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Como era ter uma loja de discos na URSS, nos anos 70 e 80?

Alex Alekperov, que dirigiu uma das poucas lojas de discos que existiam na antiga União Soviética, contou a sua história à FACT

Vladimir Lenin, um dos maiores ideólogos do comunismo e o primeiro presidente da ex-URSS, disse uma vez que não conseguia passar muito tempo a ouvir música, porque lhe afectava os nervos. Talvez por isso não existissem, no país, muitas lojas de discos.

As que existiam eram fortemente controladas pelo governo soviético, mas uma delas, em Baku (Azerbaijão), gozava de uma certa liberdade. O homem que a abriu e dirigiu, Alex Alekperov, contou recentemente a sua história à FACT.

A loja em questão, que abriu em 1979 - já depois da URSS abrir ligeiramente a porta ao mundo ocidental -, estava sob o jugo do Ministério da Cultura, que controlava os discos que podiam ou não ser colocados à venda. "Os únicos discos que podíamos ter à venda pertenciam à editora do estado, a Melodiya", conta Alekperov.

Em 1985, com Mikhail Gorbachev no poder, chegaram à loja dos primeiros discos dos Rolling Stones e de Paul McCartney reimpressos na URSS, algo impossível até então - e que forçava o público ávido por música rock a adquiri-los no mercado negro, onde poderiam custar um salário inteiro.

"Às vezes recebíamos discos de outros países comunistas, como a Hungria ou a Alemanha de Leste. Se a URSS não quisesse adquirir os direitos de reimpressão, comprava os discos [destes artistas] a outros países, mas sempre em poucas quantidades, de 100 a 500 cópias numa cidade com um milhão de pessoas e muita procura", explica.

Já o lema da loja não parece ter sido muito diferente daquele que faz de uma loja de discos um local mágico onde descobrir música nova e, quem sabe, fazer algumas amizades. "Nunca dizer não ao consumidor. Mesmo que não tenhas o disco que ele quer, não o deixes sair da loja entristecido".

Alekperov, que hoje em dia vive nos Estados Unidos e toca numa banda de blues, recordou ainda o dia em que conheceu o falecido B.B. King, então em digressão pela URSS. "O B.B. King não conseguia acreditar que estava do outro lado do mundo e todos os bilhetes [para os concertos] estavam esgotados", conta.