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Elliott Smith: uma luz que se apagou

Agora que foi editada a banda-sonora do documentário a si dedicado, Heaven Adores You, recordamos um dos cantores/compositores mais elogiados da sua geração. Comparado a John Lennon, Bob Dylan ou Kurt Cobain, Elliott Smith tinha apenas 34 anos quando, depois de se livrar de dependências várias, viu a sua canção chegar ao fim

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

A história é contada por David McDonnell, amigo de Elliott Smith e produtor discográfico, no notável artigo publicado pela rev-ista Spin um ano depois da morte do cantor-compositor. Saturado das pressões que resultavam do facto de estar ligado a uma grande editora, o homem de XO sofreu «um episódio psicótico» durante as gravações de Figure 8, aquele que viria a ser o seu último álbum. «Ele estava farto do ponto a que tinha chegado a sua vida», recorda McDonnel, em entrevista a Liam Gowing. «Tinha muita gente da editora a dizer-lhe que tinha de se pôr bom. Estava fartinho que as pessoas lhe falassem do futuro. Por isso, escreveu a palavra "now" [agora] no braço, com uma faca. E sentou-se ao piano a escrever "Everything Means Nothing To Me", com o sangue a pingar-lhe do braço».

Lançado em abril de 2000, Figure 8 contempla alguma das canções mais acessíveis de Elliott Smith, como «Son of Sam» ou «Somebody That I Used To Know», mas o negrume que o perseguia desde sempre não se afastaria com o sucesso crítico ou o culto crescente. Pelo contrário: três anos mais tarde, e numa altura em que muitos acreditavam que, liberto das drogas duras que consumira durante anos, o músico estaria prestes a encetar uma gloriosa recuperação, Elliott Smith foi encontrado morto em casa, com duas facadas no coração. O mistério da sua morte nunca foi plenamente resolvido (as primeiras investigações apontavam para suicídio, mas o relatório de autópsia deixou em aberto a possibilidade de homicídio); ainda mais insondável, contudo, permanece a história da sua vida.

Nascido em agosto de 1969, no estado norte-americano do Nebraska, Steven Paul Smith era filho de um lar desfeito precocemente: quando era bebé, os pais (uma professora de música e um estudante de Psiquiatria) divorciaram-se, tendo-se a mãe mudado com o filho para Dallas, onde conheceria um bem-sucedido vendedor de seguros, com quem veio a casar. Até aos 14 anos, Elliott (nome de guerra que adotou quando começou a gravar) viveu com a mãe e o padrasto, numa época que marcaria de forma indelével e dolorosa o resto da sua vida. Embora não falasse do assunto nas entrevistas que dava com relutância, muitas das suas canções contêm referências aos abusos que terá sofrido às mãos do padrasto. Pouco antes de morrer, começou a ter flashbacks de episódios traumáticos da sua infância e adolescência, que tentava decifrar com a ajuda de um psiquiatra. No mesmo artigo da Spin, um amigo e companheiro de ofício de Elliott Smith conta como o viu deitar todas as (muitas) drogas que consumia pia abaixo, para provar a determinação em livrar-se do vício que o debilitava, e partilhou as confissões do malogrado artista. «De olhos arregalados, olhou para mim como se tivesse visto um fantasma, e disse-me: o meu padrasto costumava levar-me para o sótão. Só me lembro disso. Não sei o que é que me fazia».

Só pouco antes de morrer Elliott Smith teve coragem de falar à mãe das recordações, esfumadas mas recorrentes, que o atormentavam. O facto de Bunny Welch não acreditar no filho contribuiu ainda mais para agravar o seu estado mental. «Ele era muito doente, e não falo apenas das drogas, dos medicamentos ou do álcool», conclui o autor do artigo da Spin, publicado online agora que se assinala o décimo aniversário da morte do cantor. «Quer as suas memórias fossem reais ou não, a verdade é que viveu toda a vida sentindo-se como uma criança vítima de abuso, mascarada de adulto».

O outro Elliott

Tendo determinado de forma fatal o seu caminho, o desequilíbrio psicológico e o consumo de todo o tipo de estupefaciente não chegam para definir Elliott Smith. Este era o rapaz que, aos quatro anos, decidiu que queria fazer música, ao ouvir o White Album dos Beatles; o fã de Bob Dylan, The Clash, Elvis Costello e todos os músicos «que se interessem por palavras»; o leitor ávido que tanto devorava literatura russa («Gosto desses livros por terem muitas personagens», disse à Comes With a Smile) como por livros de Física Quântica, História Mundial ou equipamento sonoro (nos últimos anos de vida, gastou muito do seu dinheiro na construção de um estúdio próprio, onde se encontrava a gravar um álbum que queria que fosse duplo). Foi em Portland, Oregon, para onde se mudou para ir viver com o pai, aos 14 anos, que o jovem começou a gravar as suas canções em gravadores de quatro pistas emprestados. Já na faculdade de Amherst, em Massachusetts, onde se formou em Filosofia e Ciência Política, criou com o colega Neil Gust a banda Heatmiser. Do catálogo da mesma constam três álbuns e muita insatisfação criativa, que levou Elliott a desinteressar-se. Nessa altura, porém, os Heatmiser já tinham assinado contrato com a Virgin e, graças a uma cláusula sobre membros dissidentes, a sua carreira a solo viria a ter, depois de finda a banda, o selo de uma grande editora. Arredia e volátil, a personalidade do músico chocava de frente com as práticas das majors; insatisfeito com a promoção de Figure 8, Elliott Smith terá lutado pela dissolução do vínculo que o ligava, então, à Dreamworks, ameaçando que, se não o libertassem desse contrato, se suicidaria. Para o efeito, conta a Spin, terá pendurado um nó de forca na sua casa no bairro ironicamente batizado de Los Feliz, em Los Angeles.

Muito antes da mudança para a Califórnia, contudo, foi uma namorada a convencê-lo a enviar as suas canções para uma editora. Os Heatmiser ainda estavam no ativo e o facto da pequena Cavity Search Records ter mostrado grande entusiasmo com as suas demos deixou-o estupefacto. Na última entrevista que daria, meses antes de morrer, recordava à Under The Radar: «Quando me disseram que queriam lançar o disco, fiquei em choque. Pensei que, quando saísse, me iam cortar a cabeça, porque naquela altura o grunge é que era popular. A verdade é que o disco foi mesmo muito bem recebido, o que, infelizmente, eclipsou a minha banda». À estreia Roman Candle, de 1994, seguiu-se um trabalho homónimo, em 1995 - o único dos seus discos que Smith, descontente com o estereótipo de cantautor deprimido, considera verdadeiramente negro. «Needle in the Hay», o primeiro e único single, acabaria por ser usado no filme The Royal Tennenbaums, de Wes Anderson, numa de várias associações à Sétima Arte - dois anos mais tarde, Gus Van Sant, realizador que conheceu num dos bares punk que costumava frequentar, convidou-o a participar na banda-sonora de Good Will Hunting. «Miss Misery» foi o inesperado, e indesejado, passaporte para a fama de um homem que trazia tatuado no braço o mapa do Texas, para não se esquecer dos tempos infelizes passados numa terra que não amou. Nomeada para os Óscares, a canção «obrigou» o seu criador a apresentá-la ao vivo na gala mais vista da televisão norte-americana. «Eu não queria tocar, mas eles disseram que, então, punham outra pessoa qualquer a fazê-lo, como o Richard Marx!», disse, risonho, na sua derradeira entrevista. Naquela noite, a vitória foi para «My Heart Will Go On» e Celine Dion, cuja amabilidade Smith não se cansou de elogiar («Foi demasiado simpática para que eu possa dizer mal dela só por não gostar da sua música»). Mas a imagem de um homem simples, frágil, a cantar uma canção agridoce na guitarra acústica, marcou quem assistiu à pompa dos Óscares naquele ano. «Acabei por aceitar lá ir porque os meus amigos pareceram ficar contentes. Quase como se pensassem: ei, um de nós chegou à lua!».

Lembrado pela ligação aos amigos, a quem fazia prometer que não ficariam zangados consigo quando morresse, e pela generosidade (chegava a meter notas de 100 dólares nos sapatos de sem-abrigo, enquanto dormiam),Elliott Smith nunca conseguiu exorcizar os demónios, químicos e psicológicos, que o afligiam. Depois de Figure 8, o segundo álbum para a major Dreamworks, encontrava-se nas mãos da heroína, preocupando todos os que o rodeavam ou assistiam aos seus concertos falhados e constrangedores. Curiosamente, pouco antes do fim, e na sequência do ingresso numa clínica de desintoxicação conhecida pelos métodos controversos, conseguiu abandonar não só a heroína e a cocaína como o álcool, a cafeína, o açúcar e as carnes vermelhas. «Com ele tinha de ser tudo ou nada», disse o amigo e colega Robin Peringer à Spin. E do tudo da desintoxicação bem-sucedidaElliott Smith passou ao nada de, ao começo de uma tarde de outubro, ser encontrado morto com duas feridas de faca no peito. Minutos antes, discutira violentamente com a namorada Jennifer Chiba, de quem a família de Smith chegou a suspeitar. À Spin, a companheira do músico nos últimos anos lamentou: «O problema é que as pessoas pensam: se ele estava limpo, como é que ia fazer uma coisa daquelas a si mesmo? Mas quem perceber alguma coisa de drogas sabe que as usamos para nos escondermos do passado, ou para anestesiarmos sentimentos avassaladores. Por isso, quando estamos limpos e livres dos medicamentos que tinham estado a tapar esses sentimentos, é que ficamos mais vulneráveis», explica, defendendo a memória do noivo. «Espero que as pessoas percebam que ele morreu num esforço corajoso de ter uma vida saudável».

Originalmente publicado na BLITZ de dezembro de 2013