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A grande viagem dos Led Zeppelin, segundo Jimmy Page

Em 2014, Jimmy Page contou à BLITZ como um miúdo autodidata chegou ao estatuto de lenda da música popular do século XX. E por que razão os Led Zeppelin ainda são uma banda enorme

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

O orgulho é evidente e transborda por todos os poros do septuagenário que nos vem receber ao corredor do Gore Hotel, em Londres, com simpatia espirituosa e em evidente boa forma física. Estamos em 2014 e, apesar do concerto de 2007 na O2 Arena, que levou mais de 200 milhões (!) de pessoas a tentar comprar um bilhete, os Led Zeppelin não existem como tal desde 1980. Em 34 anos, os músicos seguiram caminhos distintos Robert Plant aprofundou, nos últimos anos, a paixão pela música tradicional norte-americana e promete lançar, ainda em 2014, um novo álbum pela editora Nonesuch; John Paul Jones gravou com Diamanda Galás (ainda na década de 90) e Seasick Steve (já neste século) e, ao lado de Dave Grohl e Josh Homme, integrou os Them Crooked Vultures, estabelecendo-se ainda como produtor requisitado (a sua marca reside em discos de grupos rock como The Mission ou Butthole Surfers).

Dos quatro membros originais dos Led Zeppelin John Bonham faleceu em 1980, precipitando o fim da banda Jimmy Page tem sido o mais discreto, nas três décadas e pico que o mundo girou desde o adeus ao seu projeto. Em «projeto», por uma vez, leia-se algo orgânico, quente, vivo, e não uma ideia abstrata de algo que poderá não sair do papel. Nascido em janeiro de 1944, no penúltimo ano da II Guerra Mundial, James Patrick Page nunca escondeu ser o «inventor» dos Led Zeppelin. Mais velho que os companheiros (nasceu dois anos antes de John Paul Jones e quatro antes de Robert Plant e John Bonham), o britânico já era um músico conceituado antes de criar a banda que, argumentam muitos, esteve para os anos 70 como os Beatles para os 60. A guitarra, instrumento que dominou como muito poucos, quer na interpretação quer no desenvolvimento de inovadoras técnicas de produção, parece ter surgido na sua vida por acaso filho de um gerente e da secretária de um médico, Jimmy garante que a chegada das seis cordas à sua vida foi fruto de aparente acaso. Simplesmente, encontrou a primeira guitarra na casa para onde se mudou com a família, aos 8 anos, e a ela acabaria por dedicar a sua vida, num misto de vocação, paixão e descoberta febril. Ainda hoje, quando questionado sobre a aparente inatividade pós-Led Zeppelin apenas gravou e tocou com David Coverdale (em 1993) e Robert Plant, em No Quarter (1994) e Walking Into Clarksdale (1998), e lançou um disco a solo, Outrider, em 1998 o homem que a Rainha de Inglaterra premiou com um título, pelo trabalho de caridade no Brasil, responde que nunca deixou de tocar guitarra. Simplesmente, não o faz em público, o que, tendo em conta a dimensão mastodôntica da sua carreira dos Led Zeppelin, não deixa de causar estranheza.

Falar com Jimmy Page, nem que seja durante cerca de 20 minutos, na elegante biblioteca do Gore Hotel, em Londres, lança alguma luz sobre a sua dedicação quase exclusiva à causa Led Zeppelin. Enquanto Robert Plant quis evitar ser conhecido como «o antigo vocalista» da banda de «Kashmir», e parece permanecer até hoje como o principal entrave a uma reunião, nos palcos, destes três mitos do rock, Page fala com um entusiasmo contagiante daquele que foi o seu segundo grupo mas, seguramente, a sua grande paixão. O encontro estava marcado para as 14h30 em Kensington, num hotel a dois passos do Royal Albert Hall, sala histórica onde, em 1970, os Led Zeppelin deram um concerto imortalizado num DVD ao vivo lançado em 2003. Palpita-nos, porém, que a ligação do nosso interlocutor ao hotel, que funciona como tal desde 1892, é outra: no bar onde esperamos pela nossa vez, e enquanto Jimmy Page almoça no salãorestaurante adjacente, o cheiro do mogno mistura-se com o do rock sobre o sofá onde nos sentamos, a foto emoldurada de uns jovens Rolling Stones leva-nos a crer que alguns dos 50 quartos do Gore Hotel já foram destruídos por gente famosa. Confirmamos, mais tarde: em 1968, os Rolling Stones escolheram este mesmo local para a sessão fotográfica do seu sétimo álbum, Beggars Banquet, e os Led Zeppelin também terão conhecido bem os cantos à casa, uma vez que Jimmy Page escolhe, com frequência, receber os jornalistas naquela biblioteca de madeiras escuras, de Enciclopédia Britânica nas estantes. «É bastante acolhedora, a sala», diz-nos, também ele hospitaleiro, sobre uma sala onde nem uma lareira acesa apesar da temperatura exterior bem amena falta para compor o ambiente tão britânico. «De forma pouco rock and roll e mais conservadora, mas acolhedora!», brinca, antes de encetarmos uma breve viagem pela carreira de um homem que se diz músico desde os 13 anos.

Efetivamente, foi muito cedo que Lil Jim Pea, alcunha que ganharia para evitar confundir-se com um colega de ofício, Big Jim Sullivan, conheceu a vida de estrada e, com grande detalhe, de estúdio. Apaixonado pelos blues e pelo R&B que chegavam dos Estados Unidos e lançavam, também, a semente dos Rolling Stones, Jimmy Page conta ter encontrado em «Baby Let's Play House», de Elvis Presley referência, também, do futuro colega Robert Plant o portal de entrada no mundo da guitarra. Aos 15 anos, o adolescente «mal nutrido» já se aventurava na grande cidade, Londres, a tocar versões não especialmente bem recebidas de Chuck Berry e Bo Diddley. A debilidade física de «Lil Jim», que na estrada viria a sofrer de febre glandular, afastou-o temporariamente da música.

Depois de algum tempo dedicado às Belas Artes faceta que se espelharia, anos mais tarde, na atenção dada ao aspeto visual dos Led Zeppelin o regresso à sua musa em tempo inteiro deu-se como músico de estúdio. Até hoje, os historiadores do rock tentam localizar todas as gravações que Jimmy Page terá feito, tarefa virtualmente impossível, uma vez que nem o próprio que chegava a fazer três sessões por dia se lembra de todos os músicos com quem tocou. Perguntamos a este veterano de negro vestido e cabelo branco apanhado num pequeno rabo-de-cavalo se tocar com profissionais mais velhos e experientes não era, apesar do seu talento reconhecido, uma tarefa algo assustadora.

«Era ligeiramente intimidante, sim», admite. «Porque, se não soubesses ler música, chegavas ali e passavas a ter de ler. Eu tinha medo que eles descobrissem que eu não sabia». A experiência como músico de sessão serviu-lhe, assim, de autêntico estágio, antes de, a convite de Eric Clapton, vir a integrar os Yardbirds. «Fui um aprendiz, sim. Não nos Yardbirds, mas nos estúdios! Há uma expressão, "basking", que significa que tens de melhorar um pouco, subir um nível, e foi isso que me pediram para fazer, quando comecei a fazer esses trabalhos. Durante a minha adolescência, cobri tantas influências distintas de guitarra, tantas escolas de guitarra... fui do acústico ao rockabilly, aos blues, etc. Até toquei um pouco de harmónica. (risos) Mas de repente está ali um miúdo eu era mais novo do que qualquer outra pessoa que ali estivesse, uns sete anos mais novo, à vontade com um conhecimento enciclopédico do que se passava na atualidade, e até do que não se passava! Entrei naquele circuito e pediram-me para inventar partes [de músicas] e contribuir, mas chegou a um ponto em que precisava de aprender a ler música. Eles davam-me as pautas e eu não sabia ler. Era uma dica que me estavam a dar: eu precisava de aprender e aprendi, e até aprendi muito rapidamente, foi surpreendente!», exclama o homem cujo carisma e currículo impedem de soar arrogante.

«Eu já era bem aceite naquele circuito fechado, muito fechado, de músicos de estúdio. O tempo que lá passei foi uma aprendizagem, sim, não só porque aprendi a ler música para poder escrever música, mas também devido às técnicas de gravação. Eu prestava muita, muita atenção à maneira como as coisas eram feitas, e também a como não se devia fazer», recorda o músico e produtor que, nos Led Zeppelin, haveria de desenvolver técnicas como o «reverse echo», trabalhando com rigor as noções de distância e tempo em estúdio. «Mas nunca enganei alguém, em ponto algum: o microfone estava ligado, na sala de controlo: eles sabem se estás a fazer o teu trabalho bem ou mal. [Esta experiência] foi uma experiência que me manteve atento, concentrado. Foi bom para mim!», sublinha, entre risos bem-dispostos.

«Era positivo para a autodisciplina. E a disciplina de estúdio [era muito importante]. Se fizesses asneira numa sessão, não te voltavam a chamar. Por isso», conclui, referindo-se ao avassalador ritmo de gravações que realizou até 1966, «devo ter-me saído muito bem!».

Os Led Zeppelin em 1969

Os Led Zeppelin em 1969

Os primeiros voos

Em 1966, Jimmy Page já tinha recusado ingressar nos Yardbirds por duas vezes: em 1964, fora convidado a substituir Eric Clapton, recusando por lealdade ao amigo; no ano seguinte, Clapton saiu da banda mas Page, demasiado envolvido com a sua carreira como músico de estúdio, voltou a dizer não, sugerindo que a banda contratasse antes Jeff Beck. Foi em 1966, então, que, depois de ver um concerto dos Yardbirds e de saber que o baixista Paul Samwell-Smith estava de saída, o jovem de 22 anos decidiu entrar no grupo que tanto o cobiçara. Inicialmente como baixista, depois como guitarrista ao lado de Jeff Beck, Jimmy Page aproveitou a passagem pelos Yardbirds para treinar as «pinceladas» que aplicaria em telas maiores, nos Led Zeppelin. «Eu fazia trabalho de estúdio, gravava sessões com outras pessoas. Mas fi-lo durante dois anos e meio ou três, o que era muito tempo para esse tipo de trabalho. Depois fui para os Yardbirds», explica à BLITZ, «e a certo ponto chamei a mim o papel de guitarrista. Às tantas, os guitarristas [da banda] eram eu e o Jeff [Beck]. Depois o Jeff foi embora e era só eu e os Yardbirds, que eram uma boa banda: uma boa banda para se fazer parte, uma boa banda para se tocar. E foi lá que desenvolvi muitas das coisas que haveriam de reaparecer numa pintura semelhante, mas com uma moldura muito diferente, se quiseres usar essa analogia. Foi com os Yardbirds que desenvolvi muitas das coisas que haviam de reaparecer nos Led Zeppelin».

Após Little Games, o único álbum dos Yardbirds com Page na guitarra, o grupo dissolveu-se, com a saída de Keith Relf (voz) e Jim McCarty (bateria). Foi então que o último a entrar decidiu reformular a banda, chamando Robert Plant (por cujo «canto primal» se deixara encantar), John Bonham (que vira tocar num pequeno clube londrino) e aceitando o pedido de John Paul Jones para se juntar à aventura. Inicialmente chamados New Yardbirds, os quatro ingleses foram rebatizados de Led Zeppelin, nome inspirado numa piada de John Entwistle, o baixista dos The Who que, dois anos antes, dissera que um eventual supergrupo consigo, o seu companheiro de banda Keith Moon, Jeff Beck e Jimmy Page teria o mesmo fatal destino que um «balão de chumbo».

A viagem do zepelim seria, contudo, dotada de uma maior graciosidade que Entwistle previra. «Tens de entender», alerta-nos Jimmy Page, «que os Yardbirds se separaram em julho e nós estávamos a ensaiar em agosto/setembro, fazíamos concertos na Escandinávia em setembro, gravámos em outubro e em dezembro andávamos na América, em digressão! Aconteceu tudo de forma muito rápida. Eu, de facto, trabalhei arduamente nos Yardbirds», reforça «e isso refletiu-se nos Led Zeppelin, mas nunca esperei que abanassem tudo da forma como agitaram, no que toca aos concertos, à afluência aos mesmos... [Mas] eu sabia que o primeiro álbum era muito especial. Tenha isso o valor que tenha, eu sabia que o disco ia rebentar nos altifalantes, que ia fazer reféns».

Gravado em 36 horas, distribuídas por algumas semanas, e custeado pelo próprio Jimmy Page, o primeiro tomo dos Led Zeppelin mostra uma banda em plena forma, e sem desejo de estéreis protagonismos individuais. «Esta banda mostrava as habilidades de cada um, sim, no sentido em que tinhas quatro músicos que eram pares, semelhantes entre si. E aqui refiro-me ao Robert como instrumento, porque o era. Os quatro músicos já estavam no auge da sua forma, mas não tinham necessariamente esse reconhecimento. Esse tipo de blueprint que eu preparei antecipadamente, com o material que escolhi para a banda que queria formar, [faz parecer] que foi o destino a providenciar-me aquelas pessoas e a fazer com que elas me aparecessem num período tão curto de tempo». E por falar em falta de reconhecimento, é badalada até hoje a acidez com que a imprensa norte-americana recebeu os Led Zeppelin cinismo a que a banda, entusiasmada com a honestidade e a qualidade da sua música, reagiu fechando-se.

As más críticas não beliscaram em nada, todavia, o sucesso retumbante dos ingleses nos Estados Unidos. «O êxito foi imediato e eu digo-te porquê», esclarece Jimmy Page. «As pessoas adoravam a sua música. Em certas regiões só ouviam programas de rádio, nem a programas de televisão tinham acesso. Também iam muito a concertos e, se uma banda se separasse, os fãs seguiriam cada membro do grupo, para onde fossem. Eram fiéis, acompanhavam os músicos, e eu já tinha estado nos Yardbirds, com quem tinha tocado em salas que eram consideradas underground, embora levassem muita gente. Com eles, arranjei muitos seguidores, que estavam interessados em saber o que eu iria fazer a seguir. Claro que, quando ouviram os Led Zeppelin, pensaram: ó meu Deus do céu, nunca ouvi nada assim na vida! A atração foi imediata. O primeiro álbum era realmente soberbo e o segundo também, e continuámos por ali fora».

Lançado no mesmo ano que o primeiro, ou seja, em 1969, o segundo álbum dos Led Zeppelin foi parcialmente escrito na estrada (um exemplo disto mesmo: o tema «Ramble On», lembra-se Jimmy Page). «Era o tempo que tínhamos disponível em estúdio, levávamos coisas já gravadas na estrada. Mas saímo-nos bem: o som refletiu aquela energia daquela altura, de uma banda em topo de forma». Do derradeiro longaduração a reeditar em junho, Led Zeppelin III (1970), é comum salientar-se a vertente mais acústica, mas Page gosta de colocar os pontos nos ii: «Deixa-me dizer-te que o primeiro álbum tem "Babe I'm Gonna Leave You", que eu tinha ouvido cantado pela Joan Baez! Era tão assombrosa que fiz uma arranjo na guitarra para ela, pensando que era um tema tradicional. E não era! Aí tens a faceta acústica, que no segundo álbum regressa com a "Ramble On". O terceiro é mais predominantemente acústico, mas no quarto tens a "Stairway To Heaven", e devo dizer que isto foi tudo escrito com a mesma guitarra. Eu costumava escrever muito com a acústica e foi com ela que compus muito do material, ou pelo menos a sua base. Mesmo a "Immigrant Song" escrevi na acústica, só que traduzi-a imediatamente para a elétrica. Mas é engraçado saber que é a mesma guitarra que toco na "Stairway To Heaven" é uma viagem bonita, não é?», pergunta-nos, com uma alegria tocante.

Um apaixonado por guitarra e tudo à volta («A certo ponto, tudo o que tivesse cordas era a minha cena», confessa, contando ter uma guitarra portuguesa algures em casa), Jimmy Page encara com carinho a ideia de que continua a servir de referência para incontáveis aspirantes a músicos em todo o mundo. «Se as pessoas me disserem que eu fui uma inspiração para elas, quer seja a escrever canções, a tocar guitarra acústica, elétrica... ou a produzir, então maravilha. Porque trata-se de passar o testemunho. E não tem só a ver com o meu contributo nos Led Zeppelin, mas o contributo de todos nos Led Zeppelin. Todos eram músicos magistrais».

Quanto à outra face das divindades rock que os homens de «Whole Lotta Love» encarnaram, ou seja, as suas incendiárias prestações ao vivo, Jimmy Page recorda sobretudo a ideia de explosão. «Aquela noção de adrenalina selvagem, que nos ligava e emanava praticamente dos nossos corpos. No [álbum ao vivo] The Song Remains The Same [1976], mas mesmo mais cedo... isso esteve sempre lá. Explodia de nós. Mas de forma muito controlada. Era uma explosão controlada», desenvolve.

«Seria a essência do que nós éramos, mas não era um caos aleatório. Tem tudo a ver com a intensidade da adrenalina». Primitivo e racional ao mesmo tempo? «Primitivo e racional, é verdade», concorda o autor de alguns dos solos de guitarra mais venerados e imitados de sempre (e, a este propósito, convém recordar a altruísta definição de Page para solo: «aquele momento em que levantamos voo, mas no contexto da canção»). De regresso aos concertos, que tantos admiradores gostariam de ver retomados em pleno século XXI, e ao material que lhe servia de fonte: «Mas também podíamos ser duros e sensíveis, podíamos ser agressivos e afetuosos. Contínhamos em nós todo o tipo de coisas e emoções, todo o tipo de manifestos musicais». Por isso mesmo, e por muito que as fábulas de excesso e transgressão perdurem, também, até hoje, «o mais importante nos Led Zeppelin é realmente a música. As pessoas podem especular para todo o sempre, mas a área mais substancial [de ação] da banda é a música».

Originalmente publicado na BLITZ de junho de 2014