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Iggy Pop falou à BLITZ há 20 anos: “Quero cantar música que toda a gente pode ouvir às 2 da manhã enquanto se embebeda, droga e chora”

A 27 de fevereiro de 1996, o então jornal BLITZ dava capa ao “padrinho do punk”. No seu interior, uma entrevista aguçada que voltamos a publicar, na íntegra, a poucos dias de Post Pop Depression - o álbum que juntou Iggy Pop e Josh Homme

Entre Iggy Pop e James Jewel Osterberg, o seu nome verdadeiro, não escolhe nem um nem outro, nem assume a esquizofrenia. Prefere antes assumir uma carreira de ator que já lhe valeu papéis em Atolladero, Cry Baby (de John Waters), Coffe and Cigarettes (Jim Jarmusch), Arizona Dream (Kusturica), The Colour of Money, Tank Girl e em Dead Man, ouro filme de Jim Jarmusch onde contracena com o seu amigo Johnny Depp. O próprio Iggy Pop será o autor da banda sonora de The Brave, um filme a ser realizado por Depp, que recentemente também se estreou na música com os P. Iggy estreou-se entretanto em novos territórios, tendo começado a escrever um livro autobiográfico e a pintar. Tudo com uma disciplina assinalável para aquele que é um dos ex-libris dos rockers, apesar da ideia de uma digressão com standards de Frank Sinatra. O novo álbum Naughty Little Doggie era um bom pretexto de conversa e, às nova e meia de uma manhã (!) de Dezembro, Iggy Pop estava a telefonar de Nova Iorque para uma entrevista exclusiva ao BLITZ.

Como é que se sente a promover os seus discos, através de entrevistas pelo telefone, como esta?
Como é que eu me sinto? Não sei, não tenho nenhum sentimento especial. Como é que sugeres que me devia sentir?

Também não sei. Acha que é um dos homens mais trabalhadores do negócio do rock’n’roll? Que horas são agora em Nova Iorque, parece-me que é bem cedo?
São nove e trinta. Sim, eu levanto-me de manhã. Qual é o problema? Põe as coisas desta maneira: sinto-me bem a fazer isto, se tu não te sentires bem, o problema é teu.

OK. Eu acho ótimo estar a entrevistar o Iggy Pop. Mas vamos às perguntas. As pessoas são muito curiosas acerca da idade de Iggy Pop e de como continua a fazer rock’n’roll depois destes anos todos, com performances devastadoras em palco. Qual é o segredo, se é que existe algum segredo?
Gosto da música. Tenho qualquer coisa de que gosto e acho que tudo o resto vem a partir daí. Talvez seja um sortudo ou talvez seja meio parvo, mas encontrei qualquer coisa de que gosto e o melhor é que não a deitei fora, nem desisti.

É só a música ou existe algo mais para lá disso?
Depois disso existe todo um mundo de coisas. Fazer música e espetáculos dá-nos um lugar onde despejar os nossos sentimentos e sensações. Se eu sair para tomar chá no café da esquina, não faço aí o mesmo que faço em palco (risos). Seria muito estranho um comportamento desse tipo. Mas algumas pessoas talvez não tenham essa oportunidade. De resto, trata-se apenas de senso comum. Não posso sair a noite inteira durante todas as noites. É preciso ter paz.

Tal como acontece com toda a gente?
Sim. Como acontece com toda a gente.

Algumas das canções mais antigas de Iggy Pop são quase exercícios de autoanálise. Neste novo álbum, Naughty Little Doggie, eles voltam a aparecer em temas como “I Wanna Live” e “My Heart Is Saved”. Não será, de certa maneira, uma forma de satisfazer a curiosidade do público perante a sua carreira e o seu estatuto de sobrevivente?
Não, não é por eles. É por mim. Faço-o por mim, e nem sequer penso nisso antes de o fazer. Suponho que seja qualquer coisa que eu preciso mesmo fazer. E se há coisas que preciso fazer – era o que estava a dizer na resposta anterior -, tenho também de encontrar uma maneira de as fazer decentemente.

É também um género de terapia?
Qualquer coisa parecida. Não entendo isso dessa maneira, não é consciente nem pensado, mas que acontece assim é verdade. Eu também pinto, mas não faço pintura apenas quando tenho uma grande questão acerca de mim próprio. Quando não consigo entender o que se passa dentro de mim, então pinto isso, mas não o faço muitas vezes. Na música parece que anda toda a gente a perguntar por si próprio. Mas prefiro a minha maneira de escrever as canções: com a música a tocar, feita por mim ou por outra pessoa, tento captar a emoção que essa música transporta e, então, as palavras começam a sair da minha boca. É como disparar primeiro e fazer as perguntas depois. Por vezes fico surpreendido, “ah, então é assim?”. E, normalmente, não consigo repetir isso mais tarde, com palavras verdadeiras e sinceras. Se eu fosse outro tipo de performer, podia cantar coisas do género “oh baby, you are so cool, look at my hair, do I look just like Jimi Hendrix?”. Mas esse não é o meu estilo.

Na letra da canção “I Wanna Live” diz-se “I’m cooler than MTV”. Isto é uma tomada de posição acerca do mundo da televisão que domina grande parte das nossas vidas em contraposição à realidade?
Queria apenas fazer um comentário acerca da MTV mas sem fazer uma grande questão acerca disso. Então despachei o assunto numa linha. Nunca me sentaria para escrever uma canção a queixar-me de uma estação de televisão, porque esse tipo de medras não leva a lado nenhum. Qual é o problema, afinal? Não tem nenhuma importância, não vale a pena estar a mexer nisso. Não discordo do que disseste, podes escrevê-lo assim, mas eu não disse isso.

Iggy Pop também é ator e tem mais um papel no último filme de Jim Jarmusch, bem como na segunda parte e The Crow. Existe uma relação entre rock’n’roll e Hollywood? Estou, nomeadamente, a lembrar-me dos P, a banda de Johnny Depp e Gibby Haines dos Butthole Surfers.
Gosto muito dos P e acho que o disco deles é um bom disco. É um disco que se ouve muito bem. Quanto ao resto, as duas coisas movem-se em conjunto, particularmente na América. Não é só por causa da tecnologia, mas porque, atualmente, as pessoas que controlam o dinheiro da indústria estão sediadas em Hollywood, e umas poucas em Nova Iorque. Existem grandes conexões entre as duas indústrias e começa a tratar-se de apenas uma indústria. Eles querem-no fazer dessa maneira porque assim podem fazer mais dinheiro de uma maneira mais eficiente. Não acho que isso seja encantador. Tem menos charme, mas por outro lado é um mundo que eu não quero ignorar. Por isso fiz o The Crow. Por outro lado, quando tive umas férias no Natal passado, não fui gozá-las a Miami mas sim a Budapeste. E lá existem ótimas bandas pink. Há um futuro imenso a partir de bandas da Polónia, Rússia, Ucrânia, Roménia, Hungria… Provavelmente vai demorar dez anos, mas vi nessas cidades o que aconteceu em Seattle dez anos antes de Seattle se tornar no que se tornou. Do outro lado temos o cinema e a música a tornar-se num único gigante da indústria

É o resultado de uma indústria multimédia?
Sim, exatamente. O que eles não sabem é que estão a tornar-se tão eficientes que… Quando apanham uma banda ou um cantor popular por um período de tempo muito curto, eles podem vender muitos milhões de unidades dos mais variados produtos: CDs, T-shirts, bandas sonoras, vídeos, merchandising… O problema é que, quando isto acontece, esse artista não tem carreira daí a quatro ou cinco anos. Está sentado numa casa enorme sem saber o que fazer porque toda a gente está farto dele. Viram-no demais. O que é engraçado é nisto é que, usualmente, como esse artista teve um êxito tão rápido e se tornou popular tão depressa, o disco seguinte é um álbum duplo e então é preciso comprar dois discos de um artista a quem já ninguém liga nenhuma (risos). É um bocado fodido mas é assim que as coisas funcionam. Existe muita corrupção e porcaria, mas essas coisas acabam por ser interessantes e glamorosas (mais risos.

No filme Dead Man, ainda por estrear, a música é da autoria de Neil Young, que muitas vezes é alcunhado de “padrinho do grunge”, da mesma maneira que o Iggy Pop é alcunhado de “padrinho do punk”. Sente algum orgulho por isso?
Odiava tanto isso! Mas depois habituei-me, vinte anos passados a ouvir a mesma coisa. Agora até acho engraçado, mas não me importo com essas coisas. Sabes o que é? É apenas mais uma coisa que dá jeito quando escrevem o meu nome no jornal. É um rótulo, é mais um bocado de merda e é divertido.

E quanto ao papel de Neil Young como “padrinho do grunge”, fica-lhe bem?
Provavelmente.

Então como é que o “padrinho do punk” reagiu à nova onde de bandas punk como os Green Day e Offspring, a quem já chamam pop punk?
Acho justo. As três maiores bandas aqui na América são Green Day, Offspring e Rancid. Depois aparecem os Bad Religion… Todo o movimento parte do Sul da Califórnia, com uma certa maturidade. Eles são muito sérios e muito profissionais em relação ao que fazem. Essa é a parte boa. A parte que não é tão boa é que a música que fazem é a reciclagem do que outras pessoas fizeram. É uma reciclagem da imagem e do som. Para mim, sinceramente, isso já não é tão estimulante. Por outro lado, eles fazem um ótimo trabalho e é muito mais divertido ir ver os Rancid do que uma banda “alternativa”. Isso eu garanto. Nesta altura eu já digo: os Offspring fizeram um bom disco, qual é o problema? Estou muito mais interessado numa banda húngara, da qual não me consigo recordar o nome – em inglês é qualquer coisa como The Running Corridors -, que é completamente cool. Eles são punk mas soam de uma maneira própria, húngara. Soam como qualquer coisa que bate nos seus corações e que veio de um sítio onde nasceram. Para mim isso é muito mais importante.

Porque é que escolheu o produtor dos Offspring, Thom Wilson, para produzir o novo álbum?
Pusemos o disco dos Offspring em comparação com outros álbuns de rock que tinham saído na mesma altura e o dos Offspring era o melhor por causa da maneira como a bateria sobressaía de tudo o resto. A maneira como tudo aquilo atacava o próprio ouvinte era incomparavelmente melhor que a dos outros discos, muito mais rock. O que ele fez, e o Tom é um produtor muito habilitado, foi pôr um monte de produção no disco e conseguir fazer com que não soasse a superproduzido. Ele também trabalha depressa e barato e isso era o que eu queria fazer. Queria fazer um disco tipo “fast food”.

O som deste disco é menos polido do que o de American Caeser, o disco anterior. É, de alguma maneira, um regresso às origens, um regresso ao poder cru (“raw power”)?
Era disso que eu andava à procura. Não posso fazer o Raw Power outra vez, porque não tenho 23 anos nem sou um viciado em drogas que andava a percorrer as estradas do mundo, mas (risos) continuo a gostar da ideia e faço o que posso.

Este disco soa muito a vintage rock’n’roll, ao clássico dos clássicos…
Foi isso mesmo que eu pensei quando acabei de fazer o disco. Foda-se, isto soa como se fosse um álbum de rock, feito durante os anos setenta, não soa como “alternativo” ou outra coisa qualquer. Estou contente com o resultado porque, como costuma acontecer, quando ouço essa música os meus pés começam a mexer e eu fico sorridente e feliz. Sinto qualquer coisa e sinto-me bem com isso.

Sempre é verdade que os Stooges se vão voltar a reunir?
Queria fazer qualquer coisa com eles mas que não fosse a habitual reunião para uma digressão em que se tocam todos os êxitos. Gostava de fazer um disco só com material novo.

Quando?
Provavelmente não será antes de 1997, porque tenho muitas outras coisas para fazer durante este ano.

Tais como?
Vou sair em digressão para promover o meu álbum e no fim do ano vou fazer a banda sonora de um filme chamado The Brave, realizado pelo Johnny Depp. Mesmo no final do ano, espero começar uma pequena digressão por bares de Nova Iorque, em apresentações a altas horas da noite de alguns standards. Quero cantar standards como “What’s New”, “Halloween for Me”… conheces estas canções?

Não!
É assim (e Iggy Pop começa a cantar): “what’s new? How is the world treating you? You haven’t changed a bit”. É uma velha canção que o Frank Sinatra costumava cantar. São coisas desse género. Quero cantar música velha, canções de pessoas completamente fodidas, que toda a gente pode ouvir às duas da manhã enquanto se embebeda, droga e chora.

Pensa voltar a Portugal durante a próxima digressão?
Sim, com certeza.

Quanto aos Stooges, quais são os músicos que entrarão nessa reunião?
Serão os irmão Asheton (Scott e Ron) e há um baixista, chamado Gary (Rasmussen), que toca há muito tempo com eles. Esteve na mesma cena musical de Detroit, nos The Up, e também na banda do Sonic Smith e na Rendez Vous Band. E é com esses três gajos que vamos fazer uma banda. Mas basicamente será Ron e Scott. O James (Williamson, outro membro dos Stooges) já não toca há muito tempo e agora tem outra vida.

Não tem medo que se diga que os dinossauros voltaram e de todo esse tipo de comentários? Isso não poderá desapontar os fãs?
Não sei. Quando a ideia surgiu eu sabia que não queria fazer a tradicional reunião para tocar temas antigos numa digressão. Estava a falar com um certo produtor e ele disse-me que gostava de gravar os Stooges, o que me pareceu uma boa ideia. Comecei a pensar nisso e concluí: “porque não?” Tenho a impressão que, com a emoção certa, pode sair qualquer coisa boa. Mas não sei, é preciso ver ainda com é que as coisas vão funcionar.

Quem é esse produtor?
Não posso dizer.

É conhecido?
Sim, é muito conhecido. É um dos grandes, um dos gigantes da indústria discográfica.

Um dia disse que tinha ajudado a enterrar os anos sessenta. Não acha que os anos sessenta estão de volta, com um certo tipo de drogas e uma certa filosofia de vida, como certas formas positivas de pensar?
Se essa merda toda está de volta? Não sei, parece-me mais que esta é uma versão diferente. E, pessoalmente, prefiro esta nova versão do que a original. As drogas são mais pesadas…

Uma das novas canções, “Pussy Walk”, fala das mulheres de uma forma machista. Como é a sua relação com as mulheres?
Gosto muito delas. Estou com elas e gosto de muitas das suas coisas. Aliás, gosto muito de saber coisas sobre elas.

Quais são os músicos que o acompanham em Naughty Little Doggie?
São os mesmos três gajos que estiveram em American Caeser, Eric, Hal e Larry, e há ainda um outro, Whitey, que ajudou a escrever a primeira música, “I Wanna Live”. Whitey já tinha tocado comigo antes e agora voltou para tocar comigo a tempo inteiro.

Originalmente publicado no jornal BLITZ de 27 de fevereiro de 1996