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Martin Hannett: morreu há 25 anos o “buda” da mesa de mistura dos Joy Division

Nasceu e viveu em Manchester, quase só produziu bandas da sua cidade e ajudou a desenhar um som que teve em Joy Division e New Order o seu apogeu. Recordamos o percurso de Martin Hannett e conversamos com Peter Hook, baixista daquelas bandas, sobre um génio fugaz

Foi Howard Devoto, músico com carreira a solo e currículo com entradas para Buzzcocks e Magazine, quem melhor descreveu Martin Hannett pintando com palavras o seu retrato: «o Martin move-se por caminhos misteriosos. Muitos músicos não conseguem trabalhar com ele porque ele não comunica muito bem. Ele senta-se como o Buda por trás da mesa de mistura, inalcançável». Peter Hook, baixista dos Joy Division e New Order, hoje à frente dos The Light (grupo com que, em mais do que uma ocasião, visitou Portugal para tocar Unknown Pleasures), tem uma opinião similar à do conterrâneo Devoto: «o Martin era um produtor cheio de recursos, muito hábil. Mas era muito difícil controlá-lo no estúdio, os engenheiros viam-se à nora para o impedir de sobrecarregar todas as vias, com ideias malucas. Ele era muito louco e não era muito bom a explicar o que estava a fazer ou porque estava a fazer certas coisas o que levava os músicos até ao limite da paciência».

Martin Hannett, falecido a 18 de abril de 1991 vítima de insuficiência cardíaca, quando contava apenas 42 anos, ocupa um lugar singular na história: nativo de Manchester, criado na zona operária de Miles Platting, Martin Hannett praticamente só trabalhou com bandas da sua cidade natal, com a parte de leão da sua discografia a ocupar apenas meia dúzia daqueles anos que fizeram a ponte entre as décadas de 70 e 80 do século passado. Mas apesar de extremamente balizado no tempo e no espaço, o seu trabalho carrega uma verdadeira marca de autor que influenciou decisivamente os caminhos da música já neste novo milénio é claro que o som de bandas como os Editors, Interpol, The Killers, White Lies ou até The National tem às costas uma pesada dívida para com a discografia dos Joy Division, mas não é só na torturada melancolia de Ian Curtis e nos minimais arranjos de Bernard Sumner, Stephen Morris e Peter Hook que se devem procurar as razões para tão continuado fascínio. A particular arquitetura sónica imaginada por Martin Hannett para os discos dos Joy Division é parte importante da sua identidade e um dos claros pilares da sua longevidade.

Peter Hook é perentório: «sem o input do Martin Hannett, tanto o Unknown Pleasures como o Closer teriam ficado com um som de porcaria. Nós queríamos soar punk, queríamos as guitarras muito alto, a bateria muito alto, as vozes muito altas. Não tínhamos ideia nenhuma do que estávamos a fazer, queríamos tudo a soar muito alto e agressivo. Se tivéssemos sido nós a produzir o Unknown Pleasures teríamos arruinado o disco, sem dúvidas. E o Closer também teria sido um desastre».

O MOMENTO CERTO

Pode-se dizer que Martin nasceu no momento certo, tendo completado 20 anos por alturas do maio de 1968, revolução de pensamento fundamental para o ideário punk. Não é preciso fazer uma grande ginástica argumentativa para encaixar nesse espírito declarações de Chris Nagle, engenheiro de som nos Strawberry Studios, pertença dos 10CC, e um dos poucos técnicos que entendia a caótica ética de trabalho de Martin: «o Martin gravava tudo, ensaios e testes de som incluídos, e apreciava os erros cometidos. Nenhum dos outros engenheiros dos Strawberry Studios queria trabalhar com ele. No nosso primeiro dia fui logo informado que a primeira regra de trabalho era que não há regras de trabalho».

Baixista em algumas bandas durante os alvores da década de 70, incluindo os Paradox onde também militou Paul Young (mais tarde nos Sad Café e Mike + the Mechanics), Martin Hannett acabaria no entanto por canalizar a sua obsessão pelo som foi sempre um fanático da alta-fidelidade, colecionando até ao fim da sua vida material para ouvir a sua coleção de discos para trabalho de estúdio, assumindo-se desde muito cedo como produtor, apesar dos primeiros passos na carreira profissional terem sido dados como parte de uma empresa de agenciamento de concertos, operando algumas vezes como técnico de som ao vivo. Foi a revolução punk, que o viu aliás a adotar a niilista designação de Martin Zero, que lhe proporcionou as primeiras oportunidades de trabalho: «o Martin era a única pessoa que conhecíamos em Manchester que se dizia produtor», explica Howard Devoto nas notas de capa da compilação Zero: A Martin Hannett Story, justificando assim a escolha para a cadeira de produtor nos trabalhos que resultaram no primeiro disco independente do punk em Inglaterra, o EP Spiral Scratch dos Buzzcocks. O disco foi inicialmente lançado pela New Hormones, do próprio grupo, em janeiro de 1977, e vendeu umas muito razoáveis 16 mil cópias antes de ser reeditado por uma major. No turbulento ano de 1977, Martin já tinha um pé dentro da porta do edifício punk.

A Rabid Records foi uma etiqueta estabelecida pela Music Force Inc, empresa de que Martin Hannett fazia parte, como forma de ajudar a impor os Slaughter and The Dogs, grupo com que o produtor trabalharia pouco tempo depois da edição do disco dos Buzzcocks. Cranked Up Really High, dos Dogs, e, pouco depois, discos assinados por Ed Banger, Gyro, Jilted John e, sobretudo, John Copper Clarke, também para a Rabid, são marcos no percurso que conduziu Martin Hannett até à Factory e aos Joy Division. O encontro de Hannett com a Factory era mais ou menos inevitável: a euforia punk traduzida em empreendedorismo editorial haveria de dar azo a três etiquetas importantes em Manchester a New Hormones, a Rabid e depois a Factory.

Martin já tinha dado provas em duas delas quando a empresa de Tony Wilson surgiu no mapa musical de Manchester, por isso o seu recrutamento para assinar a produção de algum do material a ser incluído no seminal lançamento A Factory Sample foi mais do que natural. «Digital» e «Glass» foram os dois temas com que os Joy Division contribuíram para a edição inaugural da Factory. E pode argumentar-se que os Joy Division se encontraram depois de Martin Hannett ter operado a sua magia na mesa de mistura.

Nas páginas de Rip It Up and Start Again, livro de Simon Reynolds sobre o pós-punk, John Keenan, um promotor de Leeds que organizou o famoso festival Futurama, descreve o som inicial dos Joy Division, quando se apresentavam ao vivo em pequenos clubes, como uma «barulheira»: «mas quando os vi mais tarde, numa sala grande, com um pouco de eco, de repente aquilo fez sentido». «Martin Hannett dedicou-se», explica Reynolds, «a captar e a intensificar a espacialidade misteriosa dos Joy Division. Os discos punk normalmente simulavam a sonoridade encaixotada e descarada dos concertos em pequenos clubes. Os tempos rápidos e as guitarras distorcidas encaixavam bem no som pequeno e bidimensional do single de sete polegadas.

Personagem dos anos 60, uma «cabeça» que adorava o psicadelismo e dub, Hannett acreditava que o punk era sonicamente conservador precisamente por causa da sua recusa em explorar a potencialidade do estúdio para criar espaço. Era música para os adolescentes com pequenos rádios de pilhas e gira-discos baratos, não para adultos com sistemas de som em condições». Peter Hook: «quando o Martin começou a trabalhar connosco eu era ainda muito verde. Não sabia nada. Por isso, na verdade, estava muito dependente dele. Confiávamos nele para nos apontar o caminho. Ele tinha muita autoconfiança e isso transparecia no seu discurso. Mas o facto é que ele sabia o que estava a fazer. Olhou para a minha forma de tocar baixo, que não se encaixava nos cânones normais de abordagem ao instrumento, e transferiu o papel de carregar a melodia para o meu baixo. A maneira como ele tratava o baixo era muito relaxada, dava-lhe muito espaço na mistura, muita atmosfera, e isso gerava tensão porque eu via o baixo com outro papel, com um som maior, mais agressivo», relata Peter Hook.

DOS JOY DIVISION AOS U2

A visão de Martin Hannett, no entanto, não foi imediatamente entendida por Hook ou pelos restantes músicos dos Joy Division, que reagiram muito mal quando o produtor finalmente lhes permitiu escutar as misturas de Unknown Pleasures, o álbum de estreia da banda, editado em 1979. «O Martin pegou em músicos muito jovens que estavam a escrever música muito madura e fê-los soar de forma madura. Mas posso assegurar que, enquanto músicos queríamos, soar mais juvenis, mais punk. E quando ouvimos as misturas do Unknown Pleasures ficámos muito desapontados porque queríamos soar como os Sex Pistols», recorda Peter Hook. «Ainda bem que ele não nos deu ouvidos».

O baixista continua a desenrolar memórias, explicando que só o tempo permitiu perceber totalmente o que significou trabalhar diretamente com Hannett: «posso dizer hoje, 30 e tal anos depois, que entendo que o que ele fazia no estúdio era mágico: ele achava que os músicos deviam gravar e desaparecer. Depois de nos gravar, obrigava-nos a sairmos do estúdio quando estava a trabalhar, como se fossemos crianças a atrapalhar. Mas os músicos não são grande coisa a seguir ordens e eu e o Barney [Bernard Sumner], sobretudo, revoltávamo-nos e teimávamos em ficar no estúdio com ele». Para tal, tinham que contornar as estratégias do produtor, como baixar o ar condicionado até ao zero de forma a tornar a estadia na sala de controlo uma missão impossível.

A tensão com Martin Hannett nunca desapareceu, mas foi com ele que os Joy Division fizeram todas as suas sessões de estúdio, incluindo os singles Atmosphere e Love Will Tear Us Apart. É sem dúvida, o seu trabalho mais significativo e mais aventureiro. Ao NME, Bernard Sumner descreveu os intentos de Martin Hannett: «ele nunca quis gravar um disco pop. Tudo o que ele queria fazer era experimentar. A sua atitude era pegar num monte de drogas, fechar a porta do estúdio, ficar lá toda a noite e depois ver o que se obtinha quando a manhã chegasse. E continuar nesse ritmo até terminar os discos».

A morte de Ian Curtis surtiu um forte impacto em Martin Hannett e poderá ter ajudado a que o seu envolvimento com drogas se agravasse. A sua relação de trabalho com os membros sobreviventes do grupo continuou durante os primeiros tempos dos New Order, grupo para que ainda produziu o álbum Movement e o EP 1981 1982. A ligação foi interrompida com Power, Corruption & Lies. Peter Hook defende que terem resistido ao mau feitio de Martin e às baixas temperaturas a que submetia quem ousasse tentar assistir às suas sessões de mistura lhes permitiu assumirem a produção de Power, Corruption & Lies e trabalhos posteriores: «tínhamos as lições bem estudadas. Tudo o que fizemos nos New Order, todos os truques que fizeram o nosso som, aprendemos com o Martin Hannett», garante o baixista. Mas a verdade é que a relação de trabalho terminou por outras razões: «deixámos de trabalhar com o Martin porque ele era viciado em drogas e a dependência dele não nos permitia confiar nele no estúdio. Ele tornou-se muito volátil. As drogas fizeram dele uma pessoa intratável».

Martin fez muito mais trabalho para a Factory: assinou a produção do single «Electricity», dos Orchestral Manouvres in the Dark, antes do potencial pop do duo de Liverpool os ter conduzido até à Virgin, ou o recentemente reeditado primeiro álbum dos Durutti Column, de Vini Reilly, notório por ter sido distribuído com uma capa de lixa. Em ambos os casos, o peculiar sentido sónico de Martin Hannett revelou-se fundamental para o estatuto alcançado por esses registos. O seu «dedo» marcou ainda edições da Factory para gente como os Crispy Ambulance, Section 25 ou ESG.

Martin realizou igualmente algum trabalho fora da alçada do catálogo controlado por Tony Wilson, incluindo um dos maiores clássicos da new wave da época, o álbum The Correct Use of Soap, dos Magazine, outra banda de Manchester. De fora da cidade, no entanto, eram uns jovens U2 que para o seu segundo single, «11 O'Clock Tick Tock», resolveram procurar os préstimos do homem que tinha inventado o som dos Joy Division. O single saiu meros dias depois do suicídio de Ian Curtis e a experiência não há de ter sido a melhor para Bono e companheiros, pois o grupo não a repetiu: «o disco soava mais a ele do que a nós quando saiu, mas é brilhante e muito melhor por isso mesmo», recorda Bono nas páginas de U2 By U2. «Deveria ter sido o Martin a produzir o álbum Boy, mas ele estava determinado a fazer o som ao vivo da digressão americana dos Joy Division. Só que o Ian Curtis matou-se e a digressão nunca aconteceu», explica Paul McGuiness no mesmo livro. Numa entrevista a Jon Savage, realizada em 1989, Martin Hannett confirmou as suspeitas do guitarrista dos U2: «arrasou-me a cabeça, a morte do Ian. Em palco ele parecia possuído, tocado pela mão de Deus. Ele era um condutor de relâmpagos».

Martin Hannett acabou por fazer apenas trabalho esporádico fora da esfera direta dos Joy Division e da Factory e talvez isso ajude a explicar porque não é um produtor reverenciado com o mesmo fulgor que George Martin, Brian Eno ou Phil Spector. Peter Hook, no entanto, acredita que Hannett merece tantas vénias como os melhores: «o tipo era um génio. A maneira como usava os efeitos em estúdio para colar tudo era brilhante. Muita gente pensa que o seu segredo era o delay digital que ele desenvolveu com a AMS, mas para mim boa parte da personalidade do seu som vinha das duas placas de eco dos estúdios Strawberry. Ele tinha uma forma de usar o delay antes dos sons entrarem na echoplate e depois trazia o som para o estúdio, gravava-o a partir das colunas para conseguir um ambiente incrível e voltava a usá-lo na mistura. Esse tipo de truque era impressionante e dava-lhe uma personalidade única. O seu uso do espaço era assombroso». Talvez fosse mesmo, como disse Howard Devoto, um Buda da mesa de mistura.

Originalmente publicado na BLITZ de julho de 2014