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UHF em 1982

UHF 1978-1981: Os verdes anos de uma banda histórica do rock português

Em 1977, quando o punk estalava em Inglaterra, Portugal ainda se procurava ajustar à liberdade recém-conquistada. Os UHF foram dos primeiros a saciar uma imensa sede de rock nessa nova realidade social e política

Os Xutos & Pontapés já são comendadores e Rui Veloso atingiu o ponto de uma inabalável unanimidade. Mas os UHF que anteciparam o estoiro de «Chico Fininho» por uns bons meses e que chegaram a emprestar material aos Xutos no início da carreira destes parecem nunca ter recolhido o mesmo reconhecimento de que os seus contemporâneos hoje gozam. Apesar da vida intensa na estrada, da dilatação constante da discografia e do culto fervoroso de que são alvo, aos UHF parece faltar qualquer coisa. Carlos Peres e Renato Gomes, baixista e guitarrista da primeira formação, não hesitam em usar a palavra «injustiça» e falam de um aplauso sentido que tarda em chegar.

Peres, que hoje é funcionário público, refere «um certo abandono dos UHF» e depois acrescenta: «penso que isso também se deve ao facto de o António Manuel ter prosseguido com o grupo. São muitos anos e às vezes é preciso parar». Já Renato Gomes, hoje representante português da marca de equipamento musical Fender, adiciona à fogueira a acha da independência: «talvez isso se deva também ao facto de sempre termos sido independentes sempre procurámos fazer tudo sozinhos, nunca ficámos presos nem a editoras nem a empresas ou partidos e nunca frequentámos os cafés da moda ou aquela noite onde certas coisas se decidiam. Talvez por isso, as pessoas foram-se esquecendo dos UHF».

No momento em que passam 30 anos sobre os primeiros passos que levaram à formação oficial dos UHF, em 20 de Novembro de 1978 (data do primeiro concerto), procurámos a origem e desfiámos o novelo da memória de que se fazem estas três décadas de «canal maldito». Entre as primeiras conversas nos cafés de Almada «quando uma "mini" tinha que dar para dois», como refere António Manuel Ribeiro e a consagração com a edição do primeiro álbum, À Flor da Pele, em 1981, há uma história de dedicação extrema, singular e, de certa forma, visionária. Mas antes de qualquer história há uma pré-história e a de António Manuel Ribeiro fez-se de colagem de posters nas paredes do quarto e de sonhos rock de olhos bem abertos.

A PRÉ-HISTÓRIA

«No princípio não gostei dos Beatles», explica o eterno vocalista dos UHF. «A minha primeira ligação à música britânica foi através dos Rolling Stones. Com o rádio de pilhas debaixo da almofada ia ouvindo aquelas vozes mágicas da rádio e descobrindo música». O primeiro disco de que António se lembra foi-lhe oferecido pela avó e era The Boxer, da dupla Simon & Garfunkel. Mas comparações com Jim Morrison foram a constante ao longo da carreira e haviam até de sair da boca de futuros rivais. Porém, foram os discos e as poses que via espalhadas pelas páginas da revista francesa Rock & Folk, que assina desde 1971, que lhe conquistaram o espírito.

«A primeira vez que senti que queria ser músico devia ter uns 14 anos», revela. «Tinha descoberto o Alvin Lee, com o "Love Like a Man"... Nas fotos, ele aparecia com uma Gibson ES-335 e eu decidi fazer uma guitarra igual. Eu era um aluno excelente a matemática e a desenho com as fotos como referência, comecei a desenhar a guitarra. Media o dedo dele, media o meu dedo e fazia os cálculos para chegar ao tamanho correcto. Dessa forma construí três guitarras, não a parte eléctrica, mas toda a parte de madeira». Esse jeito para a marcenaria, herdado do pai, havia de ser útil daí a uns anos já com os UHF.

Equipado com livros como o Método de Guitarra «muito difícil de seguir, a colocação dos dedos não era nada fácil», confessa e vários «songbooks», de Beatles a Crosby Stills & Nash, o futuro vocalista dos UHF obrigou-se a aprender música, seguro de que era esse o seu caminho, ao mesmo tempo que ia prestando atenção à paisagem musical que o rodeava: «seguia a carreira do Filipe Mendes, do Quarteto 1111, do Pop Five Music Incorporated do Miguel Graça Moura. Os Chinchilas eram uma banda fantástica», explica o cantor. «Eu estudava em Lisboa, no Dom João de Castro, na Ajuda, porque estava a seguir Ciências, que não havia em Almada.

Lembro-me de saber de um concerto no antigo Pavilhão Carlos Lopes, que era uma final qualquer de um concurso de bandas. E eu, mais um par de malucos da turma que gostavam de música, fomos vê-los e lembro-me de absorver tudo ficámos à espera que chegassem as bandas, prestei atenção ao que vestiam tinham todos cabelos mais compridos do que nós. Foi fantástico».

A PRETO E BRANCO

Antes de os UHF propriamente ditos surgirem, António Manuel Ribeiro teve uma experiência incipiente num circuito que se revelaria mais tarde como embrião do boom do rock português o dos bailes. «Cheguei a ter uma banda que foi convidada para um par de bailes, que era o que havia na altura.

Essa banda tinha um guitarrista brasileiro que eu detestava porque só queria tocar coisas brasileiras. Então tínhamos que cantar cinco sambas, antes de eu poder tocar o "Satisfaction", e depois mais cinco temas brasileiros...». Renato Gomes também recorda essa era dos bailes, num país que ele descreve como sendo «a preto e branco»: «era uma época muito agitada, de grandes incertezas, muito cinzenta. Mesmo assim, em Almada, respirava-se música apesar de, nessa altura, não haver condições: não havia salas de ensaios apoiadas pela câmara e mesmo a Incrível Almadense nesse tempo estava muito fechada ao rock. Era uma sala de baile. Acho até que fomos um pouco pioneiros em levar para lá o rock». Claro que o desfecho desta passagem pelo mundo dos grupos de baile não foi feliz: «lembro-me que uma vez nos chateámos em palco... tínhamos alugado os instrumentos na Senófila e chegou uma altura em que o presidente da colectividade nos pediu para cantar o "Parabéns A Você", porque a filha dele fazia anos. Recusei-me e depois não nos pagaram, o que levantou um problema por causa do aluguer dos instrumentos».

Nome dessa efémera banda? «Purple Legion, não por causa dos Deep Purple, mas por causa do "Celebration of the Lizard" dos Doors...». Mas importa reter este nome para a posteridade, porque foi aí que o futuro dos UHF se começou a desenhar, como explica António Manuel Ribeiro: «de certa forma, os Purple Legion são embrião dos UHF, porque nessa banda tocava o Alfredo Antunes, primeiro baterista dos Iodo. Depois o Alfredo e eu chateámo-nos porque ele não tinha espírito de sacrifício andar a tocar sem nos pagarem e saiu dando lugar ao Américo Manuel que havia de gravar o "Jorge Morreu" [primeiro single da carreira discográfica dos UHF]. Com o Américo demos um salto qualitativo. Ele era um grande baterista, mas também um grande guitarrista. Isso levou-nos a evoluir».

UHF na Rua do Carmo, em Lisboa, 1981

UHF na Rua do Carmo, em Lisboa, 1981

À FLOR DA PELE

«O nome UHF surgiu em 1978», recorda António Manuel Ribeiro. «Antes, a banda chamava-se À Flor da Pele mas alguém achou que o nome era muito grande e até muito psicadélico (risos). Mudámos para UHF, porque as siglas representavam uma certa ideia de modernismo e estavam na ordem do dia EDP, CP, PREC. O nome foi sugerido por mim, numa mesa de café em Almada num sítio que infelizmente já não existe. Na altura, nem ligámos o nome ao canal de televisão: fomos lá só pelo som». António Manuel Ribeiro, Carlos Peres e Renato Gomes afinaram pelo mesmo sonho logo em 1977, ainda com a designação que havia de servir de título ao primeiro álbum, de 1981 mas o arranque oficial do grupo só chegaria no ano seguinte.

As memórias do antigo baixista dos UHF também são bastante nítidas: «o António convidou-me para aparecer nos primeiros ensaios e eu até nem fui o primeiro baixista. Havia um tipo chamado Tó Pragana, se não me engano, mas faltava muito aos ensaios e eu acabei por ficar. Depois, foi preciso um guitarrista e eu lembrei-me de um amigo meu que dava uns toques era o Renato Gomes». Nada de anúncios no placard da escola, nada de apelos nos classificados de um qualquer jornal: o arranque dos UHF foi um processo, mais do que um momento.

«Fomos nascendo. Nessa altura, eu já era um homem casado e com responsabilidades mas tinha sonhos. E, à nossa volta, havia mais gente com sonhos. Tínhamos saído do fascismo, entrámos na liberdade e não nos revíamos na música da altura», adianta António Manuel Ribeiro. Estavam, portanto, criadas as condições para que os UHF começassem a transformar sonhos em discos e canções. Apesar de Renato Gomes apontar como momento decisivo na sua aproximação à música o concerto dos Genesis, em Cascais, no ano de 1975, ficou claro que os UHF aproveitaram, no início, a injecção de entusiasmo dada pelo punk. «Era até frustrante olhar para um palco na primeira metade dos anos 70 e ver as montanhas de equipamento a que nunca poderíamos ter acesso», refere Ribeiro. «E o punk veio trazer uma lufada de ar fresco, garantir que nada daquilo era preciso».

Os Sex Pistols podem ter roubado os primeiros instrumentos em que tocaram, mas os UHF preferiram a via da bricolage. Ribeiro já tinha construído um par de guitarras e o resto também não assustou o grupo: «o equipamento era pouco e eu lembro-me de ligar a minha guitarra ao meu gira-discos claro que rebentei com aquilo. Tivemos que fazer os nossos próprios amplificadores, por ser tudo tão caro, mas ao fim de meia hora a tocar já estava tudo a deitar fumo», relembra o autor de «Rua do Carmo». «Tínhamos um espírito de grupo muito forte», recorda Renato Gomes. «Construímos muitas das nossas coisas não só as colunas do PA mas também as caixas para as guitarras. Isso exigia muito de nós e a nossa entrega era total».

O espírito empreendedor dos UHF era tal, aliás, que perante a dificuldade em encontrar locais para tocarem em Almada, entre 1978 e 79 organizaram uma série de eventos num local perto do rio Tejo, chamado Canecão. «Começámos a organizar concertos no Canecão, no sentido de dinamizar a zona. Fizemos lá concertos durante um ano e tal, em 78 e 79 com muitas bandas convidadas. O Mário Dimas era então o nosso manager»

A PULSO

Os UHF na altura fabricavam o que não havia e isso não se limitava, claro, a objectos. Mário Dimas, manager do grupo na primeira fase da sua carreira, refere que, além de sistemas de luz e som artesanais, copiados de fotos de revistas, os UHF também ajudaram a construir um circuito e um mercado que não existia. «Hoje estou à frente de uma empresa com muitos artistas, e já trabalhei com muita gente, mas acho que não voltei a encontrar o espírito de sacrifício e de entrega que reconhecia nos UHF. As bandas novas, agora, querem resultados imediatos e não estão para batalhar por uma carreira, que foi o que os UHF fizeram eles inventaram uma carreira».

«O nosso primeiro concerto foi no bar É, com os Faíscas. Também tocámos no Brown's, com os Aqui d'El Rock, e fomos fazendo espectáculos na periferia da Grande Lisboa, quase conquistando localidade a localidade. Do Seixal para o Barreiro e daí para a Moita e por aí adiante», diz Renato Gomes. E essa é uma das marcas da carreira dos UHF que, apesar do impacto nacional, parecem ter-se sempre afirmado como uma banda da Margem Sul, periférica, suburbana. Peres sublinha essa condição quando fala das bandas punk de Lisboa: «não havia espírito de comunidade porque a malta deste lado [Lisboa] era mais burguesa. Os Aqui d'El Rock eram mais genuínos mas o pessoal da Avenida de Roma tinha outra abordagem».

Animados com a força do punk ainda por cima, Carlos Peres tinha trazido vários discos de Londres, que visitou no âmbito de uma viagem de finalistas, os UHF dedicamse a gravar as primeiras maquetas. «Éramos um bocado diferentes porque começámos a registar o nosso trabalho de composição em maquetas, logo antes do primeiro single. Por isso é que agora ando a fazer o trabalho de lançamento de uma série de raridades (ver caixa) porque de facto há material inédito gravado ao longo dos anos», refere António Manuel Ribeiro. «Ora, quando fomos para estúdio gravar o "Jorge Morreu" tínhamos umas 15 canções já em maqueta. No ano seguinte, quando editámos o "Cavalos de Corrida", já tínhamos espectáculos de duas horas e quando fomos a Paço de Arcos gravar o À Flor da Pele, em 1981, deixámos tudo para trás porque já tínhamos canções novas. Essas maquetas foram sendo gravadas em bons estúdios: no Musicord ou no Arnaldo Trindade, com o Moreno Pinto, o homem que gravava José Afonso e Adriano Correia de Oliveira. Isso também foi possível porque o meu padrinho era amigo dele, por questões políticas. Quando lá chegámos, o Moreno Pinto, qual bloco de granito, perguntou-me "sabes quanto é que isto vai custar?" Eu, claro, borrei-me de medo...». Renato Gomes ficou igualmente assustado «sei que tremíamos como varas verdes» mas também sublinha a determinação que, já nesse momento, animava o grupo.

«"Jorge Morreu" só saiu em Outubro de 1979 (ver caixa), mas já estava gravado desde Março, no estúdio de Campolide do Arnaldo Trindade [fundador do selo Orfeu, hoje integrado na Movieplay]. Um dia para gravar três canções! O disco saiu na Metro-Som, mas nós nunca assinámos um contrato. Fomos para essa editora por causa dos Aqui d'El Rock», adianta António Manuel Ribeiro. O impacto do disco de estreia foi mínimo. «Ninguém na imprensa ligou ao "Jorge Morreu". Penso que só o António Duarte é que escreveu sobre o disco, no semanário Tempo. Pagámos os nossos próprios discos de promoção e fomos à Rádio Comercial para apresentá-lo. Nem entrámos... Atenderam-nos à porta nem sequer pudemos entrar e trataram-nos com alguma indiferença. Em comparação, seis meses depois, já com o "Cavalos de Corrida" na rua, até nos estenderam a passadeira vermelha», ironiza o cantor.

De facto, a passagem para a Valentim de Carvalho abriu um mundo de possibilidades e transformou os UHF num fenómeno à escala nacional. Francisco Vasconcelos, A&R da Valentim à época e hoje administrador, faz questão de referir que a contratação dos UHF foi praticamente paralela à de Rui Veloso e GNR, «antes de ter saído qualquer disco, penso eu». Ou seja, não havia ainda a certeza de que esta via iria funcionar mas a Valentim tinha uma clara estratégia na manga. «Acho que os UHF complementavam o ramalhete de forma perfeita», explica o homem forte da Valentim de Carvalho. «O Rui era o "singer-songwriter" puro, os GNR a banda mais arty e os UHF o grupo de rua, de garagem, com uma energia muito forte».

O SUCESSO

«"Cavalos de Corrida" tinha "sucesso" estampado e, de facto, vendemos muitos discos», declara Francisco Vasconcelos. Com as vendas a ultrapassarem as 100 mil cópias, a vida dos UHF alterou-se, como seria de esperar, mas o rigor manteve-se. «A seguir ao "Cavalos de Corrida" começámos a ganhar dinheiro. Até aí, éramos uns tesos mas conseguimos ganhar dinheiro suficiente para comprar um ou dois bons carros. Só que preferimos investir num bom PA». Com tanta experiência a tocar com bandas estrangeiras que passavam por Portugal (ver caixa), era natural que os UHF quisessem ter equipamento cada vez mais profissional. Afinal, a estrada, já nessa altura, era o maior argumento deste grupo.

Depois da edição de «Jorge Morreu», na Metro-Som, e dos singles «Cavalos de Corrida» e «Rua do Carmo», já na Valentim de Carvalho, chegou a vez do álbum de estreia, gravado confortavelmente nos Estúdios de Paço de Arcos já com um novo baterista, Zé Carvalho, e com o mítico Hugo Ribeiro, técnico de som responsável por discos de Amália ou Quarteto 1111. «Para fazer o álbum estivemos três meses em estúdio. Com o Hugo Ribeiro, um enorme professor para mim, com o Luís Filipe Barros e o Nuno Rodrigues, que aparecia ao final do dia. Aprendi a estar em estúdio, aprendi uma série de truques e aprendi uma grande disciplina. Os UHF sempre foram muito profissionais em estúdio», garante António Manuel Ribeiro.

«Na altura, trabalhámos em 12 pistas, o que já era muito bom e a primeira edição de dez mil discos foi feita com vinil de qualidade superior, normalmente usado para a música clássica. Tivemos todas as condições e, por isso, ainda hoje me relaciono muito bem com esse disco». «A Valentim de Carvalho era uma editora muito grande e deu-nos condições fabulosas para trabalhar», concorda Renato Gomes, que, no entanto, reparte os méritos do sucesso com a própria conjuntura do país. «Houve ali um momento em que a televisão, os jornais e a rádio manifestaram um interesse muito profundo pela música portuguesa. Queriam mesmo apoiar e hoje isso já não existe».

Os UHF são hoje, claramente, a «marca» de António Manuel Ribeiro que, ao fim de 30 anos, tem o mérito de ter construído um público que, por vezes parece ser só seu. No arranque da carreira, no entanto, foi com Carlos Peres, Renato Gomes e Américo Manuel que Ribeiro construiu a cumplicidade que lhe permitiu embarcar numa aventura única. São 30 anos de uma história que ainda hoje está a ser escrita.

Originalmente publicado na BLITZ de dezembro de 2007