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N.W.A.

Íthaka

A BLITZ recuperou foto inédita dos N.W.A. tirada por Íthaka há quase 30 anos (e a Rolling Stone foi atrás). Conheça aqui a história

O artista norte-americano, que viveu em Portugal nos anos 90, explicou-nos como se tornou fotógrafo oficial do coletivo de hip-hop

Na edição de outubro do ano passado, a BLITZ, a reboque do sucesso do filme Straight Outta Compton, publicou um artigo sobre os N.W.A. para o qual falou com Ithaka Darin Pappas, responsável pelas primeiras fotografias de promoção do coletivo de hip-hop norte-americano.

O artista, músico e fotógrafo americano, que viveu em Portugal nos anos 90 e cá gravou vários álbuns, contou-nos a história da primeira sessão que fez com os N.W.A. e foi ao baú buscar uma fotografia "inédita e nunca vista", captada há mais de 27 anos.

A mesma imagem foi republicada em janeiro pela revista norte-americana Rolling Stone num artigo sobre os músicos que este ano entrarão para o Rock and Roll Hall of Fame, e entre os quais estão os N.W.A..

Íthaka contou à BLITZ a história que o levou a trabalhar com o grupo, no final dos anos 80:

«Tinha 22 ou 23 anos e andava a fotografar muitos atores jovens de TV e cinema», começa por recordar. «Fui apresentado ao departamento de arte da Priority Records por um vizinho que trabalhava lá. Mostrei o meu portfólio e chamaram-me para o primeiro trabalho umas semanas mais tarde. Entre 1988 e 1991, trabalhei para a Priority provavelmente umas vinte vezes». Sobre as sessões que fez com Dr. Dre, Ice Cube e companhia, declara: «em geral, era fácil lidar com eles. As sessões eram normalmente bem-humoradas, eles divertiam-se», acrescenta. «O Cube era o mais sério, mas se calhar já se tinha apercebido que não estava a ser bem recompensado pelo seu trabalho. O projeto teria sido completamente diferente e menos poderoso sem as suas letras».

À época, Pappas também fotografou outros nomes do gangsta rap, mas nenhum o impressionou como os N.W.A que, segundo o artista, eram diferentes porque incluíam algum humor na música que produziam. «Eles já tinham alguns singles editados e eram estrelas locais», explica. «Eu tornei-me fã dos N.W.A. meses antes de os fotografar pela primeira vez. Portanto, queria fazer um bom trabalho. A Priority pagou-me 500 dólares, mas gastei 600 no aluguer de equipamento de iluminação, câmaras Hasselblad, rolos e revelação, etc.». A editora, esclarece, dava os primeiros passos no mundo do hip-hop, «não penso que tenha sido uma decisão muito pensada escolherem-me e continuarem a contratarem-me, apenas estava no local certo no momento certo. E tinha a idade certa e estava no ponto certo da minha carreira para aceitar aqueles pagamentos ridículos. Um fotógrafo profissional nunca trabalharia por tão pouco dinheiro nem se colocaria em situações potencialmente perigosas, mas para mim era uma aventura». Uma dessas situações aconteceu durante a gravação de um vídeo de Ice Cube, «tínhamos alugado um posto de abastecimento de gasolina fora de serviço e a dado momento, apareceram uma série de rufias assustadores. Eram 40! Ficaram ali parados numa pose que parecia ensaiada para um filme. Um por um, abriram os casacos e mostraram as suas armas. A produção foi cancelada naquela localização e a equipa desapareceu em cinco minutos. Provavelmente era só uma atitude intimidatória, mas foi assustador. Fiquei com as mãos a tremer durante vinte minutos enquanto conduzia de volta para casa. Por qualquer razão aquele gangue não queria o Cube e o seu pessoal no seu bairro».

Ithaka chegou a ir em digressão com o grupo e estava lá, em Phoenix, na noite em que Cube se recusou a assinar o contrato. «Foi uma coisa pesada. Ouvi a notícia da boca da assessora de imprensa da editora minutos depois de ter acontecido». Outro momento que lhe ficou bem gravado na memória foi uma festa Wet & Wild para a qual foi convidado por Eazy-E: «foi a loucura total. Alugou um rancho em Malibu com uma piscina e convidou cerca de 700 dos seus "melhores amigos". Álcool e mais álcool, belas e curvilíneas mulheres e gangsters e música em altos berros. O maior cliché da cultura hip-hop. Mas adorei». A festa está retratada no filme Straight Outta Compton, que Pappas já viu duas vezes. «Fui ver uma segunda vez porque não queria acreditar que era tão bom. Tentei encontrar falhas óbvias no argumento mas além das necessárias simplificações não encontrei muitas», defende. «Acredito mesmo que merece nomeações para os Óscares, especialmente para Jason Mitchell, que faz de Eazy. Muitas vezes, esqueci-me completamente que estava a ver um ator a fazer de Eazy e não ao Eazy-E ele próprio».

Excerto do artigo publicado na BLITZ nº 112 (outubro 2015)