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Amy Winehouse: uma história inevitável que deu um Oscar

Um documentário que iluminasse a vida da cantora britânica exigia duas coisas: nervos de aço, que a existência de Amy foi de cortar à faca, e cautela com as emoções, para não derrapar para o sensacionalismo. Francisco Ferreira viu, antes de quase toda a gente, o filme que valeria um Oscar.

Não é possível condensar dez anos da vida de uma pessoa num filme com duas horas num estalar de dedos», disse-nos em Cannes Asif Kapadia, numa entrevista que poderá ler algumas páginas adiante e que desenvolve o assunto nestas páginas: «por mais que se tente evitar, perante uma figura como Amy Winehouse acabamos sempre por ir parar a uma zona desconfortável». O documentário Amy foi produzido por inteiro pela Universal, que editou os dois álbuns de estúdio da cantora (através do selo Island), falecida tragicamente em 2011 na sequência de uma intoxicação alcoólica, com apenas 27 anos. É o novo trabalho do cineasta britânico que há cinco anos andou na berra por causa de Senna, documentário que mostrou do piloto de F1 facetas da sua vida e da sua personalidade que ninguém ainda vira. Kapadia voltou a trabalhar com a mesma equipa: Chris King na montagem e James Gay-Rees na produção. E ainda bem que o fez porque, ao longo deste filme siderante, tal como acontecia, de resto, com Senna, o que se gera com a rapariga judia de Southgate, no norte de Londres, e dona de uma voz colossal, é uma relação de afetividade que não só sublima a sua morte, como realça a sua vontade de viver. E não é isto à partida paradoxal sobre alguém que acabou por se extinguir, sem o desejar, como se estivesse na praça pública?

Controlar o caos
Depois de a Universal ter dado ao cineasta aquilo que ele sempre quis e até exigiu independência criativa total (com o final cut incluído) e direitos integrais das suas canções, incluindo material inédito Kapadia sentiu-se à vontade para pôr em prática um método de trabalho que talvez explique porque é que este filme consegue escavar tão fundo no seu tema, eclipsando qualquer outro documentário feito sobre Amy Winehouse até hoje. Com queda para envolver-se emocionalmente com ídolos que desaparecem demasiado cedo, Kapadia, recorde-se, tem já um currículo de cineasta que data de há vinte anos, começou por onde quase todos começam, pelas curtas-metragens, mas só há cinco, quando revolveu de uma ponta a outra a imagem que tínhamos de Ayrton Senna, se fez notar, provando o seu talento. No fim daquele filme, ficávamos com a sensação de que ele sempre fizera parte da família do biografado. O mesmo acontece agora com Amy, mas num processo que em tudo nos parece muito mais difícil de conseguir. Kapadia nem faz mais do que recorrer a material de arquivo, dispensando as habituais talking heads, muletas deste género de cinema. Não se privou das entrevistas e fez mais de cem, também ele contará algumas páginas à frente mas deixou-as sempre em off. Assim nasceu um filme que é um produto modelar do seu tempo neste início de século, pela forma como respiga, manipula e depois vai organizar um manancial de imagens de mil e uma origens diferentes, venham estas de home movies ou de instantâneos captados por câmaras de telemóvel - o catálogo é interminável.

Por vezes, sobretudo quando se tornam provas do estado de dependência em que Winehouse se encontrava, aquelas são imagens chocantes, a um ponto tal que só nos perguntamos como pôde sobreviver ela tanto tempo nessa condição de vício. Impressionante é também a relação da cantora com o seu agente e com parte da sua família, em especial com o seu pai, Mitch Winehouse, um dos entrevistados que não tardou a protestar contra a imagem negativa que este filme oferece dele «Eu disse-lhes que eles [realizador e produtor] não prestavam para nada. E que deveriam estar envergonhados pelo que fizeram», contou Mitch ao Guardian, ao mesmo tempo que reconhece que «ao tentar-se proteger uma filha, ao mesmo tempo está-se a tornar a situação ainda pior».

Independentemente do que Mitch possa alegar, as imagens de arquivo, que são o tesouro do filme, provam que o conflito entre pai e filha vinha de longe, dos primeiros anos em que Amy começa a ser tratada por problemas de saúde mental. Mais tarde, iria sofrer de bulimia, doença que os seus pais trataram com uma indesculpável indiferença. Isoladas, todas estas imagens que vão erguendo aos solavancos uma história não teriam mais do que um valor episódico, perigosamente voyeurista. Mas organizadas tal como estão, no mesmo processo orgânico, chamam-se entre elas, ganham todo um sentido.

Reescrever a história
Asif Kapadia conseguiu imagens de arquivo nunca antes vistas da cantora, da sua família, dos seus amigos e isso é o que basta para nos apercebermos da têmpera e do talento natural que a artista detinha. O filme mostra a intérprete de Frank e Back to Black (os dois álbuns que lançou em vida, de 2003 e 2006, respetivamente) em desafio permanente, a lutar contra a depressão. Mostra também a sua tendência para o desregrado consumo alcoólico, drogas pesadas (heroína e crack, sobretudo) e para os homens errados (Blake Fielder-Civil, com quem manteve uma relação «tóxica»). Para chegar a este efeito, Kapadia passou dois anos a recolher material de arquivo. Como salientou o produtor da obra, James Gay-Rees, «à partida, ninguém se queria envolver neste filme». «O processo foi delicado, não teve nada a ver com o Senna porque aqui tivemos que ir ganhando a confiança de cada pessoa, depoimento a depoimento. Há uma grande paranoia à volta de Amy Winehouse. Houve pessoas que até me perguntaram por que raio queria eu fazer um filme sobre uma drogada... Acontece que eu acho que todos nós nos apaixonámos um bocadinho pela Amy durante o processo».

Não é difícil, aliás. Winehouse foi a Janis Joplin deste tempo, um talento enorme num corpo demasiado frágil, pronto a entrar em autocombustão. O produtor diz que, depois de tantas ameaças, a equipa se sentiu obrigada a «reeducar» a imagem coletiva que o público tem da cantora. «Quando uma pessoa se torna objeto de troça nos media, só com muita dificuldade volta a recuperar a sua dignidade. E o modo como os media exploraram a dignidade dela, arrastando-a pela lama, foi simplesmente inaceitável. Fizemos este filme da forma mais honesta que podíamos, mesmo sabendo que ele não vai agradar a toda a gente. O Asif e todos nós só queríamos uma coisa: a verdadeira Amy», continuou Gay-Rees. «Durante a rodagem, encontrámos pessoas que nos disseram que era ela um amor de miúda, outras que garantiram que ela era um autêntico gangster. E onde está a verdade? No casamento destas opiniões. Talvez no final do filme, na soma de todos os depoimentos com as imagens, essa verdade venha à tona. Talvez nos demos conta de que morrer jovem, romantismos à parte, não tem mesmo piada nenhuma. No final do filme, eu acho que é a Amy quem encontramos. E isso é a única coisa que nos interessa».

Realidade e ficção
«Quando fizemos Senna», acrescenta Gay-Rees, «também nos perguntámos se um documentário sobre um piloto de Fórmula 1 podia ser um êxito - e foi. E nessa altura ninguém nos conhecia! Diziam-nos que uma ficção poderia chegar a um público mais vasto e eu lembro-me de me virar para o Asif e de lhe perguntar: "o quê? Ficção? Mas que ator será capaz de fazer de Ayrton Senna? Banderas? Johnny Depp? E que atriz atual poderia agora interpretar Amy Winehouse?. Desculpem, é impossível. Vamos mas é procurar a verdadeira Amy, nos arquivos. Se há casos em que a realidade é mais forte do que a ficção, este é um deles"». Amy está prestes a estrear em Londres [3 de julho], será um êxito garantido no Reino Unido e, dado o interesse internacional que causou em Cannes, o resto do mundo também correrá atrás dele: em Portugal, Amy Winehouse chega ao grande ecrã a 16 de julho.

Texto: Francisco Ferreira, crítico de cinema do Expresso