Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Notícias

Kevin Cummins

Pode não parecer, mas a história de Ian Curtis e dos Joy Division não foi sempre a preto e branco

Em 1980, o suicídio de Ian Curtis e a edição de Closer colocavam um ponto final na carreira dos Joy Division. À procura de um retrato mais nítido do trágico vocalista, falámos com Kevin Cummins, um dos fotógrafos que melhor documentaram o percurso da banda, e descobrimos que havia cor e humor para lá do nevoeiro cerrado

O mito não tem, necessariamente, que coincidir com a história. Os factos, os acontecimentos e as datas podem relatar uma coisa, mas a interpretação de quem escreve, de quem, através das palavras, amplifica pensamentos pode apontar noutra direção. E o suicídio de Ian Curtis aos 23 anos, na madrugada do dia 18 de maio de 1980, contribuiu para o que Simon Reynolds descreveu como «um mito instantâneo» (Rip It Up and Start Again, Penguin, 2005).

Três décadas depois, um filme, muitos livros e incontáveis reedições mais tarde, a certeza é a mesma que Miguel Esteves Cardoso já havia proclamado no outono de 1980, quando regressou a Inglaterra e escreveu pela primeira vez no semanário O Jornal sobre a banda de Ian Curtis a propósito de um retrato da cena pós-punk: «o nome deste setor cada vez maior, aquele que mais influências deixou, é Joy Division, cujos álbuns Unknown Pleasures e Closer são exemplos portentosos do produto mais original que a Inglaterra nos ofereceu nos últimos tempos. O suicídio do vocalista Ian Curtis há coisa de quatro meses poderá ter contribuído para o impacto dos Joy Division, mas não fez mais do que chamar a atenção para a espantosa vitalidade da sua música: pensativa, mas ativa, grandiosa sem ser pretensiosa uma expressão autêntica da anomia industrial posta numa linguagem irresistível».

Um dos pilares do mito Joy Division é o legado fotográfico que a banda deixou, assinado sobretudo por Kevin Cummins, fotógrafo de Manchester que na época documentou para o New Musical Express (NME) o crescimento da banda de Ian Curtis, Bernard Sumner, Peter Hook e Stephen Morris. As fotos a preto-e-branco de Cummins, que mostram o grupo de trajes escuros, a caminhar sobre o branco de uma paisagem invernal, quase sempre de rostos cerrados, serviram, afinal, para a imposição da aura de tragédia, de abismal alma torturada que sempre rodeou a música do grupo. Mas o autor dessas imagens fala de uma época necessariamente diferente e conta-nos outra história.

«Fotografei-os muito ao vivo e fiz três sessões diferentes, mas ia muitas vezes ter com eles a salas de ensaios e nem sempre os fotografava, tal como nem sempre os fotografei quando os vi ao vivo porque», explica o fotografo, fazendo uma pausa para procurar a ideia certa, «não havia exatamente onde as publicar, ninguém queria essas fotos. Portanto eu fotografei-os quando tal me foi pedido e pronto». Para um jovem fotógrafo freelancer fotografar em película implicava um investimento considerável e não havia propriamente a noção de que a posteridade se fosse importar com uma banda como os Joy Division. «O futuro», conta agora Kevin Cummins, «era a edição da semana seguinte do NME, não ia para lá disso». «Eles até podiam tocar para 300 ou 400 pessoas em Manchester, mas se se metessem na estrada e fossem até Halifax, por exemplo, provavelmente tocariam para umas 50».

«Mais os que tocavam do que os que ouviam». Era assim que Miguel Esteves Cardoso descrevia a embriónica cena punk de Manchester com a autoridade de quem, entre 1975 e 1981, viveu em Londres, primeiro, e na cidade que viu nascer a Factory e os Joy Division, depois, podendo observar de forma direta o cenário que gerou o mito. «Londres era muito diferente de Manchester», explica Kevin Cummins, referindo-se ao punk.

«Em Londres foi uma cena que nasceu do pub rock, na realidade, sendo uma progressão natural dos Dr. Feelgood, Eddie and the Hot Rods e bandas assim. Em Manchester, o punk nasceu de um público mais alternativo que ia muito a concertos, sobretudo para ver gente como David Bowie, Roxy Music e T. Rex. Quando as primeiras bandas punk começaram a ir tocar a Manchester, esse mesmo público começou a aparecer e tinha o cuidado de se vestir para a ocasião. Quando os Warsaw fizeram o seu primeiro concerto», relata Kevin Cummins, referindo-se à primeira encarnação da banda que haveria de se transformar em Joy Division, «eles iam vestidos de PVC e de cabedal e não tinham um look coordenado. Provavelmente, cada um deles decidiu por si o que usar em palco. O que era fantástico e realmente "do it yourself". Não foram à Seditionaries em Londres comprar roupas caras», acrescenta, referindo-se à loja de King's Road de Malcolm McLaren e Vivienne Westwood.

Kevin Cummins estreou-se no NME em junho de 1977 com uma peça de duas páginas assinada por Paul Morley onde se dava conta da nascente cena punk de Manchester com espaço mais generoso concedido aos Buzzcocks e Howard Devoto, aos Slaughter and the Dogs e aos Drones e «com uma pequena menção aos Warsaw». Ian Curtis deixou, obviamente, uma impressão duradoura na memória de Cummins: «tínhamos basicamente a mesma idade. Ele não era assim tão diferente de pessoas como o Mark E. Smith e outra gente que costumava ir a concertos. Todos líamos muito e ouvíamos o mesmo tipo de música. E as pessoas costumavam andar na rua com discos debaixo do braço para melhor transmitirem uma imagem. O Ian não se destacava dessa multidão. Era muito calado e tímido, mas a maior parte de nós era assim».

O fotógrafo Kevin Cummins

O fotógrafo Kevin Cummins

Kevin Cummins

ALÉM DO MITO
Do meio dessa multidão não tardou a erguer-se uma ideia chamada Factory, outro eixo importante na imposição do mito Joy Division. Lindsay Reade, primeira mulher de Tony Wilson e autora de Torn Apart: The Life of Ian Curtis, revela-nos que a vontade de fazer superava qualquer tipo de expectativa perante o futuro. «No início», elabora Reade, «não tínhamos absolutamente noção alguma de estarmos envolvidos com uma etiqueta que haveria de definir a história. O punk foi, obviamente, vital para a Factory, mas quando tivémos que fazer à mão as capas do nosso primeiro lançamento, e falando por mim, eu estava convencida de que seria o primeiro e último. Penso que o Tony, no entanto, teve a visão e a vontade e a força para levar o projeto em frente e fazer com que tudo acontecesse».

Em 2010, Vini Reilly, alma e cérebro do projeto inaugural do catálogo da Factory, Durutti Column, ofereceu-nos alguma luz sobre os primeiros passos da editora que colocou Manchester no mapa musical britânico: «nós éramos, de facto, estranhos ao negócio da música e não tínhamos noção alguma de estar a causar impacto. Ao invés disso, o que desejávamos era escapar à asfixia que a indústria exercia sobre toda a música. Na verdade, estávamos apenas a fazer jogos, a divertir-nos e a tentar escrever boa música».

A Factory ofereceu aos Joy Division um ingrediente muito especial para a receita que impôs o mito: Martin Hannett. «Eles queriam apenas ser uma banda de rock», explica Kevin Cummins, «e foi Martin que os levou a ver mais longe. Foi o Martin que lhes mudou o som e não apenas em disco; ele começou a fazer-lhes o som ao vivo e isso mudou-os, até contra a vontade da própria banda». Uma banda que resistia a uma sonoridade mais solene, mais sombria, mais atmosférica e experimental é, afinal de contas, uma imagem contrária à que o mito impôs. E Kevin Cummins concorda com essa ideia, de que o mito que sobreviveu estas três décadas e meia é unidimensional, assumindo ele mesmo uma quota parte de responsabilidade nisso: «as imagens contavam apenas uma história, a de um grupo de jovens muito sérios. Foi assim que os quisemos projetar enquanto músicos. E porque fotografar em filme era caro e eu não me podia dar ao luxo de gastar muitos rolos, muitas vezes tinha que esperar longos períodos de tempo enquanto eles faziam piadas e se riam. As fotos em que se riam eram as que eu não podia usar».

Cummins vai mais longe e refere como as imagens de um Ian Curtis sombrio foram elas mesmas fabricadas, de certa maneira: «há fotos em que o Ian aparece muito sério, isolado do resto da banda, mas fora de campo estariam o Stephen, o Bernard e o Peter a dizerem piadas e a tentar fazê-lo rir para sabotarem a seriedade das fotos. Ele era bom a fingir que não os ouvia, mas depois tinha explosões de riso logo a seguir ao meu clique».

Mas havia, de facto, um drama a desenrolar-se. Simon Reynolds, nas páginas do já citado Rip It Up and Start Again, atribui parte do caráter sombrio das letras de Closer à medicação que Ian tomava para combater os recorrentes ataques de epilepsia «pequenas doses de morte», como sublinha o escritor. O que reforça a ideia de que Ian pudesse, de facto, ter sido uma pessoa diferente daquela que surge retratada em Control, o filme de Anton Corbijn que é, na verdade, o capítulo derradeiro na história de imposição do mito.

Kevin Cummins tem uma posição duramente crítica sobre o filme, cuja estética é largamente baseada na imagem que ele mesmo construiu de Ian Curtis e dos Joy Division nas fotos que assinou para o NME: «não recebi crédito algum no filme e nunca ninguém me abordou no sentido de requerer autorizações, mas eu sei que o filme foi feito com um mural com as minhas fotos criado na sala de produção, como uma espécie de guia para a atmosfera construída no filme». Essa, já se percebeu, é apenas uma parte da história. «Os anos 70 eram uma época muito diferente e as pessoas não se expunham», explica Cummins.

«As pessoas não falavam das suas emoções. Todos sabiam do caso do Ian com a Annik Honoré, mas ninguém censurava ou falava sequer sobre isso. E ninguém acreditava que Ian tomasse aquela decisão. Se algum de nós suspeitasse disso, ele não teria ficado sozinho naquela noite. Nesse dia, com o Rob Gretton, fomos a um casamento de um amigo e ficamos todos acordados até tarde a falar de música e da digressão americana. Fui para casa para aí às 6 da manhã e acordei com um telefonema do Rob a dizer "aquele palerma estúpido matou-se!". O Ian não estava ansioso por ir para a América, mas todos acreditavam que isso o iria ajudar a resolver as coisas na sua cabeça».

Closer acabou por funcionar como uma lápide musical na campa de Ian Curtis e Kevin Cummins descreve-o como um disco difícil de ouvir «ainda hoje». «Mesmo que o Ian não tivesse morrido, aquela capa do Peter Saville, que já estava feita antes do suicídio, continuaria a ser apropriada, por causa das letras. Há, de facto, uma certa finalidade em todo o disco, no seu aspeto gráfico inclusive», remata o fotógrafo.

«Endeusamos pessoas quando elas morrem cedo, e analisamos tudo demasiado, construindo outras histórias, mas se calhar se o Ian não tivesse morrido, aquilo que aconteceu com os New Order teria acontecido na mesma, porque eles teriam todos ido à América, ouvido outros tipos de música e evoluído». Ou seja, tivesse a vida permitido, e Ian teria dançado um pouco e experimentado um grande sucesso, como defende Kevin Cummins. A vida não o permitiu e o que sobrevive, até hoje, é o mito.