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Kurt Cobain ainda guarda segredos

Em março de 2015, quando o filme Cobain: Montage of Heck chegava ao grande ecrã, escrevíamos sobre o “outro lado” de um ícone do rock. Leia aqui o texto, na íntegra.

Nuno Galopim

Nuno Galopim

Jornalista

Terão sido aqueles presentes de aniversário? É difícil apontar sempre o momento zero do relacionamento de um músico com a paixão que o levou a seguir esse e não outro caminho. Aquelas imagens, contudo, mostram algo que nunca tínhamos visto. Um menino de quatro anos, com os olhos vivos e o cabelo loiro que conhecemos de tantas imagens, mas com uma (grande) guitarra de brinquedo nas mãos, gesticulando sem imaginar que mais tarde aqueles movimentos teriam outras rotinas e significados. Um presente de aniversário, juntamente com um teclado e uma bateria, no mesmo dia em que ganhava o seu primeiro gira-discos. E quase como num ID para rádios e televisões (como tantas vezes o terá feito), uma voz de criança responde logo depois ao perguntarem-lhe o nome: «Kurt Cobain», responde... Fazia quatro anos. E sim, era ele.

O acesso aos filmes Super 8 de família e os home videos que Kurt e Courtney Love registaram em casa, longe de outras câmaras e outros olhares, são um dos tesouros maiores que explicam porque, na hora de fazer a estreia europeia de Cobain: Montage of Heck, o realizador Brett Morgen prometeu que iríamos ver um Kurt Cobain como nunca antes o tínhamos conhecido.

Não era, talvez, esperada como uma das sessões mais mediáticas da 65ª edição da Berlinale, até porque o filme tinha conhecido estreia mundial durante o festival de Sundance, no Utah, poucos dias antes. Porém, naquele fim de tarde de sábado, a lindíssima sala do Kino International (que, em plena Karl Marx Allee foi em tempos idos uma das jóias da vida cultural da antiga Berlim Leste) vivia uma agitação de passadeira vermelha como aquela sala de cinema não costuma conhecer (o coração do festival e as estreias com estrelas costumam passar por um outro lado da cidade). Courtney Love chegou acompanhada pelo ex-R.E.M. Michael Stipe (o padrinho da filha Frances Bean Cobain, uma das produtoras do filme), juntando-se ao realizador para assistir à sessão. Foi ela quem deu autógrafos, uns atrás dos outros, muitos deles em discos de vinil... O seu protagonismo era justificado. Foi dela que partiu a sugestão de fazer este filme. São suas algumas das palavras e imagens mais íntimas que agora podemos ver. É com ela que Cobain: Montage of Heck mais vezes se afasta de uma mera biografia de uma banda para tentar uma composição do homem e não apenas do músico.

Sobre um rapaz

Primeiro o título. Montage of Heck é o nome de uma entre as muitas mixtapes que Kurt Cobain gravava. Essa, em específico, data de 1988, juntava elementos de várias fontes de James Brown a Daniel Johnston e, como noutras gravações que aqui emergem, leva-nos a descobrir ideias, sons e visões nos espaços mais pessoais da sua mente.

Esta fita em concreto, como o realizador revelou recentemente, foi pelas suas mãos parar à internet para não só construir uma base material de relacionamento de mais pessoas com aquele que seria o título do filme mas também para auscultar opiniões.

É deste arquivo de sons que brotam cerca de 40 minutos de material áudio original, entre música essencialmente instrumental inédita, assim como ideias para canções, uma versão de «And I Love Her», dos Beatles, e, num vídeo familiar caseiro, mostrando-o a ele e Courtney a cantar em harmonização para a filha ainda bebé, o clássico «Amazing Grace». O filme é assim, como uma mixtape, um conjunto de colagens que usam sobretudo sons, escritos e imagens do próprio Kurt Cobain para contar a sua história, apesar de pontualmente abrir espaço a outras vozes, nomeadamente a mãe, uma antiga namorada, a Courtney Love e Krist Novoselic (amigo de longa data e antigo parceiro nos Nirvana). Sobre a ausência de Dave Grohl já muito se escreveu.

Primeiro, terá sido a indisponibilidade do antigo baterista dos Nirvana durante a etapa de rodagem. E depois a agenda apertada do realizador entre a montagem final e a correção de cor, com a estreia em Sundance na linha do horizonte, não deu espaço para mudar planos quando Grohl finalmente terá dado luz verde para conceder uma entrevista... Se uma eventual nova montagem o incluirá ou não, é coisa no plano dos rumores e incertezas.

Centremo-nos, pois, no que vemos. E o que começamos por ver, depois de uma abertura que evita o «era-uma-vez» cronologicamente arrumado logo no primeiro minuto, é um menino de olhos meigos, acenando e lançando beijinhos à câmara. O mesmo que brinca depois com a guitarra. Ou o teclado de plástico. O mesmo que veria a sua família a desagregar-se, as primeiras sugestões de inquietude nascendo não apenas de um lar desfeito mas de uma incapacidade do jovem Cobain, já pré-adolescente, em se fixar na casa de qualquer um dos familiares. Em poucos dias, a convivência tornava-se impossível, diz a mãe, que comenta a sua hiperatividade e inquietude. E percebemos por que razão Kurt sonhou desde então com um quadro familiar mais estável. Nas palavras do próprio, fica claro que sentia vergonha da separação dos pais e de como entre os colegas de escola sentia desconforto por não viver num agregado familiar mais convencional.

O realizador recorre, por vezes, a animações. Em muitas ocasiões apenas para procurar dar vida às imagens de palavras manuscritas que encontrou nos diários do músico, e com as quais vamos, aos poucos, construindo um retrato pela forma como fala de si e do mundo ao seu redor. Nas sequências em que recua à infância e adolescência, sem home videos para mostrar e com as reportagens de televisão e jornais ainda longe no tempo, Brett Morgen optou por incluir recriações animadas. Numa delas recordase o momento da perda de virgindade com uma rapariga com peso a mais e problemas mentais, que resultou em chacota dos colegas e numa tentativa de suicídio: sentado na linha de caminho de ferro esperou o comboio das onze da noite... que passou na linha ao lado...

Numa outra recriação animada, ao caminhar com os dedos entre os LPs em vinil da sua coleção, Kurt passa por um de David Bowie, de quem cantaria «The Man Who Sold The World » no célebre Unplugged para a MTV. Da sua discoteca pessoal fica também bem evidente uma representação de Cosmos's Factory, dos Creedence Clearwater Revival.

Num outro momento mergulhamos no tempo para revisitar Over The Edge, de Jonathan Kaplan, filme teenager de 1979, com Matt Dillon no elenco, que dá conta de uma rebelião dos mais jovens contra os adultos da cidade. Tal como as imagens mostram evocando a sequência em que um grupo de pais acaba trancado durante uma reunião na escola, as palavras de Kurt Cobain expressam desejos de rebeldia semelhantes.

Sentimos que há uma progressiva busca de um sentido de vida na sua relação com a música. E das imagens (caóticas) de primeiros, e ruidosos, ensaios fica clara uma pulsão tensa, feita de libertação que, se somarmos à reconhecida sensibilidade e fragilidade da sua personalidade explica o raro jogo de contrastes que faria de si um dos mais importantes escritores de canções de sempre, talvez mesmo o mais marcante da sua geração.

Das muitas listas que fazia enumera, por exemplo, o que deve fazer uma banda para ter sucesso: praticar cinco vezes por semana é uma das entradas mais notadas. Alugar Eraserhead, de David Lynch, é outro dos desejos recordados nas suas notas pessoais.

Um homem sob pressão

Algo muda na passagem de Bleach (o álbum de estreia de Nirvana, publicado em 1989 pela independente Sub Pop) e a chegada de Nevermind, que em 1991 assinala a estreia do grupo no catálogo da Geffen, uma editora bem maior em dimensão, alcance e ambição. É, contudo, uma vez mais no plano familiar que daqui chegam revelações. A mãe, a quem Kurt foi mostrar o disco ainda antes do seu lançamento, ouvindo-o em alto e bom som «porque eu gosto de ouvir a música bem alto», como ela mesma diz à câmara de Brett Morgen, é a primeira a reagir não com entusiasmo e alegria, mas com medo: «ele não estava preparado para aquilo», acrescenta, confessando que temeu desde logo o que seria o confronto da personalidade do filho com um patamar de atenções e exigências ao qual seria brevemente exposto.

«Sinto-me a ser avaliado 24 horas por dia»... Esta é uma entre as muitas observações registadas por Kurt Cobain a que o filme dá voz. Não é uma confissão inesperada. Mas não deixa dúvidas quanto ao que de profundamente incómodo teve para si o salto mediático que «Smells Like Teen Spirit» e o álbum Nevermind deram aos Nirvana depois de 1991. É sugerido que, nas entrevistas, não gostava de falar da música, defendendo de resto que tudo estava nas canções e que nada mais seria preciso dizer. Numa outra reflexão, ele mesmo confessa que se sentia violado. O filme dá conta do fulgor com que o seu nome e o dos Nirvana entrou nos media depois do sucesso de Nevermind e de como o volume de histórias publicadas seria suficiente para afogar em ansiedade qualquer um de nós.

Era uma vida artística sob comentário constante e, mais ainda, uma vida pessoal sob permanente escrutínio. É por essa altura que Courtney Love entra em cena, confirmando ela mesma que Kurt gostava de poder escapar para um lugar de refúgio. Entre as suas notas pessoais há ainda referências em concreto às revistas Sassy e Vanity Fair (e aqui em particu lar a Lynn Hirschberg, que assinou um artigo sobre o casal e o eventual consumo de drogas durante a gravidez), apontadas bem longe das merecedoras da sua admiração.

O consumo de drogas era já uma realidade antes de ter conhecido Courtney Love. No entanto, sob os orçamentos magros em que a sua vida se fizera até 1992, não atingia proporções maiores. Quando os royalties e cachês começam a ficar mais expressivos e isso não acontece logo após a edição do disco nem mesmo imediatamente a seguir à sua transformação num fenómeno de vendas a disponibilidade para gastar e consumir aumenta. E é a própria Courtney Love quem relata que, a dada altura, Kurt não queria senão fugir das atenções de tudo e todos, até mesmo da música, e viver os dias a consumir drogas.

Ao contrário do livro Here We Are Now, de Charles R. Cross (de que se falará adiante), Brett Morgen não procura explicações clínicas para o consumo de heroína nem mesmo os motivos para a espiral emocional que terá conduzido ao suicídio do músico. Courtney Love, mesmo assim, defende que o receio de Kurt de que ela poderia estar na iminência de o trair com alguém (algo que ela mesmo relata que pensou mas que não concretizou) poderá ser uma das explicações para o incidente em Roma que o hospitalizou poucas semanas antes da sua morte.

O facto de ter envolvido diretamente Courtney Love, a filha Frances Bean e outros elementos da família, e de ter contado, aparentemente sem restrições, com um acesso ao arquivo mais pessoal de memórias de Kurt Cobain, destaca Montage of Heck dos outros filmes que antes tinham já visitado a memória do vocalista dos Nirvana. Em 1998, surgiu Kurt & Courtney, documentário de Nick Broomfield que explora teorias de conspiração sobre a morte do músico, alegando o envolvimento de Courtney Love no caso. De 2006 data Kurt Cobain: About a Son, documentário de A.J. Schnack que usa os registos áudio de entrevistas a Michael Azerrad que, em 1993, tinham servido para a escrita do livro Come As You Are: The Story of Nirvana.

No plano da ficção, o nada unânime Last Days (2005), de Gus Van Sant, toma como inspiração a figura de Cobain, nos seus últimos dias, para retratar a espiral descendente de um músico em rota suicida.

O legado, revisto e atualizado

Charles R. Cross, antigo editor do The Rocket, jornal de Seattle que viu nascer muitos dos nomes da cena musical da região (e onde recorda anúncios de 20 dólares colocados por um ainda muito jovem Cobain) é o autor de Heavier Than Heaven (2001), aquela que é talvez a mais sóbria e completa entre as muitas biografias dos Nirvana e do seu vocalista. Em Here We Are Now, um pequeno livro de 177 páginas recentemente publicado, traça um grande olhar sobre o legado do homem, da sua música no mundo, evocando-o 20 anos depois da sua morte.

Sem pretender «canonizar» Cobain e não acreditando que já tudo sobre ele terá sido dito, nota aqui, num estilo afetuoso e informado, não apenas a influência (sem surpresa) que os Nirvana tiveram no mundo da música mas, sobretudo, foca atenção em factos da nossa sociedade nestas duas últimas décadas que não são alheios à memória daquele que descreve como a última grande estrela do rock. Charles R. Cross começa por recordar como foi importante para o próprio Cobain ser uma voz pro-feminista e em favor dos direitos LGBT, lembrando como nas notas que juntou a Incesticide pedia aos homofóbicos que não comprassem os seus discos, assim como dizia a quem não gostasse de pessoas com outra cor de pele ou das mulheres que os deixassem (aos Nirvana) em paz.

Se ali tentava algo inaudito, selecionando quem deveria comprar os seus discos, o seu desaparecimento impediu-o de ver como muitas vezes a sua imagem foi usada para fins que nem ele mesmo imaginaria. Como, por exemplo, na moda. Se Cobain era conhecido por ter um guarda-roupa reduzido (e muitas vezes repetiu indumentárias), a verdade é que muitos o tomaram depois como ícone da moda ao ponto de Marc Jacobs ter lançado uma linha grunge em 1993, de a Converse ter criado uma edição Cobain (com replicações de manuscritos seus), de Hedi Slimani ter criado em 2012 um casaco inspirado em memórias do músico para a casa Saint Laurent que atingiu preços na ordem dos seis mil dólares e da Dr. Martens ter usado a sua memória num anúncio, que gerou controvérsia e, mais tarde, um pedido de desculpas.

O livro conta depois como a cidade de Aberdeen aprendeu a lidar com a memória de uma figura que não deixa de vincar alguns problemas locais que não eram exclusivos da vida de Kurt Cobain. O pequeno parque, junto às margens do rio Wishkah, na zona junto da ponte a que alude a letra de «Something In the Way» chama-se hoje Kurt Cobain Riverfront Park, facto que contrasta com o chumbo, de nove contra um, que em tempos idos impedira aquela ponte de ficar com o nome do vocalista dos Nirvana. Here We Are Now não deixa de falar do consumo de drogas, referindo como na heroína, que o músico só começou a consumir tardiamente ele era até o elemento do grupo mais preocupado com questões de saúde e bem estar nas primeiras digressões Cobain procurou sobretudo um alívio para as dores de estômago que sofria.

O livro nota até que o seu caso clínico é ainda hoje comentado entre alunos de medicina. E termina com um capítulo dedicado ao seu suicídio, referindo-o como um dos mais estudados e de como, ao contrário da percepção sugerida por alguns media na altura, não foi gatilho para muitos fenómenos copycat (de imitação). Antes pelo contrário, Charles R. Cross nota como a morte de Kurt Cobain juntou na imprensa artigos sobre como procurar auxílio às reportagens e reações à notícia da sua morte. E sublinha ainda algo que fica omisso no filme e seria interessante de deixar claro havendo tanta «família» envolvida: havia histórias de suicídio entre os seus.

Dois tios, e até mesmo um bisavô que tirara a vida à frente dos familiares, não fazem do seu um caso único. Havia também antecedentes familiares de depressão e consumo de álcool. «É possível que, antes de ter pegado pela primeira vez numa guitarra» ele já não tivesse hipóteses, conta Charles R. Cross. Mas, como observa logo depois, talvez a fama lhe tenha dado até mais anos que os que teria tido sem dela gozar. No fim, e depois de as palavras de Michael Stipe à Newsweek nos voltarem a deixar suspensos ao antever um quarto álbum, «calmo e acústico, com instrumentos de cordas», no qual iria também trabalhar, acabamos inevitavelmente assombrados e desolados pelo muito que ficou por fazer.

Originalmente publicado na BLITZ de março de 2015