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“London Calling”, a obra-prima dos Clash que matou o punk

Foi esquecido pela Rolling Stone no rol dos 40 álbuns mais emblemáticos do punk, mas não o deixaremos passar em claro. Aquela música de cabelo curto e cabedal, do jazz à soul, do rock ao reggae salvou vidas. Mesmo que tenha dado cabo dos Clash, engolidos pela dimensão que conquistaram

Oficialmente os Clash entraram para a história como defensores do povo, os revolucionários de serviço cuja causa era a «working class». A expressão chave é esta. Conhecemos o cliché: de um lado velhinhas com chá e scones ao lanche, gente enfunada em regras de educação incompreensíveis, incapaz de comunicar emoções, muito rígida, muito frígida. Do outro, o povo, a «working class», uma cambada de brutos iletrados, amantes de cerveja e pancada.

É um cliché, mas não há cliché sem verdade. Na literatura de Jane Austen, no magnífico livro de L.P. Hartley The Go-Between, na poesia de Larkin, no argumento de Harold Pinter para o filme The Servant, a diferença de classes é notória. No cinema, Mike Leigh ou Ken Loach mostram esse abismo de classes. Séries de humor como Little Britain capitalizam nessa ideia de uma «working class» grotesca.

Supostamente, o punk era o grito de revolta de miúdos de classe baixa e desde as primeiras aparições dos Sex Pistols que se formou uma espécie de cartilha obrigatória do punk: tinha de se estar «on the dole» (forma britânica de «rendimento mínimo assegurado»), era preciso vir da «working class», não saber tocar, e de preferência usar cabelo curto e casaco de cabedal.

O punk é o que Joe quiser

A história oficial dos Clash bate certo com a cartilha punk, mesmo que em 1977, quando a banda assinou contrato para a edição do seu primeiro disco com uma major, a CBS, a fanzine Sniffin' Glue tenha logo ali declarado a morte do punk. Os Clash são, de facto, culpados de matar o punk. Como? Simples: editando, em Dezembro de 1979, London Calling. Porque London Calling tornou os ditames do punk inúteis ao marcar uma viragem não só no som dos Clash, mas também, como escreveu Adam Sweeting na revista Uncut de Outubro de 2004, «no próprio punk»: era um disco que ia «do jazz à soul, do ska ao melodrama à Phil Spector, do rock convencional a um carnaval reggae».

London Calling não é só o disco que a Rolling Stone ainda hoje diz ser o melhor disco da década de 80 (mesmo tendo saído em 79). É uma história de classes, de reescrita das histórias pessoais, de sonhos frustrados, morte e angústia. Foi o disco que matou os Clash, foi o disco que nos salvou da banalidade.

No seu livro Babylon's Burning From Punk To Grunge, Clinton Heylin, um dos maiores genealogistas do rock'n'roll, conta que «de acordo com Strummer, ele encontrou pela primeira vez os seus futuros colegas dos Clash, Mick Jones e Paul Solomon, na fila dos escritórios do "dole" em Lisson Grove».

Strummer vivia, à época, num squat, uma casa abandonada, o que só lhe dava mais «credibilidade de rua». No documentário oficial dos Clash, Westway To The World, Strummer conta que «havia hordas de gente que não conseguiam pagar renda. A única coisa que havia a fazer era arrombar um dos edifícios abandonados e ocupá-lo».

Mas, como Heylin faz ver, «na realidade o "dole" teria servido para ele pagar a renda». Heylin tira a conclusão óbvia: «Nos anos 70, viver em squats equivalia a fazer uma declaração acerca de como se queria levar a vida». Hyelin cita então Palm Olive, namorada de Strummer quando ele vivia em squats: "[Naquela época] por causa dos squats havia imensa gente que pensava em ideias de como viver sem ter de trabalhar".

A versão real dos factos é, portanto, diferente da que rapidamente entrou para a mitologia punk. Nem a história do primeiro encontro entre os três principais membros dos Clash é verdadeira.

Simonon, Jones e Strummer estiveram pela primeira vez juntos no mesmo espaço no início de Abril de 1976, no 100 Club, em Londres. Aquele foi o segundo concerto dos Sex Pistols, mas o trio também lá estava por causa dos 101ers, cabeças-de-cartaz, que tocaram o seu reportório habitual, em que constavam cerca de cinco baladas r'n'b de Chuck Berry um tipo de som que um ano depois o punk viria a oficialmente detestar.

Os 101ers eram hippies rockeiros, que agradavam ao ouvinte de rock acessível dos pubs de Inglaterra. O vocalista tinha sido descrito como uma espécie de «Rory Gallagher vintage» isto em 1977 seria considerado insultuoso por um punk, mas na altura em que a comparação foi feita, o vocalista dos 101ers ficou todo contente. O seu nome era Joe Strummer. Tinha cabelo comprido.

Viria a cortá-lo bem depressa, tal como Mick Jones (também habitante de squats) o fez após ver, a 30 de Março de 1976, o primeiro concerto dos Sex Pistols. Pasmado com o que viu, Jones desfez a sua banda, os London SS, e começou à procura de um vocalista. Encontrou-o em Joe Strummer.

Já tinha baixista, Solomon, que não sabia tocar, mas tinha óptimo aspecto. Este último pormenor era importante para Bernie Rhodes. Rhodes tinha surgido nos ensaios dos London SS trazido por Tony James, comparsa de Jones na banda. James tinha admiração pelas grandes ideias de Rhodes, mas acima de tudo pelo facto de ele ter desenhado as suas t-shirts favoritas.

Rhodes, ex-empregado de Malcolm Mclaren, queria fazer com Simonon e Jones o mesmo que o seu ex-patrão tinha feito com os Pistols: montar uma banda e moldá-la com tiques revolucionários. A partir daqui as coisas aconteceram muito depressa para os Clash.

Em Setembro de 1976 a Sounds já perguntava se eles não seriam «the best new band in the year». Em Novembro a mesma Sounds escrevia que o primeiro single dos Clash, «White Riot», era «soberbo». Mas esse single levou à saída do guitarrista Keith Levine, formando assim o quarteto que se tornou histórico. Segundo Levine «Para mim já era suficiente terem vindo com aquela coisa de "No Elvis, Beatles or Rolling Stones" [letra de 1977, escrita em 1976]. Quando vieram com o "White Riot", saí". Levene culpa Rhodes do caminho que os Clash seguiram então: o single tinha sido ideia de Rhodes, que queria uma canção equiparável em branco à revolta dos negros ocorrida no Carnaval de Agosto passado em Nothing Hill.

Rebeldes com causas

Em Outubro Rhodes consegue que os rebeldes «righteous» assinem por uma tocaram o seu reportório habitual, em que constavam cerca de cinco baladas r'n'b de Chuck Berry um tipo de som que um ano depois o punk viria a oficialmente detestar.

Os 101ers eram hippies rockeiros, que agradavam ao ouvinte de rock acessível dos pubs de Inglaterra. O vocalista tinha sido descrito como uma espécie de «Rory Gallagher vintage» isto em 1977 seria considerado insultuoso por um punk, mas na altura em que a comparação foi feita, o vocalista dos 101ers ficou todo contente. O seu nome era Joe Strummer. Tinha cabelo comprido.

Viria a cortá-lo bem depressa, tal como Mick Jones (também habitante de squats) o fez após ver, a 30 de Março de 1976, o «major», a CBS. Mas Rhodes negociou um mau contrato: por um avanço reduzido de dinheiro a CBS ficava com os direitos de cinco discos dos Clash e não tinha obrigação de dar apoio financeiro à banda, o que significava que na prática, no que tocasse a digressões e instrumentos eles tinham de ser mesmo punks (e foram-no).

Quando o primeiro e homónimo LP dos Clash saiu, em Abril de 77, a aclamação foi unânime. A Sounds deu-lhe cinco estrelas. A falecida revista ZigZag dizia que não havia «uma única banda no mundo que chegue aos calcanhares» dos Clash. Mesmo o enfant-terrible da crítica americana, Lester Bangs, conhecido pelo seu prodigioso veneno, rendeu-se ao quarteto. Bangs acompanhou os Clash numa das digressões de 1977 e, numa série de artigos para o jornal inglês New Musical Express no início de Dezembro, mostrou-se fascinado não só com a música mas também com a integridade do quarteto, chegando ao ponto de escrever que havia neles «algo despretensiosamente moral» que contrastava com «o simples e implacável hedonismo de tantas super-estrelas» ou a «ambição monomaníaca dos pretendentes [a estrelas]».

Os Clash não só falavam de igual para os fãs como os convidavam de volta para o hotel em que estavam hospedados, ofereciam-lhes bebidas e deixavam-nos dormir nos seus quartos, fossem rapazes ou raparigas. Os Clash, concluía, tinham um «simples e desempoeirada honestidade» que os compelia a uma «insistência não dogmática em dizer a verdade».

A empatia de Bangs com os Clash ia ao ponto de escrever que «ao contrário do que se pensa, os Clash não usam speed, pelo menos não em digressão», o que é pelo menos dúbio. As drogas duras, no entanto, só viriam mais tarde, durante as primeiras digressões aos EUA e foram uma das razões da destruição da banda: Topper Headon, que logo após a gravação do primeiro disco se tornara baterista dos Clash, viciou-se em heroína no período que se seguiu a Sandinista! (1980). Como contou à Mojo de Novembro de 2008, Headon só se livrou da heroína há uma década. Após ser despedido dos Clash por Strummer em 82, foi sempre a cair: «Vendi a minha bateria, acabei a injectar-me, fiquei sem dinheiro e preso, e acabei na rua, a comer na sopa dos pobres».

Segundo Topper, o pesadelo dos Clash com drogas começou depois de London Calling. Estavam nos EUA, em digressão e, diz Headon, «havia muita droga à volta da banda». Apesar de Strummer, publicamente, ser contra as drogas, Headon afirma que «nós todos usávamos drogas duras».

Conclusão: uma parte do charme dos Clash vinha da mistura da «righteousness» com a rebeldia inerente a cada um dos quatro. Como é que essa rebeldia se mostrava? Além da fúria das canções, das notícias de salas arrasadas durante concertos, havia pequenos incidentes, como um em que Sinomon e Headon foram presos por desatar a matar pombos que, por azar, eram pombos-correio do estado. Strummer e Jones também tinham sido presos em 77, por pequenos incidentes (um deles envolvia roubar uma mala por pura brincadeira).

Tudo isso dava credibilidade ao que cantavam o que levou Bangs a escrever que em palco, a cara de Strummer contorcia-se com toda a «raiva necessária para nos convencer da autenticidade dos Clash».

"London Calling", dos Clash

"London Calling", dos Clash

Destino: América (escala em Londres)

Logo em 1978 gravaram o segundo disco, mas cederam à editora e usaram um produtor, Sandy Learlman, que lhes poliu o som. O que eles detestaram, apesar das críticas dizerem maravilhas. A ideia da editora era fazer com que Give 'Em Enough Rope explodisse no mercado americano o que não aconteceu.

No entretanto despediram Bernie Rhodes e, no início de 1979, embarcaram pela primeira vez para os EUA. Basta olhar para a lista de gente que os acompanhou em digressão para perceber que não estavam mais dispostos a fazer de conta que só lhes interessavam o punk: o duo soul Sam & Dave, os bluesmen Bo Diddley e Screamin' Jay Hawkins, o cantor country Joe Ely e os loucos do rockabilly Cramps, todos abriram para os Clash e todos eram ícones da cultura popular americana, mainstream ou underground.

A digressão foi um triunfo, e em Fevereiro o L.A. Weekly declarava que «os Clash são a melhor banda que há no mundo». Uma segunda digressão seguirse-ia, adensando a sensação de mudança com a presença de um quinto Clash, Kosmo Vynil, que era o homem das teclas e uma espécie de DJ «avant la letre».

Supostamente foi graças à América que London Calling se tornou o primeiro grande disco de «melting-pot». Mas Jones diz hoje que «todas as influências que estão no disco nós já as tínhamos». É verdade: na sua essência, mais que punks os Clash sempre haviam sido rockeiros. Aliás, Stephen Dalton conta, na Uncut de Junho de 2007, que Strummer lhe tinha confessado o seguinte: «Eu fui sempre um hippie». A Topper Headon «o punk não [me] dizia muito»; ouvia «jazz, soul e muito blues».

Os outros, recorda Headon, tinham gostos variados: «O Joe, na altura, estava muito interessado no rockabilly. E o Paul estava muito interessado no reggae». Mick Jones, claro, sendo o melómano que era, estava interessado em tudo.

Lester Bangs, no seu relato, fez notar que antes dos entrarem em palco enquanto se vestiam de propósito para o concerto, coisa única no punk os Clash passavam no PA Booker T & The MG's, os reis do funk americano. E logo em 77 a banda havia editado um single, Complete Control, produzido pelo rei do dub, Lee Scrath Perry. E antes de editarem London Calling tinham lançado em single uma espantosa versão de I Fought The Law, que no original dos Bobby Fuller Four era quase uma imitação de Buddy Holly.

O punk tinha sido um comboio e agora os Clash construíam a sua própria estação. Libertavam-se de coletes de forças e deixavam à solta as suas contradições. Porque o que eles mais tinham era contradições a começar por Joe Strummer.

Dois discos para a história (pelo preço de um)

Nascido John Graham Mellor, Strummer nunca foi «working class». O pai era diplomata e Strummer estudou em colégios internos. A vida toda esforçou-se para esconder esse passado, chegando a pôr jornalistas (que acompanhavam a banda em digressão) fora do autocarro quando estes mencionavam o simples facto de ter feito parte dos 101ers.

Strummer era, segundo a mulher, «um homem com um profundo sentimento de abandono» que vinha da relação distante com o pai e das escolas repressivas que frequentou. Mas também era um homem marcado pela tragédia: em Junho de 1970, o seu irmão, David, suicidou-se.

É como se em vez de aceitar o mesmo destino do irmão, Strummer tivesse re-escrito as suas origens. A vida toda Strummer andou à procura de uma personagem em que encaixar: foi, como escreveu Stephen Dalton, «um idealista romântico e um oportunista carreirista, um rebelde anarquista e um patriota orgulhoso, um libertário hippie e um pregador punk». O realizador Julian Temple diz que «ele tinha um lado implacável» mas ao mesmo tempo «tinha um lado incrivelmente generoso».

Mas Mick Jones também não se podia gabar de melhor ascendência. Talvez não tivesse a culpa burguesa de Strummer até porque ele sim era «working class», talvez não tivesse a sombra da morte a pesar-lhe, mas tinha sido abandonado pelos pais e fora uma avó que o criara com imensas dificuldades. O rock'n'roll era um refúgio.

Todas essas contradições viriam a soltarse aquando das gravações de London Calling. Para mais tinham desta feita a seu lado um produtor, Guy Stevens, que era tão ou mais louco que eles chegou a dizer que «só há dois Phil Spectors neste mundo e eu sou um deles».

Stevens incitou-os a escrever tudo o que lhes passasse pela cabeça. O resultado foram dezanove canções que abordavam todos os assuntos possíveis: o governo de Thatcher, Wall Street, as relações amorosas, o fascismo, a energia nuclear. Com tanto material eles podiam ter editado dois discos, de modo a libertar-se do mau contrato com a CBS. Mas não, editaram um disco duplo que por sua exigência foi vendido ao preço de um disco simples.

Havia o rockabilly de «Brand New Cadillac», o be-bop de «Jimmy Jazz», a pop insidiosa de «Spanish Bombs», a soul-Memphis de «Train In Vain», o bongo-jazz de «Revolution Rock», o tom mariachi de «Rudie Can't Fail». Sem «Spanish Bombs» não haveria Pixies, sem «Hateful» não haveria Pogues. Sem «London Calling» não haveria rock de estádio, não haveria consciência no rock e o punk morreria numa autofagia deprimente.

Na Rolling Stone, Greil Marcus comparou o disco a Exile On Main St, dos Stones, outro disco que unia géneros improváveis. Só que em Dezembro de 1979 o mundo tinha mais música à disposição e foram os Clash que a fizeram ouvir, muito antes de um qualquer Paul Simon juntar batuques à sua música, e um ano antes de os Talking Heads adicionarem definitivamente a música negra à sua em Remain In Light.

Com a diferença de que os Clash foram ouvidos: no Reino Unido London Calling entrou directamente para o sétimo lugar, nos EUA treparam até ao 27º. Depois os Clash ainda fizeram Sandinista!, triplo álbum desequilibrado, Combat Rock, um grande disco, e já sem Mick Jones e Headon, um péssimo Cut The Crap.

Strummer passou o resto da sua vida a beber demais, Mick Jones ficou mais conhecido pela sua amizade com Pete Doherty, Headon foi o que foi e Sinomon não tem currículo excepto uma passagem pelos The Good, The Bad and The Queen, banda inventada por Damon Albarn. Mas que importa isso quando se fez um disco como London Calling?

Texto: João Bonifácio

João Bonifácio era, à altura da publicação deste trabalho, colaborador do suplemento Ípsilon do jornal Público. Originalmente publicado na BLITZ de dezembro de 2009