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Garbage de regresso: o tempo não passa por Shirley Manson

“Strange Little Birds”, sexto álbum do grupo, sai em junho. No ano passado, Shirley Manson - 49 anos de incomensurável charme - falou com a BLITZ. Uma conversa frontal e comovente

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Shirley Manson estava em casa a lavar os pratos quando o seu agente lhe ligou a contar que havia um «produtor americano» interessado em conhecê-la. Então com 29 anos, a cantora não reconheceu o nome de Butch Vig, até que o agente lhe recomendou que verificasse os créditos dos discos de Nirvana, Smashing Pumpkins ou Sonic Youth que tinha em casa. O interesse de Butch Vig havia sido aguçado por um vídeo exibido pelo programa 120 Minutes, da MTV: em 1994, Vig, Duke Erikson e Steve Marker procuravam uma voz feminina para o seu novo projeto, mas queriam evitar o estilo mais histriónico de muitas vocalistas então em voga. A prestação da desconhecida Shirley Manson em «Suffocate Me», à frente da banda escocesa Angelfish, cativou o guitarrista Steve Marker, que mostrou o vídeo a Vig e Erikson, e deste passa-palavra à tal chamada para a casa de Shirley Manson, em Edimburgo, não terão passado muitos dias. Como ela gosta de frisar, Shirley era a única mulher, a única britânica e a única pessoa com menos de 30 anos quando os Garbage começaram a fazer música juntos, mas aprendeu a viver na pele de outsider e a superar as suas próprias (improváveis) inseguranças, tornando-se uma das frontwomen mais carismáticas dos anos 90. Em 2015, e depois de um regresso aos discos há três anos, a banda de «Only Happy When It Rains» revisita o multiplatinado debute homónimo com uma reedição com vários extras. Ao telefone de Los Angeles, onde vive há vários anos, Shirley Manson recordou o contexto em que Garbage se tornou um êxito planetário e comentou com propriedade a atualidade.

O primeiro álbum dos Garbage saiu há 20 anos. Parece-lhe ter passado tanto tempo?
O mais assustador é que não me parece que tenha passado tanto tempo, de todo! Isso é que mete medo! (risos) Parece que tirei duas semanas de férias e que entretanto voltei e tive de começar a trabalhar nestas canções outra vez. Até pensei que iria ter dificuldade em lembrar-me das letras todas, mas não, recordei-me de tudo num instante! Andavam todos a provocar-me, nos ensaios [para a digressão 20 Years Queer], a dizer «vais precisar de um teleponto com as letras», e eu «se calhar vou!». Mas foi como voltar a andar de bicicleta. Lembrava-me de tudo. De forma algo perversa, até queria que me tivesse custado mais. Gostava que tivesse sido mais histórico, mas não, parece que é simplesmente uma parte da minha vida.

É verdade que, quando foi para os Estados Unidos trabalhar no álbum com a banda, mandava postais para os seus amigos na Escócia, dizendo que o disco não tinha pernas para andar?Basicamente! Duvidava muitíssimo de mim mesma e não conseguia imaginar que o mundo quisesse ouvir o que um grupo de quase quarentões tinha para dizer! Nem nos meus sonhos mais loucos poderia imaginar um cenário [como o que se seguiu]. Estava muito enganada, afinal! (risos)

Lembra-se de quando percebeu que o disco ia ser um enorme sucesso? Ligaram-lhe da editora, por exemplo?
A parte mais maravilhosa e estranha de uma história de sucesso, no meio criativo, é que nunca sentimos necessariamente que tenhamos atingido um qualquer objetivo. Não subimos a um pódio para alguém nos pôr uma medalha ao pescoço; nunca funciona assim. E, na nossa experiência, o sucesso da banda chegou sempre em pequenas doses. Quando olhamos para trás é que percebemos o que andámos para ali chegar. Porque há sempre outros artistas que têm mais sucesso que nós, outros que têm menos, e quando estás no olho do furacão não tens qualquer perspetiva do que está a acontecer.

Comentou em entrevistas que, hoje em dia, as estrelas da pop cancelam muitos concertos e facilmente cedem à pressão. Qual era o seu segredo para andar meses a fio na estrada, com os Garbage?
Olhando para trás, acho que era um autêntico tanque! [No original, «a motherfucking tank»]. Era incansável! E sem dúvida que, nesse aspeto, era a força motriz da banda. Estava sempre a dizer: «vamos prolongar a digressão, não vamos já para casa, vamos tocar naquele programa de televisão no nosso dia de folga!». Estava sempre a forçar a barra. Era, sem qualquer dúvida, maníaca com essas coisas. Não sei como é que aguentava, mas nunca tive problemas de voz, nem problemas de saúde... não via mais nada à frente. Penso que foi assim porque estava faminta, e estava faminta porque esta era a minha oportunidade e, se não a aproveitasse bem, voltava para Edimburgo, para o desemprego. Penso que hoje, devido ao advento da internet, as bandas e os artistas têm, por vezes, uma ideia distorcida do seu próprio sucesso. Porque veem-se no ecrã imediatamente. Podemos tocar num clube merdoso no meio do nada, mas ter a coisa filmada de uma forma muito bonita e posta a circular na internet, e de repente temos umas quantas visualizações. Quando eu era uma jovem música, isso não acontecia. Creio que alguma da minha fome veio dessa determinação em querer ser vista e ouvida, o que na altura era um pouco mais difícil que hoje. Com isto não quero dizer que os artistas tenham, hoje, a vida mais facilitada; nalguns aspetos penso que até é mais complicado para eles, porque há tanto ruído sonoro e visual! Estou sempre a perguntarme: mas porque é que estes artistas estão sempre a adiar concertos e não conseguem concretizar os seus objetivos e tocar tanto como nós? Parece-me que é por não terem a fome que nós tínhamos.

Vendo as suas fotos e vídeos nos anos 90, pensava-se em si como uma mulher altamente confiante. Mas já confessou ser muito insegura e ter lidado com vários problemas, do bullying ao magoar-se a si mesma...
Não faço ideia de como é que as pessoas me viam, naquela altura e, para ser sincera, não perco muito tempo a pensar nisso. Concordo, porém, que naquelas imagens eu parecia incrivelmente confiante. Mas fui criada numa família em que havia muitas discussões intelectuais à mesa do jantar, onde nos incentivavam a ter muito boas notas na escola... falávamos sobre arte, religião e todo o tipo de ideias complexas, sobretudo com o meu pai. E penso que quando tens esse tipo de confiança na tua mente, isso projeta uma certa desenvoltura. Enquanto jovem mulher, não tinha confiança no meu corpo, na minha sexualidade, na minha musicalidade, mas tinha muita curiosidade intelectual e uma grande capacidade de articular ideias. E isso passa por confiança.

Como reagiram os seus pais quando decidiu dedicar-se à música?
A princípio creio que ficaram um pouco preocupados, mas devo dizer que sempre me deixaram seguir tudo aquilo que quis seguir. E dou muito mérito à minha mãe, nesse aspeto, porque ela era órfã e foi adotada, e os seus pais adotivos não a deixaram seguir a carreira que ela quis. Por isso, a minha mãe, como mulher, determinou que os seus três filhos poderiam dar-se ao luxo de decidir o que viriam a ser as suas próprias vidas. Foi assim que ela nos encaminhou em crianças; imbuiu-nos de um sentido de «devemos fazer aquilo que desejarmos». Os meus pais nunca me colocaram quaisquer entraves, algo pelo qual lhes estou muito grata.

PATTI SMITH, UM EXEMPLO SEM IDADE

É fã de Patti Smith, que este ano atuou duas vezes em Portugal. Já viu o espetáculo de revisitação de Horses?
Não, quem me dera! Ela é incrível. Mas o mais incrível na Patti Smith é que ela continua a ser um modelo fabuloso, para mim, e no seu percurso não fez qualquer concessão à juventude. Não fez qualquer esforço para se agarrar a uma coisa que nós, enquanto seres humanos, somos incapazes de reter. E, consequentemente, não é minimamente beliscada ou menorizada pela sua idade, aliás, até parece mais poderosa, mais motivada do que nunca, por não ceder a estas obsessões idiotas com que nós, mulheres, somos encorajadas a preocupar-nos.

Já lhe aconteceu ser discriminada por causa da sua idade, agora que se aproxima dos 50 anos?
Bem, eu não sou estúpida, por isso claro que é algo que tenho sempre em mente. Quando leio os artigos, geralmente frívolos, das revistas femininas, frequentemente sinto ondas de desespero. Cada vez que olho para a cara bonita de uma das minhas pares e consigo logo dizer que modificou a sua aparência, numa tentativa de aumentar a confiança e talvez de se sentir mais jovem ou bela, sinto sempre alguma deceção e tristeza no meu coração. Sinto que as mulheres têm muito mais para dar do que a sua aparência, mas cada vez que uma mulher faz uma tentativa para se agarrar à sua juventude, sinto que estamos a nadar num mar em que a beleza e a juventude são a única moeda com algum valor, para uma mulher que está a envelhecer. E no meu íntimo, não é nisso que acredito. Sinto que todo o tipo de beleza deve ser celebrado, mas o mais importante é saber se somos espertos, bondosos, corajosos, verdadeiros, se temos princípios, se somos honestos, autênticos para mim, estas coisas é que contam num ser humano! São as virtudes que tornam um ser humano interessante. Vivemos num momento bizarro e orwelliano, em que as pessoas se estão a tornar homogeneizadas, seguindo o mesmo caminho e vestindo o mesmo fato, usando o mesmo relógio e o mesmo telefone. Fico perplexa. É uma manifestação distópica do futuro. (risos)

Mesmo fora da indústria do entretenimento, há muita discriminação por idade, no acesso a empregos tão improváveis como o de assistente social...
Lá está, toda a sabedoria, a experiência, o conhecimento essas coisas é que fazem um bom assistente social! E ao mesmo tempo também queremos que os mais novos tenham esperança, que saiam da universidade e encontrem trabalho. Eu não tenho as soluções, não sei como é que nós, como sociedade, havemos de andar para a frente, mas tendo a concordar com o Papa, na verdade, quando este fala de uma nova ordem mundial. Porque a ordem em que vivemos agora é uma completa loucura! A idolatria do dólar. este sistema não está a funcionar para nenhuma cultura que eu conheça. (risos) Talvez estejamos à porta de um futuro onde as coisas mudem e consigamos resolver tudo, porque vivemos em tempos de grande crise.

Referiu-se aos anos 90 como uma era de ouro. Porquê?
Todos vemos a história da nossa perspetiva. Se vivesse no Ruanda, os anos 90 teriam sido um autêntico terror. Mas eu cresci no Reino Unido, onde os anos 90 foram uma época de grande abundância. Não havia problemas militares de impacto significativo, sentíamos uma grande liberdade e toda a gente usava cartão de crédito, por isso todos nos divertíamos imenso e de forma muito hedonista, pelo menos as pessoas da minha geração. Era uma festa eterna! Não havia nada que metesse muito medo, tudo parecia estar no seu sítio e pela primeira vez a música alternativa chegava ao mainstream. Ora, sendo eu uma fã de música alternativa, os anos 90 foram os meus tempos áureos! (risos) Toda a música passava na rádio, fosse a Missy Elliott, o Eminem, o Tupac, os Garbage, as Hole ou a Fiona Apple. Havia tantas coisas excitantes na rádio, mas cada banda era, à sua maneira, uma força de rebeldia. E isso dava-me alegria e uma sensação de liberdade.

Nos anos 90, a sua cidade, Edimburgo, foi apresentada ao mundo pelo filme Trainspotting. Calculo que não se reveja nesse retrato, feito do ponto de vista de toxicodependentes e marginais...
O filme é um retrato fiel de uma certa parte de Edimburgo! Naquela altura, o Governo construiu muitos bairros sociais nos subúrbios da cidade, que não eram visíveis ao olho humano se fosses de comboio, avião ou carro. Estavam todos escondidos nos cantinhos. Eu sabia que esse mundo existia, porque desde muito nova que me dava com uma malta muito maluca, e costumávamos passar muito tempo nos bairros a snifar cola e a beber. Havia lutas entre os mods e os punks e por aí fora. Vi isso tudo e sabia que existia. Mas quando és jovem, estás preocupado com a tua vida, as tuas lutas e o teu hedonismo. Só quando envelheces é que te tornas incrivelmente politizado e revoltado. Quando és novo, aquele é o teu tempo e só queres desfrutar, explorar e ter aventuras. O resto são preocupações para as pessoas mais velhas. Edimburgo é uma cidade complicada, nesse aspeto: muito afluente, com muita cultura e muito bonita, magnífica do ponto de vista arquitetural, mas como qualquer cidade grande tem muita pobreza.

Com que frequência regressa à Escócia, agora que vive em Los Angeles?
O meu pai e a minha irmã mais velha ainda vivem lá, bem como muitos dos meus grandes amigos, por isso tento voltar duas ou três vezes por ano. Adorava ir lá mais vezes, mas o meu trabalho está aqui, em Los Angeles, por isso é complicado. Mas adoro a Escócia.

Chegou a votar no referendo pela independência da Escócia?
Não cheguei, não! Não me deixaram, porque estava a viver noutro país há demasiados dias consecutivos. Só soubemos [desse impedimento] quando já era demasiado tarde.

E teria votado no não ou no sim?
É complicado. Tenho sentimentos ambíguos sobre o referendo. Inicialmente, era contra a independência e queria continuar ligada ao Reino Unido. E de certa forma ainda tenho essa ideia romântica de que vivemos num só mundo, e que estar a fazer grandes manifestos sobre áreas pequeninas do globo parece tão mesquinho e tolo! Mas quando os resultados foram conhecidos e se soube que íamos ficar no Reino Unido, também senti uma grande tristeza. Senti que os escoceses têm sido tão traídos pelos governos centrais. Fico muito grata por não ser política e não ter de pensar nas políticas do governo, 24 horas por dias. Sinto-me muito privilegiada e sortida. É que, quando somos músicos, não pensamos nos países em termos separados: eu não vejo a diferença entre um islandês e um escocês e um africano e um australiano. Somos todos pessoas. E nós tivemos muita sorte por nascer no Reino Unido. É um acaso termos nascido ali e não na Síria.

Visão de que não partilham todos os que se opõem à chegada de refugiados aos seus países...
As pessoas têm tanto medo. E eu percebo isso, mas todos nós, a certa altura, já viemos de uma situação de refugiados, ou pelo menos todos os membros da sociedade passaram por isso. A ideia dos refugiados e das migrações amedronta as pessoas, especialmente numa altura de crise económica, como em Portugal ou Espanha. Percebo que as pessoas fiquem assustadas, a sério, mas temos de pensar: «como é que eu me sentiria se tivesse de fugir do meu país?». Íamos querer que outro país nos abrisse as suas portas e dissesse: «venham daí, vamos resolver isso». Infelizmente vivemos numa altura de tanto medo. Os media deixam as pessoas nervosas e apavoradas, pintando o pior cenário. Andamos todos obcecados com o terrorismo e isso leva as pessoas a não quererem ser generosas e não quererem abrigar os outros. É uma loucura!

Conheceu os seus companheiros dos Garbage na noite em que se soube que Kurt Cobain tinha morrido. Viu o documentário Montage of Heck?
Vi, pois. E tive uma reação muito peculiar ao filme, porque vi-o, gostei bastante, e mal saí do cinema desatei a chorar! (risos) Fiquei muito perturbada, por várias razões. É uma história muito triste. Também vi o da Amy Winehouse, adoro documentários sobre música, vejo tudo! Gostei que o filme sobre ela se centrasse no seu brilhantismo e não na sua destruição dá para vermos aquele enorme talento e aquelas grandes canções. Pareceu-me um belo tributo a um espírito frágil que perdemos demasiado cedo. O da Nina Simone também é incrível.

Afirmou que sempre quis ter uma vida extraordinária. Está contente com a forma como tudo aconteceu até agora?
Estou bastante feliz com a forma como as coisas têm corrido. (gargalhada) Voltamos a falar daqui a dez anos!

Originalmente publicado na BLITZ de novembro de 2015