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1955-1969: Quando a febre em Portugal era o Yé-Yé

Antes do 25 de Abril mudar para sempre o rumo da vida em Portugal, uma outra revolução trouxe os jovens para a rua: o rock and roll. Graças ao cinema, aos Beatles e a uma vontade imensa de pegar em guitarras eléctricas, uma geração não se contentou em estar “orgulhosamente só” e sintonizou-se com o resto do mundo.

É antes do adeus... à ditadura e à censura e ao isolamento? Como era o Portugal eléctrico de então? As imagens de arquivo que costumam ser mostradas nas efemérides da televisão são essencialmente a preto e branco, o que condiz com a ideia de um cinzentismo salazarento que se impôs no imaginário colectivo das gerações pós 25 de Abril. Essa imagem terá certamente razão de ser, mas a verdade é que, no meio de tantas sombras, também havia rasgos de luz e de cor. Tal acontecia na música, por exemplo, onde nem todos alinhavam por uma das três correntes dominantes o fado, o folclore e o nacional cançonetismo.

Quando, em 1960, o primeiro EP de produção nacional declaradamente rock and roll foi editado comercialmente, abriram-se as portas a uma nova forma de expressão, mais rebelde e mais internacional. Caloiros da Canção, formato de vinil de sete polegadas, mas normalmente com dois temas de cada lado, representava o primeiro prémio de um concurso da Rádio Renascença onde se tinha registado um empate e por isso incluía música de Daniel Bacelar e de Os Conchas. Portugal embarcava assim na revolução de costumes internacional que muito por via da música dava então voz aos adolescentes nascidos imediatamente após a segunda guerra mundial, os «baby boomers». Porém, antes do primeiro disco chegar às lojas, a cultura rock and roll já se tinha começado a impor subterraneamente.

Nova Vaga O Rock Em Portugal 1955 -1974 é o título de uma exposição patente em 2008 no Montijo com um catálogo que tenta fazer o primeiro levantamento do acervo discográfico rock and roll português do referido período. Nos textos que integram este documento aponta-se o cinema como a porta de entrada do rock and roll, com a estreia de uma série de filmes ligados à história deste género musical entre 55 e 56: Sementes de Violência (Blackboard Jungle), filme que incluía o notório «Rock Around The Clock», de Bill Haley, e que nos Estados Unidos gerou vários tumultos nos cinemas onde era exibido, estreou por cá em 1955 e no ano seguinte chegaria às salas de Lisboa Rock, Rock, Rock (com música de Chuck Berry) e, entre outros, O Ritmo do Século (Rock Around The Clock, filme de «rockxploitation» com Bill Haley rodado para espremer o filão aberto com Sementes de Violência). O ritmo que explodia na América chegava a Lisboa, aos locais frequentados por marinheiros mas não só. Joaquim Costa, o pioneiro rocker português (falecido no passado mês de Fevereiro) estava atento, mesmo ao lado da jukebox onde um qualquer «american sailor» matava saudades de casa ouvindo «Be-Bop-a-Lula».

AS ORIGENS

Há pelo menos duas correntes no que à identificação dos primeiros praticantes de rock and roll diz respeito. No livro A Arte Eléctrica de Ser Português 25 Anos de Rock'n Portugal (Bertrand, 1984), António A. Duarte identifica os Babies de José Cid como momento chave no arranque desta aventura eléctrica. Luís Pinheiro de Almeida, ilustre jornalista e reconhecida voz especializada na década de 60, concorda: «Indubitavelmente, o rock em Portugal começa em 1956, em Coimbra, com esse monstro da música portuguesa por muito que custe a muita gente de seu nome José Cid, que formou os Babies. Além de José Cid, o rock em Portugal está também ligado a outros nomes, obviamente, como os de Rui Ressurreição, Daniel Proença de Carvalho e outros. Recentemente, o colectivo Portuguese Nuggets, que tem tido uma meritória missão de recuperação do yé-yé português, tem promovido Joaquim Costa (1959) como o primeiro rocker nacional, mas, do meu ponto de vista, com escassa repercussão e reduzida fundamentação histórica.» De facto, como explica o próprio José Cid a António Pires no livro As Lendas do Quarteto 1111 (Ulisseia, 2007), os Babies apareceram em Coimbra em meados dos anos 50 com um reportório retirado dos discos que iam por cá chegando de Chuck Berry, Jerry Lee Lewis ou Elvis Presley.

«Usávamos um rabecão um contrabaixo grande um acordeão, um piano e uma bateria», explicava José Cid à revista Rock em Portugal, em 1978. O pioneirismo rock de José Cid é, muito merecidamente, inegável, mas também inegável é o diletantismo que à época exibia e que lhe permitia saltitar entre o rock e o fado e o jazz e a bossa nova. António Pires, referindo-se precisamente ao período de transição da década de 50 para a de 60, escreve que «durante algum tempo, a sua música de eleição continuou a ser a bossa nova». A dedicação séria ao rock chegaria mais tarde, com o Quarteto 1111.

Talvez por isso, Luís Futre, Edgar Raposo e Afonso Cortez trio que juntamente com João Carlos Callixto organizou a já referida exposição e catálogo Nova Vaga procuraram um momento fundador mais «genuíno» e mais condizente com os códigos da própria cultura rock and roll. Edgar, co-mentor da Groovie Records juntamente com Luís Futre, não tem dúvidas: «para nós a história do rock and roll em Portugal começa com uma ida do Joaquim Costa ao cinema para ver o filme Rock, Rock, Rock. Foi aí que o Joaquim decidiu que queria ser músico de rock».

Seguiu-se uma história de perseguição do sonho americano que passou pelo registo de dois temas na Rádio Graça, de que foi impressa uma cópia entregue na Valentim de Carvalho, que se perdeu presumivelmente no fogo que atingiu os arquivos na Rua Nova do Almada. Anos mais tarde reapareceram os acetatos originais e preparou-se a edição na Groovie Records que permitiu conhecer este capítulo da nossa história rock.

Ideia importante a reter, no entanto, é a de que também o rock português tem uma «pré-história»: «Eu era um daqueles tipos que achava que não existia rock em Portugal nos anos 50 e 60. Comecei a mudar de ideias ainda na década de 80, época em que costumava ir muito à Feira da Ladra», explica Luís Futre. «Certo dia, um tipo veio ter comigo, por causa da minha t-shirt dos Cramps, e fez-me uma série de perguntas muito específicas sobre grupos de rock muito underground. Era o Joaquim Costa, um dos pioneiros do rock and roll em Portugal. Eu comecei a encontrar-me com ele todos os sábados na feira e ele ia-me garantindo que tinha havido rock em Portugal nos anos 50 e 60 e falava-me no Vítor Gomes, no Daniel Bacelar, nos Conchas»

A GUERRA

A década de 60 foi época de profundas transformações sociais em todo o mundo. Em Portugal, Salazar tentava como podia segurar as rédeas do império: ao mesmo tempo que a guerra colonial estalava em África, rapidamente alastrando de Angola às outras colónias, o capitão Henrique Galvão, com o apoio do General Sem Medo Humberto Delgado, protagonizava um sério golpe contra o regime sequestrando o transatlântico Santa Maria. O clima político começou rapidamente a alterar-se no país dos brandos costumes e a guerra levou os estudantes a cerrarem fileiras (1962 foi um ano conturbado nesse aspecto) contra um regime que se recusava a abrir as portas ao progresso empurrando milhares para fora das nossas fronteiras, a salto. Luís Pinheiro de Almeida refere mesmo que «à època, a juventude portuguesa tinha mais facilmente uma metralhadora na mão do que uma guitarra». A mesma ideia é explorada nos textos incluídos no catálogo da exposição Nova Vaga: «as bandas neste princípio de década ainda eram poucas, de curta duração e sedeadas sobretudo em Lisboa, Porto e Coimbra. O serviço militar iminente ou obrigações profissionais e familiares impediam qualquer possibilidade de carreira ou até mesmo de tocar fora do país. Foi o caso dos Conchas que tiveram convites para tocar no Brasil, Alemanha e França».

No entanto, e por estranho que possa parecer, o regime salazarista não funcionou propriamente como um agente sufocador dos jovens rockers nacionais, pelo menos durante a década de 60, quando uma aura «teen» e politicamente inconsequente ainda dominava o essencial da voz rock nacional. Diz Luís Pinheiro de Almeida: «É sabido que a ditadura afectou toda a sociedade portuguesa antes do 25 de Abril e a música portuguesa, incluindo o rock, não foi obviamente excepção, designadamente ao nível das letras, limitando a liberdade de expressão ou incentivando-a na chamada música de intervenção, mais tarde. Por outro lado, a guerra colonial, o serviço militar obrigatório também foi impedimento para o progresso das carreiras dos conjuntos. Estes tinham de acabar salvo raras excepções quando alguns dos seus membros eram chamados para Mafra»

Mas, como é fácil de compreender, todas as moedas têm duas faces e esta não era excepção, como explica também Luís Pinheiro de Almeida: «Mas o curioso é que também foi devido à ditadura e às suas instituições, neste caso ao Movimento Nacional Feminino, que o yé-yé, o rock, floresceu em Portugal. Em 1965/66, mais de 300 conjuntos participaram no Concurso Yé-Yé que se realizou no Teatro Monumental em Lisboa, numa organização do Movimento Nacional Feminino a favor das Forças Armadas Portuguesas, então em vários teatros de operações no chamado Ultramar Português. E do júri fizeram parte figuras gradas da direita nacional, entre os quais Martins da Cruz, futuro ministro dos Negócios Estrangeiros do PSD».

"Caloiros da Canção", a pioneira edição de Os Conchas e de Daniel Bacelar

"Caloiros da Canção", a pioneira edição de Os Conchas e de Daniel Bacelar

O YÉ-YÉ

Ainda em A Arte Eléctrica de Ser Português, obra realmente importante de sistematização da memória rock em Portugal até ao início dos anos 80, António Duarte reconhece a importância da explosão musical ocorrida nos anos 60: «Portugal não é um país com raízes rock, daí que sejamos levados a admitir a extraordinária importância dessa importação musical para o nascimento, nesta terra de marinheiros, do fado e do futebol, de um movimento que progressivamente se foi autonomizando e ganhando personalidade, se bem que sujeito, na quase totalidade, às influências directas do rock de feição anglo-americana. Portugal só começou a conhecer o seu próprio rock (.) a partir dos anos 60, altura em que explodiu o célebre mas acéfalo movimento yé-yé, popularizado pela realização de inúmeros concursos em que se apuravam os melhores conjuntos do momento».

Indo de encontro a esta linha de pensamento, Edgar Raposo faz questão de esclarecer que «o movimento de contra-cultura não existiu só nos Estados Unidos ou só no estrangeiro. Também foi transportado para cá nos anos 60». Luís Futre acrescenta outro dado muito importante, talvez o catalisador definitivo da agitação rock que a «nossa» década de 60 conheceu: «Fala-se muito do boom do rock português com o Rui Veloso no início dos anos 80, mas houve um outro boom, anterior, com a chegada dos Beatles ao panorama internacional, um acontecimento tão forte que nenhuma ditadura conseguiu travar. Apareceram concursos por todo o lado e a Casa Gouveia Machado revelou mesmo em entrevista a uma revista Plateia da época que vendeu instrumentos a cerca de 3 mil conjuntos».

De facto, a meio da década de 60, os Beatles tornavam-se maiores do que a vida e personificavam o modelo a seguir para bandas de todo o mundo, incluindo as portuguesas. No blogue Ié-Ié (http://guedelhudos.blogspot.com) explica-se mesmo que a própria Casa Gouveia Machado reconhecia a importância dos Beatles usando a sua imagem nos anúncios da época e adianta-se que foi um pólo dinamizador da revolução yé-yé: «A Casa Gouveia Machado foi nos anos 60 uma espécie de paizinho para os músicos yé-yé, sobretudo para os tesos. Arranjava sempre maneira de os músicos terem os seus instrumentos».

Luís Pinheiro de Almeida chega mesmo a quantificar a importância dos Beatles na vida dos grupos nacionais e afirma que «os Beatles foram sem margem para dúvida a única, a grande influência dos conjuntos yéyé portugueses. Basta passar os olhos pelos alinhamentos dos concertos e pelos EPs dos conjuntos nacionais: mais de 90 por cento das canções é da dupla Lennon/McCartney».

OS CONCURSOS

Ainda sem circuito de espaços de concertos, os jovens músicos descobriram nas salas de cinema os espaços ideais para se apresentarem ao vivo. A febre dos concursos de talentos fez o resto. «Foi na relação com o cinema», escreve-se no catálogo da exposição Nova Vaga, «que a música pop-rock conquistou credibilidade e se deu algum progresso. Os cinemas, novos espaços que vieram substituir os cafés como local de encontro e discussão, passaram a ser um dos locais de actuação ao vivo. A estreia, no Cinema Roma, do filme Mocidade em Férias, de Peter Yates, a 13 de Setembro de 1963, foi antecedida por um concerto de Victor Gomes (recém chegado de África e entretanto já eleito o Rei do Twist no concurso do Teatro Monumental), de Fernando Conde e os Electrónicos e de Nelo do Twist».

Apesar da propagação rápida do fenómeno yé-yé, a indústria discográfica demorou a perceber a importância do rock and roll. Eram muito esporádicas as edições e concentravam-se sobretudo no formato EP Edgar Raposo, Luís Futre e João Carlos Callixto adiantam mesmo que só três álbuns de rock nacional foram por cá editados na década de 60: «o LP de 66 do Conjunto João Paulo "falsamente" ao vivo no Monumental na verdade gravado em estúdio e com palmas acrescentadas depois o LP dos Pop Five Music Incorporated e o Epopeia dos Filarmónica Fraude, ambos de 69».

Além das raras edições em disco, Luís Pinheiro de Almeida aponta como momentos importantes neste período formativo da nossa história rock «a presença de conjuntos em programas de rádio como o 23ª Hora, na Rádio Renascença, ou o Em Órbita, no Rádio Clube Português» e não se escusa a nomear como ainda «mais importantes, seguramente, os concursos e festivais realizados» que o próprio contabiliza: Concurso do Rei do Twist no Teatro Monumental, em Lisboa (Setembro de 63); o Concurso Tipo Shadows no Cinema Roma, em Lisboa (Outubro de 63); Festival de Ritmos Modernos no Teatro Monumental (Janeiro de 64); Festival Yé-Yé no Teatro Avenida, em Coimbra (Abril de 1966); a final do Concurso de Yé-Yé no Teatro Monumental (Abril de 66); o Festival CITU no Cinema Império, em Lisboa (Maio de 68); Festival Vilar de Mouros (Agosto de 68); e o Festival da Costa do Sol, no Estoril (Julho de 69).

Esta foi a época em que tudo se teve que aprender. Michel Silveira, do Conjunto Mistério (que conquistou o primeiro lugar no Concurso Tipo Shadows do Cinema Roma em 1963) e mais tarde do colectivo que contava também com José Cid, Tozé Brito e Mike Sergeant, conta a António Pires em As Lendas do Quarteto 1111 que a sua primeira experiência de gravação ocorreu com Hugo Ribeiro, lendário engenheiro de som da Valentim de Carvalho, nos estúdios de Paço d'Arcos: «Hugo Ribeiro foi um dos melhores técnicos que houve em Portugal, mas que na altura não sabia fazer gravações de conjuntos de rock». Depois dos próprios Shadows terem passado por Portugal para gravar, Hugo Ribeiro aproveitou a ocasião para estudar as peculiaridades desse tipo de som e já na posse dos «segredos» ligou a Michel para lhe revelar que já sabia como gravar o bombo da bateria: «É fácil, ponho o microfone à frente».

O carácter algo anedótico da história é, no entanto, revelador da atitude exploratória e até experimental com que o nosso rock se foi construindo. Na década de 60, a paixão pelo rock and roll dominava grupos como os Álamos, os Blusões Negros, o Quinteto Académico, os Conchas e Daniel Bacelar, os Ekos, Vítor Gomes e os Gatos Negros, os Titãs, os Celtas, os Chinchilas, os Claves e os Espaciais, o Conjunto Universitário Hi-Fi, os Keepers, os Tártaros e também o Quarteto 1111, os Sheiks e tantos outros que nunca tendo chegado a gravar foram esquecidos pelo tempo. À sua maneira todos foram igualmente defensores da liberdade, valor fundamental quando se quer cantar o que vai na alma, de cabelos compridos ao vento e guitarra eléctrica a tira-colo.

Originalmente publicado na BLITZ de julho de 2008