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Rolling Stones: o abismo ali tão perto

Numa altura em que a veterana banda promete álbum novo ainda para 2016, andamos 45 anos para trás e encontramos os Stones em exílio na Riviera Francesa num antigo quartel nazi. Desta estranha combinação sairia, pouco depois, uma obra-prima

Toda a gente sabe que os Rolling Stones mataram os anos 60, em Altamont. Em 1971, quando os Stones deixaram Inglaterra para um exílio fiscal na Riviera francesa, o rock and roll estava já a entrar na fase pós-inocência multicolorida hippie e a mergulhar nos abismos negros das denominadas drogas pesadas. A década de todos os excessos rock haveria de reclamar através da heroína as vidas de gente como Janis Joplin (1970), Jim Morrison (1971), Tim Buckley (1975) ou Sid Vicious (1979), para citar apenas alguns dos exemplos mais notórios no meio de uma longa lista de músicos de segunda linha, agentes, roadies e outros actores do grande circo rock que se montou nesta década. E os Stones, instalados de malas e bagagens num antigo aquartelamento nazi em Villefranche-sur-Mer, a notória mansão Nellcôte, procuravam assim encontrar o lugar na década que proclamava os Led Zeppelin como maior banda do mundo.

O exílio de todos os excessos

Sob muitos aspectos, o álbum Exile On Main St. que os Stones agora reeditam em versão de luxo é um artefacto de uma era irrepetível na indústria discográfica. Não apenas se experimentava com a noção de escala é, afinal de contas, o primeiro álbum duplo na discografia dos Stones como se descobriam novas maneiras de usar a tecnologia multipistas, injectando grandiosidade instrumental onde alguns anos antes os músicos tinham que forçar a imaginação para encontrar soluções os Beatles fizeram Sgt Peppers com gravadores de quatro pistas, por exemplo. Mas mais singular ainda é o fôlego da gravação: o álbum de 1972 dos Rolling Stones começou a ser gravado nos Olympic Studios de Londres, teve sessões em Stargroves, a casa de campo de Mick Jagger, prosseguiu ao longo de seis intermináveis meses em Nellcôte (utilizando o notório Rolling Stones Mobile Studio, o primeiro estúdio móvel do mundo usado também por gente como os Who, Led Zeppelin ou Deep Purple) e atravessou o Atlântico e toda a extensão dos Estados Unidos para ser concluído no Sunset Sound de Los Angeles. Os excessos desta década eram também também orçamentais! Quando foram aconselhados a deixar Inglaterra e a instalarem-se em França para evitarem o arresto fiscal dos seus bens pelo Estado britânico, devido a dívidas de impostos muito avultadas, os Rolling Stones escolheram a Riviera francesa. A decisão de fazer um novo álbum, que iria suceder a Sticky Fingers, estava tomada, mas não foi fácil encontrar um estúdio e a procura estendeu-se mesmo até Marselha. Pensou-se depois em alugar uma casa para esse efeito, mas a dada altura todos concordaram que o melhor local para essa missão era mesmo a cave de Nellcôte, mansão de 16 quartos em tempos quartel-general da Gestapo local durante a ocupação nazi, alugada por Keith Richards. Foi aqui que, durante algum tempo, se deu um verdadeiro encontro de excêntricos de William S. Burroughs a Gram Parsons. Factor acrescido de interesse em Nellcôte era, claro, a livre circulação de drogas, sobretudo heroína, que ali chegava vinda de Marselha. Estes são os anos quentes da French Connection, quando este porto mediterrânico servia de ponto de saída para muita da heroína que entrava depois nos Estados Unidos (há um belíssimo filme de William Friedkin, com Gene Hackman, que relata esses eventos, logo em 1971).

A droga acabou por marcar as gravações, com Keith Richards a liderar o consumo num grupo que também incluía o guitarrista Mick Taylor, o produtor Jimmy Miller, o saxofonista Bobby Keys e o engenheiro de som Andy Johns. Keith adormecia durante as sessões e acordava com ideias já de madrugada (em «Rocks Off», por exemplo, e de acordo com Andy Johns), um pormenor que acaba por ilustrar as sessões em que o grupo foi participando de forma desmembrada, levando a que o baixista Bill Wyman tivesse um input reduzido e que até o produtor Jimmy Miller tivesse gravado algumas das baterias, para tentar acelerar o processo.

Mantendo o elevado nível a que estavam habituados, os Stones decidiram acabar o álbum nos Sunset Sound Recorders, estúdios situados em Sunset Boulevard, em Hollywood. Este estúdio começou como parte das operações da Disney e aí foi gravado o áudio de clássicos como Bambi ou 101 Dálmatas. Na década de 60, passou a receber bandas como os Beach Boys (que aí gravaram parte de Pet Sounds), os Doors (gravaram lá os primeiros dois álbuns) ou os Led Zeppelin. Em cima das bases gravadas em França, e ao mesmo tempo que iam realizando as misturas, o grupo foi acrescentando mais sessões, com teclistas como Billy Preston (o mesmo que aparece ao lado dos Beatles no famoso concerto no telhado da Apple) e Dr. John (nome central da cena r&b de New Orleans) e inspiração retirada directamente de visitas a igrejas evangélicas da vizinhança «Shine a Light» é um dos exemplos mais claros.

Em Abril de 1972, Mick Jagger revelava as suas expectativas à Rolling Stone, quando a edição do álbum estava apenas a algumas semanas de distância: «O disco foi gravado durante o Verão [passado] e nós vamos andar em digressão durante este Verão, por isso tudo se encaixa. É um álbum de Verão e muito comercial, penso eu. É um álbum duplo, como o Electric Ladyland. Esse tinha suficiente material lá dentro para um ano de audições. Também espero que saia um álbum ao vivo da digressão que vamos fazer». Contudo, o álbum seguinte dos Stones seria Goat's Head Soup, registo de estúdio em que Jagger prosseguia com o seu caminho de afastamento do rock and roll convencional, escolhendo Kingston, na Jamaica, como um dos locais de gravação.

"Exile On Main St.", lançado em 1972

"Exile On Main St.", lançado em 1972

Este álbum é um labirinto

As reacções a Exile on Main St. (leia a crítica no Guia desta revista) foram díspares, mesmo entre os membros dos Rolling Stones. Mick Jagger, por exemplo, afirmou em 1978 ter gostado muito do álbum, mas com reservas: «eram quatro álbuns de um só lado [do vinil] tinha coisas para todos os gostos. E não para se ouvir todo de uma vez». Já em 1995, o vocalista dos Stones descrevia o álbum como «sobrevalorizado». Os críticos também saíram confundidos do confronto com Exile on Main St.: Robert Christgau descreveu-o como uma «fagged-out masterpiece», Lenny Kaye (também guitarrista no grupo de Patti Smith) afirmava na Rolling Stone: «Há canções melhores, há canções piores, há canções que irão tonar-se nas suas favoritas e outras que provavelmente o levarão a levantar a agulha».

Lester Bangs foi mais longe primeiro atacou o álbum, depois apaixonou-se por ele, sinal inequívoco do labirinto que os Stones tinham criado num álbum que era, efectivamente, a banda-sonora de um período muito conturbado das suas vidas. E um documento vivo da procura de um lugar no então extremamente agitado mundo do rock and roll. «Estou aborrecido com o rock'n'roll. Temos que explorar tudo. O céu incluído», diria Jagger em 1971. Para os Stones isso significava explorar as raízes os blues, o country-rock, a soul, o gospel. Significava abrir as pistas disponíveis no estúdio a um exército de colaboradores. Significava pegar em causas «Sweet Black Angel», canção que o escritor Peter Doggett descreve em There's a Riot Going On como «a primeira clara canção de protesto» dos Rolling Stones (esquecendo, por exemplo, «Street Fighting Man», de 68) homenageava Angela Davis, dos Black Panthers.

Significava, sobretudo, tentar resolver o momento para poder sonhar com o futuro. Não é por acaso que o mais recente lançamento dos Stones, o filme e disco Shine a Light, retire o título de um dos melhores temas de Exile on Main St.

Originalmente publicado na BLITZ de junho de 2010