Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Notícias

Tédio Boys

A história do punk “made in Portugal”

Primeiro foi um disco pirata de António Sérgio. Vieram depois os Faíscas e os Aqui d’el Rock. Por cá, mas também lá fora, um jovem Zé Pedro tomava notas sobre aquela que viria a ser a influência primordial dos Xutos & Pontapés. Traçamos o percurso do punk português, passando pela “resistência” dos anos 80, com Mata Ratos, Crise Total e Ku de Judas, a “tradição coimbrã” dos anos 90, com os Tédio Boys (na foto), e a vaga hardcore dos X-Acto.

A publicação em 1984 do livro A Arte Eléctrica de Ser Português 25 anos de Rock'n Portugal oferece-nos a viagem no tempo possível até à época em que por cá se procuravam identificar os ecos da revolução rock que fazia tremer o chão de cidades como Londres ou Nova Iorque. Escrevia o autor: «No início de 1978, em Portugal, sabe-se vagamente o que se passa em Inglaterra e na América a nível do novo rock. Fala-se já em punk rock, mas pelo que se lê nos jornais sensacionalistas, nas revistas estrangeiras. Nenhuma das editoras portuguesas se abalança a editar Sex Pistols, X-Ray Spex ou The Clash. (...) É então que, de repente, na montra da Valentim de Carvalho e, logo a seguir, na de mais uma ou duas discotecas da baixa lisboeta, surge um álbumcoletânea com os dizeres Punk-Rock/New Wave '77». O responsável por tal edição foi António Sérgio, para sempre ligado à génese do movimento punk em Portugal. Esse disco teve vida curta nos escaparates, apreendido que foi devido a uma acusação de pirataria. A semente estava, porém, lançada.

Importa desenhar o cenário rock da época: em 1978, José Cid editou o mítico 10 Mil Anos Depois Entre Vénus e Marte e grupos como os Tantra, Petrus Castrus ou Beatnicks representavam por cá a guarda avançada elétrica antes do boom rock que se registaria um par de anos mais tarde. Só que os tais ecos punk de Londres e Nova Iorque estavam a chegar. Ainda em 1977, Zé Pedro, à época jornalista no Diário de Lisboa, tinha testemunhado em primeira mão o poder da redução do rock aos dois ou três acordes essenciais apanhando bandas como os Clash num festival em França, em Mont de Marsan.

«Nessa altura», recordou o guitarrista à BLITZ aquando do 30º aniversário do primeiro concerto dos Xutos & Pontapés, «ainda havia pouca gente sintonizada com o fenómeno punk, mas felizmente o António Sérgio tinha começado muito cedo a tocar punk na rádio, ainda na Rádio Renascença. Vivíamos aqueles tempos pós-25 de Abril com toda a gente muito aluada e aberta às cenas de arte. Havia uma enxurrada de informação para digerir. E depois havia um grupo de pessoas eu, o Paulo Borges [Minas e Armadilhas], o Pedro Ayres [Magalhães, Faíscas]... que se juntava na Munique, trocava discos e tinha grandes conversas onde se comentava a música que o António Sérgio passava, até se trocavam cassetes com gravações do programa dele. A informação ia rodando e havia muita curiosidade sobre o que era isto do punk, mas não sei se havia propriamente um movimento».

Com movimento ou sem ele, «é então que o incansável António Sérgio», escreveu António Duarte, «decide lançar a público a primeira banda punk portuguesa, os Faíscas, produzida por ele próprio». E começa aqui a história do «punk tuga».

A primeira banda punk

Como sempre nestas coisas há algum debate sobre qual terá sido, de facto, a primeira banda punk nacional. No documentário Meio Metro de Pedra, de Eduardo Morais, Francisco Dias, um dos «historiadores oficiosos» que ajudam a contar a «nossa» história do rock, distingue os Faíscas mais «classe média», a tocarem um «rockabilly speedado» dos Aqui Del' Rock «mesmo das ruas», «punk a sério». Paulo Pedro Gonçalves, membro fundador dos Faíscas e mais tarde dos Corpo Diplomático e Heróis do Mar, tem uma visão diferente, que nos explica, a partir de Londres: «os Faíscas foram a primeira banda punk portuguesa. Os Aqui del Rock apareceram mais ou menos na mesma altura mas não eram uma banda punk. Em Inglaterra na altura teriam sido considerados pub rock como os Dr. Feelgood ou Ian Dury and The Kilburns. Os Faíscas tinham a atitude, a música, as letras, a imagem e a vontade de derrubar o status quo. Tínhamos um "following" punk, uma fanzine, invadimos os palcos do rock português para nos deixarem tocar, criávamos situações de caos, destruição e de anarquia. O nosso lema era "violar o sistema". Éramos verdadeiros Situacionistas». Óscar Martins, dos Aqui Del Rock, explica no mesmo documentário que a diferença podia passar por o seu grupo alinhar mais com a sonoridade americana e menos com a atitude cultivada nas escolas de arte que talvez animasse um pouco mais a abordagem dos Faíscas.

Retoma Gonçalves: «do punk apareceram os Xutos, ainda com o Zé Leonel, os Minas e Armadilhas, do Paulo Borges, a Anamar, UHF e outras bandas que agora não me lembro. Nós também tocávamos com o nome Jô Jô Benzovac & Os Rebeldes porque não havia nenhuma banda punk que pudesse fazer a nossa primeira parte. Nos Alunos de Apolo entrámos com meias de seda na cabeça e vestidos de fatos completos dos anos 40. Tocamos um set de rock'n'roll (Elvis, Chuck Berry, Little Richard, Jerry Lee Lewis) depois saímos do palco, vestimos uns amigos com a nossa roupa, meias de seda, vieram ao palco tiraram as meias, agradeceram ao público e nós começámos o set dos Faíscas».

As memórias de Paulo Pedro Gonçalves são coincidentes com as de Gimba, que também esteve nos Alunos de Apolo na noite de 13 de janeiro de 1979, que marcou a estreia ao vivo dos Xutos & Pontapés: «na sala do baile era a maior loucura, estava lá uma banda, os Jô Jô Benzovac & Os Rebeldes, a tocar todo aquele reportório "Rock Around The Clock", "Tutti Frutti"... E na parede estava aquela frase do Frank Sinatra, qualquer coisa como "o rock and roll é uma música feita por cretinos e para cretinos", qualquer coisa assim. Aquilo era um baile punk, porque o punk estava mesmo no auge. Nessa altura havia muito Friganor na cabeça do pessoal, era a droga da moda. Lembro-me que os Faíscas até se mordiam todos. A dança era feita de encontrões, chutos e pontapés mesmo». «Os Faíscas foram uma fagulha que quando pegou fogo, ardeu intensamente», explicanos Paulo Pedro Gonçalves. «Durou pouco, talvez um ano. Não tivemos disco, apenas uma maqueta gravada na Rádio Comercial, mas servimos de inspiração a muita gente e fomos a base espiritual e intelectual dos Corpo Diplomático e Heróis Do Mar».

Numa coisa, as memórias de todos parecem ser coincidentes: o 25 de Abril foi determinante para a imposição do punk. «Vivíamos num país onde podias falar abertamente», conta Paulo Pedro Gonçalves sobre o Portugal pós-revolucionário. «Mas embora o 25 de Abril nos tenha dado a liberdade de expressão, por outro lado vivíamos um pouca às cegas. Cinquenta anos de fascismo não se sacodem como água duma gabardina. Portugal em 1977 não era bem uma democracia. Andava a fazer experiências com a democracia enquanto procurava uma identidade e uma direção».

X-Acto, nos anos 90

X-Acto, nos anos 90

Deserto fértil

Depois de 1980, o chamado «boom» do rock português reorientou as atenções. Fazer riffs com guitarras elétricas enquanto se cantava de cabelo espetado já não era assim tão estranho. Francisco Dias, colecionador, dinamizador e membro dos também punks Subcaos, pega no fio da meada e avança pela década de 80 adentro: «o punk deveria ter tido mais impacto. A primeira vaga morre um bocado em 79 e a partir daí, tens uma segunda vaga de punk mais comprometida, extremista e mais interventiva ainda. Havia os Ku de Judas, os Grito Final, uma série de bandas. Eles tocavam ao vivo mas pouco ou nada gravaram. Aquela fase da primeira vaga, dos anos 70, os Aqui d'el Rock foram a única banda que gravou discos e tinham letras punk interventivas, que metiam o dedo na ferida. Os UHF, os Speed, os Vodka Laranja, nenhuma banda estava comprometida com aquela mensagem do punk. Era tudo muito superficial, «new wave», rock and roll. Foi estranho porque países que passaram muitos anos de ditaduras, como a Espanha e o Brasil, tiveram bandas punk fortíssimas. Mas nós não. As editoras independentes estavam mais preocupadas em encontrar bandas com uma veia artística e intelectual. Não bandas de rua. Este tipo de editoras tinha a cabeça noutro sítio».

O homem do leme do orgão oficioso da cultura punk em Portugal, o blog billy-news.blogspot.com, começa por apontar a abertura de uma mítica sala dos anos 80 como um balão de oxigénio para a resistência punk em Portugal: «em 82/83, com algum apoio do Rock Rendez Vouz que abriu as portas a esse tipo de bandas, pode-se dizer que houve uma força maior, um novo ânimo. Estava-se a viver o punk um pouco mais a sério». Billy prossegue: « O primeiro álbum dos Xutos & Pontapés, 78/82, foi um marco. Realmente respirava-se o punk naquela fase dentro dos Xutos e mesmo pelos próprios fãs nos concertos. A banda até fazia o seu próprio merchandising. Tinham isqueiros pretos com o X a vermelho. Depois temos as gravações no Rock Rendez Vouz com vários momentos ao vivo de várias bandas, e cassetes que nunca foram editadas dos Ku de Judas. Grito Final também é aquele nome imprescindível numa discografia de punk».

Em relação à década em que o rock português registou o seu boom comercial e também em que a vertente independente se afirmou definitivamente, Francisco Dias não tem problemas em nomear um panteão: «Crise Total, Ku de Judas e Mata Ratos. A santíssima trindade dos anos 80», defende, indo até mais longe: «das coisas mais injustas na nossa história do punk foi nunca se ter gravado nada para os Crise Total ou para os Ku de Judas. Até os Mata Ratos levaram quase dez anos para ter um LP... grandes falhas», lamenta o músico e colecionador.

João Ribas, que fez parte dos Ku de Judas e dos Censurados e que é hoje o rosto dos Tara Perdida, concorda: «acho que o processo mais importante nos anos 80 foram as bandas que começaram a surgir e a fazer espetáculos: os Crise Total, Ku de Judas, Mata Ratos, mais para o final dos anos 80. Não havia editoras, ninguém gravava em 83, 84, 85. Não havia nada. Nem maquetes. Só se começou a gravar mesmo no final dos anos 80, quando apareceram algumas maquetes. Mas foi sobretudo com o aparecimento do Rock Rendez Vous que gravava os concertos ao vivo e falo por mim na altura dos Ku de Judas, a única gravação que tínhamos para mostrar era uma gravação ao vivo lá. Os Crise Total também tinham uma». Apesar de serem vistos como «outra coisa» pelo próprio movimento, os Peste & Sida conseguem pelo menos uma menção de João Ribas que vê o primeiro LP da banda de João San Payo e Luís Varatojo, Veneno, de 1987, como importante para uma discografia punk dessa década.

A terceira via

Billy faz-nos a ponte para os anos 90 e identifica uma mudança de atitude e de cenário: «o punk sempre foi um movimento "underground". Teve foi uns picos de popularidade, mas especialmente no final dos anos 80, começou a adormecer outra vez. Nos anos 90, algumas bandas de punk mais melódico, da Califórnia, fizeram referências aos Sex Pistols e Ramones. Isso fez com que os miúdos ouvissem essas bandas e levou a uma espécie de revivalismo. O punk está relacionado com a dinâmica das pessoas e dos espaços. Tudo muito "do it yourself"». Francisco Dias também vê no arranque da última década do século XX um período de renovada vitalidade para o punk nacional: «Não podemos esquecer o início dos anos 90, até 1995 por aí, esse movimento esteve mais forte, com uma vaga de bandas da linha de Sintra: os X-Acto, Subcaos, Alcoore e depois os Corrosão Caótica. Esta foi sem dúvida a melhor fase destes últimos 20 anos».

Francisco, membro dos Subcaos, prossegue: «Subcaos foi uma das bandas que mais gravou nos anos 90, daquela geração punk/ hardcore. X-Acto e Subcaos foram as duas bandas que em mais compilações entraram, mesmo lá fora. Contribuímos nesse sentido para o punk em Portugal. As nossas letras eram 100% intervencionistas e isso influenciou as pessoas. O punk é um pau de dois bicos, tanto tem um lado construtivo de pessoas que querem dizer algo, como a cena do niilismo, do "tou-me a cagar", álcool, droga e destruição». Data deste período a associação do punk ao veganismo, muito graças ao espírito interventivo dos X-Acto e à sua forte ligação a uma militante comunidade de fãs. Este grupo chegou mesmo a apresentar-se numa primeira parte dos americanos Offspring.

João Morais, atualmente membro dos Gazua, traça paralelos com esse passado descrito por Francisco Dias, uma vez que fez parte dos Corrosão Caótica: «vim de um lado mais metaleiro mas depois cruzei-me com músicos que vinham da área do punk. Era uma mistura. Ainda andava a brincar com carrinhos quando o punk começou em Portugal. Cá não chegava nada, só quem vinha de fora é que tinha informação para fazer algo desse gênero. Era um círculo muito pequeno. Conheço algumas pessoas dessa fase e, normalmente, estiveram fora. Foi quando chegaram a Portugal que decidiram criar bandas». João vê o punk como terreno de atitudes extremadas, «umas mais de construção, outras de desconstrução»: «umas contra tudo e outras a favor, não de tudo, mas que haja mais uma conciliação de ideias. Não acho que o punk português tenha características únicas. Tem muitas características e influências de Inglaterra e Estados Unidos. Nunca se conseguiu personalizar muito o nosso som. Só a língua é que distingue das outras bandas lá fora, mas em termos de estilo, são guitarras, baixos e baterias», afirma, simplificando o que por cá se passa.

«Identifico-me talvez na atitude, na maneira de estar na vida. Identifico-me mais com as ideias do que com uma componente visual. Não tenho uma crista na cabeça. É mais uma maneira de estar na vida que se rege acima de tudo com a tentativa de fugir àquilo que o sistema tem como supostamente correto», explica o músico, que depois traça o seu percurso: «A minha primeira banda surge quando eu tinha 16 anos. Tínhamos vontade de fazer barulho, de berrar. Não tinha uma vida má que me obrigasse a gritar, mas estudei artes e nesse meio havia muita gente ligada a este movimento. Depois as coisas começam a fazer sentido, à medida que vais ganhando espírito crítico».

Francisco Dias, finalmente, deixa um recado em relação ao presente. «Neste momento fazia sentido aparecerem bandas punk. Com a situação catastrófica deste país e deste governo medonho. É muito mais credível aparecerem bandas de punk de intervenção do que há 20 anos, em que estávamos no cavaquismo. Se o punk tem os dias contados? Está morto há mais de 15 anos como costumo dizer». O veterano Paulo Pedro Gonçalves parece afinar pela mesma bitola, oferecendo a sua visão a partir de Londres, onde reside: «quando acabaram os Pistols, acabou o punk! Não porque os Pistols fossem o punk, mas porque já se tinha tornado comércio, a roupa tornou-se farda, a música era toda igual e se fosse diferente não era punk, as editoras majors tinham todas uma banda punk para vender. Apareceu a new wave, punk com açúcar para as massas. Em Kings Road [Londres], nos anos 80, os punks não passavam duma atração turística. Em Portugal aparecem e continuam a aparecer muitas bandas influenciadas pelo punk assim como cá em Inglaterra, na América e em todo o mundo. Muito do cinema, literatura, dança e artes plásticas continuam com o espirito independente e DIY do punk».

Entretanto, entre Londres e Coimbra, os Parkinsons já levam uma década de edições, firmando os pés do lado de cá do século XXI e carregando a chama de um movimento que há 35 anos que dá dores de cabeça ao sistema, funcionando como a face visível no presente de uma tradição coimbrã de rock a abrir que se estende dos M'As Foice aos Tédio Boys. Já em pleno século XXI, os lisboetas The Vicious 5 conheceram um culto crescente, já alicerçado pela força difusora da interner, mas puseram termo cedo demais? a um percurso intenso iniciado com o EP Lisbon Calling. No presente, entretanto, Gazua ou Viralata continuam a carregar a bandeira punk, recusando o passar do tempo e mantendo-se fiéis à ideia avançada há mais de 30 anos pelos Aqui d'El Rock: é preciso abanar o sistema.

Originalmente publicado na BLITZ de dezembro de 2012