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Rita Carmo

CD de homenagem a Lou Reed grátis com a BLITZ de abril: a entrevista com Zé Pedro

As canções inesquecíveis de Lou Reed defendidas ao vivo por Zé Pedro e os seus Ladrões do Tempo, com os convidados especiais Tomás Wallenstein (Capitão Fausto), Lena D'Água e Frankie Chavez. De “Waiting For the Man” a “Rock and Roll”. Zé Pedro faz as honras do CD que receberá grátis com a BLITZ deste mês

Quando Lou Reed morreu, a 27 de outubro de 2013, foram muitos os músicos que manifestaram publicamente o seu pesar e louvaram o legado que deixou no rock. Em Portugal, no início de novembro, um concerto no Intendente, em Lisboa, juntou músicos de todos os quadrantes para o homenagear de Tim a Rita Redshoes, passando por Jorge Palma, Tiago Bettencourt, Samuel Úria e, claro, Zé Pedro e daí até à organização do Super Bock Super Rock convidar o guitarrista dos Xutos & Pontapés para organizar um espetáculo a ser apresentado na edição do ano seguinte do festival foi um saltinho.

Zé Pedro juntou os seus Ladrões do Tempo e convidou alguns amigos para se juntarem a ele em palco, passando em revista a carreira de Reed com versões de algumas das suas canções mais emblemáticas, quer a solo quer com os Velvet Underground.

Alguns dos temas apresentados nesse concerto chegam agora a CD, na edição exclusiva que acompanha esta edição da BLITZ e fomos falar com o guitarrista para perceber como surgiu a ideia e que impacto teve em si a música do músico nova-iorquino.

Onde estava e como recebeu a notícia da morte de Lou Reed?
Tenho ideia que estava no Porto e alguém me telefonou. O Bowie foi por mensagem, mas o Lou Reed foi alguém que me telefonou a pedir logo a minha reação. O impacto foi via telefone.

Como surgiu, depois, a ideia de fazer esta homenagem em palco?
Houve uma sugestão e depois um convite formal por parte do festival Super Bock Super Rock. O Luís Montez perguntou-me se eu estava interessado em montar uma homenagem ao Lou Reed. e foi assim que aconteceu.

E lembrou-se de ressuscitar os Ladrões do Tempo.
Estávamos parados, desativados. O Pedro Gonçalves tinha abandonado o barco porque tinha sido pai e, em termos musicais, estava mais dedicado aos Dead Combo e a outros trabalhos paralelos. Estávamos, portanto, sem baixista e esse convite serviu para reativar a banda. Fomos rapidamente pesquisar baixistas disponíveis e, entre todos, decidimos experimentar primeiro trabalhar com o Donny Bettencourt se ele aceitasse ficar. Eu não o conhecia de lado nenhum mas depois de haver consenso telefonei-lhe a perguntar se ele estava interessado em entrar dos Ladrões do Tempo.

Foi um grande desafio pegar em música que conhecia bem mas que nunca tinha tocado, pelo menos de forma pública, antes?
Foi. Mas foi muito bom trabalhar sobre músicas que já estão feitas e fazem parte do nosso imaginário. Eu, como ouvinte e grande apreciador de rock, vi o Lou Reed pela primeira vez em 1977, em França, e foi um espetáculo que me marcou muito. É uma personagem que está sempre presente, para as pessoas que gostam de rock and roll, com as suas músicas, a sua irreverência, a sua imagem e essas coisas todas. Quando foi o concerto de tributo no Intendente, toquei o «Vicious». Foi uma passagem rápida pelo palco e por aquele coletivo de músicos que estava lá. Neste concerto [no Super Bock] trabalhámos sobre uma série de músicas e depois pensámos em quem poderíamos convidar para contracenar connosco em determinadas faixas. Foi um trabalho muito engraçado e foi também a maneira de os Ladrões se juntarem de novo, arregaçarem as mangas e trabalharem sobre temas já feitos.

E a escolha dos convidados foi fácil de fazer?
Trata-se de um grupo bastante diversificado. Foi fácil porque eu ia propondo e eles iam aceitando de imediato. O Paulo Franco toca na banda da Lena d'Água e ela era uma personagem que eu gostava muito de convidar para interpretar uma música qualquer cantada pela Nico. Acabou por ser o «Sunday Morning», o que acho que foi uma escolha muito acertada. Para o «Venus in Furs» lembrei-me de imediato do Tomás Wallenstein porque queríamos um ambiente psicadélico, a música proporciona a isso. Revelou-se uma ótima escolha. Escolhemos um tema mais rápido para o Frankie Chavez. Acabou por ser o «White Light/White Heat», que ele muito bem soube desenvolver. Depois tivemos o Tigerman, que já tinha tocado o «Femme Fatale», portanto foi só adaptarmo-nos nós à versão dele, e ainda o Jorge Palma e o João Pedro Pais, que acabaram por não ficar neste disco mas fizeram parte do espetáculo.

O que tinha a música de Reed de tão especial para influenciar artistas tão diferentes quanto Lena D'Água, Paulo Furtado ou Jorge Palma?
Quando os Velvet Underground surgiram, em Nova Iorque, no final dos anos 60, foram uma pedrada no charco. Ninguém fazia aquele tipo de música nem havia aquele tipo de atitude e de irreverência nas bandas rock da altura. A carreira do Lou Reed suscitou sempre uma expectativa enorme em torno de tudo o que ele ia fazendo, dos álbuns que ia lançando, as reviravoltas que ia dando na sua música e na sua carreira e, principalmente, na sua escrita. Tinha um envolvimento geral. Portanto, ter feito isso tudo, ter começado nos Velvet Underground e depois ter passado a carreira a solo a fazer coisas tão diferentes como o Berlin, o Rock 'n' Roll Animal ou o Coney Island Baby. Todos esses discos foram sendo consumidos muito bem e quem teve paciência para os ouvir com atenção percebeu a grande figura que era o Lou Reed, enquanto compositor e principalmente como escritor. E quem teve a oportunidade de o ver ao vivo, percebeu a grande personagem que ele era dentro do rock. É impossível um amante de rock and roll, ou mesmo um amante de música em geral, não se ter deixado tocar por alguma parte da obra do Lou Reed. Foi uma grande influência, especialmente nos músicos e compositores de rock.

Há algum álbum de Lou Reed ou dos Velvet Underground que tenha tido mais impacto em si enquanto ouvinte e enquanto músico?
Enquanto ouvinte, sem dúvida nenhuma, o álbum da banana (risos), dos Velvet Underground. Foi um álbum que consumi bastante em vinil. E o Transformer, do Lou Reed, é provavelmente o álbum que mais ouvi dele. Lembro-me muito bem do concerto que ele deu em Cascais [em 1980], que foi realmente diabólico. Acabou por não fazer o do Porto, mas as pessoas que conseguiram estar no Dramático de Cascais viram um Lou Reed completamente criativo em cima do palco. O terceiro encore, se não me engano, foi composto em cima do palco, com ele a dirigir cada um dos músicos à medida que iam entrando. Essa imagem ficou-me muito na cabeça, de um artista que chegava ao palco e tinha a capacidade de criar alguma coisa lá em cima.

Chegou a conhecê-lo pessoalmente, num dos concertos que viu.
Foi na Casa da Música [em 2005]. Eu e o Pedro Abrunhosa estávamos lá e fomos chamados para ir conhecer o Lou Reed. Achei o convite um bocado estranho, mas fomos e ele foi super simpático. Veio apertar-nos a mão e trocou ali umas palavras connosco.

Viu-o em épocas bem diferentes.Tem noção de quantos concertos foram?
Talvez uns cinco ou seis. Dava para ver sempre porque ele fazia coisas diferentes. Não me desloquei propositadamente para assistir, mas sempre que tinha hipótese e estava perto claro que não perdia a oportunidade.

Como está a correr a vida aos Ladrões do Tempo?
Têm dado concertos, mas o Zé Pedro também tem atuado com os Xutos.
Tenho conseguido encaixar tudo, mas claro que tem a sua dificuldade. Todos nós estamos com trabalhos paralelos e bastante ativos. O Tó [Trips] talvez seja o músico mais ativo dentro dos Ladrões do Tempo, não só pelos Dead Combo, que tocam bastante, mas também por tudo o que consegue arranjar à volta, na sua carreira a solo e nas colaborações que acaba por fazer com outros músicos. É um guitarrista muito versátil e tem imensos convites, portanto anda sempre de um lado para o outro. Eu tenho os Xutos. O Samuel [Palitos] tem os GNR, que também têm bastante trabalho, felizmente, e estão muito ativos. O Donny Bettencourt tem tido as suas datas, entre o Frankie Chavez e o João Pedro Pais, e o Paulo Franco tem os Dapunksportif, que estão neste momento, se não me engano, a gravar um disco, e os Rock'n'Roll Station, que na área de Peniche têm bastante trabalho. Isso tudo faz com que seja difícil para os nossos managers concertarem agendas, mas temse conseguido e sempre que conseguimos tocar é um prazer enorme.

E para lá dos concertos, já têm outros projetos?
Gostávamos de voltar a gravar. Sempre que temos hipótese, tentamos explorar coisas. A ver se conseguimos arranjar um tempo para nos concentrarmos em alguns esboços e ideias que temos em cima da mesa. Gostava muito de conseguir tirar um mês, entre todos, para ganharmos um bom ritmo de trabalho que nos permitisse levar as músicas a bom porto.

"Homenagem a Lou Reed" grátis com a BLITZ de abril

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1. Rock ‘N’ Roll

Alguns temas foram experimentados mas não conseguimos dar o nosso toque pessoal, não encontrámos uma estrutura que nos satisfizesse, mas o «Rock ‘N’ Roll» ficou logo bem quando começámos a tocá-la e sugeri que abrisse o concerto. Assim aconteceu, com uma batida do Samuel e depois os instrumentos a serem postos em cima.

2. Waiting for the Man

Também chegámos a este tema rapidamente. O Paulo [Franco] estava perfeitamente à vontade a cantá-lo. O Tó Trips é um guitarrista muito criativo e consegue fazer coisas inesperadas por cima das músicas que acabam por torná-las pessoais. Usa a sua guitarra para tornar os temas um bocadinho nossos. Estes dois temas com o Paulo nas vozes foram uma boa escolha de entrada de espetáculo.

3. Sunday Morning
A Lena D’Água era a voz que eu queria. Telefonei-lhe a perguntar se estava interessada em participar nesta comemoração e ela ficou logo toda entusiasmada. Disse que gostava imenso da música, portanto houve ali uma ligação automática. Os ensaios decorreram com ela a comandar e nós a irmos um bocadinho atrás dela a tentar arranjar-lhe um conforto para a voz.

4. Vicious

É um clássico do Lou Reed que não poderia faltar nesta homenagem. E, tal como o «Waiting for the Man», é uma música que podemos tocar num encore dos Ladrões do Tempo. Com a entrada do Tó e depois as vozes a subirem, criou-se ali um ambiente muito bom e a música desenvolveu-se depois com uma força de que gosto imenso e um rock musculado que os Ladrões do Tempo conseguem fazer muito bem.

5. Venus in Furs
Esta versão tem um ótimo arranjo, sugerido pelo Donny Bettencourt. Quando o Tomás chegou à sala de ensaios, tínhamos praticamente a música preparada para ele cantar por cima e também tocar a guitarra. Em palco, a música ficou maior, no estúdio, quando foi para fazer a mistura e a preparação deste disco, foi encurtada um bocadinho. No concerto, tinha mesmo o ambiente prolongado do psicadelismo natural. E o Tomás [Wallenstein], que estava com o braço em gesso, conseguiu fazer as partes de guitarra muito bem, não só nos ensaios como em palco.

6. Sweet Jane
Mais um clássico que também foi escolhido por causa disso. Não me lembro se foi o Paulo Franco que sugeriu, se calhar toca-o nos Rock’n’Roll Station, mas também ficou entregue exclusivamente a nós.

7. White Light/White Heat

Tive muito gosto em convidar o Frankie Chavez, que é um amigo de todos nós e um grande músico. Adoro-o e queria uma música forte sobre a qual ele pudesse meter a sua guitarra. Acabou por fazer um slide guitar muito bom. Acho que foi muito bem conseguida. Fiquei muito contente por termos conseguido aproveitar as faixas com estes três convidados para pôr neste disco.