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Streaming, CD, vinil. A cassete resiste

Apesar do advento do streaming e do crescimento das vendas do vinil, ainda existe muita procura por cassetes

Muito se escreve sobre o revivalismo do vinil, mas há outro produto cuja procura tem crescido nos últimos anos: a cassete. Por muitos tida como um formato obsoleto, é para outros a melhor maneira de ouvir e gravar música.

Segundo os dados apresentados pela National Audio Company, uma das poucas empresas que ainda fabrica cassetes nos Estados Unidos, as vendas deste objeto subiram 31% no ano passado, tendo a NAC lucrado cerca de 5 milhões de dólares (4 milhões e 400 mil euros).

A nostalgia, claro está, tem um impacto profundo no mercado - mas o que motivou esta empresa foi, sobretudo, teimosia e... estupidez. "A parte estúpida é que nunca achámos que a cassete tinha morrido; o mercado é o que pensávamos que seria", confessa Steve Stepp, dono da NAC.

Os culpados? As bandas independentes de hoje, que formam cerca de 70% do mercado da empresa. Mas as grandes editoras estão a seguir-lhes os passos: em 2015, a NAC chegou a gravar cassetes de Justin Bieber. Este ano, os Metallica reeditaram a sua lendária maqueta, No Life 'Til Leather (1982) no seu formato original.

Muito do sucesso prende-se igualmente com o baixo custo. A NAC cobra cerca de 2 dólares, ou 1,70€, por cada cassete, seja de que artista for. E esse preço inclui o trabalho de engenharia, de etiquetagem, artwork, embalamento e expedição.

Mas lado a lado com o fabricante, estão as editoras - principalmente a independente Burger Records, que opera a partir da Califórnia. Fundada em 2007, a Burger é "casa" de artistas que hoje são conhecidos um pouco por toda a parte: Brian Jonestown Massacre, Black Lips e Ty Segall são alguns dos que tiveram cassetes suas lançadas pela editora.

A editora começou praticamente da mesma forma que a NAC: devido a um misto de optimismo e nostalgia. "Quando começámos, não sabíamos que iria haver um revivalismo da cassete", comenta Sean Bohrman, um dos fundadores da Burger. "Tudo o que queríamos era lançar estes álbuns incríveis em cassete, porque mais ninguém o estava a fazer".

O catálogo da Burger conta hoje com mais de mil edições, tendo já existido festas temáticas em torno da editora em cidades como São Francisco, Paris, Estocolmo ou Telavive. Justin Eckley, que já lançou dois discos pela Burger, conta que "bastou dizer que [editei pela] Burger e marcaram-me um concerto em Seattle". As cassetes, essas, não são vendidas por mais de cinco dólares (4,40 euros).

Um dos pontos mais altos da Burger foi, em 2015, a reedição de Dookie, dos Green Day - e a pedido da própria banda. "O meu pai não me deixava ouvir esse disco porque diziam palavrões. Hoje estou a redesenhar o artwork e ele sente-se orgulhoso", diz Bohrman.

Estará a cassete em oposição direta ao CD e ao vinil? Nem por isso. Lee Rickard, colega de Bohrman, explica: "somos da velha escola. Gostamos de coisas analógicas, de tocar em coisas, de sentir". No que toca ao streaming, contudo, o caso será diferente. "Há muito que se perde na 'tradução', frequências, essas coisas. Um computador só reconhece uns e zeros. Há coisas que se perdem", diz.