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Miguel Pedro (bateria), Joaquim Pinto (baixo), Carlos Fortes (guitarra), AdolfoLuxúria Canibal (voz) e Zé dos Eclipses (guitarra)

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Mão Morta 1984-1988: eles contra o mundo

A partir de Braga, um quarteto de músicos apostou nas margens do rock e deu início a uma brilhante carreira discográfica, que ainda hoje prima pela exceção. Em 2008, recordávamo-la

A história musical da década de 80 portuguesa seria muito diferente certamente bem mais pobre se nela não constasse o capítulo Mão Morta.

O grupo de Braga, liderado pelo eternamente carismático Adolfo Luxúria Canibal, surgiu no final de 1984 e rapidamente se afirmou como uma das mais avançadas propostas musicais de um país que então sentia os últimos ecos de um boom que tinha habituado o público a ouvir rock cantado em português. Adolfo Luxúria Canibal, Miguel Pedro e Joaquim Pinto foram o trio fundador deste projecto, a que rapidamente se juntou Zé dos Eclipses. Juntos, estes quatro cavaleiros do apocalipse ajudaram a mudar a face da música portuguesa.

«A música só surgiu na minha vida quando fomos morar para Braga, idos de Vieira do Minho, quando eu tinha 11/12 anos», revela Adolfo Luxúria Canibal quando se começa a desfiar o novelo de memórias que conduz até Mão Morta, a estreia em vinil, datada de 1988.

«Até então não havia música lá em casa, nem televisão só montanha, campo, bicicleta e brincadeiras ao ar livre». Em Braga, Adolfo estabeleceu imediatamente uma relação de proximidade com um casal de adolescentes que moravam na casa ao lado da sua. A música reforçou os laços de amizade e «a razoável colecção de singles» que possuíam passou a exercer um enorme fascínio sobre o jovem Adolfo, para quem tudo isto era novo.

«Depois vieram os primeiros bailes de Liceu, as festas de anos dançantes, os primeiros namoricos, tudo impregnado dos êxitos pop e juvenis da época rapidamente eu e os meus irmãos ficámos barras em música pop, muito por culpa do casal amigo com quem passávamos horas em "blind-tests" e com quem espremíamos revistas pop alemãs cheias de fotografias e posters», recorda o vocalista dos Mão Morta, que prossegue: «acho que o primeiro single que comprei ou que escolhi foi dos Four Tops ou dos Los Bravos, não me lembro bem; o primeiro LP foi de Brewer & Shipley, um duo country/folk desconhecido mas que estava barato, e o segundo foi um de Jim Croce. Mas a grande colecção de singles aquilo que se poderia apelidar como gosto de fã era dos T.Rex e dos Alice Cooper. Já a colecção do meu irmão era dos Creedence Clearwater Revival e da minha irmã dos Beatles e de Cat Stevens».

Tudo isto aconteceu antes ainda do 25 de Abril. Adolfo, improvável menino Jesus nascido no dia de Natal em 1959, em Luanda, chegou a 1974 com outra revolução biológica, hormonal... a acontecer dentro de si e rapidamente mudou as suas paixões musicais. «Com a chegada da revolução, a música passou novamente para segundo plano a pop desapareceu completamente da minha vida; ficaram uns resquícios para conversas de actualização na escola, tipo Pink Floyd, Led Zeppelin, Black Sabbath, Genesis, mas a dieta era verdadeiramente à base de jazz, sobretudo muito free-jazz, a acompanhar as viagens de carro para as "manifs", as primeiras pedras de erva, os devaneios político-libertários permanentes em infindáveis conversas com a mão cheia de novos amigos encontrados ao acaso das simpatias políticas. Só três anos depois, com os Stooges, os Sex Pistols e o punk, é que voltei ao rock...».

LISBOA PUNK

A análise do período formativo de Adolfo Luxúria Canibal não deixa de revelar importantes pistas que o futuro confirmaria: paixão pela música e um caldo de folk, rock transformista, peso eléctrico, caos abstracto e raiva punk, que havia de formar uma identidade muito particular. Adolfo deixaria Braga no final dos anos 70 para rumar a Lisboa e assim ingressar na universidade (onde estudou Direito). Mas, na capital, o futuro vocalista descobriu uma nova cena, animada pela inspiração punk em que grupos como os Xutos & Pontapés, UHF ou Corpo Diplomático empurravam a música para o futuro. «Adolfo saía dos concertos inebriado de entusiasmo e cheio de vontade de experimentar ele próprio aquela sedutora ideia do "faça-você-mesmo", de cada vez que ia a Braga de fim-de-semana ou em férias», escreve Vítor Junqueira em Narradores da Decadência, a biografia oficial dos Mão Morta editada em 2004 (ver caixa).

«Foi com grande surpresa», refere Adolfo, «que, nas idas regulares a Braga, já nos inícios dos anos 80, comecei a detectar toda a gente interessada nos novos sons pop (aquilo que anos mais tarde seria crismado como pós-punk, mas que na época era apenas a new-wave), a falar de músicas, de grupos, a sair para dançar, a comprar discos, a descobrir novidades excitantes... Foi uma época de profunda mudança, de descoberta e sobretudo de apetência por novas coisas, por ouvir novos sons, por fazer coisas diferentes, divertidas». É nesse ambiente de efusiva criatividade que se começam a desenhar as raízes dos Mão Morta. Miguel Pedro, baterista e pilar dos Mão Morta, diz mesmo que havia «um fervilhar na nova geração, que contrastava com algum conservadorismo patente nas inúmeras fachadas de templos religiosos que polvilhavam a cidade».

«Tudo isso despertou-me a vontade de fazer também um grupo coisa que jamais me havia passado pela cabeça», confessa Adolfo. «Nas férias da Páscoa de 81, em Braga, convenci dois colegas do meu irmão a formar a banda o Zé dos Eclipses na guitarra, o Pedrinho Caminho-de-Ferro (o pintor Pedro Maia) no baixo e um colega seu de turma na bateria. Passámos as férias a ensaiar num cubículo da Escola Carlos Amarante, onde o Pedro era aluno, com os instrumentos da escola baptizámo-nos Bang Bang». Curiosamente, neste arranque de percurso musical, a igreja acabou por se revelar importante, ainda que de forma enviesada.

«Nas férias [de Verão] seguintes já não deu para ensaiar na escola, porque esta fechara com o fim do ano lectivo, e o baterista, que não era de Braga, regressara à sua aldeia algures no Minho era o fim dos Bang Bang!». Mas não era, claro, o fim da carreira musical de Adolfo e dos amigos. «Entretanto fomos ver um concerto de um grupo novo, onde o meu irmão tocava harmónica, que usava os instrumentos da igreja da Senhora-A-Branca. Algumas igrejas em Braga», esclarece Adolfo, «para interessar a juventude pelas cerimónias litúrgicas, apresentaram durante um certo período dos finais dos anos 60 até ao 25 de Abril aquilo que designavam por "missas pop", em que a missa era musicada a órgão, guitarra eléctrica e bateria, e consequentemente apetrecharam-se com os instrumentos musicais necessários». O grupo que Adolfo foi ver tinha por nome WC (mais tarde, adoptariam a designação Bateau Lavoir) e contava com Miguel Pedro como vocalista que rapidamente foi convidado para se juntar a Adolfo e a Joaquim Pinto.

A etapa seguinte levou o nome Auaufeiomau e já contava com Miguel Pedro a bordo, como baterista. «A estreia ao vivo seria nas férias seguintes», recorda Adolfo Luxúria Canibal, «na passagem de ano de 81/82, na Fábrica (que também se estreava como sala de concertos), juntamente com os Bateau Lavoir, que na altura se chamavam Dernier Cri e que já não tinham o Miguel como vocalista, mas como baterista. Foi todo um prazer desconhecido que se me revelou: o concerto foi um êxito e, a partir daí, tomei-lhe o gosto... Dois anos depois, os Auaufeiomau cindiam-se, com a criação dos PVT Industrial, cujo primeiro concerto, também na Fábrica, foi com a designação de Auaufeiomau Industrial. Do seu núcleo sairiam os Mão Morta: eu, Miguel Pedro e Joaquim Pinto».

Aniki Bobó, Porto, 1985

Aniki Bobó, Porto, 1985

MÃO MORTA

«Braga era uma cidade pequena», explica Joaquim Pinto, «mas ávida de tudo o que fosse novo e inovador». O futuro baixista dos Mão Morta ainda não tinha, neste momento, adoptado as quatro cordas, uma vez que os PVT Industrial preferiam usar berbequins em palco. «Havia quem fizesse solos com aquilo», garante Adolfo nas páginas de Narradores da Decadência. Em Outubro de 1984, Joaquim Pinto encontrava-se em Berlim cidade a que se deslocava com alguma regularidade para visitar a namorada, onde assistiu a um concerto dos Swans de Michael Gira e Jarboe.

Henry Crosby, baixista do grupo na época, terá então dito que Joaquim Pinto tinha «cara de baixista», impulso mais do que suficiente «Após o segundo concerto, em Outubro de 1985, na Fábrica, em Braga», recorda Adolfo, «senti que algo de sólido existia, independentemente da capacidade técnica dos intervenientes: havia uma postura, uma atitude e um som que era único, coeso e que nos enchia de orgulho. Depois da participação na eliminatória do III Concurso de Música Moderna do Rock Rendez-Vous (RRV), em Fevereiro de 1986, e da recepção ditirâmbica de que fomos alvo pela imprensa, percebi que tínhamos criado algo que nos ultrapassava, que ultrapassava a dimensão bracarense e os seus círculos concêntricos de maledicência, para entrar na esfera do mito e da representação». De facto, as reacções em coro da imprensa nacional foram um pilar importante para a escalada dosMão Morta. Em Narradores da Decadência, Vítor Junqueira dá conta do arrebatamento da imprensa que praticamente fazia a plateia na data da passagem dos Mão Morta pela «sala dramaticamente vazia» do RRV: «o jornal A Capital dava "Escândalo com Mão Morta" como uma das parangonas à peça de reportagem, ao passo que o semanário Êxito escrevia a propósito da banda, e em particular do seu vocalista, que a "sua actuação mais parecia uma sessão de exorcismo (...)". No Diário de Notícias, Fernando Sobral, jornalista que meses antes havia chamado aos Mão Morta a melhor banda "portuguesa do momento", destacou igualmente a "interpretação magistral" de Adolfo».

Os Mão Morta acabariam por garantir o Prémio Originalidade do concurso promovido pelo RRV que nesse ano seria conquistado pelos Rongwrong, outra banda de Braga, que partilhava com os Mão Morta o guitarrista Zé dos Eclipses. Algo de muito especial animava aquele colectivo. Adolfo lembra-se bem do que era: «vínhamos da maledicência bracarense, onde todos os outros músicos eram tecnicamente muito superiores a nós e a maioria dos melómanos muito presos à proeza técnica e isso tinha-nos obrigado a cerrar fileiras e a erigir a nossa inépcia como bandeira de originalidade, a assumi-la como um bem; e a compensar o que não conseguíamos com outros atributos, afrontando esses olhares críticos, descrentes e hílares sobre a nossa capacidade, com uma sobranceria absoluta, o mais possível aparentemente imunes à zombaria mas apostados em calá-la. Éramos nós contra o mundo!...». E o mundo estava atento.

Entre os membros do júri do Concurso de Música Moderna do RRV encontrava-se Pedro Ayres Magalhães, à época envolvido nos Heróis do Mar e no arranque dos Madredeus, na editora Fundação Atlântica e na empresa de agenciamento e produção de concertos Malucos da Pátria, juntamente com Vítor Silva e Zé Pedro, dos Xutos & Pontapés. Pedro Ayres ficou surpreendido com a actuação dos Mão Morta e, no ano seguinte, em 1987, uma «noite de folia» em Braga, que juntou os responsáveis da Malucos da Pátria a Adolfo Luxúria Canibal, funcionou como catalisador para um convite. Em Abril de 1987, os Mão Morta passavam a fazer parte da Malucos da Pátria, juntamente com bandas como os Xutos & Pontapés, Heróis do Mar, Delfins e Radar Khadafi. Os Mão Morta podiam até parecer uma carta fora do baralho mas finalmente faziam parte de uma estrutura capaz de os projectar para outro tipo de dimensão. Com um segundo guitarrista a bordo, Carlos Fortes, o colectivo estava pronto para o futuro.

MALUCOS DA PÁTRIA E AMA ROMANTA

«À partida não tínhamos ideias muito definidas sobre a indústria fonográfica uma realidade da qual nada sabíamos, da qual não conhecíamos ninguém e sobre a qual não conseguíamos sequer distinguir os modos de agir independentes ou multinacionais», confessa Adolfo. «A nossa aprendizagem, e as nossas opções, foram sendo feitas ao acaso do concreto com que nos íamos deparando e em função do que nos parecia mais interessante e consequente». A energia estava lá e o arranque de 1987 tinha sido marcado pelo reconhecer dessa vibração muito própria com uma distinção por parte da Rádio Universidade Tejo que, através do programa Ecos do Império de Fernando Pêra, nomeou os Mão Mortacomo «Melhor Banda Sem Registo em Vinil». Fernando Pêra lembra-se bem disso: «fazíamos essa distinção porque passávamos muitas maquetas no programa.

Lembro-me que as primeiras maquetas dos Mão Morta tinham uma agressividade muito própria, distinguiam-se bem pela força com que "batiam" e até pela qualidade técnica». O «empurrão» da RUT valeu-lhes o direito de gravarem dois temas em estúdio («E Se Depois» e «Sitiados») e a Malucos da Pátria financiou o registo de mais quatro («Oub'lá», «Véus Caídos», «Abandonada» e «Aum»), o que viria a completar o alinhamento do primeiro lançamento oficial do grupo, em cassete, formato popular na época nos círculos mais indie. Com selo da própria Malucos da Pátria, este foi o registo que permitiu gerir o compasso de espera até à entrada em estúdio, em Março de 1988, para a gravação do primeiro «Registo em Vinil». Pelo meio, houve tempo ainda para impressionar público e imprensa com a sua passagem pelas Jornadas do Império, o evento de dois dias organizado pela Malucos da Pátria no Cinema Império em Lisboa e coroado com a estreia em Portugal dos norte-americanos Gun Club. Mas foram os Mão Morta que acabaram por se sagrar «vencedores» dessas jornadas, aos olhos da imprensa, colhendo assim preciosos frutos para o futuro incluindo a solidificação da sua relação com Vitor Silva, que permaneceu ligado aos destinos do grupo, mesmo depois da dissolução da Malucos da Pátria. «Foi, sem dúvida, uma etapa importante para a nossa afirmação», confirma Adolfo. Tanto Miguel Pedro como Joaquim Pinto atribuem a Adolfo a responsabilidade pela ligação a João Peste, líder dos Pop Dell'Arte e fundador da Ama Romanta. E Adolfo destaca «vários episódios» na aproximação ao homem de Free Pop: David Pontes, ligado à fanzine Cadáver Esquisito, de Espinho, estava envolvido num grupo de agitadores culturais de que fazia parte o grupo Os Cães, a Morte e o Desejo (mais tarde Cães Vadios). Esse grupo de pessoas presenciou alguns dos primeiros concertos dos Mão Morta e David entrevistou Adolfo para a sua fanzine, tendo ficado com excelente impressão do grupo: «no fim da entrevista contaram-nos que tinham adorado o concerto da Foz e que tinham falado do grupo ao João Peste que não sabíamos quem era, que ia lançar uma editora e cujo primeiro disco seria uma colectânea na qual Os Cães, A Morte e o Desejo iam entrar».

A segunda etapa nesta aproximação foi protagonizada por Rui Vargas, hoje um dos principais DJs portugueses, com residência no Lux, que também se encontrava ligado a uma fanzine, a Enfim Sós, juntamente com Maria João Guerreiro, irmã de João Peste. «Essa fanzine tinha feito a reportagem sobre o concurso do RRV e colocava os Mão Morta como os melhores do mesmo e a sua grande revelação», explica Adolfo. «O Rui viu-me na paragem do eléctrico e veio entregar-me um exemplar da fanzine».

Momento seguinte Vigo! «Finalmente, em Outubro de 1986, já apresentado a algum pessoal de Campo de Ourique, nomeadamente ao José Pedro Moura e à Maria João Guerreiro, e tendo reconhecido o João Peste naquele rapaz que, com a irmã, almoçava sempre com os pais no mesmo restaurante de Campo de Ourique (o Gigante) onde eu, volta e meia, ia almoçar com os meus avós, fizemos juntos uma viagem de Lisboa a Vigo para o Rock Vigo-Oporto 86, no El Kremlin, que contava com Pop Dell'Arte e Mão Morta no alinhamento». Dessa viagem resultou um estreitamento nas relações entre os dois grupos «e o convite para os Mão Morta editarem pela Ama Romanta que aceitámos, tendo ficado a aguardar disponibilidade financeira da editora para entrar em estúdio, o que só viria a acontecer no início de 1988, mais concretamente em Março». João Peste via muitos pontos de contacto entre a sua banda e a de Adolfo: «creio que, acima de tudo, ambas as bandas partilhavam uma forte componente performativa talvez até mais assumida nos Mão Morta do que nos Pop Dell'Arte, inusitada nas bandas portuguesas dessa altura. Outra referência partilhada entre as duas bandas foi o nome de Jean Genet digo isto porque me lembro de uma conversa que tivémos sobre Genet que, aliás, tinha morrido nessa altura».

Curia, 1988

Curia, 1988

O PRIMEIRO ÁLBUM

As gravações do álbum de estreia dos Mão Morta decorrem nos Estúdios de Paço de Arcos da Valentim de Carvalho. Mas, apesar do apoio incondicional da imprensa e do triunfo em vários palcos, os Mão Morta não encararam esse momento com excessos de confiança. «Éramos mesmo muito inexperientes», concede Miguel Pedro. «O que sentíamos era que, se conseguíssemos fazer um disco que saísse para as lojas, já seria muito bom. O clima no estúdio era fantástico: estávamos maravilhados com aquelas máquinas todas, podermos inventar imensas coisas no estúdio... quase nem dormimos». Joaquim Pinto também se lembra do nervosismo: «recordo o stress de termos de gravar tudo num fim-desemana mas claro que arranjámos, como sempre aliás, maneira de nos acalmar.

Houve também algumas peripécias que me permito guardar...». As memórias de Adolfo vão no mesmo sentido: «dispor do espaço e equipamento do que era o antigo estúdio grande de Paço de Arcos era qualquer coisa de indescritível estávamos atazanados! Arrumámos rapidamente a gravação dos seis temas, que estavam mais que rodados de tanto serem tocados ao vivo, e gastámos o pouco tempo disponível a descobrir o estúdio e algumas das suas possibilidades não para aplicação imediata, mas por puro gozo de descoberta e deslumbramento».

Amândio Bastos, na altura engenheiro de som na Valentim de Carvalho, também recorda a passagem dos Mão Morta por Paço de Arcos: «naquela altura, os estúdios eram muito caros e a Ama Romanta estava a fazer um grande esforço para proporcionar aos grupos que gravava as melhores condições possíveis mas as limitações orçamentais eram inevitáveis, portanto havia sempre muito pouco tempo para as gravações e tudo se passava um bocado vertiginosamente, não havia muito espaço para pensar. Se calhar, ainda bem... talvez se tenha ganho mais espontaneidade. Fiquei surpreendido pela maturidade e força do som dos Mão Morta e o maior desafio era transpor toda a energia do grupo para a gravação». O desafio parece ter sido cumprido e João Peste (ver caixa) menciona mesmo três ou quatro edições esgotadas do primeiro álbum dos Mão Morta, colocado nas lojas em Julho de 1988.

Joaquim Pinto refere que a sua banda «deu alguns beliscões ou até mesmo pontapés no que estava estabelecido» e não sem razão. «Em 1988, os Mão Morta foram sobretudo ruptura com o que se fazia em Portugal», explica Adolfo. «Não uma ruptura intelectual, sustentada em movimentos artísticos de vanguardas passadas ou em teorias musicológicas pós-modernas, mas ruptura bruta, gratuita, crua, a sanguefrio, sem rede, quer através do som rude e saturado que exibiam, tão longe do punk e do hard-rock como dos góticos e urbano-depressivos então em voga, quer através da temática underground e descaradamente marginal e drogada que lhes povoava as canções, quer através da postura agressiva e sem freio que apresentavam ao vivo. E como era uma ruptura radical, injustificada e incompreensível, não reconduzível ao padronizado existente, não susceptível de arrumação e recuperação no já conhecido, soava a moderno e despertava curiosidade, ganhava visibilidade». Uma visibilidade que já rendeu mais de duas décadas de uma brilhante carreira.

Originalmente publicado na BLITZ de fevereiro de 2008