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Adolfo Luxúria Canibal, 2009

Frederico Martins

Mão Morta: sangue, suor, sémen e algumas lágrimas

Em 2010, assinalando um quarto de século da sua banda de sempre, Adolfo Luxúria Canibal deu-nos uma grande entrevista que agora recuperamos: a infância em Vieira do Minho, uma Lisboa “universitária” desoladora mas cheia de sexo, o Rock Rendez Vous onde chorou pela última vez a ver um concerto, dealers marados e as facadas da praxe

O encontro está marcado para o fim de um dia frio de Janeiro à sombra da pedra milenar da Sé de Braga, local simbólico da mentalidade conservadora que viu, certamente escandalizada, o grupo de «Oub' Lá» nascer em finais de 1984. A primeira parte da longa conversa tem, no entanto, lugar num cenário radicalmente diferente: um restaurante de sushi gerido pela companheira de Adolfo, que representa não só um olhar para o futuro, como outro tipo de empreendimento não artístico do homem que quando não vocifera palavras de caos e desordem ganha a vida como jurista. «Estava farto de ter que ir ao Porto para comer sushi», desabafa. E é neste pedaço de futuro bracarense, que começamos a olhar para o passado.

Em criança, o que é que queria ser quando fosse grande?
A única coisa que sei é o que me contaram e, claro, o que me contaram foi o lado anedótico. E dentro desse lado anedótico, ao que parece aquilo que eu queria ser era Presidente da República.

E quando é que sentiu que já não era criança?
Tenho a impressão de que mais do que psicologicamente ou racionalmente, esse meu crescimento esteve relacionado com a geografia, digamos. Eu vivi a infância em Vieira do Minho, o meu pai era administrador florestal e nós tínhamos uma casa de serviço, com jardim, floresta, rio. Era um espaço imenso onde a liberdade era um facto podia pegar na bicicleta e ir apanhar castanhas, brincar com os cães, tomar banho no rio. E eu acho que o fim da minha infância chegou quando saí de Vieira do Minho e fui para Braga, com onze anos.

Sentiu algum choque?
Não. Quer dizer, senti que de repente a minha vida tinha mudado. Psicologicamente isso dizia-me que já não era uma criança, até porque tinha outra vivência, já não tinha a mesma liberdade de movimentos, as brincadeiras passaram a ser outras. E depois tinha a escola, a vivência urbana dentro do que era a vivência urbana possível numa cidadezinha de província como era Braga nos anos 60. De qualquer maneira, comparado com o hiper-boculismo de Vieira do Minho, era uma realidade urbana.

O que é que era diferente em Vieira do Minho? Tinha uma casa na árvore?
Essa da casa na árvore tem graça porque é uma ideia hollywoodesca. Lembro-me do início da televisão e das emissões a pretoe-branco só ao fim do dia que começavam com séries juvenis. Lembro-me de uma série qualquer que era uma espécie de Robinson Crusoe com um tipo que estava numa ilha, dormia numa árvore e, para não cair, amarrava-se a um tronco com o cinto, o que era completamente absurdo. E eu lembro-me de ter experimentado essa técnica, a fingir que dormia numa árvore, amarrado a um tronco. A casa na árvore é uma noção distante da realidade: a nossa relação com as árvores implicava ir aos ninhos, ir apanhar castanhas, o que fosse, mas não construir casas nas árvores.

Já em Braga, vivia entusiasmado com as novas possibilidades?
Continuava a ir a Vieira do Minho aos finsde-semana, mas a relação já era diferente, era mais um reencontro, via as mesmas pessoas, mas já não era aquele convívio quotidiano. Mas, de facto, a cidade abria todo um leque de novidades. Mesmo apesar de eu sempre ter tido uma relação próxima com Lisboa, que era onde viviam os meus avós e onde eu ia umas duas vezes por ano, já tendo por isso uma relação forte com a vivência urbana os autocarros de dois andares, os eléctricos (que Braga também tinha), os cinemas. Mesmo tendo essa referência, Braga representava uma mudança forte.

Lembra-se da primeira ida ao cinema?
Ao cinema propriamente dito penso que não, mas lembro-me dos primeiros filmes que vi. Quando vivia em Vieira do Minho, todos os verões fazia férias em Vila Praia de Âncora e aí todas as semanas havia cinema, nos Bombeiros Voluntários. E foi aí que vi os primeiros filmes.

Coboiadas?
Não. Era mais o Joselito e a Marisol, muita coisa espanhola. Talvez porque as histórias fossem emocionalmente mais violentas, mas esses filmes são as primeiras coisas de que me lembro. Via a Marisol a ser raptada, os pais à procura dela, os bandidos a esconderem a Marisol debaixo do banco quando a polícia os mandou parar.

E quais foram os seus primeiros heróis?
A minha relação com a banda desenhada começou ainda na infância com o Tintim, por volta de 1967, talvez. Mas não era propriamente um herói. Lia a revista todas as semanas enviada pelo meu avô de Lisboa, enroladinha tipo canudo lia as aventuras do Astérix, gostava muito, o Michel Vaillant, que eu adorava por causa dos carros.

Mas curiosamente, só começou a conduzir já tarde, não foi?
Sim, muito tarde, mas sempre fui um copiloto de primeira ordem. Só tirei a carta em 1998 para o nascimento do meu último filho, o Mateus.

Que tipo de aluno foi, na escola?
Tanto na primária como depois no liceu fui sempre muito bom aluno. Sempre entre os três melhores alunos da escola. Depois, com o 25 de Abril, desleixei-me (risos), deixei de me interessar tanto pela escola: as minhas preocupações passaram a ser outras, a divergir, e isso também tinha a ver com a adolescência.

25 DE ABRIL: HORMONAS E TROTSKISMO

A atitude de navegar contra a corrente foi adquirida por Adolfo Luxúria Canibal nos tempos quentes do PREC, quando a revolução exigia engajamento por parte de quem queria construir outra realidade. Esse espírito de combate tão presente na música dos Mão Morta foi adquirido no turbilhão político que se seguiu a 25 de Abril de 1974.

Tinha que lidar não só com a revolução dos cravos, mas também com a ebulição das hormonas, certo?
Exactamente. Eu tinha 14 anos quando se deu o 25 de Abril e para mim essas duas coisas são inseparáveis. Mas pronto, continuei a ser bom aluno, já não seria o melhor da escola, mas era aluno de Bom e Muito Bom. E foi assim até ao final do Liceu. E mesmo no Propedêutico [fase anterior à Universidade no sistema de ensino da época] as minhas notas foram muito boas, bastante acima da média. Penso que acabei o Secundário com média de 18 valores, o que era muito na altura.

E disparates nesta época: cigarros, primeiras noitadas?
Quando eu era adolescente deitava-me cedo, tipo meia-noite. Na altura do 25 de Abril, andava envolvido com os trotskistas e combinávamos colagens de cartazes às três da manhã. Metia o despertador e saía de casa já com toda a gente a dormir, muito sorrateiramente, a tentar que a porta não rangesse. E às três menos um quarto estava na rua para ir colar os cartazes e regressar às cinco ou seis da manhã como se não se tivesse passado nada. Lembro-me de fazer isso à socapa, porque era perigoso: se encontrássemos MRPPs a fazer outra colagem havia pancadaria; se encontrássemos PCs a fazer colagens, também havia pancadaria. Eram sempre saídas de risco.

Como é que nasceu o activismo político?
Já antes do 25 de Abril tinha alguma curiosidade: apesar da tenra idade, lembrome de ter seguido as lutas estudantis de Coimbra em 69, o Maio de 68. A minha mãe preocupava-se com o que a televisão mostrava e eu interessava-me. Mesmo antes do 25 de Abril já havia aqui em Braga alguns trotskistas, alguns maoístas do MRPP que iam fazendo umas reuniões. E normalmente eram as pessoas com o ar mais interessante, mais bem vestidos, mais modernos. Eles tinham uns textos, ideológicos mas muito divertidos, que punham em causa a autoridade e isso atraía-me muito aos 13 anos.

Foi um grande salto do Tintim para aí, não?
Sim, mas eu continuava a ler o Tintim. Lia muitas coisas, mas havia de facto esse fascínio por essas pessoas mais velhas que faziam todas aquelas coisas. Quando veio o 25 de Abril e as primeiras manifestações estudantis, lembro-me que passaram pela minha escola a convidar as pessoas para a manifestação e houve apenas duas pessoas que saíram. Eu e uma amiga, uma colega de turma de quem ainda hoje sou grande amigo. Juntámo-nos à manifestação e a seguir fomos todos para a Grundig, a grande fábrica aqui da cidade.

Como lidavam os seus pais com isso?
Com alguma apreensão, sobretudo numa fase posterior. A minha mãe até ia a comícios para ver onde é que eu andava.

Qual era a banda-sonora desses tempos?
É engraçado porque comecei a ouvir música muito tarde. Em casa havia um daqueles rádios grandes, mas estava sempre desligado. Em Vieira do Minho, nem sequer televisão havia. Não era necessário. Havia um velho «pick-up» [gira-discos] daqueles da Reader's Digest, que também raramente se ligava, mas onde me lembro de ouvir os primeiros EPs do Zeca Afonso, à noite, quase em segredo. Porque a minha mãe tinha sido colega do Zeca Afonso, era madrinha de um dos filhos dele, do mais velho penso eu. Havia uma relação de amizade e eu lembro-me de ir a Setúbal em miúdo com os meus pais para o visitarmos. Mas ainda antes do 25 de Abril, e já na escola em Braga, havia aquelas pessoas que gostavam muito do Cat Stevens, depois havia outra facção forte que ouvia Led Zeppelin e Jethro Tull. Lembro-me também de um casal amigo com uma grande colecção de singles, que foi quando tomei o primeiro contacto com a música pop desde os Beatles ao Elton John, passando pelos Moody Blues e pelos T-Rex. Aliás, lembro-me que a minha primeira obsessão foi com os T-Rex e com o Alice Cooper. O meu irmão tinha tudo dos Creedence Clearwater Revival. Isto tudo foi antes do 25 de Abril, porque depois o pop foi completamente varrido. Com os meus novos amigos comecei a ouvir muito jazz, sobretudo free jazz, até 1977.

Ano peculiar, o de 1977. Descobriu ligações entre o free jazz e o punk?
Era aí que eu queria chegar. Em 1977 ouvi Stooges na rádio pela primeira vez, na antiga Rádio Comercial, numa série de programas que se chamava A Idade do Rock, penso eu. E com os Stooges, de repente, abriu-se toda uma nova realidade. Paradoxalmente, para mim aquilo soava a free jazz: aquela base rítmica rugosa, aquela avalanche perfeitamente opressora, com aquele saxofone que era o grito, o romper. E esses programas meteram os Stooges no caldeirão punk e houve toda uma descoberta que iniciei ainda aqui em Braga.

Na época havia alguém a tocar aqui em Braga?
Havia duas bandas míticas aqui em Braga que na época faziam «covers»: os Pentágono, onde chegou a ser cantor o Fernando Girão, o Very Nice. Eu nunca cheguei a vê-lo, suponho que ainda estaria em Vieira do Minho, mas ouvi as histórias do tipo de cabelos compridos, muito diferente do bracarense típico. E havia ainda os Turma 6, também de «covers», mas menos tecnicistas do que os Pentágono. Não tenho a certeza se cheguei ou não a ver os Pentágono tenho ideia que sim, num concerto na praia, em Ofir talvez mas lembro-me de ver os Turma 6. Mas o meu primeiro contacto com música pop foi ainda em Vieira do Minho, nos famosos salões dos bombeiros, em 1967 ou 1968. Havia um pequeno palco, várias actuações e no meio dos sketches de teatro, etc, havia um grupo pop. Pode ter sido o Quinteto Académico, ou algo semelhante. Lembro-me de ficar excitado com aquela música moderna. Lembro-me também das pessoas que em 1971 passavam à boleia para ir para Vilar de Mouros, para o primeiro festival. Ver aqueles cabeludos, aquele ambiente todo, deixou marcas.

Adolfo Luxúria Canibal em 1987

Adolfo Luxúria Canibal em 1987

Daniel Blaufuks

UM «AMERICANO» NA CAPITAL

O percurso de Adolfo Luxúria Canibal trouxe-o a Lisboa, para concluir os estudos. A Universidade e o curso de Direito foram o seu destino, mas a cidade não recebeu bem o seu «visual» nem soube dar a Adolfo a diferença que desejava. Mas antes disso, já era o «americano» em Braga por causa de uma «barbicha loura».

Quando é que começou a cuidar do seu visual, da sua aparência?
A partir para aí de 73 comecei a escolher a minha roupa: havia alguma que eu escolhia na loja e era de tal maneira forte que as consequências na escola me levavam a pô-la de lado, mas havia outra a que me agarrava com unhas e dentes e que me dava uma imagem. Quando comecei a surgir no meio dessas pessoas mais velhas, toda a gente me chamava «O Americano», antes de saberem o meu nome, porque eu tinha ar de americano, com a minha pequena barbicha loira e o cabelo comprido também loiro, calças de ganga e blusões tipo bomber-jacket, brancos; tinha outro verde-alface com umas badanas pretas, aquelas t-shirts compradas em Lisboa vindas de Carnaby Street. Vestia coisas estranhas e roupa comprada na Caritas, vinda dos Estados Unidos.

Tinha, portanto, consciência da diferença.
Tinha essa consciência, sim, tinha sobretudo consciência do que gostava. Na altura, como a cidade era pequena, eu lembro-me de também reparar em pessoas na rua, por se vestirem de forma diferente e saírem um bocado do baralho. Pessoas que me fascinavam e que eu depois acabei por conhecer.

Chegou a uma altura em que teve que encarar a universidade. Como é que fez a sua escolha de curso?
Foi um bocado por exclusão de partes. Estava na área de Letras, que tinha poucas saídas. Eu, de certo modo, romanceava a profissão de antropólogo, por causa das leituras do Lévi-Strauss, mas na altura um curso desses só teria dado para eu ser professor e se calhar só de liceu. Esse fascínio tinha muito a ver com a viagem, com o andar de um lado para o outro. E todas as perspectivas que eu tinha em Letras com a História, as Línguas, a Geografia acabavam em dar aulas. E para não acabar professor, só mesmo indo para Direito.

Não foi um curso escolhido para ter ferramentas para mudar o mundo.
Não, havia a pressão familiar para fazer um curso superior, e dentro das perspectivas que tinha à frente, o Direito, mesmo não me agradando por aí além, era o curso que me oferecia alguma liberdade de horários. E depois de escolhido o curso só havia duas possibilidades: ir para Coimbra ou para Lisboa. Eu Coimbra já conhecia: tinha lá estado durante o Propedêutico e percebi rapidamente que quando saísse tinha uma cirrose e nenhum curso. De maneira que escolhi Lisboa, que ainda por cima tinha a vantagem suplementar de ser a cidade onde viviam os meus avós por isso tinha casa, apoio familiar.

E Lisboa não representava nenhuma novidade para si.
Eu e o meu irmão já tínhamos percorrido a cidade a pé de uma ponta à outra. Com o meu avô já tinha corrido os museus todos, alguns deles várias vezes.

Chegou em finais de 1978.
E fui viver com os meus tios, para o Arco do Cego. Tratei de procurar a Lisboa que eu não conhecia e que no fundo achava que era a Lisboa que devia haver em todas as cidades um certo «bas-fond». Na altura ainda não havia o Bairro Alto como hoje o conhecemos. Havia zonas de prostituição e de álcool, que não era o que eu procurava. Lisboa começou por ser uma decepção. E a essa juntou-se outra a da Universidade. Eu estava à espera de encontrar umas pessoas mais velhas, cultas, prontas a discutir ideias. Mas o que eu encontrei foi gajas de blazer azul, todas totós, que não tinham nada para discutir; se não era MRPP, porque já estavam a desaparecer, era PSD, tudo muito cinzento, ou no caso azul-marinho, sem ideias. E eu cheguei lá de barbas, brinco na orelha, com aquela ideia de que «agora é que vai ser» e foi uma decepção. Passado um mês tinha tirado o brinco, cortado a barba e tinha-me tornado, eu próprio, cinzento para não me chatearem.

Mas o visual não resultava sequer com as caloiras?
Isso é só nos filmes. Acinzentei-me porque estava farto de ser apontado.

UM PUNK À SOLTA

Os ecos do punk rock fizeram-se sentir de forma clara em Lisboa, que em 1978 ensaiava a sua própria revolução de dois acordes, antes do boom do rock ter levado a música para outras paragens. Adolfo ainda não Luxúria ou Canibal, o estudante universitário à procura de um escape, mergulhou fundo no circuito punk.

Teve contacto com a música em Lisboa?
Sim. Porque se a Lisboa underground e literária que eu procurava não existia, se a universidade também não tinha nada a ver com o que eu imaginava nos meus melhores sonhos, acabei por me refugiar na moda, no que vinha lá de fora, que era o punk. E aí assisti a alguns concertos, na António Arroio, no D. Dinis, nos Alunos de Apolo...

Esteve no primeiro concerto dos Xutos?
Estive no primeiro concerto dos Xutos a sério, no D. Dinis. Esse dos Alunos de Apolo não foi um concerto, foi uma invasão de palco. Estive também no primeiro concerto dos Corpo Diplomático, nos Alunos de Apolo, salvo erro. Vi também os Minas e Armadilhas. E nesse círculo havia muita gente da Avenida de Roma, da Linha de Sintra... Os tipos da Avenida de Roma eram uma espécie de betos formatados em punk. Os tipos dos subúrbios eram mais genuínos; o visual correspondia à forma como agiam, eram mais claros.

A liberdade recém conquistada também se manifestava na sexualidade?
Braga sempre foi muito conservadora, antes e depois do 25 de Abril. Nesse aspecto, o que mudou foi a chegada dos retornados, ou melhor, das retornadas, depois do 25 de Abril: a relação delas com o corpo e o sexo era completamente diferente da dos típicos minhotos. Ou seja, não houve propriamente uma libertação sexual, houve apenas mais sexo. E em Lisboa era completamente diferente: quando lá cheguei nem se falava de sexo, era uma coisa natural que simplesmente acontecia em todas as situações e mais algumas. Na faculdade, fora da faculdade. Uma pessoa saía à noite e tinha sexo, levantava-se de manhã e tinha sexo. Não havia sida ainda, ou não se ouviam os seus ecos, e ninguém tomava cuidados porque não se pensava nisso.

Quando é que nasceu a vontade de também pisar um palco?
A primeira letra horrível que escrevi foi influenciada pela subida ao palco desses grupos, ainda antes do boom do rock português. Essas bandas não tocavam nada, aquilo era mais uma performance. Os Minas e Armadilhas ou até mesmo os Xutos. O que não quer dizer nada, porque aquilo era muito bom. O primeiro concerto dos Xutos é uma coisa que me ficou gravada na memória como algo excepcional, das melhores coisas que vi até hoje em concerto e eles não tocavam rigorosamente nada. Mas aqueles rituais importados do «pogo» criavam situações de genuína performance.

Metia-se no meio da confusão ou ficava no fundo da sala?
Eu não me metia no meio, não conhecia as pessoas. Metia-me mais à frente, onde tanto podia levar empurrões como apanhar com uma escarreta em cima. Não participava como agitador, mas também não me punha a fugir da acção. Mas foi essa proximidade que me trouxe a vontade de também subir para o palco. E foram essas ideias que eu trouxe para Braga, para apresentar aos meus amigos.

Era mais fácil pôr essas ideias em marcha em Braga?
Braga era um meio mais pequeno, onde era mais fácil encontrar pessoas que já tocassem. Os amigos do meu irmão, mais novos, na altura pareceram-me as pessoas ideais, estavam mais atentas, ouviam rock. Foi com essas pessoas que eu fui ter, nomeadamente com o Zé dos Eclipses que mais tarde esteve comigo nos Mão Morta e também com o Pedro Maia agora pintor, na altura Pedrinho Caminho de Ferro. Foi com eles que formei o primeiro grupo que nunca chegou a sair da sala de ensaios, os Bang Bang. Ensaiámos durante umas férias da Páscoa, em 1979, julgo eu, e quando chegámos ao Verão o nosso baterista tinha desaparecido. Resolvemos ir ver o concerto de uma banda em que o meu irmão tocava harmónica. Foi daí que nasceram os Bateau Lavoir que tinha o Miguel Pedro como vocalista. Fui eu que tive a ideia de pôr o Miguel Pedro a tocar bateria connosco. E então mudámos de nome para Auaufeiomau. Começámos a ensaiar em 1980. E estreámo-nos na passagem de ano de 1981 para 1982.

Antes da chegada aos Mão Morta ainda houve o capítulo PVT Industrial.
Sim, no fundo os PVT Industrial nasceram de uma cisão nos AuAuFeioMau que estavam sobretudo nas mãos do Pedro Maia e do Zé dos Eclipses e, na altura, a trabalhar sobretudo canções mais melódicas, mais urbano-depressivas. Havia dois vocalistas no grupo um que servia para isso e outro que não servia porque não tinha uma voz melódica, que era eu, e que para todos os efeitos foi expulso. Foi na sequência disso que eu criei os PVT Industrial, com o Miguel Pedro e, entre outros, com o Joaquim Pinto, que tocava berbequim. Fizemos alguns concertos assim e fomos a primeira banda bracarense a tocar em Lisboa, nas Belas Artes, num célebre dia em que se estrearam os Ena Pá 2000. Depois o Joaquim Pinto foi para Berlim com a namorada, de onde voltou com novo visual e com a grande novidade de que iria começar a tocar baixo. E contou a história: que tinha visto uma banda do car***o, os Swans, e que tinha falado com o baixista no backstage que lhe disse que ele [o Joaquim] tinha cara de baixista. Com essa nova orientação, nasceram então os Mão Morta, comigo com o Miguel Pedro na guitarra, o Joaquim Pinto no baixo e bases rítmicas pré-gravadas.

UM BANDO DE URBANO-OPRESSIVOS

No cenário pós-boom do rock português começaram a surgir algumas aventuras independentes e espaço para que grupos como os Mão Morta se pudessem exprimir. O Rock Rendez Vous e os míticos Concursos de Música Moderna que aí decorriam ofereceram o trampolim para se chegar à edição.

Em 1985, quando os Mão Morta surgiram formalmente, sentiam-se um caso isolado?
Acho que nos sentíamos simultaneamente à parte e também integrados em várias coisas: sentíamos que fazíamos parte de algo que acontecia em Braga e que vinha de trás com os Rouge Rouge, depois Rongwrong, e com os WC que deram nos Bateau Lavoir, mas por outro sentíamo-nos à margem porque éramos os únicos a não saber tocar éramos olhados como a banda ridícula, como a banda que tinha sido formada porque um gajo tinha cara de baixista. Éramos «os outros»: integrados e desintegrados. Por outro lado, a nível nacional, tinham começado a aparecer uma série de grupos novos que já não tinham nada a ver com o Boom do Rock Português. Em 1984 tinha aparecido o Concurso de Música Moderna do Rock Rendez Vous (RRV) e à volta disso aparecem uma data de bandas com outra postura, que já pouco tinha a ver com a caricatura do rock português que em 1980 e 1981 deu coisas bastante horríveis como... não vou citar nomes.

Pode citar.
Mas eu não quero (risos). Estava qualquer coisa a acontecer com os Mler Ife Dada, os Pop Dell'Arte, os Ocaso Épico. Havia à volta do RRV uma nova imagem, uma nova modernidade ligada ao rock. Mesmo a ideia da Música Moderna Portuguesa, que em termos musicólogos podia ser um disparate enorme, em termos psicológicos foi muito importante porque permitiu separar muitas coisas. E nós sentíamos que, de alguma forma, fazíamos parte desse rejuvenescimento da música juvenil. Mas, lá está, também nos sentíamos à parte por sermos de Braga. Também nos sentíamos um bocado à margem porque não tínhamos nada a ver com o resto das bandas que conhecíamos: fazíamos uma banda mais rugosa, mais suja, a nossa referência eram os Swans de que ninguém falava ainda. Mas a inspiração geral das bandas que iam ao RRV era o som urbano-depressivo. Nós também podíamos ser um bocado deprimentes e às vezes perguntavam-nos se éramos urbanodepressivos e eu costumava responder que não, que éramos urbano-opressivos.

Tocaram pela primeira vez no RRV em 1986. Era frequentador da sala?
Até tocarmos na terceira edição do Concurso de Música Moderna nunca tinha estado em nenhuma eliminatória, mas já tinha visto lá concertos: das Raincoats, por exemplo, vi o concerto de estreia dos Heróis do Mar. Xutos & Pontapés, Killing Joke, The Sound. Era uma sala fantástica, sem paneleirices de design, era um sítio pensado para o rock and roll. Lembro-me de ver lá um concerto dos Santa Maria Gasolina em Teu Ventre, na fase final. Estavam quatro guitarristas em palco, a sala praticamente vazia, e o jogo das guitarras foi tal que me emocionei. Não me lembro de ter voltado a chorar num concerto.

Mão Morta em 1992

Mão Morta em 1992

Isa Dreyer Botelho

OS CACHÊS, O DEALER E A PISTOLA

Depois do agradável repasto japonês, rumou-se ao hotel, mesmo ao lado da Sé de Braga onde se marcou o encontro. No quarto pequeno, duas camas e apenas uma cadeira, pelo que as perguntas e respostas passaram a ser mediadas por uma mesinha de cabeceira onde se posicionou, a meio, o gravador que aguentou até ao início da madrugada.

Depois dos concertos, das críticas elogiosas e do Prémio de Originalidade no Concurso do RRV, gravaram Mão Morta, em 1988, no estúdio da Valentim de Carvalho. Como é que geriram as deficiências técnicas?
Nós sentíamos esse olhar externo de alguma forma jocoso, que não nos levava a sério, sobretudo aqui em Braga, por parte dos nossos pares. Mas estávamos muito cientes daquilo que sabíamos e que não sabíamos fazer. Criávamos músicas em função do que sabíamos tocar, em função das nossas incapacidades: músicas muito repetitivas, com baixos de duas notas e rítmicas muito marciais, guitarras muito alicerçadas no ruído, não havia solos, a voz era mais narrativa, mais livre, e não encaixava no esquema rítmico e melódico. Quando chegámos a estúdio, todas as músicas exceptuando a «Carícias Malícias», que tinha sido feita de novo já eram bem rodadas ao vivo. E aquele estúdio para nós era outro mundo, como víamos nos filmes. Por isso despachámo-nos rapidamente para depois explorar o estúdio onde fomos encontrando algumas coisas que depois incluímos nas músicas, como o piano.

Em retrospectiva, como é que vê esse primeiro momento de integração no lado de negócio da produção musical?
Para nós, a gravação do primeiro álbum para a Ama Romanta era uma simples extensão das relações de amizade com o João Peste, depois de termos feito concertos juntos com os Pop Dell'Arte. Nunca vimos as coisas pelo lado do negócio. Pensávamos na Ama Romanta quase como uma extensão do acto de formar uma banda. Não pensávamos numa editora como num negócio, pensávamos que tínhamos vontade de fazer e depois logo se via.

Mas como é que era a vossa relação com o dinheiro na altura? Quem é que ia receber os cachês no final dos concertos?
Dependia muito. Em 1988 já tínhamos uma agência a Malucos da Pátria [de que faziam parte Zé Pedro, dos Xutos & Pontapés, Pedro Ayres Magalhães, dos Heróis do Mar, e o manager, Vítor Silva] mas, antes disso, quem arranjava o concerto também tratava da logística: receber, marcar o restaurante e as dormidas.

E nunca houve problemas?
Lembro-me de um concerto em Afife em que o gajo no fim não nos queria pagar. Ainda não tínhamos aprendido a receber antes de tocar e houve algumas situações em que os gajos já tinham feito a casa, já estava a noite no fim, e como não havia contrato escrito recusavam-se a pagar. Nesse espectáculo de Afife foi a Amélia, na altura minha namorada, que quando queria ser chata era mesmo muito chata, e que moeu tanto o juízo ao gajo que ele acabou por lhe pagar. Houve outro no Douro, uma coisa grande num pavilhão em que tocaram também os GNR, em que não nos queriam pagar. Na altura estávamos com um amigo nosso que era dealer, ele sacou da pistola, foi ter com o gajo, apontou-lha à cabeça e disse-lhe «dá para cá o dinheiro». Claro que recebemos logo o gajo contou as notinhas todas ali à frente, mesmo à filme.

O dealer prestava mais algum serviço?
Hum. (pausa longa)

Era uma relação recreativa?
Sim, era recreativa. (pausa).

Como é que é lida com essas memórias? Está tranquilo em relação a esses episódios?
Eu estou, mas há quem não esteja. E por isso prefiro não falar disso.

Adiante, então. Nesses primeiros tempos já se perspectivava o futuro ou só o presente é que importava?
Em relação a isso tínhamos exactamente a mesma atitude que temos hoje. Em 1986 eu tinha 26 anos e lembro-me de me perguntarem «e como será quando tiverem 30?», ao que eu respondia que depois logo se veria, que se nos continuasse a dar gozo fazer o que fazíamos, continuaríamos. «E quando fizerem 40?» Bem, eu dizia que não me estava a ver em cima de um palco como o Mick Jagger, mas que se lá chegasse logo se veria.

Nunca colocaram um prazo?
Não, tal como hoje. Isto para nós foi sempre uma aventura em «part time», diletante, por pura paixão à música. Não temos obrigações de sobrevivência, se isto acabar não ficamos nem mais pobres nem mais ricos.

Não há um quotidiano Mão Morta?
Não. Mesmo vivendo todos em Braga, eu, o Miguel [Pedro] e o [António] Rafael falamos muitas vezes por telefone e por mail por causa de Mão Morta, encontramo-nos por causa dos ensaios ou dos concertos, mas se não fosse isso se calhar só nos víamos uma ou duas vezes por ano, porque as nossas vidas não nos deixam cruzarmo-nos por acaso.

Não frequentam os mesmos sítios?
Não há sítios para ir: o Rafael está sempre embrenhado em trabalho e quando não está no trabalho tem os filhos para ir buscar ou para dar banho; o Miguel não tem filhos, mas também está cheio de trabalho, vai para casa e leva o trabalho com ele; eu também saio do trabalho a tarde e a más horas e vou para casa.

OPERÁRIOS DO ROCK AND ROLL

Há três grandes fases na carreira dos Mão Morta em termos editoriais: uma primeira fase independente que gerou os quatro álbuns que agora se reeditam, a segunda fase de relação com grandes estruturas editoriais, com os lançamentos na BMG e na Valentim de Carvalho, e, claro, a fase mais recente que corresponde ao nascimento da Cobra.

Se não tivessem as vossas vidas profissionais e a vossa dedicação à música fosse exclusiva, acha que seriam hoje mais parecidos com os Xutos & Pontapés ou com os UHF?
Se assim fosse, a nossa música seria necessariamente diferente. Não sei se seríamos mais parecidos com os Xutos & Pontapés ou com quem quer que seja porque temos características que nos impedem de nos parecermos com eles, quanto mais não seja ao nível de escrita e de técnica. Agora é evidente que tendo que viver da música, tenderíamos a adaptar aquilo que fazemos ao que pensássemos que fosse o gosto dominante do maior número de pessoas.

Condena quem faz música assim?
Não, cada um é que sabe o que faz com a sua vida. Mas pelo que a música representa para mim em termos de prazer, isso seria um bocado como prostituir a música. Como dizia o Carlos Paredes, «gosto demasiado da música para viver dela».

Lamenta não ter encontrado uma forma de relacionamento com a música mais permanente?
Não. Tive a experiência de viver em Paris durante cinco anos, com outra disponibilidade de tempo. Havia trabalhos que tinha que fazer por questões de sobrevivência, mas condensados no tempo: estava concentrado num trabalho durante três meses e o que ganhava dava-me para estar depois seis meses sem me preocupar com o que me pusesse comida na mesa. Estive cinco anos assim e isso dá muito tempo sem ter que fazer nada. Quando uma pessoa está sem fazer nada, pensa. E quando uma pessoa pensa vão surgindo ideias que podem ser postas em prática. A ideia de lançar a Cobra [a editora dos Mão Morta] surgiu nesses períodos; toda a concepção do Nus surgiu assim, dessa liberdade de tempo.

Como é que sobreviveram as suas relações com o João Peste, depois das polémicas que estiveram na base da edição do Corações Felpudos?
Fazer um disco implica vários gastos e a Ama Romanta não conseguiu fazer alguns pagamentos que lhe competiam; o contrato inicial não foi cumprido e nós comunicámos à Ama Romanta que iríamos então fazer o disco sem eles e o João Peste levou isso muito a mal. Mas estávamos a tratar de situações estritamente comerciais, digamos, de negócio, que nada tinham a ver com a amizade que existia. Por isso nunca entendi como é que tomar uma decisão em que se pensou nos Mão Morta pode ter sido entendido como uma traição. E as relações esfriaram. Houve uma aproximação há uns anos, mas nunca mais se recuperou a proximidade que tínhamos tido.

Acabaram por fazer dois discos com a Fungui, de Vítor Silva, e um com a independente Área Total, da Guarda. Quais foram as vendas originais dos primeiros quatro discos?
O primeiro álbum teve duas edições, a primeira de dois mil exemplares, a segunda presumo que de mil; o Corações Felpudos [1990] também teve uma edição de dois mil exemplares, que era a bitola da altura, e que eu acho que foi edição única; o O.D. [1991] teve uma edição de dois mil exemplares que não foi toda escoada, acho até que nunca chegou a ser distribuído convenientemente; e depois o Mutantes [1992] teve uma edição grande: mil exemplares de vinil sem banda desenhada, dois mil ou quatro mil com banda desenhada, e depois duas edições de dois mil cada em CD, pelo menos que eu tivesse acompanhado.

Por alturas do Mutantes S. 21 já estavam a fazer algum dinheiro?
Nem por isso. Fazíamos algum como autores e em concertos, mas não da venda de discos.

Dessa primeira fase, qual é o seu disco favorito?
Aquele que ficou mais próximo do que imaginámos foi o Mutantes, mas tenho também um carinho muito especial pelo primeiro álbum, por tudo o que representa e pelo que foi na altura mas era um disco de que eu gostaria de ter as multipistas originais para o poder remisturar. O O.D. é um disco para que hoje olho e que sei que foi feito quase por brincadeira, é um disco que eu descreveria como menor, apesar das belíssimas canções que tem. E o Corações Felpudos é um disco. particular. Já o remisturámos e corrigimos esse problema, mas é um disco que nos abriu um leque de liberdade por ser muito diferente do primeiro, tem coisas fabulosas, mas também tem outras que podiam ter sido mais trabalhadas.

Adolfo Luxúria Canibal em abril de 1998

Adolfo Luxúria Canibal em abril de 1998

Rita Carmo

SANGUE NAS PAREDES E OUTROS EXCESSOS ROCK

E, de repente, o grupo «maldito» viu-se com um sucesso radiofónico, «Budapeste». A digressão que se seguiu e a primeira passagem por uma multinacional, a BMG, coincidiu com o período de maiores excessos rock and roll dos Mão Morta.

O sucesso inesperado de «Budapeste» abriuvos a porta da BMG. Como é que os Mão Morta lidaram com Tozé Brito [director da BMG]?
Conhecia-o da televisão, como cantor de música ligeira. Tinha opinião sobre a música ligeira, mas não sobre o Tozé Brito. E quando o conheci foi como director da BMG. A nossa relação foi sempre muito franca, muito clara. Aprendi imenso com ele só a conversar, muitas coisas sobre a relação das filiais com as multinacionais, sobre a forma como se consegue ou como não se consegue meter artistas lá fora. Foi um período muito instrutivo e gostei muito de trabalhar com ele.

Então porque é que não continuaram na BMG depois do Mão Morta Revisitada?
O facto de não termos continuado na BMG não teve nada a ver com o Tozé Brito. O Vénus em Chamas [1994] foi um disco de retranca, de fuga ao sucesso do «Budapeste». Foi um disco propositadamente oposto, mais experimental, menos cuidado, gravado num estúdio mais de vão de escada, já todo digital, mas ainda com muitos «bugs». Foi muito saturante. Também houve alguma fricção de egos, o que levou à saída do [guitarrista] Carlos Fortes. Para mim é dos piores discos dos Mão Morta.

Apagaria esse disco da discografia dos Mão Morta?
Não, claro que não. Aliás, não apagava nada (risos). Tem uma belíssima canção, o «Velocidade Escaldante», uma das melhores do Carlos Fortes, e aquela em que ele perdeu mais tempo, com todos aqueles arranjos de cordas. O resto são esboços de canções que nunca chegaram a ser terminadas. Não vendeu tanto como o Mutantes, que ficou à frente dos três primeiros, mas aquém das expectativas da BMG. Depois revisitámos o nosso material [Mão Morta Revisitada, 1995] porque o nosso principal compositor tinha saído e o Miguel teve a ideia de voltarmos a abordar algumas coisas que não tinham sido bem gravadas originalmente. Mas em vez de reparar, decidimos reinventar e regravar os temas. Não é um disco a que eu ache muita piada, porque acabámos por assassinar algumas músicas (risos).

Há a ideia de que a vossa passagem pela BMG correspondeu também a uma fase de excessos rock. Alguma vez atirou com um televisor pela janela de um hotel?
Não, isso não, mas foi efectivamente a fase dos excessos rock dos Mão Morta. Quer dizer, esses excessos aconteceram na tournée do Mutantes S. 21 que precedeu a BMG e que se prolongou um bocado pelos primeiros tempos na BMG aliás, toda a gravação do Vénus em Chamas inclui-se nesses tempos de excessos dos Mão Morta. A displicência do álbum reflecte, aliás, um pouco isso. Esse período foi, de facto, a loucura completa: muito álcool, a grande droga era essa, uma droga de excessos. Fizemos tudo: nunca mandámos nenhuma televisão pela janela, mas deixámos quartos num estado tal que parecia que tinha havido uma guerra civil lá dentro, cheios de sangue nas paredes, banheiras cheias de sangue.

Que andavam a fazer?...
Sei lá, as pessoas cortavam-se.

Tem uma relação íntima com os cortes.
Não, neste caso nem era eu. pessoas cozidas a sangue-frio por estarem alcoolizadas, pessoas que perdiam as calças na rua, uma comitiva permanente com os Mão Morta e tão ou mais excessiva do que os próprios Mão Morta. Essa tournée foi mítica.

Mas depois as coisas mudaram, com a passagem para a NorteSul.
Sim, na altura aconteceu uma coisa: ardeu uma carrinha com todo o nosso material, a caminho de um concerto em Tróia. Foi um curto-circuito numa carrinha alugada. Nós, aliás, estávamos na piscina do hotel à espera que chegassem os roadies quando recebemos o telefonema de uma equipa de reportagem da TVI a dar-nos a notícia... O Pedro Tenreiro [um dos A&Rs da NorteSul, selo da Valentim de Carvalho] já tinha abordado o Miguel Pedro, mas nós respondemos que estávamos bem. Mas quando ardeu o material houve outro dado: precisávamos de o repor rapidamente. Chegámos a fazer o concerto que era previsto em Tróia, com o material da banda da primeira parte que teve o descaramento de nos pedir dinheiro para usarmos os instrumentos deles.

Que banda era?
Uma banda do Barreiro de que nunca mais se ouviu falar, nem me lembro do nome deles [Unladylike Scream]. Depois fizemos um concerto com os Ramp que foram simpatiquíssimos e nos emprestaram o material. Mas estávamos dependentes de com quem tocávamos.

E a Valentim acenou então com a reposição do material?
Sim, o Pedro Tenreiro explicou-nos que a NorteSul era da Valentim de Carvalho e que a Valentim era representante de várias marcas [de instrumentos] e nós, naturalmente, avançámos para a NorteSul. Como o [manager] Vítor Silva não encontrou nenhuma solução para resolver o nosso problema, também deixámos de trabalhar com ele. E fizemos uma mudança radical.

Iniciaram aí um período que deu frutos...
Sim, essa fase correu, de facto, muito bem: começámos por fazer o espectáculo no CCB (Muller no Hotel Hessicher Hof, 1997) que andávamos à procura de rentabilizar com a edição em vídeo e áudio. Licenciámos o disco à NorteSul e conseguimos fazer o que queríamos. Fizemos depois um contrato para dois discos com a Nortesul, para o Latrina [1998] e o Primavera [2001]. O Latrina era um disco em que eu já vinha a trabalhar há muito tempo.

É o vosso disco mais político.
Sim, de facto, é o nosso disco assumidamente político. Andei muito tempo a pensar como haveria de dar a volta à coisa e que tinha sido adiado pelo Revisitada e pelo Muller. E de repente consegui desatar o nó que eram aquelas ideias muito complexas e pesadonas [inspiradas nas leituras de Guy Debord] e arranjou-se aquele conceito que é quase um programa radiofónico. E é um disco de que eu gosto muito, apesar de ter um par de faixas que são exercícios de músicos a mostrarem que finalmente sabem tocar uma dessas eu abomino mesmo. Mas toda aquela diversidade de música sem vozes, vozes sem música, spots publicitários, falsos noticiários, entradas, tudo isso faz sentido. A última vez que ouvi esse disco fiquei embasbacado e pensei «este disco é um disco do ca****o»!

E quanto ao Primavera de Destroços? É o seu disco favorito?
Gosto muito do Primavera, sim. É o disco com melhor som, de longe. Mas também foi o único que masterizámos em Londres. É um apanhado de músicas antigas, músicas já criadas depois da minha chegada a Paris. Mesmo não havendo uma ligação conceptual entre os temas funciona como um todo.

Os Mão Morta regressaram depois ao plano independente e criaram a Cobra. Começaram a perceber a curva descendente da indústria?
Quando criámos a Cobra, em 2002, o mercado ainda não tinha entrado na curva descendente. A nossa ideia não era lançarmos lá os Mão Morta: era editar outras bandas e usar várias sinergias que existiam à volta do grupo. Isto num quadro de crescimento da indústria. Só que a realidade mudou. E acabámos por lançar o Carícias Malícias, que nos deu para começarmos a editar outras coisas. A seguir à NorteSul, de onde saímos por não termos ficado satisfeitos com o empenho no Primavera, ainda contactámos algumas editoras. Depois de estudarem as nossas vendas, ninguém se mostrou interessado e avançámos nós com uma edição através do [então jornal] BLITZ que vendeu bem. Esgotámos a primeira edição de oito mil, ainda fizemos mais dois mil e acabou por ser o nosso «best-seller».

AI PORTUGAL, PORTUGAL

Por detrás do artista, há um pai. A filha de Adolfo, de 30 anos, é «fanática» pelos Mão Morta. O filho, de 14, carregou, de livre vontade, canções da banda do pai para o iPod. A conversa terminou com uma curta (não) reflexão sobre Portugal, esse país de que é melhor nem falar.

Quando está em casa, o que é que agora concentra a sua atenção? A leitura?
Leio sobretudo à noite, ao deitar-me, até adormecer. Descobri agora um autor, por acaso, porque morreu a semana passada, o (J.D.) Salinger nunca tinha lido nada dele.

E as últimas compras de música, quais foram?
Na minha última viagem a Paris comprei 16 CDs, todos a cinco euros. Para aí metade eram de Bob Dylan, trouxe também Prodigy, Doors, coisas que não tinha em CD.

Como é que os seus pais olham para a sua carreira musical?
Com algum orgulho, mas também com alguma distância. Gostam de saber o que eu vou fazendo, vou-lhes oferecendo os discos, mas não acredito que os ouçam. Mas gostam de ter lá os discos do filho.

E os seus filhos? Gostam da sua música?
Gostam, gostam. A primeira vez que a minha filha assistiu a um concerto dos Mão Morta, foi na célebre destruição do Theatro Circo [em Braga]. Ela não aguentou até ao fim e saiu toda chorosa. Tinha uns 13 anos e ficou incomodada, disse que nem conhecia o pai, e obrigou-me a vir de Lisboa a Braga para falar com ela e para lhe explicar tudo. A partir daí começou a compreender melhor. Sempre que pode vai aos concertos dos Mão Morta. Vai agora fazer 30 anos e é uma fanática. Já o meu filho, chegou a ir aos «sound-checks» e começava a chorar com o barulho. Mas a primeira vez que foi a um concerto [nosso], há uns quatro anos, adorou. Tinha 10 anos. Quando fomos tocar a Paris [onde o filho vive, com a mãe] até levou os amigos. Dei-lhe um iPod no Natal passado e meti-lhe a história da música lá dentro, catalogada por géneros. Da última vez que fui a Paris veio-me mostrar o iPod: «Não tinhas metido nada dos Mão Morta, mas eu já meti esta, esta e esta».

E este país? Que país é este?
Este país... este país não tem ponta por onde se lhe pegue. Não consigo olhar seriamente para a vida partidária portuguesa e por isso prefiro nem pensar no assunto.

Originalmente publicado na BLITZ de março de 2010