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Led Zeppelin: plagiadores ou inspiradores?

É daqueles casos em que não há meio termo. Os Led Zeppelin tanto são considerados como mais-que-perfeitos deuses do rock como uma poderosa incarnação de satanás. A propósito do caso “Stairway to Heaven”, recuperamos uma reflexão de Miguel Cadete, originalmente publicada em 2003

Ainda o passamento de John Bonham não tinha ocorrido e já Elvis Costello, prenhe de ímpeto juvenil, desancava na super-estrela Jimmy Page numa letra furibunda como a de “Hand in hand”, do álbum “This Model Army”. As modas vão e vêm e, menos de dez anos depois, do outro lado do Atlântico, os Beastie Boys pilhavam abundamente a música dos Led Zeppelin. A faixa de abertura do seu álbum de estreia “Licensed to Ill” (1986), “Rhymin & Stealin’” sampla descaradamente a batida de “When the Levee Breaks” do quarto álbum dos Zeppelin, misturando-a com versos (?) roubados à lírica (??) dos Sex Pistols. Os Beasties reincidiriam no mesmo álbum, quando na faixa “She’s crafty” usaram sem pudor um riff de “The Ocean” gravado por Jimmy Page, tendo feito o mesmo com “Moby Dick”, o tema fetiche do baterista dos Led Zeppelin. No hip-hop, John Bonham tem sido respeitado, mas não só. A batida insistente de “Relax” dos Frankie Goes to Hollywood é samplada dos Led Zeppelin. Entre o escárnio e o bem dizer, a música dos Led Zeppelin permaneceu uma referência até hoje, quase 25 anos depois da banda ter pisado um palco pela última vez.

Já nos anos noventa, em Seattle recuperaram a lenda. A bem dizer, o grunge não era senão uma revisitação pouco envergonhada dos riffs de Page, agora regurgitados por via do legado dos Black Sabbath. Mother Love Bone, Soundgarden ou Pearl Jam copiaram os modos e as modas da banda inglesa até à exaustão. Os próprios Nirvana de Kurt Cobain não desdenhavam as longas cabeleiras nem uma dieta sónica que viria a dar origem a uma versão de “Immigrant song” e até a uma homenagem intitulada “Aero Zeppelin”, cujo objectivo não era senão louvar o rock guedelhudo.

Rewind: nos anos setenta, algures nos antípodas, os AC/DC assumiam-se como os grandes herdeiros dos Led Zeppelin: a voz e a guitarra voltavam a ser inspiradas nos blues que deram lastro à discografia produzida por Page, Plant e companhia. E já depois disso, Cult, Guns N’Roses e Jane’s Addiction voltarama interessar-se pela dinâmica do hard-rock à Led Zeppelin. Os góticos Sisters of Mercy também acharam piada ao loop de “When the Levee Breaks” que usaram em “Neverland”. Forward (século XXI): há uma miríade de bandas que se esforça seriamente por imitar os trejeitos de Page, como os Datsuns ou The Music e que é apresentada como a “next big thing”. Bem sabemos, há revivalismos e revivalismos. Antes disso, o finado Jeff Buckley tentou reverter os ensinamentos do álbum “Physical Graffiti” para as suas canções. O stoner rock tal como popularizado pelos Kyuss e Queens of the Stone Age não esconde a sua inspiração nas produções de Jimmy Page e até há quem aposte que, a acontecer uma reunião dos Led Zeppelin, o baterista será nada mais nada menos do que Dave Grohl, dos Foo Fighters. E se os Audioslave permanecem como banda sonora dos Rage Against the Machine, a verdade é que o vocalista Chris Cornell continua a imitar Robert Plant tal como fazia nos tempos dos Soundgarden. Ou seja, eles andam aí.

E vira-se o feitiço a favor do feiticeiro. O próprio Jimmy Page tem usado riffs das canções dos Led Zeppelin nos seus álbuns a solo. Quando em 1998 surgiu no programa televisivo “Saturday Night Live” acompanhado por P. Diddy (quem?) não hesitou em levar por diante uma versão de “Come with me” (da banda sonora de “Godzilla”) fazendo uso do riff de guitarra de “Kashmir”. A história de “adaptações” de temas tradicionais de blues e da folk britânica levadas a cabo por Jimmy Page é quase lendária, tendo origem nos tempos dos Yardbirds. Com uma particularidade: passavam a ser creditados ao próprio Jimmy Page.

Originalmente publicada no jornal “Público”, em 2003