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Taxi com os Clash

Arquivo João Grande

Uma noite com os Clash em Portugal

Há 35 anos os portugueses Taxi abriram o concerto da banda de Joe Strummer no Pavilhão Dramático de Cascais. Ganharam 15 mil escudos (75 euros) e um encontro com a banda inglesa. João Grande faz o filme da noite de 30 de abril de 1981, na primeira pessoa

O nosso primeiro disco tinha acabado de sair e o tema «Chiclete» tocava com toda a força na rádio. Foi o nosso primeiro concerto na zona de Lisboa; começar logo para 9 mil pessoas na primeira parte dos Clash? Íamos ser trucidados.

A manhã começou no Estoril com uma equipa da RTP, a filmar um videoclip do «TVWC» para o Vivámusica. Depois de almoço fomos logo para o Dramático, não sem antes irmos comprar 2 garrafas de vinho do Porto, para presentear os técnicos de som, que iam ser os dos Clash. Deu resultado; ainda hoje nos lembramos do som fabuloso em cima do palco.

Por volta das 5 da tarde, chegaram os Clash muito bem dispostos, e com o Mick Jones às cavalitas do Paul Simonon. Do sound-check não me lembro de nada, a não ser que acordei a Pearl Harbour [vocalista dos Pearl Harbour & The Explosions e companheira de Paul Simonon] a dormir atrás do palco, e conversei um bocado com ela.

Jantámos no pavilhão, vi «catering» pela primeira vez, e comemos quase nada, uma vez que estávamos borrados de medo. Até que finalmente chegou a hora. Entrámos em palco completamente desinibidos e muito confiantes, arrancámos com o «TVWC» e quase sem parar continuámos com «Vida de Cão», e a noite estava ganha. Nunca tínhamos ouvido o rugido de milhares de pessoas a aplaudir.

Joe Strummer (esq) e João Grande (dta)

Joe Strummer (esq) e João Grande (dta)

Arquivo João Grande

Continuámos com «É-me igual» e «Rosete» e acabámos com «Chiclete» já com tudo a cantar. Saímos a correr para os camarins, e para grande surpresa nossa, o pavilhão inteiro pedia encore. No nosso camarim havia um espelho enorme, e olhámos para a nossa imagem reflectida no espelho e uns para os outros, completamente histéricos, questionando-nos se não estaríamos a sonhar. Voltámos a correr para o palco e demos-lhe o que eles queriam, nova dose de «Chiclete». A partir daí a noite foi como um sonho em câmara lenta, não parei de beber cerveja, e assisti à actuação dos Clash a divagar pelo pavilhão sem destino.

Graças ao meu estado de espírito achei que tinha acabado de ver o melhor concerto que tinha presenciado até à data, mas a crítica dos dias seguintes bateu-lhes sem dó nem piedade, tendo a mesma crítica sido muito positiva para connosco. Acabado o concerto, fomos todos para os camarins dos Clash que também estavam eufóricos, pelo menos o Joe Strummer e o Mick Jones, que não parava de tirar fotografias a tudo e a todos.

O nosso produtor António Pinho e o co-produtor Aníbal Miranda estavam connosco. Este último tinha vivido nos últimos 5 anos em Londres e meteu logo conversa com eles, que quiseram saber o nosso nome, se já tínhamos gravado alguma coisa, se havia amigas para lhes apresentar, e o próprio Joe Strummer deu-nos os parabéns: pela primeira vez na tournée deles, um grupo de suporte tinha tido direito a encore. O Paul Simonon, estava noutra sala na marmelada com a Pearl Harbour e o baterista estava muito sossegado a beber uma cerveja. Escusado será dizer que a erva rolava por todo o lado.

Só muito mais tarde fomos jantar, não me lembro onde; só sei que não acabámos a noite sozinhos.

Originalmente publicado na BLITZ de setembro de 2009

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