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James Brown: a “sex machine” começou a funcionar há 60 anos

Morreu no ano em que completou meio século de carreira discográfica. Entre a edição de «Please, Please, Please», em março de 1956, e o dia 25 de Dezembro de 2006 ergueu-se uma das mais celebradas carreiras da música popular, tocada pelo génio e pelo espírito genuíno do sonho americano

A América de James Brown era bem diferente da América que hoje conhecemos. De certa forma, pode dizer-se que James Brown construiu a América do presente a América do hip-hop, da MTV e até de Oprah Winfrey. Mas tal como Roma não se fez num dia, esta terra de sonhos também não surgiu de um momento para o outro. Entre 1956, ano do arranque da carreira discográfica de James Brown com «Please, Please, Please», e 1962, data de lançamento do crucial Live at The Apollo, a luta foi tremenda: contra uma América de preconceitos e de velhos valores enraizados precisamente no mesmo Sul que gerou James Brown. E essa foi apenas a segunda fase da sua luta. A primeira, igualmente intensa, começou no dia em que nasceu, a 3 de Maio de 1933, num casebre pobre à saída de Barnwell, na Carolina do Sul.

Após o crash da Bolsa de 1929, a América mergulhou numa profunda depressão. No Norte industrializado essa crise e a proibição do consumo de álcool através da famosa Lei Seca deram origem à cultura do crime organizado que Hollywood tão bem documentou. No Sul rural, o sufoco económico quase trouxe de volta o tempo da escravatura. Os velhos hábitos custavam a morrer e a segregação com que se resistia ao avançar dos tempos era uma autêntica sentença de pobreza ditada à nascença a qualquer negro. Como James Brown.

Pouco depois do seu nascimento, James foi enviado para Augusta, na Geórgia, para viver com a tia Honey, madame de bordel pouco hospitaleiro para uma criança. Por isso mesmo, James cresceu na rua, entre lutas e sonhos de grandeza alimentados com moedas ganhas a engraxar sapatos. Nestas coisas a história é sempre a mesma e não demorou muito até James Brown se meter em trabalhos. Expulso da escola por não ter «roupas suficientes» facto que ajuda a entender o estilo extravagante mais tarde adoptado, o futuro padrinho da soul encontrou o caminho do reformatório aos 15 anos por ter roubado um carro. Condenado a uma pena entre oito e 16 anos, cumpriu no entanto «apenas» três anos.

No reformatório, Brown tinha aperfeiçoado capacidades adquiridas nos breves momentos em que frequentou a igreja antes de ser encarcerado: a sua voz e um ouvido profundamente musical permitiram-lhe liderar um grupo gospel através do qual conheceu Bobby Byrd, um cantor e um amigo que o acompanhou por boa parte da sua vida profissional. Foi a família de Bobby que acolheu James aquando da sua libertação em 1952. Byrd tinha um grupo de gospel mas a força de James vinha de um mundo mais terreno do r&b de gente como Hank Ballard & The Midnighters ou The Clovers. Quando James se juntou ao grupo de Byrd as coisas mudaram. Começaram por ser os Avons e rodaram por todas as salas possíveis da cidade de Toccoa, onde Byrd vivia. E tocaram até os papéis naturais de cada um sobressaírem, empurrando James decididamente para a frente do palco pois era ele que obtinha as mais entusiásticas reacções do público. Os Famous Flames tinham nascido e estavam prontos para o sucesso.

Ao vivo, os Flames de Brown tinham desenvolvido um espectáculo energético, quase primal, em que a entrega emocional chegava bem perto do abandono, raiando o transe que era habitual descobrir-se nas cerimónias das igrejas baptistas do Sul. Mas isso não chegava: para explodir, este grupo precisava de um disco e por isso uma maqueta foi gravada na estação de rádio WIBB, em Macon, na Geórgia. E foi exactamente essa maqueta que chamou a atenção de Ralph Bass, da Federal e King Records de Cincinatti, que se apressou a assinar o grupo e a editar, em 1956, o single que abriu as portas do sucesso para James Brown.

«Please, Please, Please» não foi, porém, um daqueles «hits» imediatos que altera a vida de um artista de um dia para o outro. Longe disso. Foi um «hit» de combustão lenta que foi conquistando paulatinamente território a território, mantendo-se como uma prioridade da editora de Bass até praticamente ao fim do primeiro trimestre de 1957. James e os Flames gravaram mais nove singles sem que nenhum registasse qualquer tipo de actividade, sendo todos rapidamente esquecidos. Mas James Brown tinha qualquer coisa. Ao vivo, o espectáculo funcionava e o público aderia. Só que os singles não conseguiam captar essa energia. Em 1958, uma nova canção quase traduzia um pedido desesperado ao público «Try Me (I Need You)». E a nova canção, com um futuro gigante do jazz na guitarra, Kenny Burrell, recolocou Brown no caminho dos sucessos que a partir daí fluíram ininterruptamente.

Até 1962, a carreira de James foi crescendo de intensidade, com cada novo disco a fornecer o combustível necessário para uma permanente vida na estrada que rendia concertos que rapidamente alcançaram estatuto lendário. Pee Wee Ellis, que seria um dos saxofonistas da orquestra de James, comentou um dia que «mal se sabia que James Brown tinha um concerto agendado para a nossa cidade, era hora de começar a juntar dinheiro». James Brown percebeu depressa que o palco seria a chave do seu sucesso e precisava de mostrar isso à outra América, a América branca da pop e das vendas a nível nacional. Live At The Apollo foi a solução encontrada.

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UM LEGADO CHAMADO FUNK

Douglas Wolk, autor do livro Live At The Apollo, que documenta a mítica gravação de James Brown para a colecção 33 & 1/3, refere que James enfrentou uma plateia de 1500 pessoas à beira da histeria. O Apollo era, nesta época, o templo maior da música negra e por isso mesmo a escolha óbvia para esta operação. Quando James chegou ao Harlem para gravar o concerto, que seria depois editado como Live At The Apollo, na noite de 24 de Outubro de 1962, Kennedy estava imerso na crise dos mísseis cubanos e a América negra lutava por reconhecimento. James, por seu lado, já levava 23 concertos feitos só nessa semana: garantia de que a máquina rítmica estava bem oleada e preparada para palcos ainda maiores.

A energia tremenda libertada da música registada em Live At The Apollo era do mesmo calibre que alimentou o Movimento dos Direitos Civis. Nelson George, um dos maiores cronistas da música negra norte-americana, escreve, nas notas que acompanham a definitiva caixa de quatro CDs Star Time, que a música de Live At The Apollo «serve para nos lembrar o melhor dos "soulful 60's" e o optimismo que foi a grande força dessa época». James estava a crescer e nada o podia parar. Live At The Apollo vendeu milhões e rapidamente James Brown comprou a estação de rádio em cujos degraus costumava engraxar sapatos. O sonho era real. E era preciso difundi-lo.

Os feitos de James Brown até meados da década de 70 são impressionantes. Mais do que ser um produto da história da música negra, durante os primeiros 20 anos de carreira, James Brown foi um dos principais catalisadores da evolução dessa música. Começou no gospel, namorou com o doo-wop no início dos Famous Flames, adoptou o r&b e ajudou a transformar essa matéria-prima crua no mais sofisticado som da soul. E, antes que a década de 70 tivesse terminado, personificou a maior de todas as revoluções, ao acentuar o carácter rítmico da sua música, orientando toda a sua orquestra como se de uma enorme bateria se tratasse. O funk foi o seu grande legado e a língua encontrada para falar com as ruas.

A partir de 1967, com o clássico Cold Sweat e com a ajuda do baterista Clyde Stubblefield, James inventou uma música ritmicamente possante em cima da qual os seus gritos vão ensaiando crescendos que são apelos irresístiveis à dança (LeRoi Jones, mais tarde Amiri Baraka, escreveu mesmo em Black Music que os «gritos de James Brown são mais radicais do que o som da maior parte dos músicos de jazz»). Esta efervescência ecoava o que se sentia nas ruas da América. O orgulho negro crescia rapidamente, as afros tinham conotações políticas, o jazz, o rock e a sociedade libertavam-se e abandonavam-se ao som das novas experiências na música: funk no gueto, psicadelismo em São Francisco, jazz livre de estruturas por todo o lado.

A INVENÇÃO DA MÚSICA MODERNA

O envolvimento directo de James com o Movimento dos Direitos Civis, em meados dos anos 60, levou-o a usar a sua música para educar as massas: «Don't Be a Drop Out» ia directamente contra o mantra de Timothy Leary «Tune in, Turn On, Drop Out» e reconhecia que os jovens negros não se podiam dar ao mesmo luxo de abandono das instituições de ensino que a geração branca das flores professava. James fez concertos para angariar dinheiro para activistas e em 1968 recusou o namoro dos Panteras Negras, ao dizer claramente a H Rap Brown que «não diria a ninguém para pegar numa arma».

De facto, James era um pacifista e a sua música transmitia essa mensagem: em Abril de 1968, na noite seguinte ao assassinato de Martin Luther King Jr, o mayor de Boston travou a violência na sua cidade ao transmitir na televisão um concerto de James Brown, que manteve as pessoas em casa. Antes da década terminar, James foi chamado por Lyndon Johnson à Casa Branca e aceitou tocar para as tropas americanas estacionadas no Vietname. Poço de contradições? James afirmou repetidamente que só queria estar «perto das pessoas». O público agradeceu-lhe enquanto cantava «Say It Loud (I'm Black and I'm Proud)».

A primeira metade da década de 70 de James Brown foi gloriosa e começou da melhor maneira, com a edição em Março de 1970 do single «Funky Drummer», que nas duas partes das suas sete polegadas chegava a uns fantásticos sete minutos (anos antes do maxi ser inventado e normalizar esta abordagem de maior fôlego). De novo com Clyde Stubblefield sentado na bateria, James Brown protagonizou uma revolução e inventou a música moderna. O sofisticadíssimo desenho rítmico na tarola e a segurança do trabalho de pés no bombo e no hi-hat pode ser encontrado em centenas de discos de hip-hop ou, acelerado, como parte do legado drum'n'bass. Com aquele «1, 2, 3, 4, hit it!», James anunciou o futuro, não se escusando depois a perguntar «ain't it funky?». Sem a menor sombra de dúvida. Na década da Blaxploitation, James fez incríveis bandas-sonoras para os filmes Black Caesar e Slaughter's Big Rip Off, mas não se esqueceu de mandar recados políticos com temas como «Talkin' Loud and Sayin' Nothin'».

O TEMA MAIS SAMPLADO DE SEMPRE

Ironicamente, o disco-sound tornado possível por experiências como «Funky Drummer» foi o principal responsável pelo afastamento de James do centro das atenções, durante a segunda metade dos anos 70 - o lado mecanizado e plástico do disco-sound não conseguiu seduzir um James Brown ainda demasiado ligado à tradição r&b. A década de 80 foi palco de um lento regresso ao centro das atenções, primeiro com o cameo no filme Blues Brothers, depois com a participação em Rocky IV, que lhe permitiu um regresso às tabelas, com «Living In America». A meio da década, a geração hip-hop também assumia a sua dívida para com a obra do Padrinho da Soul e Afrika Bambaataa terá dado a «Funky Drummer» o título de Tema Mais Samplado de Sempre.

Nos anos 90 já depois de ter resolvido os problemas com a lei que o afastaram da vida pública durante alguns anos --, James reencontrou o seu público quando regressou aos palcos. As digressões mantiveram-se, aliás, até bem perto da data da sua morte. Ao contrário de estrelas ultrapassadas pelo tempo, os seus concertos nunca perderam a pertinência. Talvez porque o seu legado foi mantido vivo pela música moderna com o hip-hop no topo das tabelas desde o início do novo século, as inovações de James Brown ao nível rítmico nunca andaram longe dos ouvidos das novas gerações. O regresso em força do funk nos últimos anos através de compilações e reedições massivas mas também de uma nova geração de músicos permitiu que o eco da obra de James Brown nunca se dissipasse. E há, claro, a longa linhagem de herdeiros: Michael Jackson aprendeu a dançar com James Brown, Fela Kuti estudou-lhe os métodos de gestão do groove, Prince roubou-lhe os sensuais ruídos guturais e Chuck D inspirou-se no seu lado político mais inflamado. Todos lhe devem alguma coisa.

Em Abril de 1973, James editou um brilhante single com o profético título «Doing It To Death», onde se cantava «I got to take you higher». Ele elevou-nos, de facto, pela música a que se entregou intensamente até ao passado dia 25 de Dezembro. E agora o céu é bem mais funky.

Originalmente publicado na BLITZ de fevereiro de 2007