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Agora é a doer, Metallica

Venderam milhões de discos, esgotaram estádios e tornaram-se na maior banda “pesada” do mundo. Quando passam 25 anos sobre o seminal Master of Puppets, o veterano grupo norte-americano pode estar, porém, com problemas financeiros à sua escala. Tomamos o pulso ao “estado da nação” de Hetfield, Ulrich, Hammett e Trujillo

Em 2008, os Metallica estavam em grande forma. Se Load e Reload tinham ficado longe da estampa do premiado álbum negro, St Anger pouco melhor tinha corrido e só com Death Magnetic, o quarteto de São Francisco deu um real sinal de vida. Afinal, os reis do metal ainda dominavam as regras do manual que tinham começado a escrever em 1983 com Kill 'Em All, afinal também a morte deles tinha sido manifestamente exagerada. Ou não? Terá sido Death Magnetic fruto de uma inspiração momentânea? Desde então, a carreira dos Metallica transformou-se numa sequência de erros e, segundo o mais recente livro sobre a banda, o saldo bancário resistiu pior do que a credibilidade da maior instituição de rock pesado do mundo. No estúdio, no papel de promotores de festivais ou nas salas de cinema, a banda acumulou prejuízos à sua dimensão sempre na ordem dos milhões e sempre com todo o mundo a ver.

Agora o momento é de luta. Para este ano, estão previstas reedições dos primeiros trabalhos, a edição de uma cassete e até há a promessa de um novo álbum. Serão os Metallica demasiado grandes para falhar? Venderam mais de 120 milhões de discos, deram mais de 1600 concertos, começaram a esgotar bares em São Francisco e passaram os anos 90 a esgotar estádios por todo o mundo. Se os Iron Maiden se gabavam de ter o próprio avião, os Metallica tornaram tudo ainda maior. Quiseram enfrentar os downloads ilegais, quiseram promover festivais de rock, lançar um filme e uma ópera rock cantada por Lou Reed. Falharam e agora, quando Lars Ulrich garante que estão «muito perto» de lançar um novo disco, a luta será mesmo pela sobrevivência. «Nos últimos cinco anos, os Metallica embarcaram numa série de projetos vaidosos que não deram dinheiro.

Os próprios admitem que as duas edições do festival Orion foram um desastre financeiro, e com o fiasco do filme Through the Never só recuperaram uma pequena parte dos 32 milhões de dólares que investiram», lê-se em Into the Black: The Inside Story of Metallica, 1991-2014 (Da Capo Press, 2014), livro em que Paul Brannigan e Ian Winwood contam a história da banda de 1991 a 2014. «Ninguém vai chorar por ouvir os Metallica se dizerem pobres, mas na última década as suas margens de lucro seguramente levaram uma martelada», escrevem os autores que no ano passado já haviam lançado Birth, School, Metallica, Death (Da Capo Press, 2013) sobre os primeiros anos da banda.

Depois de Death Magnetic, que colecionou tantos elogios como números 1 nas tabelas de vendas, os Metallica já estiveram em estúdio. No entanto, o resultado foi de tal forma trágico que até hoje a maioria dos fãs o prefere esquecer. Sim, os Metallica têm um disco com Lou Reed. Sim, chama-se Lulu e as letras são de um dramaturgo alemão do final do século XIX. Não, quase não houve quem o tivesse elogiado. Há quem diga que Lou Reed, falecido em 2013, não ensaiou antes das gravações, quem defenda que o resultado final não é tão mau quanto críticos e fãs disseram e até quem preveja que os anos farão bem ao mais polémico dos discos dos Metallica. Mas se o epitáfio de Lulu poderá estar por escrever, a coleção de fracassos da banda ainda não parou de crescer.

Ainda em 2011 surgiram os primeiros sinais de alerta. Peter Mensch, um dos managers da banda, assumia que, ao contrário do previsto, o ano seria de digressão: o euro estava em guerra com o dólar e o melhor era aproveitar. «Nos próximos anos, o dólar deve ficar mais forte e o euro mais fraco. Confirmando-se, quero aproveitar estes concertos», dizia ao Wall Street Journal enquanto justificava a antecipação da digressão europeia em dois anos. «Tal como a Coca-Cola, somos uma exportação norte-americana e olhamos para os melhores mercados», concluía antes de apontar à América do Sul, Ásia e Austrália como os destinos prováveis da banda caso a crise do euro se prolongasse.

Por essa altura, à Rolling Stone também Kirk Hammett assumia a mudança de era. «Os tempos em que parávamos dois anos já não existem. Podíamos fazer isso porque os royalties dos discos chegavam consistentemente. Agora? Lanças um disco e recebes umas brisas, com sorte uma ou duas, mas já nunca como antigamente em que chegava um cheque de três em três meses», dizia. Mesmo assim, em 2012 voltariam a embarcar numa tão dispendiosa como contracorrente aventura. No ano em que Adele, Taylor Swift, One Direction e Mumford & Sons conseguiram os discos mais vendidos, Hetfield e companhia investiram em Orion, um festival de música de pesada que deveria mudar de cidade anualmente.

Desfecho previsível? Em Atlantic City tocaram duas noites a segunda inteiramente dedicada a Metallica, de 1991 e partilharam o cartaz com outras trinta bandas, entre elas Arctic Monkeys, Sepultura e Gary Clark Jr. No ano seguinte, em Detroit, voltaram ao palco e chamaram Red Hot Chili Peppers, Deftones, Gogol Bordello e Dropkick Murphys. O resultado foi o mesmo: um «desastre financeiro », confessou James Hetfield na entrevista em que confirmava que o festival não voltaria a acontecer. «Estamos a fazer tudo para tentar manter o movimento vivo. Não tenho a certeza sobre o que se passa nos Estados Unidos no que diz respeito ao rock e ao metal. No que aos concertos diz respeito não vejo grande vontade em que se faça algo grande, que compense andar a tocar. Está duro», dizia à rádio KTBZ. E se os discos deixaram de vender e os concertos perderam o impacto de outras décadas, qual a resposta dos Metallica? Lançar em 2013, no festival internacional de cinema de Toronto, Through the Never, um filme megalómano, pensado em grande, com todos os formatos disponíveis IMAX e 3D e com direito a luxos dignos das melhores produções de Hollywood. Jogada arriscada? Lars Ulrich não se mostrava preocupado.

«A capacidade de compromisso nunca foi o forte dos Metallica. Acho que os fãs vão perceber que se o filme tem a palavra Metallica é sinal de que vem de nós e vão aderir», dizia nas vésperas do lançamento. Enganou-se. Nem os fãs aderiram, nem as bilheteiras compensaram o forte investimento. Com custos de produção de 32 milhões de dólares, a história do azarado roadie em missão durante um concerto da banda não gerou mais que 8 milhões nas bilheteiras. Nada que preocupasse Lars Ulrich. «É um novo capítulo na história dos Metallica e estou certo que se não recuperarmos todo o dinheiro vamos acabar por consegui-lo nem que seja com a venda de t-shirts nos próximos sete anos», dizia o baterista ao The Quietus. Visto de fora, o cenário é bem mais trágico. «Todo o projeto do filme Trough the Never foi um erro de cálculo, uma tentativa falhada de dar vida a uma ideia com dez anos. À medida que o filme ultrapassava, o orçamento inicial não é difícil imaginar pelo menos um membro da banda e vamos ser honestos, estamos a falar de James Hetfield a pensar "onde nos fomos meter"? Como é que aquele guião foi aprovado é um trágico mistério», comentavam os autores de Into the Black em entrevista ao site The Weeklings.

A DANÇA DAS REEDIÇÕES
Desde cedo que os Metallica se habituaram a ultrapassar cenários adversos. Em 1986, sobreviveram à morte do que muitos viam como o mais talentoso músico da banda. Em 1991, viram o seu disco de maior sucesso ser atropelado pela moda grunge. Em 2000, superaram as ondas de choque da fúria dos fãs que viram Ulrich abrir guerra ao Napster, um dos primeiros sites de partilha de música. Sobreviveram aos mais variados vícios, partilharam a terapia de banda em documentário Some Kind of Monster, 2004 e chamaram um novo baixista ao grupo. Agora? Quando o mundo parece pronto para abandonar o rock pesado, a resposta já está preparada e o ano antevê-se cheio de novidades. Já este mês e pela primeira vez na história da banda será oficialmente editada a maqueta com que em 1982 se apresentaram às editoras. Para já, No Life Til' Leather será lançada em cassete e é preciso esperar pelo verão para deitar mão às edições em CD ou vinil. Através da Blackened Recordings, a editora da banda e proprietária de todo o catálogo, as novidades não ficarão por aí. Na forja para este ano estão ainda as reedições dos dois primeiros discos Kill 'Em All (1983) e Ride The Lightning (1984) e em 2016 também já está garantida a celebração dos 30 anos do que muitos dizem ser o seu melhor disco, Master of Puppets (e além da reedição, o aniversário será assinalado com o lançamento de um livro sobre as gravações). «Está na hora de lançarmos reedições e entrarmos na dança de catálogo que já todos fizeram, dos U2 e Led Zeppelin aos Oasis. Em vez de começarmos com o Kill 'Em All decidimos recuar mais dois anos para a altura em que a formarmos a banda", disse Ulrich à Rolling Stone. No entanto, nem só de reedições se farão os próximos tempos e há mesmo novo disco no horizonte. Ulrich já confessou que há 20 novas canções gravadas e que o disco poderá ser o mais longo da carreira da banda. Robert Trujillo confirmou que o grupo está em estúdio e que o som é pesado. «Ainda não consigo compará-lo com qualquer outro disco. Todos os discos dos Metallica são únicos e o que estamos a fazer agora também é, mas estamos a manter o peso.

Para mim, como ouvinte, há sempre uma agressividade que tem de lá estar, faz parte da viagem que tenho feito com os Metallica», confessa o baixista. Sem data de lançamento prevista, um cenário está afastado. «Não vamos dar o disco de borla no iTunes ou lançá-lo a uma quinta-feira sem avisar ninguém», diz Ulrich que, no entanto, não arrisca uma data de lançamento. Nesta altura, mesmo que o legado não esteja ameaçado, os Metallica correm pela vida. A dúvida é se são grandes o suficiente para sobreviver a outro Lulu ou demasiado grandes para falhar.

Texto: Filipe Garcia

Originalmente publicado na BLITZ de maio de 2015