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Documentário “Amy”

“Já sabia que ela ia morrer”: a entrevista com Asif Kapadia, o realizador do documentário sobre Amy Winehouse que venceu um Oscar

Francisco Ferreira, crítico de cinema do Expresso, falou com o realizador inglês em 2015. Amy saiu de Hollywood com a estatueta de Melhor Documentário

Quando o filme de Asif Kapadia chegou ao Festival de Cannes, em maio passado, já trazia polémica e publicidade extra (de que nem sequer precisava): muito antes da estreia, já a família de Amy Winehouse tinha vindo a terreiro chumbar o filme pela sua alegada invasão de privacidade com informações «tendenciosas e não provadas» que visavam tanto a família como os agentes da cantora. Para a opinião pública ávida de obituários, a história de Amy Winehouse, nascida em Londres a 14 de setembro de 1983, poderia ser descrita assim por um paparazzi numa nota de rodapé: morte aos 27 anos por intoxicação alcoólica, após uma longa e pública batalha contra as drogas, artista devorada pelos seus demónios e pelos media que a perseguiam. Nessa altura, recorde-se que a britânica estava nos píncaros da fama (como aconteceu a todos os músicos que aos 27 anos se extinguiram - e 27, como muitos sabem, foi um número fatídico, de Jim Morrison a Janis Joplin e Kurt Cobain) e terá sido por causa dela que muitos dos queixosos contra este filme dela se aproximaram, nomeadamente o seu pai, ausente durante a sua infância e adolescência, mas «presença vampiresca» na vida da cantora quando esta começou a fazer as primeiras capas de jornais e revistas e, pior do que isso, a ser garantia de escândalo nos noticiários televisivos.

Em Cannes, dias após a estreia mundial do filme, conversámos em exclusivo com o cineasta.

Acha que teria tido coragem para fazer Amy se não tivesse passado pela experiência de Senna?
Acho que não, mas tinha a certeza de uma coisa: não queria fazer outro sport film. Não quero voltar a meter-me nisso. Senna teve um tal impacto nas pessoas que nem imagina os montes de propostas de gente importante daquele meio que me pediu uma coisa tão incrível como isto: «por favor, faça um filme sobre mim». Senti-me uma espécie de barriga de aluguer.

Mas não é fácil fazer um filme sobre alguém mais famoso que Ayrton Senna...
Pois não, e olhe que andei a matutar longo tempo nessa ideia: ele foi tão importante, teve uma vida tão interessante, que eu me perguntava: mas agora vou fazer um filme sobre quem? Fiquei tão contente com essa experiência.

Como é que chegou a Amy?
Através de um telefonema. Alguém da Universal Music, que tinha adorado Senna, decidiu ligar ao meu produtor que me passou muito excitado a mensagem: «acabaram de me perguntar se estarias interessado em fazer um filme sobre a Amy Winehouse. O que achas?». Abriu-se a luz ao fundo do túnel.

Porquê?
Porque eu estava em Londres, sou do Norte de Londres, vivo muito perto de Southgate, onde a Amy cresceu. E pensei: «Porque não? Talvez isto dê qualquer coisa!». De repente, a inspiração que eu procurava veio bater-me à porta. Que felicidade! O Senna, o Brasil, o mundo dos automóveis e das corridas de Fórmula 1, eram uma coisa de outro planeta para mim. Mas a Amy vinha daqui, da casa ao lado! Ela era uma rapariga normal com quem eu poderia ter crescido, com quem poderia ter andado na escola e que de repente se tornou famosa, para bem de toda a gente que tem algum bom gosto musical, digo eu.

Mas não ficou em pânico ao mesmo tempo? Não receou estar a meter-se numa alhada?
Pois, isso veio a seguir. Como eu estava a dizer, a Amy era uma rapariga normal até que... Até que começaram a acontecer coisas inexplicáveis para mim, coisas horríveis, ela a cair em palco, podre de bêbeda, etc... Eu lembro-me de me perguntar na altura: «Porque é que isto está a acontecer? Porque é que ninguém a protege do seu pior inimigo, que é claramente ela própria? E porque é que tudo isto está a ser vomitado pelos media, desta maneira?». Sabe uma coisa: quando ela morreu, eu não fiquei em choque. Acho que muita gente também não ficou. Eu já sabia que ela ia morrer. Isto é horrível de pensar, quanto mais de dizer, mas se calhar, morrer, para ela, foi mesmo a melhor coisa que lhe podia ter acontecido. E ao mesmo tempo, que horror, ela tinha 27 anos... Depois o telefonema chegou, chegámos a acordo. E chegou a altura de eu ter que pôr as mãos na massa.

Acha que Amy é «apenas» um filme sobre Amy Winehouse?Acho que não, e espero que não. Acho que há muito de mim próprio no filme, também. Ajudou-me pensar que Amy ao mesmo tempo iria evoluir para um filme sobre esta Londres um bocadinho cinzenta e que eu conheço muito bem, bastante mais fechada nela própria do que se pensa, e sobre o mundo em que vivemos hoje. Isto é: está lá aquela «doida varrida», aquela artista criativa, vibrante e extraordinária. Está lá, obsessivamente, em quase todos os planos. Porém, está também todo o mundo que a rodeava. Os êxtases, os abusos de drogas e de álcool, as reabilitações, a necessidade vital de descansar, mas ela não conseguia descansar.

O Ayrton Senna também não...
É verdade, mas se há em Amy semelhanças em relação a Senna, são maiores as diferenças. Porque ele era um macho, um génio das corridas de carro, um homem latino com o sangue na guelra e ela... ela era uma miúda normal. Uma miúda que foi muito mal tratada pelos mesmos media que idolatravam Senna. Se ela fosse homem, não tenho a certeza se seria atacada da mesma maneira. Isto mexe muito com preconceitos - o sexismo - que ainda estão bem impregnados nas nossas vidas apesar de julgarmos que vivemos numa sociedade liberal em que esses problemas já foram ultrapassados. E os media, enfim... Tinham a obrigação de dar o exemplo e de contribuir para uma sociedade melhor. Mas fazem o contrário... Tudo isto me levou então a dizer: «OK, vamos fazer o filme!».

Asif Kapadia, realizador de “Amy”

Asif Kapadia, realizador de “Amy”

Até que ponto já conhecia o trabalho de Amy Winehouse, para além da horrorosa imagem que os media começaram a passar dela?
Não vou dizer que era um expert em Amy Winehouse porque não o era. Hoje sou! Por exemplo, eu não sabia que ela tinha escrito as canções. Não me tinha apercebido de quão pessoais eram as letras. Quando olhas para as letras, tudo faz sentido, percebes, as respostas estão todas lá. Mas eu nunca lhes tinha prestado muita atenção. A primeira coisa que fiz foi isso, tirar as letras das músicas, tentar perceber sobre o quê estava ela a cantar. E é espantoso, as letras são incríveis. O primeiro álbum foi escrito quando ela tinha uns 18 anos, o segundo aos 21, 22 e depois não há mais discos! [um terceiro álbum póstumo, com inéditos e raridades, seria editado após Frank e Back to Black: Lioness: Hidden Treasures].

E em relação à vida dela, esperava encontrar a mulher que depois descobriu nos arquivos?
Mas nem por sombras! E essa é a grande revelação do filme: a Amy era muito divertida, muito esperta, inteligente, alegre! Quando mostrei uma primeira versão de montagem a alguns amigos dela, sobretudo mulheres, desataram todos a chorar ao fim dos primeiros minutos. É que nunca a tinham visto tão feliz! Não se tinham apercebido de como ela era feliz! E eu apercebi-me nesse momento que o início do meu filme e neste género de trabalho o mais difícil é mesmo arrancar estava certo, estava a funcionar. O fim da história... Ora bolas: todos sabemos qual é. Mas qual é o início? Naquela cena inicial, ela é a rapariga normal que é, a fazer a sua vida, a fumar um cigarro, a cantar com a sua guitarra, e é tudo! Quero dizer, não é, porque ela é extraordinária a cantar. E nessa altura eu descobri que o meu filme podia funcionar.

Como é que teve acesso a tantos arquivos dela e, mais ainda, quando é que disse a si próprio que já tinha o suficiente?
Nunca temos o suficiente. Nunca temos tempo que chegue, dinheiro que chegue, por isso nunca podemos dizer «já chega». Comecei por contactar pessoas à volta dela e pedi-lhes 5 minutos, um encontro no café, um outro telefonema... as pessoas foram crescendo. Umas chamavam outras. Às tantas já tinha dez pessoas em fila para serem entrevistadas no estúdio do Soho onde gravei as entrevistas. Foi uma bola de neve. Algumas delas tinham visto e gostado muito do Senna e isso ajudou. Devem ter pensado que talvez pudesse sair daqui qualquer coisa de jeito... No estúdio, estávamos nós dois [Asif Kapadia aponta para o senhor sentado ao seu lado, o produtor deAmy, James Gay-Rees], o entrevistado, e um microfone na mesa. Eu diminuía a luz, cheguei mesmo a apagá-la, e falávamos, só isso. E todos eles tinham tanto para dizer, mas ou tinham medo, ou estavam revoltados, ou sentiam-se culpados. Depois, diminuía as luzes e eles desatavam a falar, como se aquilo fosse uma terapia, um exorcismo. E não se calavam, meia hora, uma, duas, três, quatro, cinco, e depois ainda me telefonavam, queriam voltar, «olha que há coisas que eu me esqueci de contar...» e assim, um por um, foram falando por mim e entre todos eles. Deram-me a entender que estavam a fazer um pacto.

Com quantas pessoas falou?
Foram mais de cem. Havia muita gente que tinha as suas próprias histórias pessoais com a Amy. Também houve quem tivesse escrito livros sobre ela, ganhando muito dinheiro à sua custa. Disseram-me que não falariam e mantiveram as suas promessas.

Qual foi a primeira pessoa que entrevistou?
O Nick Schmansky, o primeiro agente dela. Uma vez mais, colhi os frutos de Senna: ele tinha visto o filme com a namorada, que tinha saído do cinema a chorar e ter-lhe-á dito então: «não seria bom se alguém fizesse um filme assim sobre a Amy?». Dois anos mais tarde, estava eu a ligar-lhe. Começou por dizer-me que não, que era ainda demasiado cedo, que fazer este filme seria doloroso mas depois lembrou-se do que dissera à namorada e encontrou-se comigo. Começámos a falar, ficámos amigos. Bom, depois ele mostra-me o seu laptop. Estavam lá todos aqueles vídeos dela, aqueles home movies que ele filmara ao longo das viagens e das tournées. Foi aí que eu me disse: se ponho as mãos nisto... Foi o Nick quem falou depois com a Julie e a Lauren, amigas de Amy, que estavam ainda muito magoadas. Demorei mais de seis meses até conseguir encontrá-las e a ganhar a confiança delas. Combinávamos e elas cancelavam. Isto aconteceu uma série de vezes. Quando finalmente nos juntámos, houve risos e lágrimas, e elas trouxeram fotos, videos... o puzzle começou a formar-se a partir daí começaram-me a chegar coisas ao meu computador, vindas de todas as partes do mundo.

Um sinal dos tempos...
E é mesmo, porque Amy só podia ter existido agora, nesta era digital. A propósito, deixe-me contar o lado negro da história: houve material magnífico que se perdeu por causa da evolução informática. As pessoas tinham esse material nos seus Mac até uma certa altura da vida da Amy, mas depois a Apple decidiu atualizar o sistema operativo e quando as pessoas passavam o material de um computador para o outro perdiam-no. Vídeos bloqueavam, já não abriam, ou tornavam-se imagens, coisas deste género. Houve muito material ao qual eu não tive acesso e que receio ter-se perdido para sempre por causa dos caprichos da evolução da Apple.

Qual é a sua reação à posição da família de Amy Winehouse sobre este filme?
Sinceramente? A resposta está no filme e está no título, Amy. É um filme sobre ela, eu queria contar a sua história, que ela fosse o centro das atenções. Pareceu-me que houve muita gente da família que queria o oposto, que a atenção fosse para eles, mas eu não o podia admitir. Não podia porque, ao vermos o filme, percebemos que para a Amy também foi difícil ser ela própria. Ela tinha sempre alguém a puxá-la para direções diferentes. Houve alturas em que ninguém quis saber dela, mesmo pessoas da sua família. Acho que lhe deve ter custado muito. Entrevistei, já o disse, mais de cem pessoas, ninguém abandonou as conversas a meio, ninguém se zangou, toda a gente deu o que tinha a dar e assinou por baixo. E ficaram contentes. Este filme nasceu dessa colaboração. É real, não a inventei, tudo isto aconteceu. Alguém tinha que juntar tudo depois, foi o que fiz com a minha pequena mas corajosa equipa. Acho que as pessoas ao verem Amy vão aprender a gostar dela. E nada mais me interessa.

Entrevista: Francisco Ferreira

Originalmente publicada na BLITZ de julho de 2015