apoiar a sua carreira.

No mundo da pop há dois tempos que realmente importam: o passado, aquele em que se acumulam conquistas e falhanços e para onde as estrelas da música podem remeter sempre que lhes apetecer (esse fenómeno deu origem ao chamado «heritage circuit» onde tocam agora as velhas estrelas dos anos 80); e depois há o futuro, aquele que faz cada artista acreditar que o próximo álbum é que vai ser, que os maiores êxitos ainda estão para chegar, que a distinção dos Grammys não falhará na próxima edição. Prince parece ser dos poucos que escolheu antes viver no presente: descarta a possibilidade de celebrar os 30 anos de um dos seus maiores feitos discográficos e parece não viver obcecado com o que o futuro lhe reserva, atitude que ajuda a explicar o seu hábito recente de chegar a uma cidade como Lisboa e marcar concertos de surpresa. Prince continua a ser, 36 anos depois da edição do seu primeiro disco, um artista do presente, um artista do agora.

Originalmente publicado na BLITZ de maio de 2014