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Adele, a mulher que veio do passado para salvar o futuro da música

Uma grande voz, uma personalidade a condizer e um ror de canções de arromba: ela - que vem a Portugal no mês que vem - tem trunfos à antiga para vingar no presente.

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

E eis que, em menos de um ápice, a atualidade noticiosa, no que à música diz respeito, praticamente esquece os seus protagonistas habituais e volta a entregar o cetro à mais improvável das estrelas pop dos últimos dez anos. Nascida há 27 anos em Tottenham, um multicultural bairro de Londres, Adele Laurie Blue Adkins esteve uma pequena eternidade - quatro anos desde o multiplatinado 21 - sem editar álbuns. O seu último concerto, antes do de Nova Iorque em meados de novembro, acontecera também há quatro anos, mais precisamente em setembro de 2011, data em que arrebatou a enorme O2 Arena, em Londres. E, ao contrário da omnipresença online em que as suas companheiras de ofício apostam, a britânica quase não atualiza as redes sociais (recentemente, confessou que os seus posts no Facebook e Twitter têm de ser revistos por duas pessoas antes de surgirem online, para que se evitem excessos de espontaneidade ou publicações noturnas regadas a algo que não chá).

Ou seja, no mundo como o conhecemos hoje, Adele esteve quatro anos sem editar, sem postar, sem sequer ser apanhada com regularidade pelos paparazzi (os poucos que conseguiram fotografar o seu bebé, de três anos, foram levados a tribunal e punidos em conformidade). Adele esteve quase quatro anos sem existir e, ao regressar, quebrou incontáveis recordes e pulverizou a concorrência que prefere não encarar como tal. Qual o seu segredo?

Arredado das primeiras entrevistas de promoção ao novo 25, o jornal britânico The Guardian publicou um artigo que reflete precisamente sobre a forma como a cantora mais popular da última década ignora propositadamente? as regras da comunicação contemporânea, que passam invariavelmente por uma presença online fortíssima. Com Adele, defende o autor do artigo, o jogo é outro. A primeira amostra de «Hello», o super single que, no final de outubro, a devolveu aos ouvidos de todo o mundo, foi revelado de forma surpreendente e misteriosa: no intervalo do programa de talentos X Factor, meio minuto da canção uma balada à moda antiga foram «servidos» aos espectadores. A acompanhar o som, imediatamente reconhecível como «adelesco», a letra daquele excerto da música. Da parte da sua equipa, liderada desde o primeiro minuto pela editora independente XL e pelo manager Jonathan Dickins, não saiu mais qualquer informação, até à edição oficial do single, alguns dias depois.

Antes de chegar ao Vevo, plataforma online onde em dois dias foi visto 50 milhões de vezes, o vídeo de «Hello» estreou nas televisões; ao invés de se preocupar com o Facebook ou o Twitter, Adele deu a primeira entrevista à i-d, uma revista de moda e cultura jovem, passando ainda por rádios como a BBC ou, numa piscadela de olho à contemporaneidade, à Beats One, a estação de rádio da Apple Music, «comandada» pelo ex-BBC Zane Lowe. Na calha está também um especial de uma hora para a BBC, exibido pela televisão britânica no dia em que 25, o terceiro disco da campeã de vendas, chegou às lojas.

A estratégia aparentemente anacrónica suscitou a seguinte análise por parte do Guardian: «Televisão, rádio, revistas quase parece que, no mundo dela, a internet não existe. Ela lida com os "velhos media", mas tudo o que faz neles é amplificado por toda a gente nos media digitais e sociais. Para que há Adele se de preocupar em ter uma "estratégia" de social media quando toda a gente faz o trabalho sujo por ela?». Touché.

UMA MIÚDA DE LONDRES

Ironicamente, e à semelhança do que aconteceu com artistas tão díspares como Arctic Monkeys ou Justin Bieber, Adele foi descoberta e catapultada pela internet. Nascida e criada no bairro de Tottenham, no Norte de Londres, a jovem foi fruto da paixão entre Penny Adkins, uma estudante de Artes, e Mark Evans, um estivador galês. O casal cruzou-se num pub e Adele nasceria pouco depois, tinha a sua mãe «18 anos e meio». Pela filha, Penny teve de abdicar de muita coisa, costuma a cantora sublinhar, sem nunca lho ter atirado à cara, nem mesmo quando Mark a abandonou e voltou para o País de Gales. Adele seria assim criada por uma mãe de quem sempre foi muito próxima 19, o seu primeiro disco, foi escrito à guitarra acústica no seu pequeno apartamento de Tottenham; durante a loucura causada pelo sucesso de 21, o disco de «Someone Like You» ou «Rolling in the Deep», mãe e filha ainda viviam juntas naquela mesma casa.

Tal como Amy Winehouse, sua colega na escola de artes Brit, a autora de «Chasing Pavements» atravessou a infância e a juventude na ausência do pai; tal como ela, sofreu um intenso desgosto ao perder um membro da família (no caso da Amy, a avó Cynthia, no de Adele o avô paterno). Ambas eram filhas do Norte de Londres, espontâneas, divertidas e apaixonadas pelos clássicos da soul apesar de ser, também, grande fã de Britney Spears e das Spice Girls, Adele deixou-se seduzir e moldar pelas vozes das grandes intérpretes norte-americanas a quem diz dever tudo: «Aprendi a cantar sozinha, ouvindo Ella Fitzgerald, tentando entender as acrobacias e as escalas, Etta James pela intensidade e Roberta Flack pelo controlo», afirma, citada no livro Alguém Como Nós, de Chas Newkey-Burden. O desfecho de Adele e Amy não podia ter sido mais distinto: cinco anos mais velha que a «vizinha», Miss Winehouse sucumbiu a uma vida de excessos, com apenas 27 anos.

Já Adele, que há bem pouco tempo confessou ter-se arrependido de ver o documentário sobre a mulher de «Rehab», soube evitar, até agora, males maiores. O segredo parece ser, mais uma vez, simples: nunca ter passado do álcool, que agora bebe com mais moderação, e dos cigarros, que antes de engravidar fumava em grandes quantidades, para outro tipo de drogas. O perigo esteve sempre à espera, considera Adele, dona assumida de uma personalidade aditiva, num meio em que, garante, «a cocaína está em todo o lado».

Ainda que não fossem amigas próximas nem nunca tenham colaborado, Adele teve sempre uma profunda admiração por Amy. Frank, o seu primeiro disco, inspirou-a a pegar na guitarra e escrever as primeiras canções da idade adulta: «Hometown Glory», sobre a sua relação com a cidade de Londres, e «Daydreamer», acerca de um namorado que lhe confessou ser bissexual, soam hoje quase naïf.

Com 19 anos, Adele foi convidada a participar num programa de televisão que crescera a ver: o de Jools Holland, na BBC. Na altura, tinha «seis ou sete canções», como explicou despreocupadamente na entrevista de bastidores, e cantou na mesma noite que dois pesos ultra pesados: Björk, uma das suas heroínas, e Sir Paul McCartney. «Quando gostamos de alguém, tentamos conquistá-los logo», justificaria Jools Holland. Tocando «Daydreamer» à guitarra acústica, Adele transmitiu simultaneamente fragilidade e carisma, numa atuação que hoje é interessante rever, à luz da insanidade que se seguiria. Mas é na tal entrevista de bastidores que mais sorrimos, ao ouvirmos a descrição da música que fazia, pela própria: «são canções de amor, acústicas», diz, quase com um encolher de ombros. Noutra ocasião, referir-se-lhes-ia como «soul triste e patética».

Mas havia quem estivesse à espreita. Depois de terminar o curso de música na escola Brit, Adele, que ia trabalhando como empregada no café da prima ou a dobrar calças numa loja de roupa, gravou uma demo com seis canções. Estávamos em 2006 e um seu amigo, entendido nas artes da internet, colocou essas mesmas canções no Myspace. Pouco depois, Adele era contactada para ir a uma reunião na XL, a editora independente que representa Prodigy ou Radiohead. Desconhecendo por completo a etiqueta de Richard Russell, a adolescente tardou em responder ao mail e, quando o fez, levou um amigo à reunião, com medo de quem poderia estar a querer conhecê-la pela internet.

O resto da lenda de Adele escreve-se com celeridade: meses depois, tinha um contrato com a XL e um manager que se mantém até hoje; no ano seguinte ganhava a primeira edição do prémio Escolha dos Críticos, nos Brit Awards, e em 2008 estreava-se nos álbuns com o bem-sucedido 19. Seria, ainda assim, 21, o seu segundo álbum, a confirmar um potencial a perder de vista: numa altura em que, alegadamente, «ninguém» compra discos,Adele criou e encarnou o disco mais popular do século no Reino Unido, brilhando igualmente por todo o mundo, até mesmo nos Estados Unidos, território por norma «complicado» ou impenetrável para muitos artistas britânicos.

Fã de mulheres fortes e carismáticas, de Mary J Blige a Kate Bush, passando por Björk ou Lauryn Hill, Adele cometeu a proeza de vingar no mundo pop contemporâneo com trunfos de outro tempo: as suas canções e produções, quer em 19 quer em 21, estão mais próximas dos blues e do R&B do que do autotune e da EDM; a imprensa tem dificuldade em imputar-lhe escândalos ou apanhá-la em contrapé; ainda que progressivamente glamourosa, a sua imagem está a milhas dos ideais de magreza e perfeição assética seguida por muitas das suas contemporâneas (para a história ficaram as suas declarações, ao The Guardian, de que só perderia peso se o mesmo estivesse a afetar a sua vida sexual)

Desde o nascimento do filho, Adele deixou de fumar e diz só beber uma vez por semana, mas garante que nunca deixará de comer hidratos de carbono e que só tenta comer de forma mais saudável por si e pelo filho, não para agradar à sociedade ou para igualar as «rivais». Numa era marcada pela overdose de informação visual, sonora, de tweets e posts e polémicas que se evaporam com a mesma facilidade com que surgem no horizonte a naturalidade de Adele, que ainda vive em Londres e guarda Óscares e Grammys ao lado do prémio de Melhor Mamã, é refrescante. O silêncio a que se remeteu durante os últimos quatro anos cria mistério onde ele é mais preciso: na nossa relação fantasiosa com alguém que, na realidade, não conhecemos, mas queremos pensar que é como nós. Como conclui o Guardian, no caso de Adele, «quanto maior é a ausência, maior é a mística».

Originalmente publicado na BLITZ de dezembro de 2015